terça-feira, 10 de junho de 2014

#182 1964 TÚMULO SINISTRO (Tomb of Ligeia, Reino Unido)


Direção: Roger Corman
Roteiro: Robert Towne (baseado na obra de Edgar Allan Poe)
Produção: Pat Green, Samuel Z. Arkoff (não creditado)
Elenco: Vincent Price, Elizabeth Shepherd, John Westbrook, Derek Francis, Oliver Johnston

O Túmulo Sinistro é o filme que fecha o ciclo das adaptações dos contos de Edgar Allan Poe, dirigidos por Roger Corman. Todos eles, com exceção de Obsessão Macabra, trouxeram o astro Vincent Price no papel principal. E pode-se afirmar com absoluta certeza, que foram os melhores filmes já produzidos que beberam na fonte do escritor americano. Este longa traz uma mórbida história que aborda sempre temas comuns na obra de Por, aqui representados por um homem atormentado com a perda da esposa, acontecimento que o leva a um espiral de tormento, angústia e que irá desembocar num criativo enredo sobre possessão e hipnose, alucinações, vida e morte. Livremente inspirado no conto Ligeia, O Túmulo Sinistro traz mais uma interpretação irrepreensível de Price, fechando com chave de ouro essa série de adaptações, como o personagem Verden Fell, atormentado, absorto em sua própria decadência após a morte de sua esposa, Ligeia, jogado em um profundo amargor que expande-se para o ambiente em que vive e reflete até em sua saúde e sanidade, com surtos de amnésia e uma estranha fotosensibilidade à luz do sol, preferindo se entocar em ambientes lúgubres da abadia medieval em que viva com a esposa. Atmosfera inebriante muito bem impressa por Corman, tanto nos corredores escuros quanto nos vastos campos , repletos de luz, dos arredores, onde fica a tumba de Ligeia, vigiado constantemente por um gato preto que também atazana o pobre homem mesmo dentro de sua casa, sempre a vigiá-lo. Após alguns anos em luto, ele conhece a bela Rowena Trevanion (Elizabeth Shepherd), que interessada na arquitetura do local, adentra os campos da propriedade de Fell com seu cavalo, e sofre um acidente, quando é assustada pelo estranho gato sentinela. Em sua ajuda, além e Fell vem Christopher Gough, um antigo amigo que cavalgava com ela enquanto seu pai caçava uma raposa, esporte muito comum na Inglaterra do século XIX, que acaba apresentando os dois, deixando a garota apaixonada por Fell, com seus óculos escuro, cartola e costumes pretos, fazendo com que a estranheza e dor do homem a atraia. Lutando contra alguma força maior que si mesmo, misturando momentos de lucidez com outros de confusão mental, quando, por exemplo, chega até a confundir Rowena com Ligeia, mesmo uma sendo ruiva e outra morena, Fell também se apaixona pela garota e eles se casam. Mas após ter de voltar a Abadia tempos depois para resolver algumas burocracias quanto a venda do local, novamente Fell começa a piorar de vez, e desaparece todas as noites, levantando suspeitas em sua recém esposa que algo está terrivelmente errado, principalmente quando os ataques de sonambulismo e de amnésia vão se agravando. Com o auxílio de Gough, que quer ajudar a moça, tendo certa paixão platônica repreendida, ele começa a pressionar o mordomo Kenrick sobre se realmente Ligeia está morta e enterrada em seu túmulo, já que não conseguiu concretizar a venda da propriedade pela mesma estar no nome da mulher e não houver sequer um atestado de óbito. Na tentativa de exumar o cadáver da falecida que então descobrimos a surpresa que rondava de forma implícita até então: Ligeia não está enterrada em seu túmulo, e sim um boneco de cera construída pelas hábeis mãos de Fell.
ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco.
Então em seu clímax arrebatador, é revelado que Fell mantém o corpo mumificado de Ligeia em uma passagem secreta da abadia, pois na verdade ela exerce um poderoso controle mental sobre ele, através de hipnose praticada antes de morrer, possuindo-o durante as noites, para que assim ela nunca morra de verdade e sempre viva através dele. Rowean tenta tirá-lo do transe através de uma rápida autossugestão, mas acaba morta, asfixiada por Fell, enxergando na atual mulher a demônia morta que roubou sua vida e felicidade. Mas a vingança e o espírito maligno de Ligeia, personificada naquele gato preto, trava uma batalha com Fell até que a abadia se ponha em chamas e os dois descansem juntos para todo o sempre.Destaque também para a interpretação dupla de Elizabet Shepher, interpretando a reluzente e cheio de vida Rowena  e a pálida e fria Ligeia. O Túmulo Sinistro é um filme ambíguo, repleto de significados e conotações sinistras, ao melhor estilo gótico que Corman sempre utilizou de forma eficiente durante esta fase, que explora um amor obsessivo que atravessa o véu da morte, algo tão tênue para Poe, como ele mesmo sugere em sua citação estampada ao terminar o filme: “A linha que divide a vida e a morte são vagas. Quem pode dizer onde uma termina e a outra começa?”.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/06/08/182-o-tumulo-sinistro-1964/

INSIDIOUS CHAPTER 2 (EUA, 2013)


domingo, 1 de junho de 2014

A NOIVA ESTAVA DE PRETO (La Mariée était en Noir, França, 1968)


Direção: François Truffaut.
Roteiro: François Truffaut e Jean-Louis Richard baseado no livro de Cornell Woolrich.
Elenco: Jeanne Moreau, Michel Bouquet, Jean-Claude Brialy, Charles Denner, Claude Rich, Michael Lonsdale, Daniel Boulanger, Alexandra Stewart, Sylvine Delannoy.
Duração: 107 minutos.

Assumidamente homenageando o cinema de Alfred Hitchcock, um de seus maiores ídolos, A Noiva estava de Preto é um intrigante exercício narrativo que mistura muitas das características do mestre do suspense com as do poeta danouvelle vague desenvolvendo o embrião de um satisfatório, apesar de jamais soberbo, Frankenstein cinematográfico. Um experimento lisonjeiro e humilde de um mestre a outro enriquecido pela enigmática e ofídica atuação de Jeanne Moreau, no papel de Julie Kohler, uma noiva cujo marido morrera nos seus braços, nas escadas da igreja, instantes depois do  casamento, produto de um disparo efetuado de uma torre alguns metros de distância. Inegável inspiração de Quentin Tarantino para o desenvolvimento de Kill Bill, a noiva deste é completamente distinta daquela imortalizada por Uma Thurman: ela não é uma assassina contratada especializada em artes marciais. Pelo contrário, ela é uma mulher simples que, no suposto dia mais feliz da sua vida, testemunhou a morte do seu amor de infância. O que as une, porém, é o determinado e ardoroso desejo de vingança!
Baseado no livro de Cornell Woolrich, autor de Janela Indiscreta (1954), um dos maiores clássicos de Hitchcock, a história acompanha Julie no encalço dos autores do disparo assassino. Dedicando-se no prólogo a brevemente ilustrar o niilista e desapegado estado mental de Julie, o roteiro acertadamente ignora os meios que a levaram a identificar Bliss (Rich), Coral (Bouquet), Morane (Lonsdale), Delvaux (Boulanger) e Fergus (Denner) como co-responsáveis pela morte do seu marido e, praticamente de imediato, a põe no exercício do seu direito de vingança, seduzindo suas vítimas com uma charmosa morbidez e uma frieza inabaláveis.
François Truffaut, porém, adiciona elementos pontuais que suavizam a maldade de Julie e permitem enxergar a mulher existente antes da tragédia. Assim, a maneira alegre com que ela lida com Cookie, o filho de Morane, sugeriria uma mãe zelosa e amável. Da mesma forma, o telefone realizado à polícia inocentando uma professora falsamente incriminada a delineia focada exclusivamente no seu objetivo - assassinar aqueles cinco homens - sustando-se dos eventuais danos colaterais que poderia causar.
Fartamente explorando a confusão de felicidade e luto observados no fatídico dia do seu casamento, a simplicidade e objetividade do figurino de Julie Kohler é marcante pelo surrealismo dos trajes exclusivamente brancos ou pretos. Já a inquietante trilha sonora de Bernard Herrmann, colaborador habitual de Hitchcock, é sarcástica e eficiente o bastante para introduzir a marcha nupcial no epílogo da vingança de Julie.
É, porém, no elaborado plano de Julie onde se encerra os grandes momentos de A Noiva estava de Preto. Sem ceder a concessões sentimentais, vangloriar o instituto da vingança ou escapar da zona mecanicamente determinística das suas ações, Julie não exibe arrependimento algum de seus atos nas feições intransigentemente rígidas de Jeanne Moreau. A desesperada escusa de Morane que o disparo havia sido acidental é irrisória para que Julie obste suas ações; isto não ressuscitaria o seu marido. Nem tampouco a paixão súbita que acomete Fergus ou a fragilidade e decadência moral de Coral. Diferentemente das criações do ótimo filme de Tarantino, personagens inexoravelmente maus e amorais, os "vilões" de Truffaut são homens comuns suscetíveis, uns mais do que outros, ao fardo do crime que cometeram.
Assim, embora convivamos muito pouco com Bliss, cuja morte é a primeira (e mal orquestrada), e Delvaux seja taxado rapidamente de criminoso para conveniência do roteiro, as demais vítimas de Julie têm uma tridimensionalidade incomum para filmes do gênero. Se a bagunça do estreito apartamento é suficiente para aceitarmos a personalidade triste e desordenada de Coral, Michel Bouquet permite-se um olhar esperançoso dirigido a Julie no freeze frame no teatro e a morte dele é uma das mais poéticas simbolizando, porque não, a sedução de uma sirene antes de devorar um distraído marinheiro. Por sua vez, a descoberta de sua musa transforma Fergus em um homem gentil e emotivo, e como ele é aquele que nós passamos maior tempo juntos, é natural o surgimento de um sopro de esperança de que Julie abdique de seu plano.
Mas, é o trabalho de Jeanne Moreau que chama mais atenção. Demonstrando uma concentração invejável nos atos praticados, Julie não se distraí, nem mesmo quando seu plano aparentemente falha ao acaso, convencendo-nos de sua plena capacidade de concluir sua trajetória. Indiferente, ela parece estar sempre de luto e, diligentemente, não parece regozijar-se dos atos praticados; a vingança de Truffaut não é prazerosa como em outros filmes, nela não há conforto ou paz. Esse limiar o diretor não ousa cruzar tampouco sugerir sob pena de frustrar a velada condenação ao instituto.
Concluindo impecavelmente e sem concessões, François Truffaut desenvolveu uma obra de vingança eficiente que, apesar de pouco questionar o instituto também não o glorifica, o que se torna evidente na resignada decisão final de Jeanne Moreau e a sua frígida expressão, elementos fundamentais para concluir que a dor dela jamais amenizaria... nem as cicatrizes curariam.

Obra de François Truffaut:
François Truffaut fez seu primeiro filme em 1954. Foi o curta-metragem Uma Visita, filmado em preto-e-branco e 16mm. No mesmo ano, produziu o argumento de Acossado, de Godard, futuro e aclamado filme deste diretor. Em 1958, Truffaut e Godard co-dirigiram o curta Une Histoire D'Eau. Com a fundação da Les films du Carrosse, Truffaut produziu outro curta. Os pivetes, também filmado empreto-e-branco e 16mm, recebeu boa recepção da crítica especializada e lhe deu o prêmio de Melhor Diretor do Festival du Film Mondial, de Bruxelas.
Com fundos do sogro, em 1958, ele bancou um projeto inspirado em suas experiências da infância e pré-adolescência, o longa-metragem Os Incompreendidos/Os 400 golpes. Sucesso internacional, este filme definitivamente inaugurou a "Nouvelle Vague". Para fazer o papel de actor principal do filme foi escolhido um jovem Jean-Pierre Léaud. Com 14 anos, Leaud interpretaria Antoine Doinel, alter-ego de Truffaut. Assim como Bazin tornara-se um pai para Truffaut, este seria o grande mentor de Leaud. Em abril de 1959, os Incompreendidos/Os 400 golpes ganharia o prêmio de melhor diretor do Festival de Cannes, além de ter sido indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original.
Em novembro de 1960, foi lançado Atirem no pianista, segundo longa-metragem do diretor e seu primeiro filme noir, baseado no romance policial "Down There", do norte-americano David Goodis. O filme foi um fracasso de público, o que levou muitos jornalistas a decretarem o fim da "Nouvelle Vague". Mas com Jules et Jim - Uma mulher para dois, lançado em janeiro de 1962, Truffaut tentou provar o oposto. Com Jeanne Moreau no papel principal, Jules et Jim - adaptação homônima do livro do francês Henri-Pierre Roché, que conta o triângulo amoroso de três amigos - é considerado uma das obras-primas do movimento. Ainda naquele ano, Truffaut lançou o curta Amor aos 20 anos, uma seqüência das aventuras de Antoine Doinel.
Dois anos depois, em maio de 1964, estreou Um só pecado/Angústia, o quarto longa do cineasta, um drama psicológico sobre a paixão de um renomado conferencista por uma jovem. Obra sui-generis na filmografia do diretor, Fahrenheit 451, filme inspirado na ficção do escritor norte-americano Ray Bradbury, narra a história de uma sociedade totalitária no futuro, onde os livros foram banidos. O filme, lançado em setembro de 1966, recebeu uma indicação do BAFTA e uma do Festival de Veneza. É também o primeiro filme colorido de Truffaut.
Em abril de 1968 foi lançado A Noiva Estava de Preto. Inspirado na obra do escritor norte-americano William Irish, A Noiva… era o segundo film noir do diretor e novamente foi estrelado por Moreau. Ele conta a história de uma mulher em busca de vingança pelo assassinato do noivo. Em setembro, estreou Beijos Proibidos/Beijos Roubados, mais uma história com o alter-ego do diretor. Nela, um Antoine Doinel apaixona-se por Christine (Claude Jade), uma violonista burguesa. O filme foi também um registro feito da cidade de Paris antes dos acontecimentos de maio de 68. O diretor acabou por se casar com Jade, naquele ano.
A Sereia do Mississippi, lançado em junho de 1969, é mais uma adaptação que o diretor fez de uma obra de Irish. Com Jean-Paul Belmondo e Catherine Deneuve, o filme conta a história de um rico empresário do tabaco, de Reunião, que conhecera uma mulher por correspondência e se casaria com ela, mas ele se envolve em uma louca paixão com uma mulher totalmente diferente daquela com a qual pretendia casar. Em fevereiro de 1970, foi lançado O Garoto Selvagem, adaptação de Jean Itard. É o primeiro filme em que Truffaut ganha um papel de destaque (ele já havia feito uma sutil aparição em "Os Incompreendidos/Os 400 Golpes"), ao interepretar o professor Itard, que vivenciou a experiência de encontrar um menino nas selvas, que foi educado por ele. Leaud, emDomicílio Conjugal, de setembro de 1970, mostra um Antoine Doinel casado com Christine. Em novembro de 1971, estreou Duas Inglesas e o Amor/Duas Inglesas e o continente, outra adaptação de Henri-Pierre Roché, sobre o triângulo amoroso entre duas jovens inglesas e um rapaz francês, no início do século XX. O filme conta com a a participação de Eva, filha de Truffaut.
Em setembro de 1972, foi lançado Uma jovem tão bela como eu e inspirada na obra do escritor norte-americano Henry Farrell, sobre uma socióloga que entrevista, na prisão, uma mulher acusada de assassinato. A Noite Americana, uma das obras mais famosas de Truffaut, foi lançada em maio de 1973. O filme é sobre a produção de um filme e mistura ficção à realidade, com o próprio Truffaut atuando como diretor de uma obra que seria estrelada pela atriz britânica Jacqueline Bisset. A obra venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1974,5 além de três BAFTAs. Em outubro de 1975, foi lançado A História de Adèle H., com a atriz francesa Isabelle Adjani. Inspirado no diário de Adèle Hugo, o filme narra a paixão insandecida da filha do poeta francês Victor Hugo pelo Capitão Albert Pinson (Bruce Robinson). Em 1976, foi lançado Na idade da inocência, filme sobre o cotidiano de pais, alunos e professores em uma pequena cidade do interior da França.
Sucesso de público, O Homem que Amava as Mulheres chegou às salas de cinema em abril de 1977. Em flashback, o filme narra a vida e os casos amorosos de Bertrand Morane Charles Denne. Inspirado em "The altar of the dead", de Henry James, O quarto verdefoi lançado em 1978. A obra conta a história de Julien Davenne (interpretado por Truffaut), um jornalista que venera a mulher prematuramente morta. Em 1979, chegou ao fim a saga de Antoine Doinel, com o lançamento de Amor em fuga. Já tendo passado do 30 anos e separado de Christine, Doinel tenta ainda encontrar o amor. A trilha sonora, de Georges Delerue, levou o prêmio César.
Um dos mais premiados filmes do diretor foi O Último Metrô. Lançado em 1980, o filme contou os astros Gérard Depardieu e Catherine Deneuve. Durante a França ocupada pelos nazistas, um dramaturgo judeu comanda uma peça do porão de seu teatro. Vencedor o César em 10 categorias e recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Em 1981, estreou A Mulher do Lado, com Fanny Ardant e Gérard Depardieu. O filme narra a tragédia história de amor de Bernard e Mathilde, que se reencontram depois de viverem um tórrido romance. Último filme de François Truffaut, De repente num domingo/Finalmente, Domingo! é uma adaptação de The Long Saturday Night, de Charles Williams. Lançado em 1983, o filme narra a história de uma mulher que ajuda um homem, acusado por assassinato, a encontrar o verdadeiro criminoso. Indicado na categoria de Melhor Diretor em 1983 no César.
Filmografia de François Truffaut:
Ano
Título original
Título no Brasil
Título em Portugal
Uma Mulher para Dois
Jules e Jim
O Amor aos Vinte Anos
Fahrenheit 451
Grau de Destruição
Domicílio Conjugal
A Noite Americana
A História de Adèle H.
Amor em Fuga
O Último Metro
A Mulher do Lado