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domingo, 14 de junho de 2015

#170 1964 A DAMA ENJAULADA (Lady in a Cage, EUA)


Direção: Walter Grauman
Roteiro: Luther Davis
Produção: Luther Davis
Elenco: Olivia de Havilland, James Caan, Jennifer Billingsley, Rafael Campos, William Swan, Jeff Corey, Ann Sothern

Se A DAMA ENJAULADA fosse lançado dez anos depois, com certeza seria um filme exploitation: violento, sádico, recheado de requintes de crueldade e tortura física. Mas como foi lançado em meio a inocência ainda presente nos meados dos anos 60, não deixa de ser violento, sádico e com requintes de crueldade, mas de uma forma bem mais atenuada e mais centrado na tortura psicológica. Após O Que Terá Acontecido com Baby Jane? ter ressuscitado a carreira de Bette Davis e Joan Crawford no cinema, todas essas velhas senhoras oscarizadas enfrentando a decadência encontraram no terror/ suspense uma forma de tentar recuperar suas carreiras. Então surgiu o subgênero psycho-biddie, estrelado por mulheres maduras, na maioria das vezes mentalmente instáveis, colocadas em situação de perigo. Além de Baby Jane, os três principais exemplares do gênero foram lançados no mesmo ano, 1964: Almas Mortas de William Castle, com Joan Crawford no elenco; Com a Maldade da Alma, de Richard Aldrich, mesmo diretor de Baby Jane, com Bette Davis e Olivia de Havilland e A Dama Enjaulada, que de longe, é o melhor de todos eles. A duas vezes ganhadora do Oscar, Olivia de Havilland, também protagoniza esta película, execrada pela crítica devido a sua violência e “mau gosto” e tendo até sido banida na Inglaterra, que depois ganharia o status de uma das mais importantes obras do suspense, que com certeza influenciaria uma penca de produções futuras (ao ver o filme conseguiu me vir na cabeça facilmente Aniversário Macabro de Wes Craven e Violência Gratuita de Michael Haneke, por exemplo). Engraçado essa crítica conservadora. Na Internet, por exemplo, encontrei uma resenha do filme escrita pelo crítico coxinha-mor, o insuportável Rubens Ewald Filho, que dá até asco de ler. A Dama Enjaulada merece ser respeitado, pois é um baita filme de suspense, daqueles de incomodar desde sua abertura esquizofrênica, e jogar na nossa cara a maldade e baixeza humana. O fio condutor do longa escrito por Luther Davis é extremamente simples e muito bem executado: a Sra. Cornelia Hilyard (de Havilland) é uma velha viúva, que sofreu um acidente que atingiu seus quadris e a deixou debilitada, e fica presa durante uma queda de energia em um elevador pessoal que usava para se locomover até o andar de cima de sua casa. Seu filho, nitidamente infeliz rapaz de seus 30 anos, mimado, que vive sob a sombra da mãe chantagista e super protetora, vai viajar no feriado de 4 de julho, quando o incidente acontece deixando a mãe presa no elevador durante todo o quente final de semana até a próxima terça-feira. Desesperadamente tocando a campainha de emergência do elevador, nenhum transeunte dá a menor bola para o barulho, apenas um mendigo alcoólatra, George L. Brady Jr. (Jeff Corey) que vê a oportunidade de conseguir uma grana roubando os pertences da casa sem defesa, e vendê-las em uma loja de penhores para lá de escusa, além das garrafas de vinho para uso pessoal. O mendigo pede ajuda para uma prostituta velha e decadente, Sade (Ann Sothern, outrora grande estrela da MGM) para fazer a rapa na residência da Sra. Hilyard, mas chama a atenção de uma gangue de três criminosos psicóticos, que resolvem pilhar a casa toda para eles (como é o ditado? Ladrão que rouba ladrão…), e torturar tanto fisicamente o mendigo e a prostituta, quando psicologicamente a velha viúva presa em sua jaula. Detalhe para o líder da gangue, Randall Simpson O’Connel, primeiro papel do cinema de um jovem James Caan, futuramente indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro por O Poderoso Chefão, e que depois iria sentir na pele como é ser inválido e ameaçado em Louca Obsessão. O que se segue então é o máximo da crueldade para a época, com os três delinquentes tocando o terror com a velha e os outros dois pobres diabos, chegando até seu clímax tenso e insuportável, que irá resultar em morte e na bombástica revelação da carta deixada por Malcom Hilyard para sua mãe pouco antes de viajar, que dará um ar chocante à trama e inflamará a busca por sobrevivência da Sra. Hilyard, na tentativa de se livrar daquela situação e enfrentar os marginais. Os trinta minutos finais do filme são impactantes e incríveis. Outro personagem para ficar ligado, só por curiosidade é no assistente do dono da loja de penhores, interpretado por Scatman Crothers, nome inesquecível, que logo lembramos de seu papel como Dick Halloran em O Iluminado de Stanley Kubrick. O diretor Walter Grauman, mais conhecido pelo seu trabalho em telefilmes e diversas séries de TV como Assassinato por Escrito, Columbo, Os Intocáveis e V – A Batalha Final, faz um filme coeso, com um bom ritmo, bem dirigido e com alguns enquadramentos eclose ups inusitados. O roteiro vez por outra fica enfadonho, principalmente nos solilóquios de Olivia presa sozinha no elevador. Quanto a sua atuação em A Dama Enjaulada, está exagerada, como se deve ser em um filme com um teor destes, porém sempre competente. Já a violência contida e a falta de apreço pelo ser humano, hoje pode ser risível para o público, perto de tanta bizarrice que já vimos dentro e fora das telas, mas para a época, como disse anteriormente, causou bastante choque.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/05/23/170-a-dama-enjaulada-1964/

terça-feira, 9 de junho de 2015

#169 1964 COM A MALDADE NA ALMA (Hush…Hush, Sweet Charlotte, EUA)


Direção: Robert Aldrich
Roteiro: Henry Farrel, Lukas Heller
Produção:Robert Aldrich, Walter Blake (Produtor Associado)
Elenco: Bette Davis, Olivia de Havilland, Joseph Cotten, Agnes Moorehead, Victor Buono

Com o sucesso de público e crítica de O Que Terá Acontecido com Baby Jane?, Robert Aldrich tentou mais uma vez repetir a mesma fórmula, trazendo novamente as desafetas Bette Davis e Joan Crawford sob sua batuta, utilizando um roteiro escrito por Henry Farrel e Lukas Heller, e apostando no terrorpsycho-biddie que ele mesmo ajudou a fomentar. O resultado em Com a Maldade na Alma, ficou anos luz do filme anterior. Talvez seja a metragem longa demais (133 minutos), talvez seja o começo impactante e avassalador que vá caindo no marasmo com o decorrer do filme, talvez seja o uso da mesma fórmula e um final que você já imagina que terá uma reviravolta assim como em Baby Jane, talvez a substituição de Joan Crawford por Olivia de Havilland por problemas de saúde/ aporrinhação de Davis. Tudo isso junto fez o filme não funcionar da forma que deveria. Afinal é impossível se equiparar a um clássico anterior. Não que Com a Maldade na Alma seja ruim. Esse irmão bastardo de Baby Jane é simplesmente… Desnecessário, podemos assim dizer. Com a mesma estrutura narrativa e enredo parecidíssimo, Com a Maldade na Alma começa em um suntuosa festa em 1927, quando a jovem Charlotte está preste a fugir com John Mayhew, homem casado que é seu amante, dissuadido de última hora por ameaças feitas pelo pai de Charlotte, Big Sam (Victor Buono) e dá um bolo na garota na tão importante noite. Em seguida, ele é brutal e misteriosamente assassinado, tendo sua mão e cabeça decepados por um cutelo. Inclusive o corte da mão é chocantemente feito em close. Todas as suspeitas recaem sobre Charlotte, que aparece na festa com seu vestido todo ensanguentado e transtornada. Passam-se 37 anos e Charlotte, agora interpretada por Bette Davis, vive enclausurada na mansão da família em Baton Rouge, desequilibrada, impulsiva, infantil e remoendo a culpa durante todos estes anos do assassinato de seu grande amor. Para auxiliá-la, somente a empregada fiel da casa, Velma, interpretada por Agnes Moorehead, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo papel. Só que a construção de uma ponte e estrada no local obriga que Charlotte saia da casa, desapropriada pelo Estado, e na tentativa de conseguir ficar por lá, terá a ajuda de dois velhos conhecidos, o Dr. Drew (Joseph Cotten) e sua prima Miriam (de Havilland). Ambos já tiveram um caso no passado, mas Miriam deixou o local logo após o escândalo, tornando-se uma mulher bem sucedida e confiante. Esse é o ponto de partida para uma interminável sessão de intrigas e psicose, onde nada é o que aparenta ser e todos parecem utilizar-se de máscaras. Neste meio tempo, um jornalista inglês aparece em Baton Rouge para investigar a história e tentar solucionar porquê Jewel Mayhew, viúva de John, nunca acionou a seguradora para receber a apólice pela morte do marido. A situação começa a ficar cada vez mais insustentável, e a sanidade de Charlotte piorando a tal ponto, que ela começa a ter alucinações pesadíssimas, inclusive de ver o morto-vivo na escadaria do casarão, até acidentalmente atirar no Dr. Drew, matando-o. Daí cabe a Miriam agir como cúmplice e ajudar a despachar o corpo do antigo amante no rio.
ALERTA DE SPOILER. Leia por conta e risco ou pule para o próximo parágrafo.
É então que no terceiro ato, depois de duas horas de filmes e de muito vai e vem na trama, que se você já assistiu O Que Terá Acontecido com Baby Jane?, sacará qual será o final, que é praticamente idêntico. Em ambos a personagem de Bette Davis não tem culpa pelo acontecido, e viveu uma mentira durante toda a vida, vítima de culpa e remorso. Neste caso, John foi morto pela própria esposa, que ficou sabendo da traição do marido por fofoca de Miriam. E a morte de Drew também foi um embuste, sendo que ele está vivo e as balas do revólver que Charlotte usou eram de festim. Claro que Charlotte vai descobrir tudo isso e sua inocência durante todos estes anos e se vingar dos dois salafrários, redimindo-se perante ao espectador no final da película. Mas agora eu reservo o momento Nelson Rubens, pois realmente o mais interessante de Com a Maldade na Alma foram os bastidores da produção, que era para contar mais uma vez com a dupla Davis e Crawford. Fato é que Davis anunciou logo de cara que não filmaria nenhuma cena com Crawford. Nas diversas cenas em que elas aparecem juntas, Aldrich deveria usar um dublê de corpo ou tomadas por cima dos ombros. Claro que isso seria impossível e o diretor não aceitou. O clima no set ficou tão pesado e a tensão das duas senhoras aumentou de tal forma que Crawford acabou surtando, adquirindo uma doença psicossomática diagnosticada como infecção nas vias respiratórias e foi parar no hospital. Quando voltou a trabalhar, estava tão atormentada e com medo de Davis que só conseguia filmar três horas por dia, e teve que voltar ao hospital, com apenas três cenas rodadas. Obviamente ela teve de ser substituída. As primeiras opções eram Katherine Hepburn e Vivian Leigh para o papel de Miriam. Hepburn sequer retornou as ligações do estúdio e Leigh disse a seguinte negativa: “Não, obrigado. Eu posso até aguentar olhar para Joan Crawford às seis horas da manhã, mas certamente não para Bette Davis”. A velha deveria ser uma megera! Barbara Stanwyck e  Loretta Young foram as próximas a serem procuradas, que também recusaram o papel. Young por sua vez disse: “Eu não acredito em histórias de terror para mulheres e eu não faria um papel desses nem que estivesse passando fome”. Então tá. E fato que as duas eram amigas de Crawford também. No final, por própria indicação de Davis, Olivia de Havilland foi chamada, pois as duas já haviam contracenado juntas. Crawford só ficou sabendo que havia sido substituída no hospital, ao ouvir pelo rádio. Sua reação foi jogar um vaso de flores contra a parede. Para finalizar o post, um trecho retirado da biografia de Bette Davis escrita por Charles Hugham, o qual compactuo com sua opinião: “Dinheiro foi novamente o motivo pelo qual Bette foi forçada a tomar uma decisão espantosa no verão de 1964. Inacreditavelmente, concordou em co-estrelar com Joan Crawford outro melodrama de Robert Aldrich, Com a Maldade na Alma. O script dava-lhe o papel de uma assassina suspeita de um novo crime, que é levada à loucura por parentes implacáveis. Trechos plagiados por atacado de outros filmes, confrontações desabridas, uma mixórdia de elementos de teatro de marionetes certamente não supriria a base para uma continuação digna do entretenimento proporcionado por O Que Terá Acontecida com Baby Jane?”. Assino embaixo.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/05/22/169-com-a-maldade-na-alma-1964/

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

208 1948 NA COVA DA SERPENTE (THE SNAKE PIT, EUA)


Direção: Anatole Litvak
Produção: Robert Bassler, Anatole Litvak, Parryl F. Zanuck
Roteiro: Millen Brand, Frank Partos, baseado no livro de Mary Jane Ward
Fotografia: Leo Tover
Música: Alfred Newman
Elenco:
Olivia de Havilland …Virginia Stuart Cunningham
Mark Stevens ……….Robert Cunningham
Leo Genn ……………Doutor Mark Kik
Celeste Holm ……….Grace
Beulah Bondi ………Sra. Greer
Lee Patrick …………Asylum Inmate
Ainda: Helen Craig, Heulah Bondi, Howard Freeman, Natalie Schäfer, Katherine Locke, Minna Gombell

Indicação ao Oscar: Robert Bassler, Anatole Litvak  (melhor filme), Anatole Litvak (diretor), Frank Partos,
Milien Brand (rotelro), Olivia de Havilland (atriz). Alfred Newman (música)

Um dos produtos mais impressionantes da guinada de Hollywood em direção a um maior realismo no pós-guerra é esta abordagem brutalmente honesta de Anatole Litvak sobre a doença mental e seu tratamento nos sanatórios modernos, cujos horrores incluem a ala superlotada em que os incuráveis são confinados - a "cova da serpente" do título. O filme apresenta uma visão mais equilibrada dos distúrbios mentais do que muitos filmes mais recentes, entre eles o muitas vezes louvado Um estranho no ninho (1976). Virgínia Cunningham (Olívia de Havllland) parece, a princípio, uma psicótica incurável, porém, com o tratamento de Mark Kick (Leo Genn), um médico compassivo, ela consegue se submeter a uma "cura pela fala". Flashbacks mostram uma infância na qual lhe foi negado não só o amor da mãe como também a atenção do pai, que morreu quando Virgínia era muito jovem. Ela também sofre com a morte do homem que ama, pela qual acredita ser responsável. Sob os cuidados do Dr. Kick, ela se eleva a "melhor paciente" da ala, apenas para ser molestada lá dentro por uma enfermeira tirânica. O mau comportamento subsequente de Virgínia a coloca na "cova da serpente"; porém essa experiência aterrorizante se mostra estranhamente terapêutica. Por fim, ela recebe alta, finalmente compreendendo como seus sentimentos de culpa são irracionais. A maneira como o filme mostra o terror pelo qual a doença de Virgínia a faz passar é memorável. O realismo otimista de A cova da serpente contrasta com as soluções pseudofreudianas de outros filmes da época, incluindo Quando fala o coração (1945), de Hitchcock. K BP
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 208)

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

126 1939 E O VENTO LEVOU (GONE WITH THE WIND, EUA)


OSCAR MELHOR FILME 1940

Direção: Victor Fleming, George Cukor
Produção: David O. Selznick
Roteiro: Sidney Howard, baseado no livro de Margaret Mitchell
Fotografia: Ernest Haller, Ray Rennahan, Lee Garmes
Musica: Max Steiner
Elenco:
Vivien Leigh…………Scarlett O’Hara
Clark Gable………….Rhett Butler
Olivia de Havilland….Melanie Hamilton Wilkes
Leslie Howard……….Ashley Wilkes
Hattie McDaniel……..Mammy
Thomas Mitchell, Barbara O'Neill, Evelyn Keyes, Ann Rutherford, George Reeves. Fred Crane, Hattie McDaniel,

Oscars: William Cameron Menies (Prêmio honorário – uso de cor); David O Selznick (melhor filme), Victor
Fleming (diretor), Sidney Howard (Roteiro), Vivien Leigh (atriz), Hattie MacDaniel (atriz coadjuvante), Lyle R. Wheeler (direção de arte), Ernest Haller, Ray Rennahan (fotografia), Hal C. Kern James E Newcom (edição), Don Musgrave (prêmio de inovação técnica)
Indicação ao Oscar: Clark Gable (ator), Olivia de Havilland (atriz coadjuvante), Max Steiner (música),Thomas T. Moulton (som). Jack Cosgrove, Fred Albin, Arthur Johns (efeitos especiais)

O best-seller sobre a Guerra Civil de Margaret Mitchell foi agarrado pelo megalomaníaco produtor David O. Selznlck, que resistiu à sugestão de escalar Basil Rathbone como Rhett Butler em favor da única escolha que os fãs aceitariam: Clark Gable. Depois de caçar talentos no país inteiro e de uma briga de foice em Hollywood envolvendo cada protagonista feminina em potencial da cidade, Selznlck contratou a inglesa Vivien Leigh Interpretar Scarlett 0'Hara. Insistindo em que cada detalhe fosse suntuoso, Selznick usou pelo menos três diretores (Sam Wood, George Cukor e Victor Fleming), botou fogo nos cenários que haviam sobrado de King Kong para encenar o incêndio de Atlanta, contratou figurantes suficientes para reencenar a Guerra Civil e aguardou o Oscar para ser aclamado, Concebido desde o início para ser o maior de todos os filmes de Hollywood, E o vento levou permaneceria por décadas a fio como a principal referência para os épicos cinematográficos. Embora o filme seja monumental o bastante para estar além de qualquer crítica, a maioria das cenas verdadeiramente excelentes está na primeira metade, em grande parte dirigida por Cukor, que trouxe seu talento para o desenvolvimento de personagens e nuances ao material empregando um ótimo ritmo épico. Fleming, por sua vez, mais conhecido por dirigir cenas de ação vigorosas, acabou ficando com os trechos mais novelescos, à medida que o casamento dos protagonistas entra em crise, sofrendo altos e baixos durante o pós-guerra. Estes, no entanto, são bem menos cativantes do que o romance dilacerado pela guerra e conturbado que os uniu. O que move a trama é o coração indeciso de Scarlett, que Leigh interpreta como frívola e depois como empedernida: ela é tão apaixonada pelo galante Ashley Wilkes (Leslie Howard) que se casa com vários bobalhões medíocres (e malfadados) quando ele escolhe ficar com a mais feminina (e malfadada) Melanie (Olivia de Havilland). Rhett Butler, mais pragmático do que idealista, entra em cena e ela se sente atraída por ele quando a guerra destrói o estilo de vida sulista. Os dois se casam depois de Scarlett ter jurado nunca mais passar fome e manter Tara, a fazenda de seu pai, funcionando apesar dos estragos da guerra. Ela só percebe que ama Rhett de verdade quando ele a rejeita, gerando o clássico final em aberto em que o personagem de Gable vai embora ("Francamente, minha querida, estou pouco me lixando") e ela jura conquistá-lo de volta ("Amanhã é um novo dia"). Como O nascimento de uma nação (1915), E o vento levou maquiaboa parte de uma história complexa, mostrando apenas escravos felizes e obedientes e retratando o envolvimento de Ashley em uma organização nos moldes da Ku Klux Klan durante o pós-guerra como algo genuinamente heroico (embora malfadado). Contudo, o ritmo do filme é quase Irresistível e as sequências de Selznlck estão entre as mais emblemáticas da história do cinema: o zoom out a partir de Scarlett enquanto ela cuida dos feridos, enchendo de cinza a tela com soldados mutilados; a câmera que corre por entre as chamas enquanto Atlanta pega fogo; Gable carregando Leigh escada acima para sombras sensuais. Adornado com o exuberante Technicolor de 1939 - os vestidos em tons pastel e as paixões em vermelho vivo - e com a retumbante trilha de Max Stelner, este filme ainda pode ser considerado, com justiça, a última palavra em termos de cinema hollywoodlano. KN
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 126)




segunda-feira, 20 de outubro de 2014

114 1938 AS AVENTURAS DE ROBIN HOOD (THE ADVENTURES OF ROBIN HOOD, EUA)


Direção: Michael Curtis, William Keighley
Produção: Henry Blanke, Hal B. Wallis
Roteiro: Norman Reilly Raine, Seton L Miller
Fotografia: Tony Gaudio, Sol Polito
Música: Erich Wolfgang Korngold
Elenço:
Claude Rains ………… Príncipe John
Olivia de Havilland …… Maid Marian
Melville Cooper …………Grande Xerife de Nottingham
Errol Flynn ……………. Robin Hood
Basil Rathbone ………..Sir Guy of Gisbourne
Ian Hunter …………….. Rei Richard

Oscar: Carl Jules Weyl (direção de arte), Ralph Dawson (edição), Erich Wolfgang Korngold (música)

Indicação ao Oscar: Hal B. Wallis, Henry Blanke (melhor filme)

Quer seja considerado capa e espada, romance de época ou comédia histórica, As aventuras de Robin Hood é simplesmente a melhor produção do seu gênero já realizada. Com o rei Ricardo nas Cruzadas, o reino é governado por seu irmão corrupto, John, interpretado por Claude Rains, um tirano irascível que escuta gemidos vindos da câmara de torturas e reflete: "Ah, mais reclamações dos nossos amigos saxãos sobre os novos impostos." Sir Guy de Gisbourne, o aliado menos divertido porém mais mortífero de John, é encarnado pelo incomparavelmente desumano Basil Rathbone com uma malícia cortante. A dama mais bela da região é Marian, a absurdamente encantadora Olivia de Havilland, com sua pele em tons de Technicolor. No entanto, é o despossuído fora-da-lei Robin de Locksley que dá vida à trama de intrigas, com o cavanhaque faceiro e charme australiano de Errol Flynn fazendo dele um raro herói que pode ser um bem humorado vigarista em um momento e no outro sacar um punhal, tornando-se um ousado rebelde ("Normando ou saxão, que diferença faz? É a injustiça que eu odeio, não os normandos") e um romântico escalador de sacadas. A velocidade do ritmo deste filme e a quantidade de elementos que ele comporta são verdadeiramente impressionantes: a trama é tão complexa quanto uma comédia shakespeariana. As batalhas, com suas espadas se chocando e flechas sendo arremessadas, são deliciosas, e a história termina como todas deveriam terminar: com o bem triunfando e os amantes juntos. KN
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 114)

sábado, 20 de setembro de 2014

088 1935 CAPITÃO BLOOD (CAPTAIN BLOOD, EUA)

Direção: Michael Curtiz
Produçào: Harry Joe Brown, Gordon Hollingshead.Hal B. Wallis
Roteiro: Casey Robinson, baseado no livro de Rafael Sabatini
Fotografia: Ernest Haller, Hal Mohr
Música: Erich Wolfgang Korngold, Liszt
Elenco:
Errol Flynn ……………………. Peter Blood
Olivia de Havilland …………….. Arabella Bishop
Lionel Atwill ………………….. Coronel Bishop
Basil Rathbone …………………. Lavasseur
Ross Alexander …………………. Jeremy Pitt
Donald Meek ……………………. Dr. Whacker
Indicação ao Oscar: Harry Joe Brown, Gordon Hollingshead.Hal B. Wallis (melhor filme), Michael Curtiz, (direção), Casey Robinson (roteiro), Erich Wolfgang Korngold (trilha sonora), Nathan Levinson (efeitos sonoros)

Uma aventura exuberante por excelência dirigida pelo especialista Michael Curtis, Capitão Blood tornou o australiano Errol Flynn, com seu charme divino, um astro da noite para o dia. Seu magnetismo animal impressionou enormemente Jack Warner, que lhe deu o papel depois que Robert Donat o desdenhou. Este é o primeiro de uma série de bem-sucedidos filmes românticos de capa e espada que Flynn fez em parceria com Olívia de Havllland, cuja beleza elegante era uma charmosa contrapartida à exuberância e ao sex appeal atlético dele. Flynn faz o papel de Peter Blood, um honrado médico irlandês do século XVII injustamente deportado para o Caribe, onde se torna escravo e lança comentários insolentes e olhares sugestivos para a requintada Sra. de Havilland. Liderando uma fuga, ele se torna um pirata, o vingativo justiceiro do alto-mar, e forma uma aliança conturbada com o covarde bucaneiro francês Basil Rathbone. Os ânimos esquentam quando eles brigam por conta do butim e da bela prisioneira (de Havilland), o que resulta em um duelo até a morte na primeira de suas muitas empolgantes lutas de espada nas telas. Capitão Blood tem tudo o que você pode querer de um filme de capa e espada: batalhas no mar; lâminas cintilantes; um herói destemido; uma heroína em perigo, porém corajosa; gargantas cortadas; chapéus emplumados; equívocos solucionados; homens balançando em mastros como ginastas; e uma empolgante trilha composta por Erich Wolfgang Korngold. Superdivertldo. AE
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 088)