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sábado, 3 de fevereiro de 2018

A MÃO ESQUERDA DE DEUS (The Left Hand of God, EUA, 1955)


Direção: Edward Dmytryk
Sinopse: 
O avião de James Carmody (Humphrey Bogart), um piloto americano, cai nas montanhas da China em 1947. Ele se faz passar por John O’Shea, o padre de uma missão, que tinha sido morto, para fugir da guarda pessoal de um renegado comandante militar chinês, Yang (Lee J. Cobb). Apesar de já ter trabalhado para Yang e mesmo não tendo nenhuma formação religiosa, James cativa os moradores e missionários de uma pequena aldeia chinesa, incluindo a bela enfermeira Anne Scott (Gene Tierney). O conflito pessoal do casal se agrava quando o comandante rastreia os passos de Carmody e chega ao vilarejo exigindo que ele retorne como seu prisioneiro e colaborador, em troca das vidas dos moradores e missionários locais. Este filme é também conhecido no Brasil por “Do Destino Ninguém Foge”.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

VITÓRIA AMARGA (Dark Victory, EUA, 1939)


Direção: Edmund Goulding
Sinopse:
Judith Traherne (Bette Davis) é uma jovem rica da sociedade. Um dia, seu médico Frederick Steele (George Brent) faz um terrível diagnóstico: ela tem um tumor no cérebro. Submetida a uma cirurgia, aparentemente ela se recupera. E também se apaixona pelo cirurgião. Mas Steele conta à sua secretária que o tumor irá reaparecer e Judith poderá morrer. Ao saber disso, ela entra em profunda depressão. Mas o médico Steele tenta de todas as formas salvar a vida da jovem.
Com Humphrey Bogart, Ronald Reagan


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

237 1951 UMA AVENTURA NA AFRICA (THE AFRICAN QUEEN, INGLATERRA)


Direção: John Huston
Roteiro : James Agee, John Huston,baseado no romance de C. S. Forester
Elenco: Humphrey Bogart, Katharine Hepburn, Robert Morley, Peter Bull, Theodore Blkel, Walter Gotell, Richard Marner

Oscar: Humphrey Bogart (ator)

Indicação ao Oscar: John Huston (diretor), James Agee, John Huston (roteiro), Katharine Hepburn (atriz)

O clássico de 1951 de John Huston é uma das aventuras mais impressionantes, divertidas e cativantes de Hollywood. Baseado no romance homônimo de 1935 de C. S. Forester, Uma aventura na África narra o improvável caso amoroso de Charlle Allnut (Humphrey Bogart), capitão de um barco mercante a vapor, e Rose Sayer (Katharine Hepburn), uma missionária puritana solteirona. Rose praticamente não suporta Charlle, mas o destino os une. Quando se vê em meio à violência da Primeira Guerra Mundial iminente, Rose precisa escapar rio abaixo no velho rebocador de navios de Charlle. No entanto, um navio de guerra alemão bloqueia a rota de saída e Rose põe em prática seu plano de encher o carregamento de Charlle de material explosivo para deter os alemães e os dois conseguirem fugir. A história de aventura, no entanto, fica em segundo plano diante do relacionamento difícil entre Charlie e Rose e, apesar do conteúdo abertamente político do enredo de guerra, a alegoria mais interessante de Uma aventura na África é representada pela história de amor dos dois. Rose, uma solteirona inglesa certinha e reprimida, é seduzida pela masculinidade desalinhada e beberrona de Charlie. Embora se passe em 1914, a mensagem implícita da emergência dos Estados Unidos como principal potência internacional após a Segunda Guerra, à medida que os poderes coloniais tradicionais se enfraqueciam, é inequívoca. Hepburn e Bogart estão divertidíssimos como protagonistas. Ambos estrelas veteranas e grisalhas usando ao máximo trejeitos e cacoetes que eram marcas registradas, eles dão ao filme um clima leve e cômico que não atenua a ação. A química entre os dois é perfeita e a passagem das condições diametralmente opostas de camaradas para amantes se dá de forma tranqüila e convincente, embora sejam mais divertidos quando estão voando um na garganta do outro. A fotografia colorida e as verdadeiramente surpreendentes tomadas em locação da floresta aumentam o enorme charme de Uma aventura na África. Bogart ganhou seu único Oscar por sua atuação no filme e Huston também foi indicado (direção e roteiro), juntamente com Hepburn e o roteirista James Agee. As resenhas e subsequentes elogios que o filme recebeu não são capazes de capturar sua mágica. Mesmo tendo-o assistido várias vezes, ele sempre me deixa com um sorriso no rosto e de bom humor, e, em meio aos vários filmes maravilhosos resenhados neste livro, é verdadeiramente imperdível. RH

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

212 1948 O TESOURO DE SIERRA MADRE (THE TREASURE OF SIERRA MADRE, EUA)



Direção: John Huston
Produção: Henry Blanke, Jack L. Wamel
Roteiro: John Huston, B. Traven, baseado no livro de B. Traven
Fotografia: Ted D. McCord
Música: Buddy Kaye, Max Steiner
Elenco:
Humphrey Bogart ……Fred C. Dobbs
Barton MacLane ……..Pat McCormick
Walter Huston ………..Howard
Tim Holt ……………….Bob Curtin
Bruce Bennett ………..James Cody
Alfonso Bedoya ………Gold Hat
Ainda: Alfonso Rangel, Manuel Donde, Margarito Luna

Oscar: John Huston (direção e roteiro), Walter Huston (ator coadjuvante)

Indicação ao Oscar: Henry Blanke (melhor filme)

Jornadas fracassadas, alimentadas pela ambição e frustradas pela ganância e desavenças internas, eram o enredo favorito de John Huston, pois agradavam a mistura de romantismo e cinismo que compunha sua própria personalidade. De O falcão maltês (1941) até O homem que queria ser rei (1975), ele realizou uma série de variações sobre tema - porém O tesouro de Sierra Madre o apresenta dentro de algo próximo da sua forma arquetípica. No México, três andarilhos americanos incompatíveis juntam forças para garimpar ouro, o encontram e - inevitavelmente -, no fim, retiram a derrota das garras da vitória e fracassam novamente. Huston, responsável por grandes adaptações da literatura para as telas, retirou  essa história do misterioso e recluso escritor B. Traven e, como sempre, tratou o material original com respeito e carinho, preservando boa parte dos diálogos lacônicos e do sarcasmo do autor. Apesar da oposição do estúdio - pois filmagens em locação, pelo menos para produções hollywoodlanas classe A, eram raras naquela época -, Huston insistiu em filmar quase Inteiramente em locações no México, próximo a um vilarejo isolado a mais de 200 quilômetros da capital. Sua intransigência rendeu bons frutos. A textura do filme transpira a aridez poeirenta da paisagem mexicana, de modo que, ao assisti-lo, você quase consegue sentir a areia entre os dentes; e os atores - exilados do ambiente confortável do estúdio e tendo que enfrentar as intempéries - são obrigados a oferecer interpretações tensas e irascíveis. Isso combinava com o tema de O tesouro...: como as pessoas reagem sob pressão. Enquanto o velho garimpeiro (interpretado por Walter Huston, pai do diretor) e o jovem ingênuo (o ator de filmes de caubói Tim Holt) se agarram a seus princípios diante das adversidades e da tentação do ouro, o paranoico Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart em um dos seus papéis mais memoravelmente aflitivos) desmorona e sucumbe. A determinação de Huston em filmar O tesouro... como queria também rendeu bons frutos ao estúdio. A princípio, Jack Warner detestou o filme, mas ele rendeu à Warner Brothers não só um sucesso de bilheteria como um desempenho triunfante no Oscar. Huston ganhou duas estatuetas - de Melhor Direção e Melhor Roteiro -, enquanto seu pai conquistou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. Foi a primeira e - até o momento - única vez que uma equipe de pai e filho foi premiada na cerimônia. PK
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 212)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

167 1944 UMA AVENTURA NA MARTINICA (TO HAVE AND HAVE NOT, EUA)


Direção: Howard Hawks
Produção: Howard Hawks, Jack L. Warner
Roteiro: Jules Furthman, baseado no de Ernest Hemingway
Fotografia: Sidney Hickox
Música: Hoagy Carmichael, William Lava, Franz Waxman
Elenco:
Walter Brennan ……Eddie
Humphrey Bogart ….Harry Morgan
Lauren Bacall ………Marie Browning
Dolores Moran ……...Hellene de Bursac
Ainda: Hoagy Carmichael, Sheldon Leonard, Walter Szurovy, Marcel Dalio, Waller Sande, Dan Seymour, Aldo Nadi

Co-rotelrizado por dois ganhadores do Prémio Nobel, Ernest Hemingway e William Faulkner, a partir do livro homônimo de Hemingway, Uma aventura na Martinica foi praticamente improvisado pelo diretor Howard Hawks e por seu elenco incomparável. Um dos muitos filmes realizados depois do sucesso de Humphrey Bogart em Casablanca (1942), esta obra ainda mais romântica tem como núcleo um caso amoroso que ameaça jogar a Segunda Guerra para escanteio. Hawks, que descobriu Lauren Bacall antes de Bogart, sentiu-se traído pelo casamento das estrelas, porém foi ele o principal responsável pela criação dos personagens que o casal acabaria interpretando na vida real. Passado na Martinica durante o regime de Vichy - e nâo em Cuba, como no romance - , Uma aventura na Martinica traz novamente Bogart como um expatriado ianque que se envolve com as Forças Francesas Livres e acaba se comprometendo com a causa aliada. A eletricidade genuína que faísca entre Bogie e a estreante Bacall - como a garota que entra em sua vida e assume o controle dela - conduz a um final picante e otimista que deixa o espectador com uma sensação de alegria maior do que a resignação melancólica de Casablanca. Ao contrário de Rick (Bogart) e llsa (Ingrid Bergman) no filme anterior, que priorizam o bem comum em detrimento do amor, Harry e Slim salvam-se mutuamente do isolacionismo e conseguem manter seu relacionamento porque estão dispostos a trabalhar juntos para vencer a guerra. Hawks não teria paciência com uma mulher que achasse que sua única função era oferecer uma vida doméstica feliz para o herói, de modo que torna a Sllm de Bacall tão intrépida e corajosa quanto o Harry de Bogart – não apenas um caso amoroso, mas uma parceira. Hawks enche cada cena de Uma aventura na Martinica com momentos deliciosos: diálogos amorosos hilários, porém sensuais, entre os protagonistas ("Você sabe assobiar, não sabe?"); Walter Brennan fornecendo alívio cômico ao perguntar: "Você já foi picado por uma abelha morta?"; Hoagy Carmichael cantando "Hong Kong Blues" e acompanhando uma Lauren Bacall de voz rouca (ou a voz seria de Andy Williams?) em "How Little We Know"; e Bogie vociferando com um tom de voz típico de um democrata sabe-tudo. Quando John Huston ficou sem um final para Paixões em fúria, Hawks lhe deu o clímax do tiroteio em um barco do romance de Hemingway que nunca chegou a incluir no filme. KN
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 167)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

152 1942 CASABLANCA (CASABLANCA, EUA)


Direção: Michael Curtiz
Produção: Hal B. Wallis, Jack L. Warner
Roteiro: Julius J. Epstein, Philip C. Epstein, Howard Koch, baseado na peça de Murray Burnett e Joan Alison
Fotografia: Arthur Edeson
Música: M. K. Jerome, Jack Scholl, Max Steiner
Elenco:
Ingrid Bergman …………Ilsa Lund
Humphrey Bogart ………Rick Blaine
Sydney Greenstreet ……Signor Ferrari
Conrad Veidt ……………Major Strasser
Paul Henreid ……………Victor Laszlo
Claude Rains ……………Capitão Renault
Ainda: Sydney Creenstreet, Peter Lorre, S. Z. Sakall, Madeleine LeBeau, Dooley Wilson, Joy Page, lohn Qualen, Leonid Kinskey, Curt Bois.

Oscar: Hal B. Wallis (melhor filme), Michael Curtiz (diretor), Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch (roteiro)

Indicação ao Oscar: Humphrey Bogarl (ator), Claude Rains (ator (Coadjuvante), Arthur Edeson (fotografia), Owen Marks (montagem), Max Steiner (música)

O mais querido de todos os ganhadores do Oscar de Melhor Filme, este romântico melodrama de guerra sintetiza a febre da década de 40 por exotismos de estúdio, com os terrenos da Warner transformados em um Norte da África fantástico que parece muito mais autêntico do que qualquer outro lugar meramente real poderia ser. Casablanca também conta com mais atores cult, falas passíveis de citação, clichês instantâneos e descaramento hollywoodiano do que qualquer outro filme da era de ouro do cinema. O Rick de Humprey Bogart ("De todas as espeluncas que servem gim..."), vestindo ternos brancos ou sobretudo com cinto, e a lisa de Ingrid Bergman ("Eu sei que jamais terei forças para deixá-lo novamente"), com seus figurinos mais apropriados para um estúdio do que para uma cidade no meio do deserto, flertam em um café-cassino enquanto aquela canção inesquecível ("As Time Goes By") soa ao fundo, transportando-os de volta para uma vida mais simples antes de a guerra arruinar tudo. Contudo, a melhor interpretação fica por conta de Claude Rains, como o cínico, porém romântico, chefe de polícia Renault ("Reúna os suspeitos de sempre"), um irônico observador dos absurdos da vida que é ao mesmo tempo um sobrevivente oportunista e o mais verdadeiro romântico do filme - merecendo plenamente seus últimos e famosos instantes ("Louis, acho que este é o começo de uma bela amizade"), que mostram que ele, e não Ilsa, é o parceiro ideal para o herói recém-comprometido-com-a-liberdade de Rick. O extenso elenco de coadjuvantes também é memorável: Victor Laszlo, o tcheco patriota de Paul Henreid, liderando a escória do continente em uma empolgante execução da Marselhesa que abafa a cantoria nazista e restaura o fervor patriótico até dos mais ardorosos colaboracionistas e parasitas; o vigarista Ugarte de Peter Lorre, admitindo timidamente que confia em Rick por ele o desprezar; o vilão nazista Major Strasser de Conrad Veidt, tentando fazer uma ligação que jamais conseguirá completar; o leal Sam de Dooley Wilson, dedilhando seu piano e trocando olhares com os protagonistas; Carl, o obeso mordomo de S. Z . Sakall, um austro-húngaro deslocado e suarento apesar do ventilador de teto; e o improvável empresário árabe-italiano Ferrari de Sydney Greenstreet, acocorado no que parece um tapete mágico com seu barrete. Mesmo os figurantes foram escalados de forma brilhante, acrescentando à atmosfera viva, sedutora e povoada de um filme que, mais do que qualquer outro, seus fãs desejam habitar, um impulso que serve de combustível para Sonhos de um sedutor, a charmosa homenagem de Woody Allen. Curtiz conta uma história complicada e cheia de truques - que sofre com um excesso de explicações e é estruturada em torno de um flashback no meio do filme, que se passa em Paris e quebra boa parte das regras de roteiro - com tão pouco alarde e tanta segurança que o conjunto parece impecável, apesar de ter sido supostamente reescrito dia a dia para que Bergman não soubesse até a filmagem da cena final se ela iria partir no avião com Henreid ou ficar com Bogey. Sua grandeza duradoura como cult se deu por conta dessa postura, mas também pela sua rara sensação de incompletude: realizado antes do fim da guerra, ele ousa deixar seus personagens literalmente no ar ou no meio do deserto, fazendo com que seus espectadores originais - e os muitos que descobriram o filme no decorrer dos anos - ficassem se perguntando o que teria acontecido com aquelas pessoas (cujos problemas mesquinhos não passam de "um monte de feijões") nos turbulentos anos que se seguiram. KN
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 152)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

144 1941 O FALCÃO MALTÊS (THE MALTESE FALCON, EUA)


Direção: John Huston
Produção: Henry Blanke, Hal B. Wallis
Roteiro: John Huston, baseado no livro de Dashlell Hammett
Fotografia: Arthur Edeson
Música: Adolph Deutsch
Elenco:
Peter Lorre ………… Joel Cairo
Humphrey Bogart …. Sam Spade
Sydney Greenstreet . Kasper Gutman
Mary Astor …………. Brigid O’Shaughnessy
Gladys George ……. Iva Archer
Ward Bond ………… Tom Polhaus
Ainda:, Bllton MacLane, Lee Patrick, Jerome Cowan, Elisha Cook jr., James Burke, Murray Alper, John Hamilton

Indicação ao Oscar: Hal B. Wallis (melhor filme), John Huston (roteiro), Sydney Greenstreet (ator  coadjuvante)

Em 1941, o grande romance de detetive de Dashiell Hammett já havia rendido duas adaptações passáveis para o cinema. Primeiro com o filme homônimo de 1931, com Ricardo Cortez como Sam Spade, e depois com Satan Met a Lady, de 1935, com Warren William no papel. John Huston, tendo experiência de escritor, escolheu o livro do catálogo de obras compradas pela Warner Brothers e confiava de tal forma na força do material que seu roteiro consiste essencialmente em uma transcrição dos diálogos de Hammett. Ele teve a sorte de ter nas mãos um elenco simplesmente impecável e comedimento suficiente para não cair no exagero. Muitas vezes considerado o fundador do gênero noir, O falcão maltês é contido no uso de sombras simbólicas - que são guardadas para o final, quando a porta do elevador as lança na forma de barras de cela de prisão no rosto da dissimulada heroína – e se passa quase por inteiro em quartos de hotel impessoalmente bem arrumados e escritórios a quilômetros de distância do glamour maltrapilho de À beira do abismo (1946) ou Até a vista, querida (1944). Humphrey Bogart, evoluindo de papéis de vilão para heróis românticos durões, é Sam Spade, um detetive particular de São Francisco. Ele é um homem de negócios bem alinhado que está disposto a encontrar o assassino do seu parceiro e frustrar os planos de um grupo de aventureiros traiçoeiros. Estes se tornaram tão obcecados em sua procura pelo fabuloso pássaro Incrustado de joias do título que cometem o erro fatal de supor que todos são tão corruptos e gananciosos quanto eles. A princípio, Mary Astor pode parecer um pouco matrona demais para uma femme fatale mas, curiosamente, sua estranha elegância de terninhos bem-comportados e penteados mais bem-comportados ainda combina com uma mulher que tem sempre um álibi na manga. O Kaspar Gutman tagarela, obeso e narcisista de Sydney Greenstreet e o Joel Cairo educado, triste, perfumado e resmungão de Peter Lorre – uma espécie de o Gordo e o Magro do crime - são um clássico imortal do cinema, juntamente com o eterno fracassado / bode expiatório Elisha Cook Jr. como Wilmer, o capanga irritadinho que está fadado a sempre ficar fora da jogada. A reputação de Hammett é sustentada pelo fato de ele ter acrescentado um certo realismo social às histórias de mistério americanas, com detetives particulares que são profissionais de verdade em vez de superinvestigadores. Ele também era viciado em tramas tão doentias e bizarras quanto as do teatro jacobiano: o clímax de O falcão maltês possui não só a hilária surpresa de que o pássaro negro - pelo qual todos se dispuseram a matar e conspirar - é, na verdade, uma farsa como também o momento clássico em que o detetive admite amar a assassina, mas ainda assim a deixará ser arrastada para a cadeia. Enquanto outros grandes diretores de Hollywood seguiam suas próprias visões, o melhor de Huston - desde O tesouro de Sierra Madre (1948), passando por O segredo das joias (1950), Cidade das ilusões (1972) e Wise Blood (1979), até Os vivos e os mortos (1987) - está em suas adaptações fiéis de romances clássicos menores. KN
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 144)

terça-feira, 21 de outubro de 2014

115 1938 ANJOS DE CARA SUJA (ANGELS WITH DIRTY FACES, EUA)


Direção: Michael Curtlz
Produção: Samuel Bischoff
Roteiro: Rowland Brown, John Wexley, Warren Duff
Fotografia: Sol Polito
Musica: Max Steiner
Elenco:
James Cagney ……… Rocky Sullivan
Pat O’Brien ……………Jerry Connolly
Humphrey Bogart …… James Frazier
Ann Sheridan ………… Laury Ferguson
Billy Halop …………… Soapy
George Bancroft ………Mac Keefer

Indicação ao Oscar: Michael Curtiz (Diretor), Rowland Brown (roteiro), James Cagney (ator)

Os filmes de Michael Curtiz pregam responsabilidade social e Anjos de cara suja é seu mais poderoso sermão. Rocky e Jerry, dois amigos que moravam em um bairro barra pesada de Nova York, se tomam um famoso gangster (James Cagney) e um padre engajado (Pat O'Brien), respectivamente. Uma gangue de adolescentes idolatra Rocky, até o padre Jerry convencer seu amigo condenado a "se acovardar" na sua execução. Ao sustentar sua missão didática, o visual e o estilo de interpretação do filme são inflamados e explícitos ao ponto da caricatura. Na verdade, a atuação de Cagney, com sua postura arrogante e ombros erguidos, serviu de modelo para Impressionistas como Frank Gorshin e Rich Little. Curtiz pode ser um moralista, mas não é um moralista simplório. A capitulação final de Rocky é aflitiva, e o diretor não a torna mais palatável. Rocky é um rebelde carismático, e o padre Jerry é um carola chato, porém o filme deixa poucas dúvidas sobre qual desses caminhos é o melhor para o bem comum. O angustiante clímax, um pesadelo de detalhes horripilantes e sombras expressionistas à medida que Rocky é arrastado choramingando para a cadeira elétrica, ainda mantém seu poder de enfurecer espectadores que não concordam com o rígido ponto de vista moral do filme. No entanto, para o padre Jerry esse tipo de atitude é, na melhor das hipóteses, sentimentalista e, na pior delas, irresponsável. Amém. MR
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 115)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

189 1946 A BEIRA DO ABISMO (THE BIG SLEEP, EUA)


Direção: Howard Hawks
Producäo: Howard Hawks, Jack L Wamel
Roteiro:  William Faulkner, baseado no livro de Raymond Chandler
Fotografia: Sidney Hickox
Música: Max Steiner
Elenco:
Humphrey Bogart …..… Philip Marlowe
Lauren Bacall ……...….. Vivian Sternwood Rutledge
John Ridgely …………… Eddie Mars
Martha Vickers …………. Carmen Sternwood
Dorothy Malone ….....…. Proprietária Livraria Acme
Charles Waldron ………… General Sternwood
Ainda: Peggy Knudsen, Regis Toomey, Charles D. Brown, Bob Steele, Elisha Cook Jr., Louis Jean Heydt

Diz-se que, quando o diretor Howard Hawks pediu ao romancista Raymond Chandler para explicar as várias traições, viradas e surpresas reveladas presentes no seu livro O sono eterno, a famosa e honesta resposta do escritor foi a seguinte: "Não faço a menor ideia." Isso não significa que as diversas reviravoltas da trama não sejam importantes para o livro, ou que a presença delas seja apenas um caos arbitrário. Em vez disso, o mistério notavelmente confuso de Chandler apenas complica mais uma história já complicada de corrupção na cidade de Los Angeles, contaminando ainda mais uma lista aparentemente interminável de personagens soturnos. Portanto, não deveria causar surpresa que Hawks tenha feito a gentileza de transferir o foco da sua adaptação do investigado para o investigador, no caso Humphtey Bogart no papel do detetive particular durão Philip Marlowe. Aproveitando-se do sucesso do filme Uma aventura na Martinica, de 1944, Hawks reuniu Bogart com Lauren Bacall e enfatizou a química palpável dos dois. Quando estão juntos na tela, a história de detetive fica em segundo plano (eles se casaram seis meses após o término das filmagens). Hawks explorou aquela tensão sexual, acrescentando cenas extras com a dupla e frisando os diálogos cheios de indiretas e particularmente ligeiros (em especial aquele sobre cavalos e selas), tendo em vista que se tratava da era do Código de Produção. E quanto ao mistério? Felizmente, a investigação central, por mais confusa que seja, ainda dá prazer de se assistir Marlowe faz as vezes de guia à Virgílio, descendo até os recônditos mais escuros e sujos de Hollywood para desvendar uma trama de assassinato/chantagem que envolve pornógrafos, ninfomaníacas e um bando de capangas que mal têm tempo de revelar mais detalhes da história (e pistas falsas) antes de levarem um tiro. O título do livro, O sono eterno, é uma referência à morte e, de fato, a morte permeia também o filme. Esta é uma obra-prima noir que carece de muitos dos princípios tradicionais do gênero. Há várias femmes fatales, mas nenhum flashback: iluminação chiaroscuro, mas nenhuma narração. E, o que é mais importante, o Marlowe de Bogart não parece perdido em um mundo de mentiras e traições, e sim plenamente confiante e no controle a todo momento. Ele é um antiherói singular, frio diante da crueldade, impassível diante da libertinagem vulgar e sempre interessado em um rosto bonito. JKl
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 189)