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sábado, 4 de novembro de 2017

IT A COISA (IT, EUA, 2017)


TERROR 2017 42 2017 IT: A COISA
Niia Silveira 06/09/2017

Caso raro de uma adaptação que deu certo é, quiçá, o melhor filme de terror do ano

Se você se lembra da minha contagem regressiva para a estreia de It: A Coisa você sabe que eu estava alimentando altas expectativas para o filme. Porém, mesmo sabendo de coração que essa nova versão tinha tudo para dar certo, devido a todos os fatores positivos envolvendo a obra, ainda assim rolava aquele medo do negócio dar errado. Sacomé, gato escaldado tem medo de água fria e, depois de quebrar a cara um sem número de vezes me empolgando com filmes – principalmente baseados na obra de Stephen King – que no final eram bem ruins, era normal uma pontada de desconfiança, mesmo que pequena. Apesar de todo esse otimismo para com a história, essa sensação de desconfiança cresceu de maneira absurda assim que entrei na sala do cinema. Eu já estava pensando na maneira como eu viria, com o rabo entre as pernas, dar as más notícias para os leitores do 101HM e dizer que, mais uma vez, nos empolgamos a toa. Ledo engano. FELIZMENTE, É UM FILMÃO DA P...! Há tantas qualidades aqui que eu nem sei por onde começar a falar, mas juro que tentarei ser o menos fangirl possível, ok? Confesso que foi muito difícil para eu analisar o filme de maneira mais técnica, pois a cada minuto eu tinha um mini ataque cardíaco enquanto assistia, afinal, cês já sabem que A Coisa é meu livro favorito da vida, tanto que eu já o li sete vezes (não me julgue!). No entanto, o filme funciona muito bem até mesmo para quem nunca leu a Bíblia de Stephen King, justamente pela direção certeira de Andrés Muschietti e pelo desenrolar preciso da narrativa. O filme já começa com a emblemática cena em que Georgie (Jackson Robert Scott) recebe de seu irmão mais velho, Bill (Jaeden Lieberher) o famigerado barquinho de papel e sai para as ruas de Derry, no Maine, para brincar nas enxurradas formadas por uma forte chuva. Lá, como já sabemos, ele tem o fatídico encontro com Pennywise, o Palhaço Dançarino (Bill Skarsgård), numa cena bem diferente da apresentada em It – Uma Obra Prima do Medo,com um desfecho bem mais violento... Passado um tempo, Bill ainda não desistiu de encontrar seu irmão desaparecido. Pesquisando com uma planta roubada do escritório de seu pai, ele acredita que o irmão pode ter ido parar no Barrens, uma área verde afastada do centro, onde todos os esgotos da cidade desembocam. Nesse meio tempo, ele reúne seus amigos Richie Tozier (Finn Wolfhard, o Mike de Stranger Things) o desbocado da turma, Eddie Kaspbrak (o excelente Jack Dylan Grazer) frágil e sempre assustado, o meticuloso Stan Uris (Wyatt Oleff), e juntos passam boa parte do tempo no córrego, aproveitando o começo das férias de verão. Também conhecemos Ben Hanscom (Jeremy Ray Taylor) que sofre nas mãos do valentão da escola, Henry Bowers (Nicholas Hamilton) e sua trinca de amigos Belch, Victor e Patrick, que aterrorizam o pobre Ben por ser, além do extrapeso, é o novato na cidade. Junta-se aos garotos a bela Beverly Marsh (Sophia Lillis), que também tem uma vida conturbada, pois além de lidar com o slut-shaming das meninas do colégio, que inventam coisas absurdas sobre sua vida sexual, ainda vive com o pai abusador e agressivo e Mike Hanlon (Chosen Jacobs), um garoto negro e humilde que vive numa fazenda com seu avô, e aí está formado o Clube dos Otários. Juntos, começam a perceber que há algo muito estranho na cidade, pois, além de Georgie, uma série de crianças e jovens estão desaparecendo sem deixar vestígios. Ben, estudioso como ele só, fez uma mega pesquisa sobre a cidade de Derry, e descobre que há alguns eventos violentos na cidade, que acontecem esporadicamente (a cada vinte e sete anos), e que sempre envolvem acidentes, chacinas e muitas mortes. Decidem, então, investigar essa entidade misteriosa que parece morar nos esgotos subterrâneos da cidade, e que está ceifando a vida de muitas crianças, o que culminará num embate entre o Clube dos Perdedores e a Coisa.
Os atores do núcleo infantil do filme são excelentes, e conseguem transmitir exatamente a sintonia que o Clube dos Otários tem no livro de King. Além de entrosados, eles dão um show de interpretação. Por falar em interpretação, quem surpreende positivamente é Skarsgård, que está assustador no papel do temido palhaço. Claro que sempre vai rolar uma comparação com Tim Curry, que interpretou o Pennywise na primeira adaptação, mas pra mim esse novo palhaço vai realmente assombrar a mente dos coulrofóbicos de plantão. Mesmo gostando muito do resultado final, também consigo enxergar alguns pontos negativos na película, como por exemplo, as discrepâncias em relação ao livro e uma certa quantidade de liberdades poéticas. O trio de roteiristas responsáveis pela adaptação, Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman, também optou por modificar a cronologia da história: ao contrário do livro, que se passa no verão de 58, aqui a infância dos Otários se passa em 1989, então se prepare para mais um filme com um clima de total throwbacks, puramente oitentista, cheio de referências da cultura pop da época, como posters de filmes, camisetas, letreiros de cinema dos filmes da época, além da excelente trilha sonora, que vai de The Cult a New Kids On The Block. Apesar do clima divertido e dos alívios cômicos, não desaponta no quesito horror. Com quase nenhum jumpscare, fato raro no cinema comercial do gênero na atualidade, o lado assustador do filme é calcado nas cenas gráficas a construção de atmosfera, onde você fica realmente tenso com o que se vê nas telas. A conclusão do filme, num primeiro momento, foi um pouco decepcionante para mim, mas, depois analisando com calma, pude notar que foi muito condizente com o filme, mais pé no chão, ao contrário do final da primeira adaptação, que é um banho de água fria que destoa de todo o resto. De um modo geral, acredito que o filme vá agradar tantos os fãs do escritor ganhador dos Troféus Golden, quanto quem gosta de um bom filme de terror num geral. Aliás, até mesmo quem nunca ouviu falar de King (o que acho imperdoável, mas sei que acontece…) talvez fique interessado no trabalho do autor, pois o burburinho que tem causado é enorme, com livrarias fazendo eventos temáticos, uma pesada campanha de marketing da Warner e até mesmo virando pegadinha do Silvio Santos. Pra nossa sorte, o estardalhaço é proporcional à qualidade do filme. Caso raro de uma adaptação que deu certo, entrando inclusive no ranking das melhores versões de uma obra do escritor para as telonas, It: A Coisa é, quiçá, o melhor filme de 2017. Saí do cinema com uma enorme sensação de satisfação, e já planejo ver novamente, pois se até o próprio King, que é bem crítico com as adaptações (vide a birra que ele tem com O Iluminado de Kubrick) já viu mais de uma vez, é porque realmente vale a pena. Agora, só me resta flutuar enquanto espero ansiosamente pela segunda parte, prevista para estrear em 2019. Provavelmente, você flutue também…
5 balões flutuantes para It: A Coisa
Fonte: http://101horrormovies.com.br/review-2017-42-it-a-coisa/

sábado, 28 de outubro de 2017

1922 (EUA, 2017)


TERROR 2017 54 1922
Niia Silveira 25/10/2017
Produção original da Netflix é um daqueles dramas com pinceladas sobrenaturais de King

Sem dúvidas, 2017 é o ano que prova que um rei nunca perde a majestade! Afinal, o autor ganhador do Troféu Golden nunca esteve tão em voga, na TV e nos cinemas, como neste ano. É claro que, como o Marcos já observou em outro artigo, nas décadas de 80 e 90 tivemos dezenas de adaptações de suas obras, porém vocês vão concordar comigo quando eu digo que a maioria era de natureza muito duvidosa. E é exatamente por isso que King tem motivos de sobra para comemorar: o ano tem sido muito generoso para ele e, consequentemente, para os fãs, em se tratando da qualidade e fidelidade das obras adaptadas. Depois do sucesso estrondoso de crítica e bilheteria de IT – A Coisa, e também de Jogo Perigoso, a bola da vez é a nova produção original da Netflix, 1922, que chegou nessa última sexta-feira ao catálogo do serviço de streaming. Adaptado do conto homônimo que integra o livro Escuridão Total Sem Estrelas, publicado em 2010, foi dirigido por Zak Hilditch e é um daqueles dramas com nuances sobrenaturais que King, vez ou outra, nos apresenta. Numa fazenda situada na cidade de Hemingford Home, Nebraska (que alguns leitores fiéis vão reconhecer como o lar de Mãe Abagail, de Dança da Morte) vive Wilfred James (Thomas Jane, irreconhecível) e sua família, composta pela esposa Arlette (Molly Parker) e seu filho adolescente Henry (Dylan Schmid). Apesar do clima tranquilo do campo, os James não vivem como uma verdadeira família de comercial de margarina, pois o casal disputa, internamente, pelo lugar em que moram. Wilfred herdou oitenta acres de terras agrícolas, que são de sua família há gerações; já Arlette possui uma propriedade de cem acres, porém ela não tem interesse algum em continuar morando na roça e despreza a vida simples, ao contrário de Wilf, que só pensa em seguir o legado e deixar uma boa quantia de terra para Henry. Os conflitos começam a aumentar quando Arlette decide vender sua parte nas terras para uma empresa e, com o dinheiro, abrir uma butique em Omaha. Já que nem passa pela cabeça de Wilfred ir embora dali, ela cogita pedir o divórcio e quer, como uma boa mãe, levar o filho consigo. A ideia de perder as coisas que são mais preciosas o deixa desgraçado da cabeça, e  começa, pouco a pouco, a arquitetar um plano, juntamente com o filho, para matar Arlette e dar um sumiço no corpo, jogando-o num poço abandonado. Vemos o filme todo sob a ótica da confissão por escrito de Wilfred, que depois de consumar o ato, percebe que as coisas nem de longe tomaram o rumo que ele planejou. Sozinho, acabado e consumido pela culpa, vivendo num quarto de hotel, ele vai narrando numa carta tudo o que se seguiu com ele e o filho após o assassinato da esposa. O ator Thomas Jane, que já havia trabalhado anteriormente em outras obras do King para o cinema (O Apanhador de Sonhos e O Nevoeiro) tem uma atuação brilhante, carregando o filme nas costas, com seu sotaque carregado, pele bronzeada, e seus trejeitos de homem simples, calejado pela vida dura. Já a personagem de Molly Parker, no entanto, é um dos poucos pontos negativos da obra. No conto, Arlette é uma mulher vil, astuta, manipuladora e arrogante, que faz a vida dos homens da casa um inferno. Ao longo da história, o próprio leitor tem vontade de entrar na jogada e matá-la com as próprias mãos, tamanha a irritação que a personagem proporciona, o que torna a ideia de Wilfred um pouco mais fácil de assimilar. Já no filme, a impressão que ficamos é a de que o patriarca apenas se amedrontou com a ideia de ficar sozinho e sem terras, quando na história original você vê o homem perdendo, aos poucos, o juízo, nas mãos de uma esposa que faz de tudo para humilhá-lo. A  história é muito bem contada por Hilditch, numa adaptação bem próxima da original, porém o andar arrastado do filme, com seus monólogos longos e poucas personagens, podem entediar quem não tem muita familiaridade com os dramas de King, ou quem espera um terror sobre fantasmas vingativos, ou nos moldes de tantos outras obras do autor. Fato é que a sutileza do sobrenatural, ou seja, as poucas aparições de Arlette depois de morta, deixa tudo ainda mais subentendido; em boa parte do filme nos perguntamos se aquilo tudo não é imaginação, fruto do sentimento de culpa de Wilfred, e essa sensação perdura até o final do filme, quando vemos o fatídico desfecho do sujeito, diferente do final do conto que, no entanto, denuncia a situação de loucura e remorso do personagem. De um modo geral, 1922 é mais uma grata surpresa da Netflix, de fotografia impecável e trilha sonora minimalista e sombria (assinada por outro rei, Mike Patton), que dão o ar soturno necessário para o enredo. A carga dramática presente pode não ser exatamente o que os fãs do horror esperam mas, certamente, a maneira como o conto foi adaptado fielmente para a TV, vai agradar em cheio os leitores assíduos de Stephen King.
4 ratazanas famintas para 1922
FONTE; http://101horrormovies.com.br/review-2017-54-1922-2/

domingo, 15 de outubro de 2017

A TORRE NEGRA (The Dark Tower, EUA, 2017)


TERROR 2017 39 2017 A TORRE NEGRA
Marcos Brolia 23/08/2017

Deixou os fãs pistola, mas funciona como filme fechado e entretenimento sem compromisso para o resto dos mortais
Filme é filme, livro é livro. E vice-versa! Tá escrito lá na pedra dos Dez Mandamentos, no rodapé. Eu juro, pode procurar. Por isso abro a resenha de A Torre Negra, adaptação mais que aguardada da magnum opus de Stephen King, explicando que nunca li a série literária do escritor do Maine, portanto, vou me ater apenas sobre sua versão cinematográfica, sem compará-las, e já ciente de que os fãs fervorosos da saga ficaram PISTOLA e acharam muito aquém para algo aguardado há tanto tempo e com tamanha expectativa. Pois bem, munido de apenas algumas pinceladas de informações sobre os livros, minha primeira conclusão sobre a sua versão nas telas é que ela funciona muito bem em sua intenção de entretenimento pipoca descartável para uma tarde de sábado no cinema e como obra independente, com começo, meio e fim, sem a intenção de criar uma franquia interminável ou universo conectado, como vem acontecendo com praticamente todo o cinemão da cultura pop no momento. É até atípico – e louvável – assistir a um filme nesses moldes.
Em contrapartida, nesse fato também se encontra seu calcanhar de Aquiles, uma vez que sua duração é MUITO curta, apenas 95 minutos, e a nítida impressão é que ficou faltando metragem, resultando em um longa sem profundidade alguma ao apresentar todos os ricos aspectos daquele mundo fantástico e desenvolver seus personagens, o que desemboca em um terceiro ato apressadíssimo, culminando numa série de atropelos, uma conclusão rápida e fácil demais, carecendo de mais tempo de exibição para um filme que condensa uma trama que demorou trinta e três anos para ser concluída em oito livros publicados. Talvez uma meia-horinha a mais ou um roteiro melhor escrito, tivesse contornado pelo menos em parte a problemática. Basicamente A Torre Negra se segura por conta de dois incríveis atores no elenco, o que garante o passatempo descompromissado: Idris Elba – esse negro maravilhoso! – como o Pistoleiro, Roland Deschain, último da linhagem de Eld, cuja missão era proteger a Torre Negra, estrutura que é um bastião de um multiverso, responsável por impedir a entrada das forças das trevas, que abandonou sua altruísta tarefa em busca de vingança contra Walter, vulgo O Homem de Preto, interpretado por Matthew McConaughey, que dizimou todos os Pistoleiros, inclusive o pai de Roland, e rapta crianças com poderes mediúnicos para extrair sua capacidade psicocinética a fim de destruir a Torre e jogar todas as dimensões em um mundo sombrio governado pelo próprio. Dois puta atores vivendo dois puta personagens, só que sem o mínimo de complexidade ou aproximação com o espectador, meio que no automático, apesar de McConaughey estar muito bem, mal até o osso. Confesso que adoraria vê-lo num vilão melhor aproveitado, ou até mesmo estrelando uma nova adaptação de A Dança da Morte, encarnando Randall Flagg, um de seus muitos pseudônimos. O problema é tudo ser tão raso, rápido, e tão jogado, num roteiro escrito a OITO mãos, capitaneado por Akiva Goldsman – que também assina a produção ao lado de Ron Howard, duplinha dinâmica responsável pelas adaptações dos livros de Dan Brown. Mas se A Torre Negra não tem interesse (ou finge não ter) em se tornar uma franquia e tenta resolver tudo rapidão num filme solo, ela funciona, e muito bem, dentro de um Kingverse, universo expandido do Ganhador do Troféu Golden, conectado com diversos elementos de outras obras. Essas referências vão muito além dos vários easter eggs espalhados (daquele que deixam os fãs do escritor em polvorosa), e criam uma verdadeira conexão com suas histórias, tendo o caso de Jake Chambers como o mais gritante, já que seu poder é o mesmo que um tal Danny Torrance demonstrou possuir durante sua estada em um certo hotel de veraneio no Colorado, apesar da comida de bola federal da legendagem em traduzir SHINE como TOQUE, apesar de descobrir depois que esse é o termo usado nos livros aqui em PT-BR, mas que ainda assim, a outra tradução funcionaria muito mais para fãs do Mestre do Terror no geral e que não leram a saga. O melhor é que nada disso parece oportunista e forçado, querendo surfar na onda do momento, como outros dois recentes universos do horror que pipocaram por aí nos últimos meses, uma vez que desde sempre, King trouxe em seus livros esses elementos de interconectividade narrativa, ligando personagens, locais e situações. E com a proximidade da estreia da primeira parte de It – A Coisa, é bem certo que esse universo referencial seja cada vez mais utilizado e conectado. Bem, como disse, não tenho autoridade para falar de A Torre Negra como adaptação das páginas para as telas, mas quanto filme, o que ele é de FATO, é uma diversão mediana, um blockbuster menor, com uma baita falha de ritmo e sem muitas pretensões, que pode agradar aquele que procura por uma sessão de cinema sem muita expectativa. O que também tá valendo, né?
3 balas calibre 45 para A Torre Negra

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

JOGO PERIGOSO (Geralds Game, EUA, 2017)


TERROR 2017 48 JOGO PERIGOSO
Marcos Brolia 03/10/2017
A adaptação do livro de Stephen King vai te prender…
O recém septuagenário Stephen King não tem do que reclamar do ano de 2017. Tá, ele pode reclamar da série The Mist, que durou uma mísera temporada e já foi cancelado e de A Torre Negra, a talvez mais aguardada adaptação cinematográfica de uma obra do escritor do Maine, que foi um verdadeiro flop nos cinemas. Mas o autor pode considerar um ano prolífico tendo em vista todas as adaptações transmídia de suas histórias – uma avalanche que era comum durante as décadas de 80 e 90 -, incluindo aí o caminhão de dinheiro que It: A Coisa está faturando, a aclamada série Mr. Mercedes e agora, Jogo Perigoso, produção original da Netflix que entrou no catálogo do serviço de streaming na última sexta-feira de setembro. Dirigido pelo competente Mike Flanagan – que para mim tem 100% de aproveitamento em seus filmes, mesmo sem tanta badalação – e que já havia entregado o excelente Hush – A Morte Ouve para a Netflix, Jogo Perigoso pega um dos livros maomeno de King e consegue transportar para às telas um baita de um thriller, que, com o perdão do trocadilho, prende o público, segurado inteiramente pela ótima Carla Gugino, numa crescente de suspense, paranoia, medo primal e traumas do passado. Jessie é casada com Gerald (vivido pelo também ótimo Bruce Greenwood), em uma matrimônio que anda mal das pernas, e para tentar apimentar a relação, ele propõe uma viagem para sua casa na floresta, onde quer realizar um jogo sexual fetichista, algemando a moça na cama. Problema é que Gerald acaba sofrendo um ataque cardíaco e cai duro no chão, mortinho da silva, deixando a viúva naquela situação desesperadora, sem conseguir se livrar das algemas. Pior ainda, ela fica presa ali naquele local a mercê de um cachorro desgarrado faminto, que passa a se alimentar do seu marido defunto, e passa a sofrer uma série de alucinações, desidratação e fome. Como desgraça pouca é bobagem, Jessie precisa também se vê obrigada em seus devaneios e apagões em confrontar alguns fantasmas de sua infância que foram enterrados profundamente, lhe trazendo memórias reprimidas de abuso. Quer mais? Sua mente passa a vislumbrar uma estranha presença dentro da casa, uma espécie de gigante deformado espreitando nas sombras, impossível de distinguir se é algo real ou imaginário, fruto da privação do cárcere e da situação limítrofe. Nessa mecânica simples de poucos cenários e atores, que se dividem entre a situação complicada de Jessie no quarto e flashback de seu passado durante um eclipse solar em sua adolescência (mesmo evento já narrado por King em Eclipse Total), Flanagan, com total suporte da atuação de Gugino, vai pouco a pouco despertando a tensão no espectador, amparada por sua mente disfuncional que cria armadilhas mentais, e ao mesmo tempo, desenvolve tentativas de sobreviver e bolar um jeito de escapar. O que culmina, sem dúvida nenhuma, na cena mais agoniante do cinema de terror no ano, daquelas digna de virar o rosto de lado. Bastante fiel às páginas, tirando alguns pequenos detalhes, Jogo Perigoso segue sem novidades para quem o leu, mas para o resto do público, é capaz de gerar uma certa decepção, principalmente quando jogada luz a um específico elemento em seu final, ao trazer à tona a verdade sobre a criatura que espreitava no escuro. Enquanto King trabalhou muito bem essa sensação arrepiante de paranoia e impotência, algo que deu certo dentro do contexto literário, no roteiro de Flanagan e Jeff Howard, esse elemento fica um tanto jogado, mal aproveitado na totalidade de sua construção para alcançar o fechamento do terceiro ato. Mesmo que o filme habilmente vá se mantendo durante aqueles 90 minutos de atmosfera habilmente controlada pelo diretor, infelizmente uma cena específica de sua conclusão, aquela do tribunal para ser mais preciso, põe as coisas a perder. Enquanto tenta parecer emporderadora, acaba soando caricata, momento de mais puro ridículo e entorna o caldo numa experiência que poderia ser completa. Se terminasse uma mísera sequência antes, talvez tivesse uma sorte melhor em seu encerramento. O Troféu Golden já teve inúmeras obras adaptadas de formas vexatórias e medianas nas telonas e telinhas, e Jogo Perigoso, tal qual sua contraparte de papel, pode não ser nenhuma Brastemp, mas cumpre seu propósito de uma honesta produção Made for Netflix, com lampejos geniais em alguns momentos, mas que acaba por figurar sem grandes pretensões e com um final um tanto desgostoso, tudo por causa de uma única cena.
3 algemas para Jogo Perigoso
Fonte: https://101horrormovies.com.br/review-2017-48-jogo-perigoso/

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

#705 1999 A TEMPESTADE DO SÉCULO (Storm of the Century, EUA/Canadá)


Direção: Craig R. Baxley
Roteiro: Stephen King
Produção: Robert F. Phillips, Thomas H. Brodek; Bruce Dunn (Produtor Associado); Mark Caliner, Stephen King (Produtores Executivos)
Elenco: Tim Daly, Jeffrey DeMunn, Debrah Farentino, Dyllan Christopher, Colim Feroe, Soo Garay, Spencer Breslin, John Innes, Casey Siemaszko

“Dê-me o que eu quero, e eu irei embora”. Essa é a assustadora frase chave de A Tempestade do Século. Só acho que Andre Linoge deveria ter dito antes o que ele queria e a população da ilha de Little Tall, no Maine, dado logo essa bagaça a ele, por que olhe, é dureza aguentar as suas mais de quatro horas de duração. Posso estar sendo polêmico ao dizer isso, porque na real, A Tempestade do Século é um dos melhores trabalhos de Stephen King para a TV (e até para o cinema se ampliarmos a coisa), um puta horror psicológico, com desdobramentos verdadeiramente sinistros, um vilão dos mais interessantes, e um final que é um soco no estômago, mas ficar na frente da televisão vendo por 257 minutos é de cair o cu da bunda. Fácil fácil eu conseguiria editá-lo em duas horas! Claro, vamos pensar que estamos falando de uma minissérie que fora exibido em três episódios (aqui no Brasil chegou as locadoras naqueles VHS de fita dupla), mas ao mesmo tempo que ele tem o mérito de apresentar e fundamentar bem sua grande leva de personagens (algo que Stephen King simplesmente tem um tesão absurdo), ele cai na armadilha do Made for TV, com atores qualquer nota, efeitos especiais baratos e a direção nada inspirada e burocrática de um zé ninguém como Craig R. Baxley. E sério, a gente não precisa ficar tanto tempo aguentando isso. Só que temos Andre Linoge (com direito a seu sobrenome sendo uma anagrama para Legião) que é um PUTA vilão, a única interpretação fora da curva de todo o elenco, feita por Colim Feroe, que nos proporciona sempre os melhores momentos de deleite de A Tempestade do Século. O sujeito é maldade pura e acompanhamos sua chegada à pequena e pacata ilha, onde todos os moradores se ajudam e vivem em harmonia na comunidade, e sabem muito bem guardar um segredo (lembrando que Little Tall é a mesma ilha onde é situada a história de Eclipse Total e os acontecimentos que envolveram Dolores Claiborne, citados no roteiro), para tocar o terror, naquele excelente argumento do forasteiro chegando para abalar o status quo, ainda mais quando a ilha é castigada por uma terrível tempestade que parece não ter fim. Linoge, munido de sua bengala com um lobo de prata na ponta, aparece já assassinando uma velha senhora e passa a influenciar todos os locais, revelando seus mais terríveis segredos. Como o próprio Linoge diz, a cidade está cheia de adúlteros, pedófilos, ladrões, glutões, assassinos, valentões, patifes e idiotas ciumentos. Tá bom para você? isso sem contar a forma que ele vai controlando mentalmente os moradores para matarem uns aos outros ou cometerem suicídio. Só que tudo pode cessar quando o único desejo dele for cumprido: lhe darem o que ele quer, que ele irá embora. Foda é que o maluco fica embaçando até metade do terceiro episódio para finalmente dizer o que diabos ele quer, e enquanto isso, ao mesmo tempo que vemos cenas assustadoras do poderoso controle de Linoge nos munícipes (destaco aí a excelente cena do sonho coletivo que revela o que irá acontecer a todos se não lhe for entregue o que ele deseja) e o teor de suas ameaças, temos enrolação desnecessária atrás de enrolação desnecessária que eu deixaria facilmente na lata do lixo da sala de edição. Mas King está afiadíssimo no seu texto, no suspense e crescente, no sentimento de impotência de todos, inclusive do espectador, contra aquela força maligna, na atmosfera claustrofóbica de ninguém poder fugir da ilha por conta da tempestade, e no embate maniqueísta entre Linoge e o xerife Michael Anderson (Tim Daly), o único que parece ser razoável, uma pessoa de bem, mas que está fadado a sucumbir perante o desejo coletivo e a terrível escolha que os moradores terão de tomar para aquela ameaça demoníaca ir embora, nem que para isso eles devam pagar um preço muito alto. Quanto a isso, outro ponto que eu questiono é a sequência do sorteio das pedras, para descobrirmos quem deverá entregar para Linoge o que ele quer, que demora uns longos e eternos dez minutos de falsa tensão construída, uma vez que obviamente já sabemos logo de cara qual será o resultado. Mas apesar do saco de Papai Noel que se precise para assistir A Tempestade do Século na íntegra, pelo menos ele é uma boa produção audiovisual, com um roteiro acima da média e uma construção narrativa melhor que outras empreitadas de King e sua obra na televisão, como A Dança da Morte ouTommyknockers – Tranquem as Suas Portas. E talvez esse seja o grande trunfo, o fato do Mestre do Terror tê-lo escrito para o formato de minissérie da ABC, e depois ter sido novelizado pelo próprio, seguindo o caminho inverso ao de costume.
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/08/19/705-a-tempestade-do-seculo-1999/

domingo, 4 de setembro de 2016

#687 1998 O APRENDIZ (Apt Pupil, EUA, França)

Direção: Bryan Singer
Roteiro: Brandon Boyce (baseado no conto de Stephen King)
Produção: Jane Hamsher, Don Murphy, Bryan Singer; Tom DeSanto (Coprodutor), John Ottman, Jay Shapiro (Produtores Associados); Tim Harbert (Produtor Executivo)
Elenco: Brad Renfro, Ian McKellen, Joshua Jackson, Mickey Cottrell, Michael Reid MacKay, Ann Dowd, Bruce Davidson, James Karen, David Schwimmer

Em primeiro lugar eu preciso externar o quanto eu ODEIO o Bryan Singer. Isso é um blog pessoal, onde eu tenho o direito de postar o que penso e sinto, certo? Então se tem uma pessoa em quem eu rogaria uma praga estilo Zé do Caixão nesse mundo, é esse sujeito. Por que? Eu vou ter que ir muito lá atrás para responder a isso: Eu sou FANÁTICO pelos X-Men. Sem brincadeira. É meu supergrupo favorito. Na minha infância e começo da minha adolescência eu lia fascinado caralhadas de HQs do meu primo com toda a fase fodástica dos mutantes escrita por Chris Claremont, e aquelas incríveis histórias que simplesmente marcaram minha vida, como A Saga da Fênix Negra, Dias de um Futuro Esquecido, Deus Ama e o Homem Mata, passando por Massacre de Mutantes, Programa de Extermínio, até culminar a fase desenhada por Jim Lee e os X-Men, com a saída de Claremont, virarem uma BOSTA. Isso sem contar o desenho que passava na TV Colosso nos anos 90 que eu era vidrado, e as action figures que eu comprava para brincar com os personagens junto do meu amigo e tudo mais, os jogos de videogame do fliperama e do Mega Drive, e assim por diante. Bom, deu para sacar o motivo de meu ódio até irracional pelo senhor Bryan Singer, certo? Simplesmente pelo aborto da natureza que ele cometeu em todos os filmes dos Filhos do Átomo. Onde ele meteu a mão, CA... com tudo. Isso sem entrar no mérito do que ele fez com o Superman para a Distinta Concorrência, que a gente abafa o caso também. E claro que ele continua cag... e sentando em cima e fazendo o que bem em entende no universo X sob comando da inescrupulosa Fox. Eu soltei fogos de artifício quando o Homem-Aranha, meu herói favorito de todos os tempos, saiu das garras da Sony Pictures e finalmente terá controle criativo da Marvel. Mas a tristeza que parece um poço sem fim é que os X-Men, meus queridos X-Men, nunca terão esse destino e, por conseguinte, um filme a altura de suas incríveis aventuras. Todo esse desabafo e mimimi, só para dizer que eu sou obrigado a engolir um sapo desgraçado e dar o braço a torcer para Singer por conta de O Aprendiz, sem dúvida um dos melhores filmes baseados na obra de Stephen King. O que me conforta é saber que ele foi feito antes do almofadinha envergonhar o universo mutuna, e depois de outro filme incrível do sujeito, que é Os Suspeitos. O Aprendiz é um grande filme porque tem uma história poderosíssima, Brad Renfro e Ian McKellan afiadíssimos, e diabos, uma ótima direção do Singer, que pombas, é um bom diretor, contanto que não se meta com super-heróis, tema que obviamente ele não manja PORRA nenhuma (até aquele Operação Valquíria é aceitável se você não tem nada melhor para assistir passando na TV). É o tipo de filme que te deixa tenso, com os nervos a flor da pele e lhe faz sair do cinema com um gosto ruim na garganta, tanto pelas atrocidades cometidas contra os judeus durante a Segunda Guerra Mundial, como o lance da história ser cíclica e toda aquela barbárie ainda influenciar pessoas, aguçar uma mórbida curiosidade e o quanto o totalitarismo, o fundamentalismo radical de direita, a xenofobia e o racismo estarem tão presentes na tal população média, como um garoto do subúrbio que acredita que a superioridade das raças ainda é algo palatável para se saborear e o quão é poderosa a doutrina do medo, como fica claro no final ao confrontar o seu orientador escolar. Inspirado no conto “Aluno Inteligente” dentro da coletânea “As Quatro Estações” de King, livro de onde foi retirado também o conto que inspirou Conta Comigo e Um Sonho de Liberdade, O Aprendiz traz a história do jovem Todd Bowden (Brad Renfro, que morreria precocemente de overdose dez anos depois) que descobre que seu vizinho, Arthur Denker (McKellan) é na verdade um nazista foragido, procurado por seus crimes de guerra, cujo nome verdadeiro é Kurt Dussander. Bowden então passa a chantagear o velho Dussander para que ele conte em detalhes sobre todas as atrocidades cometidas nos campos de concentração, ao contrário, irá pegar as evidências e entrega-las para o FBI para ser deportado e julgado em Israel. Inicialmente aquele homem frágil que é manipulado pelo sádico garoto, que passa a surtar com todos aqueles relatos violentos e deixa de ser um aluno exemplar para cair em um profundo desgaste físico e psicológico, mostra sua verdadeira face e o jogo vira, passando ele a manipular o menino. Aquela sádica relação simbiótica atinge seu limite quando os antigos desejos assassinos de Dussander voltam à tona, enquanto sua influência faz florescer um lado perverso e hostil em Bowden. Lembro de quando assisti O Aprendiz no cinema, saí extremamente desconfortável e com um inóspito sentimento de raiva crescente, assim como meu amigo que foi comigo a sessão, em uma tarde de férias de final de ano em 1998. E mesmo com a narração de McKelan sobre as atrocidades cometidas na câmara de gás e até algumas imagens de alucinações do personagem de Renfro, dois momentos foram os mais impactantes no filme: quando o garoto obriga o velho a vestir uma velha indumentária nazista e a marchar e quando uma pomba de asa machucada entra no ginásio e Bowden não tem a menor restrição em matar a ave (fraca, inferior e debilitada) com uma bola de basquete. Sabemos que King se consagrou por sua fantástica narrativa literária do sobrenatural, mas o horror físico e psicológico que aflora em O Aprendiz é muito mais impactante e soco no estômago que qualquer carro assassino, são bernardo com raiva, palhaço que come criança, cemitérios indígenas, garotas com telecinese ou hotéis mal-assombrados. E o alvorecer daquela relação doentia e o crescente suspense que ela causa, até seus momentos finais quando Dussander finalmente se vê encurralado e as cicatrizes foram definitivamente deixadas em seu “aprendiz”, é executado com muita primazia por Singer, e sei muito bem tirar o chapéu quanto a isso.
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/07/16/687-o-aprendiz-1998/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Brad_Renfro

#686 1997 VOO NOTURNO (The Night Flier, EUA, Itália)


Direção: Mark Pavia
Roteiro: Mark Pavia, Jack O’Donnell (baseado no conto de Stephen King)
Produção: Mitchell Galin, Richard P. Rubinstein; Alfredo Cuomo, Jack O`Donnell (Coprodutores); Neal Marshall Stevens (Produtor Associado); David R. Kappes (Produtor Executivo)
Elenco:Miguel Ferrer, Julie Entwise, Dan Monahan, Michael H. Moss, John Bennes, Beverly Skinner, Rob Wilds

Voo Noturno é uma filme menor e até pouquíssimo conhecido no rol de adaptações das obras de Stephen King. Mas, diabos, funciona muito bem, e acho até um pouco subestimado! Ao assistir Voo Noturno, baseado no conto “O Piloto da Noite”, publicado na coletânea “Pesadelos e Paisagens Noturnas – Volume 1”, você se sente completamente familiarizado com a narrativa e personagens típicos de uma história do Mestre do Terror, e tem a cara daquelas produções B pelas quais infelizmente seu nome ficou mais conhecido, só que a junção de alguns elementos conseguem afastá-lo das costumeiras bombas que envolvem King na jogada. Começa com uma história das mais insólitas apresentando um piloto de avião que é um vampiro (!!!???). Pois é, isso sim é algo que eu nunca tinha visto antes! Richard Dees, papel de Miguel Ferrer, um eterno coadjuvante que aqui tem a chance de ser um protagonista – e já havia atuado em A Dança da Morte, também de King, e fez a voz do pai de Jack Torrance no rádio, na versão televisiva de O Iluminado, é um repórter de um jornal sensacionalista chamado Inside View, que é tipo um Notícias Populares sem ter o que por, nem tirar (exceto talvez os ensaios da Gata do NP). As manchetes do jornal são sobre abduções alienígenas, assassinatos brutais, bebês demoníacos, e por aí vai. Seu editor, Merton Morrison (Dan Monahan) lhe oferece uma pauta onde deve investigar uma série de bizarros assassinatos, cometidos por um serial killer apelidado de “O Piloto da Noite”, que viaja em seu avião particular e tem assombrado pequenos aeroportos no interior dos EUA. O mais engraçado é que ninguém nunca consegue apanhá-lo, e todas as vítimas parecem mesmerizadas pela figura. Isso sem contar que o sacana aproveita de seus poderes vampíricos de hipnose para obriga-los a lavar seu avião, antes de virar o jantar. É mole? Dees originalmente recusa a matéria, mas uma chantagem editorial, oferecendo-lhe uma capa, faz com que o sujeito acabe mudando de ideia. Mas ele anda no limite do estresse, pois devido a sua profissão, é testemunha ocular de todo tipo de violência, bizarrice e anormalidade humana. Além disso, ele acaba entrando em conflito com uma “foca” contratada pelo jornal, a jovem Katherine Blair (Julie Entwise), que originalmente ficaria com a matéria, escorraçando-a. O próprio editor acaba colocando os dois em rota de encontro ao instigar a nova repórter a também ir atrás da história e conquistar seu espaço. Após algumas fotos, entrevistas com testemunhas onde vai coletando informações das mais surreais sobre os assassinatos, e recebendo constantes ameaças do assassino, que descobre se chamar Dwight Renfield (homenagens à Drácula, livro e filme da Universal: Dwight Frey é o nome do ator que interpretou Renfield no clássico de 1931), Dees acaba trabalhando em conjunto com Blair, só para mostrar de vez que é um escroto e deixa-la para trás ao descobrir uma pista quente do próximo aeroporto onde o vilão estará e ficar com os louros da reportagem só para ele. O que o filme enche de linguiça e vai se tornando completamente dispensável, pronto para entrar naquela seara de filmes desnecessários, que não são bons, mas também não são ruins, tipo A Maldição, o terceiro ato é uma verdadeira menina dos olhos para o fã do horror com um gore fest de tirar o chapéu. Dees encontra dezenas de corpos mutilados e violentamente dilacerados no pequeno aeroporto, confronta então a criatura, que possui um visual vampiresco nada convencional, e acaba se dando MUITO mal, sempre instigado por sua mórbida curiosidade de anos de profissão nefasta e exploratória. Uma alucinação assustadora envolvendo zumbis/ vampiros, com toda uma pegada gótica quase baviana (dada suas devidas proporções) e mais derramamento desenfreado de sangue levam para o ápice que é seu final, com um destino dos mais trágicos para Dees e uma crítica velada da forma como a imprensa manipula a verdade em busca do sensacionalismo para aumentar suas vendas, audiência, cliques e por aí vai. Esse momento “banho de sangue” foi cortesia de gente que manja do riscado: a KNB Effects Group, a companhia de efeitos especiais de Robert Kurtzman, Greg Nicotero e Howard Berger, hoje o maior nome do FX do cinema de horror. O diretor estreante, Mike Pavia, também consegue entregar um filme redondo, principalmente tendo em vista que ele tinha apenas 30 dias para completar as filmagens, um orçamento de um milhão de dólares, e nunca dirigido nenhum longa metragem anteriormente, tendo sido escolhido a dedo pelo próprio Stephen King, que gostara de seu curta de zumbis de 35 minutos,Drag, que você consegue ver aqui. E ele ainda entregou o filme um dia antes. Deve ter ganhado a plaquinha de “funcionário do mês”, apesar de não ter dirigido absolutamente mais nada depois. Voo Noturno está anos luz dos clássicos como O IluminadoCarrie – A EstranhaLouca Obsessão, Cemitério Maldito e tantos outros. Porém faz um voo cruzeiro, sem turbulências, mas também sem manobras ousadas, durante seus 94 minutos de duração, e aterrissa em uma longa distancia de outras grandes porcarias baseadas nos livros do mais famoso escritor do Maine. Que parágrafo infame que ficou isso aqui…
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/07/15/686-voo-noturno-1997/

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

#679 1997 O ILUMINADO (The Shining, EUA)


Direção: Mick Garris
Roteiro: Stephen King (baseado em seu livro)
Produção:Mick Carliner; Laura Gibson (Produtor Associado); Laura Gibson (Supervisora de Produção); Stephen King (Produtor Executivo)
Elenco: Rebecca De Mornay, Steven Webber, Will Horneff, Courtland Mead, Melvin Van Peebles, John Durbin, Pat Hingle, Elliott Gould

Eu sei que eu serei apedrejado em praça pública pelo que irei dizer, mas prefiro essa versão minissérie para a TV de O Iluminado do que o filme de Kubrick de 1980. Não estou dizendo como cinema, mas sim como adaptação do livro de Stephen King. E todos vocês podem discordar de mim, mas sei que o pai da criança está comigo nessa. Afinal, é público o quanto ele odeia a versão de cinema, e até hoje disparas suas farpas assim que possível. Li recentemente “Doutor Sono”, a tão esperada continuação de seu livro, e em suas considerações o mestre do terror escreve: “Além disso, é claro, há o filme de Stanley Kubrick, que muita gente parece recordar – por motivos que nunca cheguei a compreender – como um dos filmes mais aterrorizantes que já viram. (Se você viu o filme, mas não leu o livro, repare só que Doutor Sono segue este último, que é, na minha opinião, a verdadeira história da família Torrance”. Sabemos que é uma produção feita para a ABC, ou seja, nunca terá os mesmos recursos visuais e orçamento de um filme hollywoodiano, ainda mais que estamos falando lá dos anos 90 e na TV não existia produções como da HBO e no Netflix. Sabemos igualmente que Mick Garris é um diretor dos mais meia-boca, que não chega no dedinho do pé da genialidade de um Stanley Kubrick. Então mais uma vez não estou analisando a obra cinematográfica e toda sua experiência visual incrível, design de produção, semiótica, fotografia e tudo que lhe rendeu o status de obra-prima. Mas a questão é que O Iluminado de Kubrick peca exatamente por não capturar a essência do livro de King, que é sem sombra de dúvida, para mim pelo menos, o melhor que ele já escreveu. Em conversas sobre filmes versus livros, sempre surge na discussão que ambos são duas mídias diferentes, óbvio, e adaptações ipsis literis são praticamente impossíveis e até desnecessárias. Aqui não temos um Jack Nicholson, mesmo que caricato com sua ensandecida atuação forçada, mas em seu lugar, um até esforçado Steve Webber como Jack Torrance, mas a construção do personagem (claro, sem levar em conta a metragem) é infinitamente melhor do que do ator consagrado ganhador do Oscar. Nicholson já CHEGA com cara de louco na entrevista com o Sr. Ullman e tudo já está errado logo a partir daí. Ao que parece, a crise que ele tem no Overlook parece mais um cabin fever do que a ação dos fantasmas ali residentes. Aliás, o Overlook é personagem central do livro, e tão protagonista quanto a família Torrance, com um histórico de escândalos, suicídios, assassinatos, acertos de contas da máfia. Por isso o lugar é maldito (além de ter sido construído em cima de um cemitério indígena, expediente que King adora!). Tudo isso é mandados às favas em O Iluminado de Kubrick, e aqui muito bem explorado. A Wendy Torrance de Rebecca De Mornay que também é uma atriz série B, engole com farinha a louca histérica, fraca e sem personalidade de Shelley Duvall, talvez uma das maiores reclamações de King, uma vez que ele escrevera uma mulher forte que aguenta o tranco de uma vidinha miserável e de abusos. Insuportável é Courtland Mead como Danny Torrance. Eu não sei o porquê, mas odeio aquelas bochechas dele, aquela boca dele e a forma manhosa como ele fala às vezes, além da atuação bem abaixo da nota!!!! Odeio!!! Mas pelo menos ele não conversa com o Tony versão dedinho… Aliás, se tem uma coisa que é foda na livre adaptação de Kubrick são os passeios de triciclo de Danny pelos corredores labirínticos do Overlook e a adição das meninas mortas, filhas do antigo zelador. E vai, Jack usar um machado ao invés de um mísero taco de críquete, mas isso já arrebenta com o destino de outro personagem importantíssimo e querido: Dick Halloran. King resolveu escrever o roteiro de O Iluminado de 1997 e também é o produtor executivo da bagaça, então veremos uma versão fidedigna de seu livro. E sua maior adição, além de dezenas de coisas que Kubrick deixou de fora (a caldeira, as topiarias, etc), é o fato de explorar o alcoolismo de Jack, e como isso vai levando-o a ruína, sobrepujado pela terrível influência sobrenatural do lugar. Que aliás, foi inspirado no próprio problema alcóolico que o escritor vivia no momento em que escreveu a história. E esse é o grande barato de O Iluminado. As falhas humanas, os problemas conjugais daquele casal, o desespero de um homem que destruiu sua vida por causa do álcool e tem naquele emprego de merda de zelador de um hotel de veraneio, a última chance de sua vida, completamente sob pressão, sempre vivendo na sombra da desconfiança constante da mulher, e culpando-se pelos traumas em seu filho, que como se não bastasse, tem poderes pré-cognitivos e irá passar o inverno isolado em um lugar MUITO mal-assombrado. Dispondo de nada menos que 270 minutos de duração, dividido em três partes, King deitou e rolou para mostrar a degradação psicológica de Jack, e isso demora pacas, num perfeito processo de slow burning, e se Steven Webber, seus pares de atuação, a cara de Made for TV e os efeitos toscos das topiarias, e a costumeira apatia de Mick Garris e falta de inventividade na direção não ajudam muito, pelo menos o roteiro, seu desenvolver e toda a trama prendem o espectador no aspecto psicológico, que é o que realmente interessa numa obra de horror. Muito mais que afetados sorrisos de escárnio, imitações de Johnny Carson ou elevadores que cospem sangue. Sou defensor ferrenho desse O Iluminado. Gosto da versão do genial Kubrick, considero clássico, obra prima do cinema, aula de audiovisual, de meter medo de verdade, pago pau para a insanidade de Nicholson em algumas cenas, mas sou fã para caralho do livro de King acima de tudo, e mesmo que corra o risco de até perder leitores por esse post (que espero ter embasado muito bem todos os meus motivos), reafirmo: prefiro essa obra menor e menosprezada, mas que condiz muito mais ao que o Mestre escrevera.
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/07/01/679-o-iluminado-1997/

terça-feira, 12 de julho de 2016

#657 1995 ECLIPSE TOTAL (Dolores Claiborne, EUA)


Direção: Taylor Hackford
Roteiro: Tony Gilroy (baseado no livro de Stephen King)
Produção: Taylor Hackford, Charles Mulvehill; Gina Blumenfeld, Michael Kelly (Produtores Associados)
Elenco: Kathy Bates, Jennifer Jason Leigh, Judy Parfitt, Christopher Plummer, David Strathairn, John C. Reilly

Kathy Bates ganhou um Oscar pela sua atuação visceral, assustadora, descontrolada e psicopata da enfermeira Annie Wilkes em Louca Obsessão, baseado em um livro de Stephen King e sabidamente um dos melhores filmes inspirados em sua obra. A atuação monstra da atriz chamou demais a atenção do escritor que se inspirou na própria para criar a personagem Dolores Claiborne de seu livro homônimo, levados às telas pelo diretor Taylor Hackford em Eclipse Total. Obviamente, ninguém menos que Bates poderia viver a personagem título nesse intrigante suspense, sem absolutamente nenhum toque sobrenatural, mesmo tendo King por trás, que parece que vai ficando melhor com o tempo e a casa nova assistida. Eclipse Total nunca foi um de meus favoritos, mas eu mesmo acabei me surpreendendo com ele ao revisitá-lo, depois de um longo período em que o vi pela primeira vez. Claro que a atuação de Bates é hors concours, e também estão muito bem a maiorias dos coadjuvantes, como Jennifer Jason Leigh, Christopher Plummer, David Strathairn e a excelente Judy Parfitt como Vera Donovan, indicada, vinda do teatro, pela esposa de Hackford, Helen Mirren. Mas dois aspectos me chamaram demais a atenção que dão um contorno todo especial ao longa: a trilha sonora impecável de Danny Elfman e a ótima fotografia do mexicano Gabriel Beristain (que pesquisando no iMDB tem dois filmes como diretor de fotografia que agora aqui de cabeça me remeteram a esse seu trabalho: O Chamado 2 e Viagem do Medo, e atualmente está na televisão, tendo trabalhado recentemente na séries The Strain, aquela do Guillermo Del Toro e Agent Carter, da Marvel). Isso porque o filme é quase todo contado alternando o presente e o passado, com uma fotografia azulada, sóbria, quase com total ausência de cor durante a narrativa atual, e mais vívida quando em flashback. E isso sem contar a exímia cena do tal eclipse total do título, quando todas essas partes envolvidas: a atuação de Bates e Strathairn como seu marido abusivo, alcóolatra, molestador, pedófilo e misógino, Joe; a fotografia de Beristain (lindíssima); a direção de Hackford; e a trilha sonora de Elfman, funcionam poderosamente em uníssono. Pois bem, na trama, a importante jornalista Selena St. George (Leigh) deixa Nova York para voltar à sua terra natal, uma ilha no estado do Maine (ah, vá!) ao saber que sua mãe, Dolores, estava sendo acusada do assassinato da mulher de quem era criada e cuidava há 20 anos, Vera (em uma relação que de bate pronto me lembrou de Bette Davis e Joan Crawford em O Que Terá Acontecido com Baby Jane?) . O detetive John Mackey (Plummer) quer por que quer colocá-la na cadeia, pois ainda acredita que ela foi a culpada pela morte do marido há tantos anos, durante uma tarde onde aconteceu um eclipse total solar, e escapou ilesa, sendo o único caso em que o mesmo não condenara um culpado. Esses acontecimentos levaram a vida de todos para um caminho sem volta de amargura, que será pontuado de forma carregada na conturbada relação entre Dolores e sua filha, que volta cheia de mágoa e ressentimento com sua mãe, potencializados pela perda de uma grande matéria que estava investigando e que lhe renderia um livro, tomando remédios, viciada em bebida e com certa memória seletiva, bloqueando diversas lembranças traumáticas de seu passado com seu pai. Dolores mantém-se firme, forte, decidida a levar tudo até as últimas consequências e tentar reconquistar a afeição da filha há tanto ausente. Apesar do suspense água com açúcar, Eclipse Total consegue te prender desde a primeira cena, que já é o suposto assassinato de Vera, até sua bombástica revelação de como tudo transcorreu durante o eclipse, com as ações de Dolores friamente calculadas, e principalmente, todas as somas dos motivos que levaram até aquela situação. Bates e Parfitt então vociferam o girl power dos anos 90, que culmina em um tema cada vez mais atual e discutido em nossa sociedade, da mulher se levantar e agir contra problemas extremamente comuns e destrutivos em várias famílias: alcoolismo, abuso, machismo e incesto. Como Vera Donovan diz de boca cheia e instiga: “Às vezes, ser uma vaca é tudo que resta a uma mulher”. É isso que a situação limítrofe e maridos filhos da puta ao extremo levam essas mulheres de pedra a crer e agir como tal. Eclipse Total é um Stephen King acima da média (o que já é motivo de se louvar) onde o texto base do escritor mais uma vez explora muito mais o drama oriundo do verdadeiro terror das relações humanas, muito mais assustador do que monstros, fantasmas, alienígenas e coisas do tipo.
FONTE: https://101horrormovies.com/2015/05/13/657-eclipse-total-1995/