domingo, 28 de dezembro de 2014

184 1946 PAISÁ (PAISÀ, ITÁLIA)


Direção: Roberto Rossellini
Produção: Mario Conti, Rod E. Geiger, Roberto Rossellini
Roteiro: Alfred Hayes, Federico Fellini, Sergio Amidei, Marcello Pagliero, Roberto Rossellini
Fotografia: Otello Martelli
Música: Renzo Rossellini
Elenco:
Carmela Sazio ………….. Carmela
Robert Van Loon ………… Joe, Soldado Americano
Benjamin Emanuel ……….. Soldado Americano
Raymond Campbell ……….. Soldado Americano
Harold Wagner ………….. Harry, Soldado Alemão
Albert Heinze ………….. Soldado Alemão
Ainda: Merlin Berth, Dots Johnson. Alfonsino Pasca, Maria Michi, Gar Moore, Harriet Medin, Renzo Avanzo, William Tubbs, Dale Edmonds, Cigolani, Allen Dan

Indicação ao Oscar: Alfred Hayes, Federico Fellini, Sergio Amidei, Marcello Pagliero, Roberto Rossellini (roteiro)

Qualquer um que vá assistir a Paísá sem saber do seu status como obra-prima do neorealismo pode ser perdoado por desistir logo no começo: imagens de arquivo da campanha americana na Itália, música ao estilo hollywoodiano, maus atores vociferando ordens militares. É apenas no final do primeiro dos seis episódios independentes que o estilo improvisado de Roberto Rossellini começa a operar sua mágica dura: logo depois que uma bala mata abruptamente um soldado que está contando sua história de vida, vemos o cadáver do seu companheiro, morto pelos alemães e desprezado pelos americanos sobreviventes que o tomam por um "carcamano sujo". A crônica de 1943-46 de Rossellini é marcada pela devastação, brutalidade e incompreensão em todos os níveis. Um americano não percebe que uma prostituta é a muIher que ele amou seis meses atrás; um menino de rua fica amigo de um soldado negro alcoólatra e rouba seus sapatos assim que ele cai no sono; a imagem final do filme – inesquecivelmente desoladora - mostra a execução impiedosa de uma fileira de guerrilheiros. Rossellini desenvolve uma estrutura à altura dessa sucessão de acontecimentos, baseando-se em elipses surpreendentes na trama, diálogos conflitantes em diversas línguas e uma apresentação dos horrores rigorosamente não-sentimental. Paisá localiza narrativas pessoais dentro do pesadelo histórico da guerra. AM
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 184)

sábado, 27 de dezembro de 2014

BREAKING BAD 1ª TEMPORADA ()EUA, 2008)


BREAKING BAD 1ª TEMPORADA ()EUA, 2008)


183 1946 DESENCANTO (BRIEF ENCOUNTER, INGLATERRA)


Direção: David Lean
Produção: Noel Coward, Anthony Havelock-Allan, Ronald Neame
Roteiro: Anthony Havelock-Allan, David Lean, Ronald Neame, baseado na peça Still Life, de Noel Coward
Fotografia: Robert Krasker
Musica não original: Rachmaninoff
Elenco:
Celia Johnson ………….. Laura Jesson
Trevor Howard ………….. Dr. Alec Harvey
Stanley Holloway ……….. Albert Godby
Joyce Carey ……………. Myrtle Bagot
Cyril Raymond ………….. Fred Jesson
Everley Gregg ………….. Dolly Messiter
Ainda: Marjorie Mars

Indicação ao Oscar: David Lean (diretor), Anthony Havelock-Allan, David Lean, Ronald Neame (roteiro), Celia Johnson (atriz)

Festival de Cannes: David Lean (Palma de Ouro)

Os épicos imponentes da maturidade de David Lean às vezes ameaçam ofuscar os relativamente modestos primeiros trabalhos do diretor. Porém concentrar-se demais no puro espetáculo de Lawrence da Arábia e Doutor Jivago significaria ignorar algumas das maiores façanhas de Lean. Afinal, apenas um cineasta de primeira grandeza poderia dirigir Lawrence da Arábia, e este mesmo domínio da forma está patente nos seus filmes anteriores, embora em escala muito menor. Lean já havia dirigido três adaptações da obra de Noel Coward quando iniciou Desencanto, baseado na peça de um ato do autor chamada Still Life. Contudo, a brevidade da peça o forçou a expandir o material e, durante o processo, ele ampliou também seu próprio vocabulário cinematográfico. Contado em flashback, Desencanto acompanha o caso amoroso platônico entre a dona-de-casa Laura (Celia Johnson) e o médico Alec (Trevor Howard). que se conhecem por acaso em uma estação de trem. Há obviamente uma conexão entre os dois, porém ambos sabem que o romance não pode ir além de alguns almoços furtivos. Ao elaborar um dos mais eficazes arranca-lágrimas da história do cinema, Lean realizou uma série de avanços formais que lhe deram rapidamente a reputação de mais do que um mero seguidor de Noel Coward. Para começar, ele retirou a história da estação de trem, acrescentando mais detalhes ao romance malfadado. Explorou também todo o aparato cinematográfico à sua disposição; a iluminação, por exemplo, se aproxima do visual grave de suas adaptações posteriores de Dickens, tornando o mais simbólica possível a estação escura e esfumaçada. Os efeitos sonoros também são bem utilizados (especialmente o de um trem acelerando), assim como a música, que incorpora o "Concerto para piano nº 2" de Rachmaninoff como tema do filme. No entanto, o mais importante é a utilização por parte de Lean de closes frequentes nos olhos de Johnson, que contam melhor uma história do que muitos roteiros. Ela e Howard estão excepcionais nesta que é a mais triste das histórias, cada movimento dos dois prenhe de significado e os diálogos impecáveis repletos de emoções profundas. Um olhar furtivo, um dedo acariciando a mão do outro e um riso compartilhado são praticamente tudo que é permitido a esses amantes desventurados, e Johnson e Howard transmitem belamente essa triste certeza. JKl
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 183)

182 1946 OS MELHORES ANOS DE NOSSAS VIDAS (THE BEST YEARS OF OUR LIVES, EUA)


Direção: William Wyler
Produção: Samuel Goldwyn
Roteiro: Robert E. Sherwood, baseado no livro Glory for Me, de MacKinlay Kantor
Fotografia: Gregg Toland
Música: Hugo Friedhofer
Elenco:
Myrna Loy ……………Milly Stephenson
Fredric March ………..Al Stephenson
Dana Andrews ………Fred Derry
Teresa Wright ………..Peggy Stephenson
Virginia Mayo ………...Marie Derry
Hoagy Carmichael …..Butch Engle

Ainda: Cathy O'Donnell. Harold Russell, Gladys George, Roman Bohnen. Ray Collins, Minna Gombell, Walter Baldwin, Steve Cochran, Dorothy Adams

Oscar: Harold Russell (prêmio honorário), Samuel Goldwyn (melhor filme), William Wyler (diretor). Robert E. Sherwood (roteiro), Fredric March  (ator), Harold Russell (ator coadjuvante), Daniel Mandell (edição), Hugo Friedhofe! (música)

Indicação ao Oscar: Gordon Sawyer (som)

Hoje em dia este épico doméstico sobre três veteranos da Segunda Guerra Mundial retornando para a vida civil, de 172 minutos de duração e premiado nove vezes com o Oscar, é considerado datado. Críticos mordazes como Manny Farber e Robert Warshow foram bastante desdenhosos em relação a ele quando de seu lançamento – embora aparentemente por opiniões políticas opostas. Farber o viu como uma bobagem liberal valendo-se de uma abordagem conservadora, enquanto Warshow o avacalhou através de uma perspectiva mais marxista. Seu diretor, William Wyler, e sua fonte literária, o romance de MacKinlay Kantor, não estão nem um pouco em moda atualmente. O veterano no elenco, Harold Russell, que perdeu as mãos na guerra, foi alvo de reflexões indignadas de Warshow sobre masculinidade tolhida e até mesmo de piadas infames do humorista Terry Southern muitos anos depois. Por tudo isso, eu o chamaria de o melhor filme americano sobre o retorno de soldados para casa que já vi - o mais tocante e o que cala mais fundo. Ele serve de testemunha de seu tempo e dos seus contemporâneos como poucos outros longas de Hoolywood, e a fotografia de Gregg Toland, que explora bem a profundidade de campo, é um de seus melhores trabalhos. Parte do que é tão incomum sobre Os melhores anos de nossas vidas enquanto filme hollywoodiano é o seu senso de distinção de classe - a maneira como os destinos e carreiras de veteranos bem de vida (Match), de classe média (Russell) e proletários (Andrews) são sobrepostos. Confessadamente, o fato de todos se encontrarem em um bar cujo dono é Hoagy Carmichael tem algo de ardil sentimental, porém o relativo apagamento das fronteiras de classe no serviço militar que é brevemente transferido para a vida civil também tem seu lado plausível. As limitações de Russell como ator também foram usadas como argumento contra o filme, no entanto o fato de o aceitarmos como o veterano de guerra deficiente que ele era soa como uma verdade muito mais importante e documental que, nesse caso, suplanta os interesses da ficção. As cenas entre ele e sua noiva (fictícia) são arrebatadoras tanto por sua ternura quanto por sua honestidade. Poucas passagens no cinema americano se igualam a elas. JRos
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 182)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

181 1945 SEI ONDE FICA O PARAÍSO (I KNOW WHERE l'M GOING, INGLATERRA)


Direção: Michael Powell, Emeric Pressburger
Produção: George R. Busby, Michael Powell, Emeric Pressburger
Roteiro: Michael Powell, Emeric Pressburger
Fotografia: Erwln Hilller
Música: Allan Gray
Elenco:
Wendy Hiller ………Joan Webster
Roger Livesey …….Torquil MacNeil
Pamela Brown …….Catriona
Finlay Currie ………Ruairidh Mhór
George Carney ……Sr. Webster
Nancy Price ……….Sra. Crozier
Ainda: Walter Macludd, Captain Duncan MacKenzie, Adan Sidler, Finlay Currie, Murdo Morrinson, Margot Fitzsimmons,  Captain C. W. R. Knight, Donald Strachan, John Rae, Duncan Macintire,  Jean Cadell

Sei onde fica o paraíso se destaca como uma das mais perfeitas da série de obras-primas delirantes realizadas pela dupla Mlchael Powell e Emeric Pressburger na década de 40. Joan Webster (Wendy Hiller), muito sexy com seus terninhos, é uma jovem inglesa prática, típica do pós-guerra, que viaja para as ilhas Hébridas para se casar com um milionário velho o bastante para ser seu pai. No entanto, sua obstinada caça ao ouro é atrapalhada por um bando de escoceses estranhos que trama para que ela caia nos braços de seu amor predestinado: Torquil MacNeil (Roger Livesey), um herói de guerra local sem um tostão. Além de serem os únicos cineastas capazes de chamar impunemente um herói romântico de "Torquil", Powell e Pressburger vão contra a visão cínica de ilhéus escoceses conspiradores e beberrões de Alegrias a granel (1949), dos estúdios Ealing, apresentando um grupo tão trapaceiro quanto, mas que trabalha por uma boa causa. A inflexibilidade urbana de Joan é logo desarmada por um monte de lendas celtas envolvendo o redemoinho da região, que representa os deuses e permite um empolgante clímax de resgate no mar. Em um elenco de apoio enorme, Pamela Brown está especialmente memorável como Catriona Pottis, uma nativa sinistramente encantadora. KN
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 181)

180 1945 CURVA DO DESTINO (DETOUR, EUA)



Direção: Edgar G. Ulmer
Produção: Leon Fromkess, Martin Mooney
Roteiro: Martin Goldsmith, baseado no livro de sua autoria.
Fotografia: Benjamin H. Kline
Música: Leo Erdody, Clarence Gaskill, Jimmy McHugh
Elenco:
Tom Neal …………………Al Roberts
Ann Savage ………………Vera
Claudia Drake ……………Sue Harvey
Edmund MacDonald ……Charles Haskell Jr
Tim Ryan ……Proprietário de restaurante 
Esther Howard ……………Holly
Ainda: Pat Gleason

"O destino ou alguma outra força misteriosa pode mexer comigo ou com você sem nenhum motivo especial." Um dos maiores filmes B já produzidos, Curva do destino não tenta ir além dos seus orçamento e cronograma de filmagem apertados. Em vez disso, se aproveita da sua própria simplicidade, apresentando um mundo em algum lugar entre a ficção pulp e o existencialismo, no qual a vida tem valores de produção baixos e duração curta. Um músico de jazz maltrapilho (Tom Neal) que viaja de carona pelos Estados Unidos vê sua vida se transformar em um inferno quando um motorista cai morto, Incriminando-o. Ele se envolve com uma mulher vulgar (Ann Savage) que o leva à degradação e ao assassinato, culminando em uma briga inesquecível em um quarto de hotel barato na qual Savage acaba com um fio de telefone enrolado em volta do pescoço. Edgar G. Ulmer, um expressionista alemão suando a camisa em produções baratas, era um cineasta mais pretensioso do que seus admiradores gostariam de admitir, porém esta é uma das verdadeiras obras-primas da época em que ele passou nas trincheiras da classe Z. Os astros desconhecidos (Neal, um fracassado na vida real, mais tarde cumpriu pena por assassinato) são resolutamente desprovidos de glamour e os cenários de estúdio, beiras de estrada anônimas e paisagens retroprojetadas evocam um mundo saindo do controle - no qual os desdobramentos impulsionados por coincidências de um roteiro mal amarrado de filme B podem sugerir a influência maligna de um destino impiedoso. KN


179 1945 FARRAPO HUMANO (THE LOST WEEKEND, EUA)


Direção: Billy Wilder
Produção: Charles Brackett
Roteiro: Charles Brackett, Billy Wilder, baseado no livro de Charles R. Jackson
Fotografia: John F. Seitz
Música: Miklós Rózsa
Elenco:
Ray Milland …….....Don Birnam
Jane Wyman ……..Helen St. James
Phillip Terry ……….Nick Bernam
Howard Da Silva …Nat
Doris Dowling …… Gloria
Ainda: Frank Faylen, Mary Young, Anita Sharp-Bolster, Lillian Fontaine, Frank Orth, Lewis L. Russell, Clarence Muse

Oscar: Charles Brackett (melhor filme), Billly Wilder (diretor), Charles Charles Brackett, Billy Wilder (roteiro), Ray Milland (ator)

Indicação ao Oscar: John F. Seltz (fotografla), Doane Harrison (edição), Miklóns Rózsa (música)

Festival de Cannes: Billy Wilder (palma de Ouro), Ray Milland (ator)

Antes de Farrapo humano, bêbados em Hollywood eram em sua maioria figuras cômicas; na verdade, caricatas: bufões adoráveis cambaleando, fazendo piadas com a voz arrastada e passando cantadas em garotas bonitas. Billy Wilder e Charles Brackett seu co-roteirista habitual, ousaram fazer algo diferente, criando a primeira abordagemadulta, inteligente e impiedosa do cinema americano da terrível degradação do alcoolismo. Mesmo hoje em dia, algumas cenas são quase dolorosas demais de assistir. Ray Milland, em um papel que definiu sua carreira e lhe rendeu seu primeiro Oscar, interpreta Don Birnam, um escritor nova-iorquino lutando contra seu vício e finalmente sucumbindo a ele no espaço de um longo e calorento fim de semana de verão na cidade. Assim como fizera com Fred MacMurray em Pacto de sangue (1944), Wilder deslinda e explora avidamente a insegurança por trás da persona cinematográfica afável de Milland. Em vez de deixar que nos distanciemos e julguemos Birnam com uma compaixão imparcial, Wilder nos empurra junto com ele para o abismo. Somos obrigados a acompanhá-lo à medida que ele abdica de todos os seus escrúpulos, mostrando-se disposto a mentir, trair e roubar para arranjar dinheiro para beber, até que, de forma terrivelmente inevitável, acaba no Inferno de uma ala de alcoólatras de um hospital público gritando de horror diante das alucinações do delirium tremens. Algumas partes do filme foram rodadas em locações em Manhattan, e Wilder aproveita ao máximo as ruas secas e banhadas de sol, filmadas por seu diretor de fotografia John F. Seltz para parecerem áridas e vulgares, como se estivessem sendo vistas através do olhar turvo e autodepreciativo de Birnam. Em uma sequência inesquecível, o escritor, que se rebaixa a ponto de tentar penhorar sua máquina de escrever para conseguir dinheiro para bebida, atravessa toda a poeirenta 3rd Avenue arrastando a máquina pesada - apenas para descobrir que é Yom Kippur e todas as lojas de penhores estão fechadas. Mais angustiante ainda é a cena em uma boate em que Birman sucumbe à tentação e tenta roubar dinheiro da bolsa de uma mulher - apenas para ser pego e humilhantemente jogado para fora enquanto o pianista lidera a clientela em um coro que canta "Somebody Stole Her Purse" ("Alguém roubou a bolsa dela") à melodia de "Somebody Stole My Gal". A trilha de Miklós Rózsa faz uso magistral do teremim, o antigo instrumento eletrônico cuja sonoridade sinistra e oscilante evoca perfeitamente a visão de mundo embriagada e fora de controle de Birnam. A censura do Código de Produção impôs um final feliz, embora Wilder e Brackett tenham conseguido evitar algo muito absurdamente animador. Mesmo assim, a Paramount estava convicta de que o filme seria um fracasso, com a alarmada Indústria de bebidas oferecendo ao estúdio 5 milhões de dólares para que ele fosse enterrado de vez. Os adeptos da Lei Seca, por outro lado, estavam em polvorosa, afirmando que ele encorajaria o hábito de beber. Apesar de tudo. Farrapo humano foi um grande sucesso de crítica e de público. "Foi depois dele", afirmou Wilder, "que as pessoas começaram a me levar a sério." Nenhum outro filme posterior sobre o alcoolismo, ou sobre qualquer outra forma de vício, conseguiu evitar uma mesura a Farrapo humano. PK
(1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER 179)