sábado, 4 de julho de 2015
#186 1965 FASTER, PUSSYCATS! KILL! KILL! (FASTER, PUSSYCATS! KILL! KILL!, EUA)
Direção: Russ Meyer
Roteiro: Jack Moran, Russ
Meyer (história original)
Produção: Eve Meyer, Russ
Meyer, George Costello e Fred Owens (Produtor Associado)
Elenco: Tura Santana, Haji,
Lori Williams, Sue Bernard, Dennis Busch, Stuart Lancaster, Paul Trinka
Faster,
Pussycat! Kill! Kill! é o cultuado filme de Russ Meyer que
definiu toda a estética grindhouse, sendo o primeiro a escancarar o caminho
para que os filmes exploitation se tornassem febre nos cinemas
decadentes no final dos anos 60 e todos os anos 70, com suas doses cavalares de
sexo e sangue e todas as suas demais vertentes com o
sufixo sploitation (sex, black, nun, e por aí vai…). A narração
de abertura do longa por si só é espetacular: “Senhoras e senhores, bem vindo à
violência. Tanto da palavra como da ação. Porque a violência pode manifestar-se
de várias maneiras, sendo que sua forma preferida ainda continua sendo… sexo”.
E daí já emenda com todo o conceito pelo qual o filme roda: “Examinemos mais
detalhadamente esta nova maligna criação, esta nova geração presa e contida na
pele macia da mulher”. Faster… é uma ode à violência das mulheres, como o
próprio Meyer definiu, e tirou do cinema aquela mulher frágil e dependente dos
mocinhos, colocando em seu lugar a figura da vixen, da mulher de
personalidade forte, que explora muito bem sua sexualidade e não vê nenhum
problema em meter a porrada em marmanjos, dirigir carros possantes e mandar as
boas maneiras às favas. Todas as garotas deveriam
assistir Faster… pelo menos uma vez. Aqui temos o surgimento da
mulher forte, inteligente e perigosa. As três personagens principais, Varla,
Rosie e Billie são As Panteras ao avesso. E isso tudo em pleno meados dos anos
60, com a revolução feminina estourando assim como a batalha pelos direitos
iguais das mulheres. Um dos vários personagens caricatos do filme, o “Velho”
solta a pérola em determinado momento: “Mulheres. Permitiram a vocês votar, dirigir
e fumar. Até usar calças. E o que aconteceu? Um democrata na presidência”. E
esse humor ácido carregado vai permear todo o filme, com seus diálogos
incrivelmente afiados, situações inusitadas, linguajar chulo, e a explosiva
combinação de beldades, violência, sadismo e velocidade, verdadeiro deleite
para qualquer fã dos filmes B. A insólita história das três go go
dancers que pegam seus carros envenenados, vão para o deserto, apostam
racha com um coxa e sua namoradinha ingênua, matam o rapaz, sequestram a menina
e ainda querem roubar toda a grana de um velho aleijado que tem um filho meio
mongoloide, é impagável. E o que falar então dos seus decotes enormes, calças
justas, barriguinhas de fora, roupas provocantes, cenas de nudez parcial (como
os banhos das meninas na bomba de água em pleno deserto) e toda a sua
fortíssima conotação sexual? Varla, interpretada pela icônica Tura Santana, é a
megera em forma de mulher. Dominatrix, tem uma tremenda influência em suas
comparsas de crime e parceiras de dança: Rosie, a espevitada e bocuda e Billie,
com seu caricatíssimo sotaque italiano, lésbica reprimida que nutre uma paixão
platônica por Varla. A primeira maldade do trio, como disse no parágrafo acima,
é disputar racha no meio do deserto com um típico mauricinho americano (como
elas mesmo definem) e sua namorada sonsa, que não acaba nada bem para a dupla
tão encaixada no american way of life dos anos 60: ele é morto,
estrangulado por Varla, após tomar um cacete da mulher, o tal sexo frágil, e a
moça é sequestrada, amordaçada, drogada, espancada e torturada
psicologicamente. Ao parar em um posto de gasolina para abastecer, conhecem a
história do “Velho”, muquirana confinado a uma cadeira de rodas, podre de rico,
avarento, rabugento, que mora em um rancho no meio do deserto com seus dois
filhos, Kirk, o bonzinho reprimido e “Vegetal”, que tem um certo retardo mental
e todo marombado pois vive se exercitando. Esse é o passaporte para as três
mulheres fatais tentarem pegar a grana, despachar a dondoca que sequestraram e
não precisar dançar nunca mais. Mas por mais que o cenário pareça positivo, não
vai ser moleza para as três conseguirem esse dinheiro. O Velho é um baita de um
misógino que simplesmente odeia as mulheres devido a um distorcido senso de
vingança, afinal foi uma mulher que fez ele quebrar a espinha em uma acidente
de trem e ficar paraplégico, que usa seu filho brutamontes para raptá-las e
violentá-las. Juntando todos esses elementos malucos, o filme vai ficando cada
vez mais divertido, até seu final, principalmente os assassinatos e na forma
com que vão acontecendo. E olha que o narrador também avisa no começo da fita:
“Mas atenção, ajam com cuidado e não baixem a guarda”. Faster… é lendário
e importantíssimo para a história do cinema. É O FILME para quem é fã de
Quentin Tarantino, Robert Rodrigues e cia, e acha que eles são originalíssimos
e o maiores gênios que já andaram por essa terra. Faster… , por
exemplo, é uma das grandes referências de Tarantino. Tanto que seu filme À
Prova de Morte é uma homenagem rasgadíssima e ele. E também não deixe de
ouvir a música tema, Run Pussy Cat do Bostweeds, para entender mais um pouco
do que estou falando também sobre as influências musicais de Tarantino em suas
produções.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/06/13/186-faster-pussycat-kill-kill-1965/
1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER
444 1965 Faster, Pussycat! Kill! Kill!
#185 1965 COLOR ME BLOOD RED (Color Me Blood Red, EUA)
Direção: Herschell Gordon
Lewis
Roteiro: Herschell Gordon
Lewis
Produção: David F. Friedman
Elenco: Gordon Oas-Heim, Candi
Conder, Elyn Warner, Patricia Lee, Jerome Eden, Scott H. Hall
Color Me
Blood Red é mais um escracho do pai do gore, H.G. Lewis. E
completa sua famosa Trilogia de Sangue, que havia começado com Banquete de Sangue e seguido por Maníacos.
Trilogia essa que trouxe definitivamente sangue, tripas, vísceras e humor negro
mordaz para o universo do cinema de terror. É um filme mais fraco do que seus
dois longas anteriores inquestionavelmente, mas mantém a mesma marca H.G. Lewis
de filmar: orçamento ridículo (aproximadamente 50 mil dólares), atores bisonhos
fazendo papeis caricatos, diálogos recheados de humor negro e piadinhas
sádicas, e claro, muito sangue, marca registrada desse desbravador do
cinema exploitation. Depois de um assassino psicopata que venera uma deusa
egípcia e de uma cidade cheia de sulistas sedentos por vingança, agora é a vez
de nós conhecermos um pintor medíocre, que é um verdadeiro sucesso comercial
mas um desastre sem talento para a crítica de arte, chamado Romero Bri… quer
dizer, Adam Sorg, vivido por Gordon Oas-Helm (sob o pseudônimo de Don Joseph),
que além de irritado, alucinado, transtornado e nervoso, acaba descobrindo um
lado serial killer ao encontrar a tinta perfeita que fará suas
pinturas serem aclamadas: sangue. Sorg descobre a sua genialidade pintando com
sangue quando a sua namorada se fere em um prego na moldura, e ele usa seu dedo
para pintar um de seus quadros inacabados. Depois ele tenta usar seu próprio
sangue, mas fica muito fraco e desmaia. Não sobra alternativa para o artista, senão
matar a namorada, com uma facada na cabeça, e usar o precioso fluído vital dela
para fazer sua obra prima. Detalhe da cena em que ele fica esfregando a cabeça
da garota moribunda na tela para conseguir o efeito desejado. Impagável. A obra
de Sorg é recebida com furor pelo estereotipado crítico de arte Gregorovich, e
pelo dono da galeria que expões os quadros do pintor, Farnsworth. E apesar o
valor astronômico de 15 mil dólares pela pintura, querendo ser comprada pela
ricaça colecionadora de arte Sra. Carter, Sorg diz que a mesma não está a
venda. Além disso é desafiado por Gregorovich, questionando se ele faria outra
obra tão impactante ou era apenas um lampejo de uma genialidade não existente
de verdade. Sorg, completamente insano e desequilibrado, começa então a matar a
torto e a direito para conseguir sua “tinta especial”. Primeiramente um casal
na praia deserta em que Sorg tem uma casa. Fique atentíssimo a cena em que ele
prende a garota do casal pelos braços, e com a menina com as entranhas de fora,
ele fica espremendo suas tripas, parecendo que está ordenhando uma vaca, para
esguichar sangue em sua paleta de pintura. Depois a pretensa vítima será
exatamente April, a filha da Sra. Cartesr, maior admiradora e compradora da sua
arte. Que é salva na hora H pelo seu namorado, quando o pintor lunático estava
pronto para desferir uma machadada na pobre moça. Fantástico mesmo é a cena
final, com Gregorovich e Farnsworth queimando os quadros de Sorg e o crítico de
arte esnobe com sua boina francesa na cabeça solta a seguinte pérola, antes dos
créditos subirem: “Você deveria pelo menos ter aproveitado a moldura”. Genial! Mas
como disse lá em cima, apesar do aumento da capacidade técnica de Lewis como
diretor, Color Me Blood Red é bem fraquinho e tem uma falta maior de
entusiasmo, temeridade e irreverência em comparação aos seus dois primeiros
filmes. Tanto que um quarto filme seria produzido por David F. Friedman, mas
acabou não saindo do papel, pois segundo o produtor, filmes super
gore estavam próximos do ponto de saturação do mercado naquele momento. E
olhe que o grindhouse nem tinha chegado ao seu auge, e ainda viria
por aí todo o clico splatter italiano e os slasher movies.
Fonte:
http://101horrormovies.com/2013/06/12/185-color-me-blood-red-1965/
#181 1964 SEIS MULHERES PARA O ASSASSINO (Sei donne per l’assassino, Itália, França, Mônaco)
Direção: Mario Bava
Roteiro: Marcello Fondato
Produção:Alfredo Mirabile,
Massimo Patrizi
Elenco: Cameron Mitchell,
Eva Bartok, Thomas Reiner, Ariana Gorini, Dante DiPaolo, Mary Arden
Seis Mulheres
para o Assassino, do mestre Mario Bava, é um dos pioneiros
do giallo, estilo que seria popularíssimo na Itália durante os anos de 60
e 70, e foi imprescindível para subverter a ordem dos filmes de mistério e
assassinato e abrir as porteiras para a extensa contagem de cadáveres dos
filmesslasher nos anos 80. O termo giallo, que significa amarelo, foi
emprestado da literatura pulp italiana para caracterizar esse tipo de
filme, geralmente com assassinos usando máscaras e luvas de couro pretas, que
matam mulheres devido a algum tipo de trauma, muitas vezes durante a infância,
sempre regado de muita violência, sangue e nudez, dotados de roteiros com furos
estrambólicos, atuações caricatas e trilha sonora contundente e pouco usual,
usando desde rock progressivo, até jazz e ópera. Cansado dos clichês dos filmes
de detetives, os famosos whodunit (que vem de Who has done it?),
aqueles em que acompanhamos o investigador na caça ao assassino, procurando
pistas, e vamos descobrindo as evidência ao mesmo tempo que o personagem, na
melhor tradição do escritor Edgar Wallace, Bava resolveu dar muito mais
importância aos assassinatos em si e em colocar um espectador como um cúmplice,
testemunha ocular das horrendas mortes, do que a investigação em si. E isso
jogou uma nova luz no modo de se fazer filme com assassinos, que viria a
influenciar uma penca de gente, incluindo aí o especialista no gênero, Dario
Argento. Com total controle sobre os aspectos do filme após os sucessos
internacionais de A Máscara de Satã de 1960 e As Três Máscaras do Terror de 1963, Bava driblou o
baixo orçamento de parcos 150 mil e nos entrega uma obra visualmente
caprichada, típica dos trabalhos do ex-diretor de fotografia, com o excelente
uso de cores berrantes, principalmente o vermelho, design de produção
impecável, elegância no enquadramento e uso de impressionantes técnicas de
filmagem, como desconfortantes close-ups, que nos aproxima de personagens, mas
ao mesmo tempo, nos mantém afastados de sua verdadeira essência, planos
sequência e travellings assustadores (alguns utilizando até carrinhos
de mão infantis) que passeia por entre jardins, corredores escuros e halls
amplos com seus manequins super coloridos que saltam aos olhos. A trama
de Seis Mulheres para o Assassino circunda um importante ateliê de
moda em Roma, onde relacionamentos díspares, uso de drogas, ciúme, traição,
ganância e obsessão interagem entre um disfuncional grupo de pessoas que tem o
local como centro de suas vidas, de forma direta por trabalharem por lá, ou por
conta de relações escusas ou sexuais com os funcionários dali. O primeiro
assassinato é de Nicole, uma das modelos, com problemas de drogas e amante do
dono de um antiquário, que é atacada na calada da noite, enquanto era procurada
por outro personagem para obter cocaína, por um misterioso assassino que usa um
capote preto, chapéu, luvas e uma máscara amorfa em seu rosto, impedindo de que
sua identidade seja descoberta. Como todo bom giallo, outras quatro
mulheres ainda serão assassinadas de forma violenta: asfixiadas, afogadas e
torturadas, uma inclusive cruelmente tendo seu rosto forçado contra um
fogareiro quente, com doses generosas de sangue feito de guache, mas sem nada
ultraviolento como as produções vindouras de Dario Argento, até que naquelas
reviravoltas típicas de um dramalhão mexicano, algo rotineiro no giallo,
nos é apresentado o assassino(s) e sua terrível(eis) motivação(ões). E com essa
salada toda, Bava apresenta personagens os quais não conseguimos nos
identificar com nenhum, por isso pode executar sua selvageria assassina em paz
e sem remorso, cercado de homens e mulheres que são nada mais que aparências e
nada é o que parece ser, desde marqueses, condessas, homens de negócios, até o
ineficaz e petulante detetive que conduz as investigações. Qualquer um pode ser
o assassino, e todos podem ser vítimas, sem que torçamos por ninguém. E Bava é
mestre neste tipo de distanciamento provocado pela falta de escrúpulo de seus
protagonistas, moralmente e socialmente falidos, com seus relacionamentos
triviais e jogo de interesses e aparências. Bava é um mestre do gênero. Inegável. Seis
Mulheres para o Assassino, seu primeiro giallo é um filme cruel, que escancara
a perversão neste universo de sangue e renda preta (interessantíssimo título
que o filme ganhou no mercado internacional: Blood and Black Lace). Sua macabra
filmografia deve ser vista de cabo a rabo, para entender melhor todos os
recursos e a superioridade deste, que para mim, foi o maior cineasta italiano
do horror.
FONTE:
http://101horrormovies.com/2013/06/07/181-seis-mulheres-para-o-assassino-1964/
sexta-feira, 3 de julho de 2015
#180 1964 AS QUATRO FASCES DO MEDO (Kaidan / Kwaidan / Ghost Stories, Japão)
Direção: Masaki Kobayashi
Roteiro: Yôko Mizuki (baseado na
obra de Lafcadio Hearn)
Produção: Shigeru Wakatsuki
Elenco: Michiyo Aratama,
Misako Watanabe, Rentarô Mikuni, Tatsuya Nakadai, Keiko Kishi, Katsuo Nakamura,
Takashi Shimura, Osamu Takizawa, Haruko Sugimura
Não é novidade para ninguém que é
fã do horror, a capacidade dos asiáticos, e principalmente dos japoneses, em
fazer histórias verdadeiramente assustadoras e repletas de poesia e lirismo.
Esse é o caso de As Quatro Faces do Medo, ou simplesmente Kaidan, uma das
sublimes obras primas do cinema de terror japonês. Mas já vou avisando de
antemão: se você é fã do J-Horror moderno, graças a fitas
como Ringu – O Chamado e Ju-On – O Grito, e principalmente suas
refilmagens americanas e estiver esperando um filme repleto de jump
scares e espíritos demoníacos com seus longos cabelos negros, esqueça, bem
capaz de você se decepcionar com As Quatro Faces do Medo. Quer dizer, você
até verá espíritos e personagens femininos com longos cabelos negros, mas nada
perto do impacto de Sadako, Kaiako e companhia limitada. O filme de Masaki
Kobayashi, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e à Palma de Ouro
em Cannes e ganhador do prêmio especial do Júri no mesmo festival, é baseado no
livro do escritor irlandês Lafcadio Hearn, um apaixonado pela cultura
nipônica, Kwaidan: Stories and
Studies of Strange Things. Kwaidan é uma tradução da palavra arcaica Kaidan, que significa “história de fantasmas”. Estes contos
foram traduzidos de antigos manuscritos japoneses, baseado em experiências dos
camponeses e pessoas simples do Japão feudal, registradas por historiadores e
folcloristas. Kobayashi então escolheu quatro contos do livro, e criou uma obra
que enche os olhos, que agiu como responsável pela introdução da mitologia
japonesa para o mundo ocidental, fortemente influenciado pelas religiões
budistas e xintoístas, trazendo alguns elementos que são comuns nestas chamadas
histórias de horror japonesas, como espíritos vingativos, almas torturadas,
remorso, culpa, simbolismos morais e românticos, e também como influência
estética e narrativa para muito do que se foi visto no cinema de terror
oriental futuramente. Em toda sua extensa metragem (o filme tem 183 minutos), o
cineasta constrói fábulas sobrenaturais, com todos os elementos fantasmagóricos
que tem direito, sem a mínima violência explícita, calcada no suspense
arrastado, vezes silencioso e vezes pontuado pela contundente trilha sonora de
Tôru Takemitsu e os perturbadores efeitos sonoros de Hideo Nishizaki. Também
formado em Belas Artes, Kobayashi abusa de uma notável beleza plástica, domínio
completo sobre os planos, luz e sombra, tonalidades quentes e frias, paisagens
exuberantes que mesclam tomadas externas, de estúdio e o uso de cenários
artificiais, tudo isso captado pela belíssima fotografia de Yoshio Miyajima a
tiracolo.
O primeiro segmento é O Cabelo Negro. Para traçar um
paralelo, esse conto em particular é uma espécie da gênese
do J-Horror moderno. Um samurai de província de Kyoto é submetido a
pobreza ao final das batalhas, e cansado da vida que leva naquelas parcas
condições, resolve abandonar a esposa para tentar ascender na vida, mesmo a
pobre implorando para que ficasse com ela, que ela teceria noite e dia sem
parar e trabalharia como escrava se fosse preciso. O samurai então casa-se com
uma mulher de família e consegue a tão sonhada fortuna e status, porém, como
diz o ditado, “dinheiro não traz felicidade”, a nova esposa não consegue fazer
o homem feliz. Ao término de seu contrato oficial, ele resolve voltar à cidade
e aos braços de sua antiga esposa, a qual nunca deixou de pensar sequer um
minuto. Os dois passam uma noite juntos, quando as coisas mostram-se não ser
bem o que aparentam na manhã seguinte. Daí pelo final do segmento, onde os longos
cabelos negros vingativos partem para o ataque, que eu concluo que a personagem
é no mínimo avó de Sadako e da Kaiako. Para mim, é a melhor história das
quatro, realmente aterradora em seu final, com uma excelente fotografia,
cenário desolador, maquiagem e efeitos especiais.
Segue-se a próxima história, A Mulher das Neves, outro conto
assustador, um verdadeiro espetáculo visual em sua primeira metade, quando dois
lenhadores, um velho e seu jovem aprendiz, são apanhados por uma terrível
nevasca ao voltarem para a casa, e à beira da morte tentando se proteger em uma
cabana abandonada, recebem a visita da Yuki-Onna, figura folclórica japonesa
que dá o título a este segmento. O espírito suga todo o sangue do velho,
matando-o congelado no mesmo instante. Ao ver o desespero de Minokichi, o
ajudante mais novo, ela fica tocada em tirar a vida de alguém tão jovem, e
resolve poupá-lo, fazendo-o prometer que ele nunca contará aquela história para
ninguém, nem para senhora sua mãe. O tempo passa e após uma longa recuperação,
Monokichi volta a trabalhar e um dia nos campos encontra a bela e triste Yuki,
que buscava trabalho no vilarejo após ter perdido sua família. Monokichi a
acolhe em sua casa e logo os dois se apaixonam e tem três filhos. Mas detalhe
que a garota nunca envelhecia e sempre mantinha-se bela, despertando a inveja
das lavadeiras fofoqueiras da aldeia. Até que certa noite, o homem lembra-se da
história que se passou na floresta congelada e conta para sua esposa. Daí já
viu. Só colocar os pingos nos is, ver que o nome da garota é Yuki e pronto,
você já vai sacar o que pode acontecer. Um parêntese é que o sujeito ficou
casado por anos com a mulher, teve três filhos, mas nunca reparou que ela era a
mesma figura fantasmagórica que poupou sua vida. Isso que é não reparar na
esposa mesmo.
O terceiro conto, para mim é o
pior de todos. O mais longo, o mais chato e o que mais testa a paciência do
espectador, isso após já ter se passado mais de 1h de filme. Eu sei, a história
é de uma beleza plástica ímpar, narrando uma batalha entre dois clãs de
samurais sobre o controle do Japão. A história medieval japonesa é bela e
lírica. Mas ficar aguentando um sujeito cantando essa história com uma voz
desafinadíssima, é duro de aguentar. No final desta épica batalha o clã Taira é
derrotado e uma tragédia acomete todos que resolvem se suicidar, inclusive o
pequeno imperador, pois essa alternativa é preferível a cair nas mãos do
inimigo. Pois bem, o personagem principal do conto é Hoichi (sendo que o
segmento leva o seu nome, Hoichi – O Sem
Orelha), um biwa hoshi, termo que designa jovens músicos viajantes, geralmente
cegos e com a cabeça raspada, que se veste como um monge e cantam os folclores
japoneses. Inofensivo, tímido e frágil, certa noite o rapazinho recebe a visita
de um samurai que conhecia seu grande talento para cantar as histórias sobre
aquela antiga batalha e o convida para se apresentar aos seus mestres. E isso
se repete por todas as noites dali por diante. Hoichi não dorme mais, está
fraco e estafado. Até que certa noite, preocupado com sua saúde, dois monges o
seguem e descobrem que ele está sendo levado por espíritos para o cemitério
onde o imperador dos Taira fora enterrado, e obrigam-no a cantar repetidas
vezes, todas as noites, as histórias do passado deles. A lenda de Hoichi é
famosa pelo Japão, e o momento de maior violência de todo o filme, é quando ele
irá perder suas orelhas, explicando assim o título do conto, quando um dos
samurais o faz pagar pela sua ofensa de parar de responder e visitar os
espíritos. É uma história comovente, detalhada e com uma ambientação
riquíssima, mas sua mais de uma hora de duração e ritmo extremamente lento,
além da conclusão que deixa a desejar, torna esse segmento o mais estafante de
ser visto.
A última história é Em uma Xícara de Chá, com apenas 25
minutos, rápida e objetiva, e traz uma surreal trama de um oficial de um destacamento
militar que ao ver seu reflexo na água, é surpreendido por outra pessoa,
sorrindo, de forma cínica, que ficava o encarando. Sem hesitação, ele bebe a
água e passa a ser assombrado pela presença do homem na xícara, que o desafia
para um duelo. Após vencer esse misterioso homem, mais outros três aparecem
para atormentá-lo, o que acaba criando um novo embate entre eles. No dia
seguinte, um velho senhor vai até sua casa para lhe desejar feliz ano novo e
ele e a madame não o encontram, até que então teremos o impactante e aterrador
desfecho, que lembra muito também os J-Horrors modernos, sem oferecer
nenhuma explicação lógica e plausível, e acentuado o horror e o medo nas
pessoas que descobrem o destino do guarda.
FONTE:
http://101horrormovies.com/2013/06/06/180-as-quatro-faces-do-medo-1964/
quinta-feira, 2 de julho de 2015
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