segunda-feira, 10 de agosto de 2015

#852 2008 MARTYRS (Martyrs, França, Canadá)


Direção: Pascal Laugier
Roteiro: Pascal Laugier
Produção: Richard Grandpierre, Simon Trottier (Co-produtor), Frédéric Doniguian e Marcel Giroux (Produtores Executivos)
Elenco: Morjana Alaoui, Mylène Jampanoï, Catherine Bégin, Juliette Gosselin

Eu não quero parecer redundante, mas eu sempre venho dizendo aqui que o ciclo conhecido como new french extremity, nos trouxe os melhores exemplares do gênero de meados até final da década passada. E Martyrs é o seu auge! Um filme extremo, completamente pirado, daquele tipo que faz você se sentir mal quando termina de assistir e ficar horas e horas com ele na sua cabeça tentando assimilar tudo aquilo que acabou de ver. O longa franco-canadense impressionante de Pascal Laugier requer uma ampla reflexão, e é quase impossível de fazê-la sem entregar vários spoliers. Por isso tentarei fazê-lo na medida do possível. Primeiro é bom falar que é um autêntico gore francês, ao melhor estilo Alta Tensão e A Invasora, que flerta muito bem com o exploitaition e o torture porn. É impossível passar indiferente. Vai provocar uma reação em você. Pode ser de repulsa, de nojo, de revolta, de indignação, de horror, de estupefação. Sei lá. Mas incólume ele não deixa seus espectadores e ele se mostra bem claro, desde sua sequência de abertura, que foi todo trabalhando na intenção de chocar. O filme pode ser dividido em duas partes completamente diferentes. No começo, somos apresentados a uma jovem Lucie, garota que escapou de um terrível cárcere onde era torturada física e psicologicamente. Ela vai parar em uma instituição onde conhece Anna, de quem fica amiga e confidente. Passam-se 15 anos e Lucie (agora interpretada por Mylène Jampanoï) cresceu mentalmente instável, deprimida, com pesadas alucinações e tendências suicidas. Ela viveu todo esse tempo em busca de vingança de quem fez aquilo com ela e encontra seus torturadores por meio de um recorte de jornal. A vingança começa um ritmo frenético e com litros de sangue derramado, como todo bomnew french extremity, quando Lucie invade a casa da família de seus ricos algozes, enquanto tomam um belo café da manhã em uma idílica manhã de domingo. Armada com uma calibre 12., ela extermina todos os moradores da casa, inclusive os filhos adolescentes que não têm nada a ver com o pato. Tudo isso para saciar uma espécie de demônio interno que persegue e mutila Lucie desde garota, personificada por uma deformada mulher magra, meio zumbi, meio menina Medeiros de REC e meio fantasma de filme japonês, que ela deixou presa e não prestou ajuda quando fugiu há 15 anos. Anna (a excelente Morjana Alaoui), que sempre esteve do lado da amiga nutrindo uma paixão lésbica não consumada, tenta ajudá-la a limpar a bagunça e dar um sumiço nos corpos, enquanto Lucie continua surtando tendo suas visões paranoicas da criatura a perseguindo, que logo vamos ver que na verdade só existe na sua cabeça, mas que desde o começo é bem óbvio, e isso faz com que ela acabe se suicidando (mas em sua cabeça doentia foi a outra). Daí o filme vai mudar completamente e vamos voltar ao começo da trama, onde descobrimos que o pai e a mãe daquela família continuam com sua atividade paralela e na verdade eles pertencem a uma organização de endinheirados que torturam as pessoas para descobrir mártires. E Anna, capturada nessa altura do campeonato, será a próxima. Daqui para frente vem os SPOILERS pesados, só para quem já viu o filme. Então pule para o último paragrafo e faça um favor a si mesmo: assista-o e depois volte para cá, ou leia por sua conta e risco. Aquele ritmo tenso e alucinado do início agora muda completamente e o filme começa a se arrastar para mostrar Anna comendo o pão que o diabo amassou, levando porrada e sendo alimentada com uma gororoba todo santo dia, até ela deixar se levar e estar pronta para ser transformada em mártir. Mas o que raios é isso? Segundo a Senhora, cabeça da organização que é um cópia da Fernanda Montenegro, o mártir não é simplesmente uma vítima. É uma testemunha, que irá passar por uma momentos extremamente traumáticos de dor e sofrimento prolongado, para que viva uma experiência transcendental de quase morte e que possa voltar e contar de forma vívida e lúcida sua epifania. Ou seja, um bando de velhos podres de ricos querem saber o que existe depois da morte, para entender qual o sentido da vida. Então financiam um grupo que tortura pessoas, de preferência jovens mulheres que são mais aptas a serem martirizadas, para que elas contem a eles sua revelação e eles possam ter uma maior conhecimento metafísico do que os espera. E daí o diretor joga uma luz sobre um desejo religioso claramente cristão, que na teoria deveria ser avesso a tudo que Anna e todas as outras garotas passaram. Isso é ou não é uma coisa maluca? Será que existe gente capaz de fazer isso de verdade? Esse é o tal embrulho no estômago que você sente ao terminar de ver o filme. E a questão aqui não é a violência gráfica em si. Afinal se você é fã de terror, ver cenas de tortura, sangue, espancamento e até escalpelamento, já virou rotina. O problema é tudo isso ser feito para, de alguma forma, tentar mostrar que para aquelas pessoas os fins justificam os meios. Daí é muito para minha cabeça! E no final é como se o diretor nos sacaneasse, assim como sacaneou todos aqueles que se reuniram para ouvir o que a Senhora tem a dizer sobre o testemunho de Anna enquanto teve sua revelação, seja ela qual for. Afinal, ela mete uma bala na cabeça antes de contar para todo mundo, levando o segredo para o túmulo. Pascal Laugier trollou geral. Mas isso que é instigante, que foge da regra do cinema convencional, principalmente o americano (nem vou citar aquele sofrível remake, porque vai que é doença…). O filme continua depois dos créditos, nas discussões, nas conclusões variadas que podem ser apresentadas. O que será que ela viu? Por que a Senhora se matou? Ela viu algo muito sublime? Viu algum lugar que tem certeza que não irá depois de bater as botas? Ou não viu absolutamente nada e toda essa busca não teve o menor sentido? Vai saber. Enfim, com atuações impressionantes das duas atrizes principais, e também da monstrenga fruto da alucinação de Lucie, ou mesmo da outra prisioneira que Anna encontra no calabouço subterrâneo da casa dos torturadores, Martyrs é um filme que impressiona. E mesmo se você for velho de guerra e escolado no cinema de terror, vai concordar comigo que é uma obra original, surpreendente, gráfica e transgressora. Porque no fundo ela trata o ser humano como descartável, e tende a extrapolar o limite para questionar qual o diabo que temos que passar para perder nossa humanidade, o quanto devemos sofrer para nos tornarmos santos aos olhos dos outros e por que não, de uma força superior e o quanto a religião, mesmo que travestida, pode gerar absurdos de comportamento. Nada em Martyrs é gratuito. Nem sua dose alta de crueldade e violência, nem seus pontos de reflexão.
FONTE: https://101horrormovies.com/2016/06/09/852-martyrs-2008/


#216 1968 A MALDIÇÃO DO ALTAR ESCARLATE (Curse of the Crimson Altar/The Crimson Altar/The Crimson Cult, Reino Unido)


Direção: Vernon Sewell
Roteiro: Mervyn Haisman, Henry Lincoln, Jerry Sohl (história) (baseado no conto de H.P. Lovecraft – não creditado)
Produção: Louis M. Heyward, Gerry Levy e Tony Tenser (Produtores Executivos)
Elenco: Boris Karloff, Christopher Lee, Mark Eden, Barbara Steele, Michael Gough

Um elenco estelar do cinema de horror define A Maldição do Altar Escarlate. Saca só: Boris Karloff, Christopher Lee, Barbara Steele e Michael Gough. É mole? Ah, e a história é livremente baseada em um conto de H.P. Lovecraft. Os anos 60 foram um terreno fértil para as adaptações cinematográficas da obra de Edgar Allan Poe, principalmente durante o proeminente ciclo dirigido por Roger Corman. Outro escritor do fantástico, H.P. Lovecraft, também teve alguns de seus contos, de forma mais modesta, adaptados para a telona. Uma delas dirigida pelo próprio Corman, O Castelo Assombrado, com Vincent Price no elenco (mas que comercialmente foi enxertado nesse ciclo Poe e vendido como uma adaptação do escritor de Baltimore), baseado em O Caso de Charles Dexter Ward, e Morte para um Monstro, de Daniel Haller, adaptado de A Cor que Caiu do Céu, que também trazia Boris Karloff nos créditos. A trama lisérgica, exagerada, clichê e desconexa de A Maldição do Altar Escarlate foi escrita por Mervyn Haisman e Henry Lincoln, baseado no conto Sonhos na Casa da Bruxa, que mais tarde seria novamente adaptado no interessante episódio de Sutart Gordon para a série Masters of Horror. Gordon por sinal foi um dos diretores que mais acertaram nas difíceis adaptações de Lovecraft para o cinema durante a década de 80, vide Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos e Do Além. Além disso, os temas do longa são muito comuns ao cinema dos anos 60: bruxaria e seitas satânicas. A década foi terreno fértil para diversos filmes do gênero, como A Máscara de SatãHorror HotelA Filha de SatãAs Bodas de Satã (quanto filme com satã no título, não?) e O Bebê de Rosemary, entre outros. A Maldição do Altar Escarlate é simples, com todos os elementos característicos do gênero, que tem muito mais peso pela quantidade de figurinhas carimbadas do terror, do que por sua trama e originalidade em si. Lançado no Brasil pela extinta CIC Vídeo, este melancolicamente é o último filme de Boris Karloff lançado em vida, que aqui tadinho, já está bem velho, usando cadeira de rodas e com a saúde já bastante debilitada. Robert Manning (Mark Eden) está em busca de seu irmão, Peter, desaparecido misteriosamente, visto pela última vez na cidade de Greymarsh, onde mandou uma carta em um papel timbrado da casa de Craxted Lodge. Ao chegar ao local tarde da noite, ele já cai em uma festa de arromba, quase uma orgia na verdade, ao melhor estilo espírito livre dos anos 60, com jovens dançando, bebendo, se drogando e fazendo amor. Lá ele conhece e se apaixonada pela atirada loira Eve (Virginia Wetherell), filha do dono da casa, Morley (Christopher Lee), que nega Peter ter estado em seu aposento. O solícito Morley oferece sua casa para Robert, enquanto continua sua busca pelo irmão pela cidade. Porém Robert todas as noites começa a passar por estranhas experiências de pesadelos vívidos e alucinações pesadas, parecendo que tomou doses cavalares de ácido, incluindo participar de um ritual de bruxaria ministrado por Lavinia (Barbara Steele), uma bruxa verde secular que é ancestral dos Morley, e foi julgada e condenada há séculos. Quando o especialista no oculto, professor Marshe (derradeiro papel de Karloff), conta para Robert sobre os rituais sabáticos realizados no local, ele acaba desvendando os segredos desse culto, que acontece até os dias de hoje e tem Morley como sacerdote, que busca por vingança e sacrifícios para seus ritos macabros. Uma curiosidade é que a casa usada como cenário do filme foi a Grim’s Dyke House, em Harrow Weald, Middlesex. Esta casa foi a propriedade de William S. Gilbert da dupla Gilbert & Sulivan, parceria entre o libertista e compositor da era teatral vitoriana, responsáveis pela realização de diversas óperas cômicas entre 1871 e 1896. A Maldição do Altar Escarlate não traz absolutamente nada de novo, e chega a ser enfadonho na maior parte do tempo, exceto os momentos brilhantes de Karloff e Lee em cena, também uma boa ponta do mordomo meio pancada, Michael Gough, e algum suspense. As cenas surreais do sabá da irreconhecível Barbara Steele como bruxa, beiram o ridículo com toda sua lisergia e saturação de cores. Além de fugir muito da ideia original do conto de Lovecraft. Mas ainda assim, vale uma espiada sem muita expectativa
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/07/17/216-a-maldicao-do-altar-escarlate-1968/


sábado, 8 de agosto de 2015

#215 1968 O LODO VERDE (The Green Slime, EUA, Japão, Austrália)


Direção: Kinji Fukasaku
Roteiro: William Finger, Tom Rowe, Charles Sinclair, Ivan Reiner (história)
Produção: Walter Manley, Ivan Reiner, William Ross (Produtor Associado)
Elenco: Robert Horton, Luciana Paluzzi, Richard Jaeckel, Bud Widom, Ted Gunther

Olhe bem para o nome deste filme: O… Lodo… Verde. Não dá para esperar absolutamente nada desta porcaria. Quer dizer, claro que dá para esperar. Dá para esperar uma sessão divertida, cheia de podreira, ao melhor estilo sci-fi dos anos 50, só que aqui com um pouquinho mais de recurso técnico por conta da época. E desde meados da década passada, os japoneses haviam se especializado na ficção científica e conforme foram adquirindo a tecnologia para fazer os filmes, começaram a se arriscar em diversas produções em conjunto com americanos, italianos e outros, o que baratearia muito mais os custos do que se o filme fosse rodado em Hollywood. E esse é um exemplo de O Lodo Verde, coprodução entre Japão, EUA e Austrália. Sinopse rápida: antes de Bruce Willis e sua trupe tentarem destruir um asteroide que acabaria com a Terra, embalados por aquela música cafona do Aeorsmith, um grupo de intrépidos astronautas, chefiado pelo Comandante Jack Rankin (Robert Horton), vai ao espaço com a mesma missão: aterrissar com seu time no asteroide e implantar bombas nucleares para explodi-lo e continuar com a existência do nosso lindo planeta. Só que uma forma de vida verde e gosmenta, o tal lodo alienígena, gruda no traje de um dos astronautas e é levado para uma base espacial internacional, a Gamma 3. Daí, esse lodo desenvolve-se como várias criaturas com um olho vermelho, tentáculos, que andam como pinguins, alimentando-se de energia e tocando o terror nos tripulantes, que precisam lutar por suas vidas. Mas o filme possui tantos erros grotescos, tantos furos no roteiro, tantas falhas de continuidade, tantos argumentos estúpidos e inverossímeis, maquiagem péssima, atores bisonhos e o pior, tudo feito de forma não proposital, levando-se muito a sério MESMO, que é impossível não adorá-lo. É cinema bagaceira em seu alto esplendor. Vale começar a citar algumas das cenas impagáveis aqui, para você, caro leitor, saber a quantidade de porcaria por frame presente neste filme: Primeiro quando os astronautas pousam no asteroide, e lá eles podem andar e correr normalmente, afinal, quem acredita em ação da gravidade, não é? Daí eles precisam sair correndo do pedregulho espacial, já que eles só teriam 20 minutos para colocar todas as ogivas, afinal o comandante da Terra decidiu que tinha que adiantar todo o processo e .... Então, tentando escapar no foguete, o piloto todo comedido e sensato não pode imprimir a velocidade máxima na espaçonave, que alcançaria o 10G, mas claro que o Comandante Rankin, machão, se levanta e mete a mão no manete, quase matando todos os tripulantes, mas acaba ficando com a pecha de herói. Na base espacial, rola uma baita novela mexicana entre Rankin, o comandante Vince Elliott (Richard Jaeckel) e a Dra. Lisa Benson (Luciana Paluzzi), que agora é noiva de Elliott, mas já teve um caso com Rankin, então já viu. Ao desembarcarem, há todo um protocolo de descontaminação, que poderia ter livrado todo mundo dos problemas posteriores com o lodo verde, mas o processo é interrompido pela Dra. Lisa (sim, com seu suposto conhecimento médico), invadindo a sala só para recepcionar o seu noivo e causar a discórdia entre ele e Rankin, um querendo cantar mais de galo que o outro. Daí, sensacional quando eles resolvem dar uma festa para comemorar o sucesso da missão. É uma festa de arromba por sinal, típico do estereótipo camp dos anos 60, com os rapazes dançando com as garotas em seus vestidos coloridos e cabelo channel, tocando o bom e velho rock ‘n’ roll. Só faltou ver o Batman de Adam West e o Robin de Burt Ward dançando por ali também. Mas a cereja do bolo fica por conta das batalhas em pelo espaço sideral, fora da estação, onde eles voam normalmente pelo vácuo atirando nos monstrinhos, e quando Elliott volta para salvar Rankin antes da estação explodir e destruir todas as criaturas, eles literalmente se lançam ao espaço e vão voando como o Superman até a nave de fuga. É realmente algo espetacular de se ver. Somam-se a todos esses absurdos, todas as verdadeiras parafernálias cênicas que é extremamente comum nos filmes de sci-fi daquela época. São computadores do tamanho de paredes, armas de raios de plástico, luzes piscando de todas as cores, tripulação vestida com uniformes que parecem de redes de restaurante fast-food, e por aí vai. As maquetes e miniaturas são um show a parte, com seus foguetinhos que soltam fumaça e fazem barulho em pleno espaço sideral. E sabe o que é pior? Nesta altura do campeonato Stanley Kubrick já havia lançado seu 2001: Uma Odisseia no Espaço e o homem já havia saído de órbita, mesmo que só pisasse na lua no ano seguinte. Então não havia toda essa inadmissível ignorância espacial. E os (d)efeitos especiais dos monstrengos intergalácticos? Não sei para você, mas eles me lembram muito aqueles monstros que o Spectreman lutava, que eu assistia na minha infância. Créditos para Yukio Manoda e Akira Watanabe, que por incrível que pareça, fizeram parte da equipe do mago nipônico dos efeitos especiais, Eiji Tsuburaya, e trabalharam em diversos filmes da Toho com seus Kaijus como Godzilla e Gamera, e outros clássicos como O Monstro da Bomba H O Ataque dos Homens Cogumelo.  Ah, e eu não posso me esquecer da música tema, “The Green Slime”, um rock sessentista de Richard Delvy: “What can it be / what is the reason / Is this the end to all that we’ve done? / Is it something in your head? / Will you believe it when you’re dead? / Green slime, green slime, green slime!” Para finalizar, algumas curiosidades interessantíssimas que fazem parta da mitologia de O Lodo Verde: Esse foi o primeiro filme a ser parodiado na excelente série de TV cult Mystery Science Theater 3000; as criaturas provenientes do lodo verde são interpretados por crianças japonesas vestidas nos trajes de monstro, ao pior estilo suitmation; e a maioria dos figurantes eram oficiais do exército americano que estavam alocados no Japão. Mas talvez a mais curiosa de todas, é que o diretor Kinju Fukusaku, 32 anos depois dirigiu um dos mais violentos, controversos e cultuados filme japonês de todos os tempos: Batalha Real. Quem diria, hein?
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/07/16/215-o-lodo-verde-1968/


#214 1968 A HORA DO LOBO (Vargtimmen / Hour of the Wolf, Suécia)


Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Produção: Lars-Owe Carlberg
Elenco: Max von Sydow, Liv Ullman, Gertrud Fridh, Georg Rydeberg, Erland Josephson, Ingrid Thulin

“Hora do Lobo é o espaço entre a noite e a madrugada. A hora em que a maioria das pessoas morre, e que a maioria das pessoas nascem, e que os pesadelos são reais e que a angústia nos persegue”. Essa é a explicação de Ingmar Bergman, segundo os antigos, sobre o termo que nomeia seu filme: A Hora do Lobo. E é neste espaço de tempo contínuo permanente que o diretor irá nos jogar como espectadores de seu labirinto tétrico de pesadelos. Um filme hermético, difícil de se sintonizar no surrealismo impresso pelo diretor. A Hora do Lobo é sufocante, estranho, recheado de cenas bizarras em uma lindíssima fotografia preto e branca sombria, quase expressionista de Sven Sykvist, onde Bergman desconstrói o maior horror de todos: a loucura humana. Não há nenhum monstro, nenhum perigo “tangível”. Há apenas a perturbação da mente, que essa sim, pode criar os piores monstros imagináveis para si mesmos, capaz de gerar tortura psicológica e o fim do discernimento do que é real e o que é macabra fantasia. A Hora do Lobo derivou-se do roteiro de um filme muito mais amplo e abrangente, que se chamaria Os Antropófagos, abandonado pelo diretor logo após uma crise de pneumonia e a escolha subsequente de produzir Persona, em 1966. A ideia foi descartada e compactada para um filme menor. Diferentemente de Persona, onde o inferno psicológico e o tormento espiritual provém do universo exterior, aqui fica bem claro que esse tormento parte do interior do artista, dando vida aos seus pesadelos, saídos das páginas de seu diário. O artista em questão é Johan Borg, papel de Max Von Sydow (ele mesmo, o padre Merrin de O Exorcista), que se muda com sua esposa, Alma (Liv Ullmann) para as Ilhas Faroé a fim de um exilo durante uma temporada, para desenvolver seu trabalho como pintor e artista plástico. Não precisa dizer que sua vida se transformará a partir desta mudança e do ponto em que ele se torna insone e seus pesadelos começam a ganhar vida, principalmente quando confrontada pelos outros bizarros “habitantes” da ilha. Alma, reprimida, é a personagem que rompe o silêncio de Johan de forma forçada, impedindo-o até certo ponto de deixar-se cair no mundo melancólico e absorto em qual vive. Cada frame em que apresenta a convivência entre ambos, parece ser possível se cortar o ar com uma navalha. Como se não bastasse a opressão que nos sufoca na dinâmica do convívio entre marido e mulher, uma verdadeira horda de pessoas estranhas começa a surgir na vida de John, que irá lhe tirar do eixo. Todas essas pessoas são narradas por Johan à sua esposa e expressas em seus rascunhos. Entre eles, uma velha que não pode tirar o chapéu, caso contrário seu rosto cai, os canibais, os homens pássaros, os homens aranhas, entre outras bizarrices. Momento chave para que as coisas comecem a degringolar é quando esses personagens começam a aparecer justamente para causar inquietação e discórdia no casal, que são convidados para um jantar desconcertante no castelo do Barão Von Merkens. Lá, entre inúmeras conversas fúteis, risadas exageradas, personagens ácidos e caricatos, sombras e close ups perturbantes, Bergman faz com que encarnemos em Johan e nos faz sentir nada a vontade, querendo sair de nossas peles, tal como o personagem em cena. Esse desastre de reunião social, já com o casal tão pouco a vontade, culmina quando Johan, ali apenas para fazer o papel de bobo da corte, tem suas inspirações e pretensões artísticas ironizadas pelos algozes na apresentação em forma de teatro de bonecos de A Flauta Mágica. Depois dessa sequência, Johan explica à Alma sobre a tal hora do lobo, e daí para frente é o começo do fim, com duas sequências extremamente densas e tresloucadas. Primeiro quando o artista está pescando e mais um dos personagens de seu pesadelo toma vida, uma garota adolescente que o ataca, mordendo sua pele, querendo se alimentar de Johan, e acaba morto e jogado no fundo do mar. O segundo, em nova visita ao castelo, Johan está em busca de sua amante, Veronica Vogler (Ingrid Thulin), quando mais uma vez é humilhado pelos presentes, colocando-o maquiagem feminina, o que vai torná-lo motivo de chacota tanto de Vogler quando dos demais ali presentes, que o observam no escuro dando risadas. Só que Bergman também deixa claro o quanto nós como espectadores não devemos confiar em Johan quanto narrador, já que os personagens possuem qualidades sobrenaturais (vide a cena em que a velha tira seu chapéu e desconstrói seu rosto) e conhecimento da psique e dos pensamentos do atormentado pintor, revelando-se como projeções da sua imaginação destrutiva, como a materialização de seus pesadelos. E soma-se isso ao monólogo final onde Alma tenta atestar a tese de que se você convive muito tempo com uma pessoa, as duas acabam tornando-se uma só, e fatidicamente, será que uma acaba vendo o que a outra vê? E o que eles viram? A Hora do Lobo é a obra prima dos filmes de pesadelo. Exatamente por ele não ser um filme sobre pesadelos, mas os tem em seu cerne. E os pesadelos, ao ganharem vida, ultrapassam a natureza do horror pessoal. E é precisamente esse neorrealismo oblíquo de Bergman que, de forma implícita, nos escancara a concepção desse pesadelo e nos oferece uma forma de horror sugerido, psicológico, de forma verbal e visual, nos forçando a testemunhar figuras horríveis e atos proibidos, que rastejam na mente do personagem e vem para nos assombrar.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/07/15/214-a-hora-do-lobo-1968/

1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER
489 1968 A Hora do Lobo (Vargtimmen) 



DC SHOWCASE - 5 CURTAS-METRAGENS (EUA, 2010 / 2011)






WAYWARD PINES (EUA, 2015) SÉRIE COMPLETA


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IMDB: http://www.imdb.com/title/tt2618986/