sábado, 18 de junho de 2016

#630 1992 SÍNDROME DE CAIM (Raising Cain, EUA)


Direção: Brian De Palma
Roteiro: Brian De Palma
Produção: Gale Anne Hurd; Michael R. Joyce (Coprodutor)
Elenco: John Lithgow, Lolita Davidovich, Steven Bauer, Frances Sternhagen, Gregg Henry, Tom Bower

Tá, Brian De Palma já teve seu auge como diretor de suspense (sendo até apelidado de Mestre do Macabro e como o verdadeiro herdeiro de Alfred Hitchcock) lá no final dos anos 70 até meio dos anos 80, principalmente por conta de filmes como Vestida Para Matar, Um Tiro na Noite e Dublê de Corpo. Depois ficou famoso, dirigiu Scarface e Os Intocáveis, e na sequência começou seu declínio com os fracassos de bilheteria Pecados de Guerra e A Fogueira das Vaidades. Então Síndrome de Caim, é a volta de De Palma ao gênero que efetivamente o consagrou. O resultado é um belo de um divisor de opiniões, tanto de público, crítica quanto dos fãs do diretor. Eu particularmente gosto bastante do filme e o considero subestimado, mas óbvio, que não chega aos pés de alguns dos longas já citados aqui. Mas, é um De Palma que funciona e serve, como sempre, para desfilar sua estética cinematográfica e seus já manjados recursos de direção, como elipses temporais, travellings e planos sequência. O grande pecado de A Síndrome de Caim é sua trama, também escrita por De Palma, não ser desenvolvida de forma melhor, que teria um puta potencial, e sim apresentada de forma apressada, burocrática e sem grandes teorias e debates psicológicos. Nela, o Dr. Carter Nix, interpretado de forma MAGISTRAL por John Lithgow é um eminente psicólogo infantil, casado com a médica Jenny (Lolita Davidovich) e tem uma filha, Sarah (Mel Harris), a quem cria quase de forma obsessiva. Tudo isso tem uma explicação bem lógica que já é captada logo na primeira cena. Carter sofre de múltipla personalidade, e uma delas é seu irmão gêmeo malvado, Caim, que nada mais é que Lithgow usando óculos escuros, aparecendo para ajuda-lo sempre que vai cometer algum crime, para que continue ileso e sem nenhuma culpa ou remorso. E Carter/Caim comete muitos crimes. Ele é um sequestrador de crianças e assassino de mães e babás. Seu intuito é estudar o comportamento dessas crianças por meio de métodos nada ortodoxos, influenciado por uma linha de pesquisa iniciada pelo seu pai, o também respeitado psicólogo Dr. Nix (que também é interpretado por Lithgow. Tipo Eddie Murphy). Pois bem, determinada altura do campeonato Jenny reencontra um antigo amor, Jack (Steven Bauer) e eles passam a ter um caso extraconjugal. Carter descobre, mais um parafuso afrouxa em sua cabeça, ele sequestra a própria filha, tenta matar a esposa asfixiada e depois jogar o carro dentro do rio (em uma claríssima homenagem a Psicose) para incriminar o amante. Entra em cena a também psicóloga Dra. Waldheim (Frances Sternhagen) que trabalhara com o Dr. Nix pai, escritor do best seller “Criando Caim”, um estudo sobre as múltiplas personalidades em criança, e que o sujeito na verdade usou como cobaia para sua tese, o próprio filho. Passaporte para que ele crescesse um maluco. Falar mais sobre a trama pode ser um baita de um SPOILER, então o que vou falar por aqui é da absurdamente fodástica cena de plano sequência, uma das marcas registradas de De Palma, com a Dra. Waldheim explicando para os policiais sobre os estudos do Dr. Nix pai, caminhando com eles pelos andares da delegacia, corredores, escadas e elevador, até chegar ao necrotério e dar de cara com um cadáver com uma horrenda expressão de pânico. A cena toda, sem cortes dura 4min e 14 seg de uma aula de direção e de interpretação dos envolvidos. No decorrer de Síndrome de Caim também vemos vários dos recursos cinematográficos comuns na obra de De Palma, além dos seus famosos plots twist e sua sempre auto referência, como faz com o próprio Vestido Para Matar no final do longa, ou Os Intocáveis na cena das escadarias do motel. E mais uma vez, destaque para a pontualíssima parceria com o compositor Pino Donnagio, que faz a trilha sonora impecável do filme. Síndrome de Caim não é nenhuma Brastemp de Brian De Palma, mas é um bom e interessante filme de suspense, tão típico das madrugadas da Globo quando passava no Corujão ou no Supercine aos sábados. Só não lembro em qual dos dois assisti pela primeira vez.
FONTE: https://101horrormovies.com/2015/03/20/630-sindrome-de-caim-1992/

#629 1992 UMA NOITE ALUCINANTE 3 (Army of Darkness, EUA)


Direção: Sam Raimi
Roteiro: Sam Raimi, Ivan Raimi
Produção:Robert G. Tapert; Bruce Campbell (Coprodutor); Dino de Laurentiis (Produtor Executivo)
Elenco: Bruce Campbell, Embeth Davis, Marcus Gilbert, Ian Abercrombie, Richard Grove, Bridget Fonda

A saga de Ashley J. Williams chega ao final em Uma Noite Alucinante 3, depois que ele é obrigado a enfrentar o MAL kandariano ressuscitado pelo Necronomicon, o livro dos mortos, em plena idade média! Quer dizer, pelo menos até então, já que sabemos que Bruce Campbell e Sam Raimi estão de volta para a série mais aguardada de todos os tempos: Ash vs. Evil Dead, com estreia prevista ainda para esse ano. Uma Noite Alucinante 3 na verdade tem muito mais diferenças que semelhanças com os dois primeiros filmes. A mais clara de todas é o tom cômico. Enquanto A Morte do Demônio é trash com toda aquela pegada do gore e da gosma, Uma Noite Alucinante já envereda pelo caminho do camp e do splatstick. Já o terceiro filme da trilogia deixa completamente de lado o horror, e tirando Ash e os possuídos em comum, aposta no humor pastelão e na comédia física e de expressões de Bruce Campbell. Fato é que por mais que os fãs puristas torçam o nariz com esse afastamento do universo demoníaco dos dois primeiros longas (e principalmente, da cabana), quem conhece a história por trás de Raimi, Campbell e do produtor Ropert Tapert, amigos de infância dos subúrbios de Michigan, sabe que desde suas experimentações em Super8 no colégio, eles sempre tiveram uma queda pela comédia e pelos pastelões ao melhor estilo Os Três Patetas. Uma Noite Alucinante já deixava isso calcado, principalmente na cena da lâmpada de sangue. Essa guinada de gênero em Uma Noite Alucinante 3, é uma espécie de caminho mais que natural traçado pelos seus idealizadores. Ao bem da verdade, Ash ser mandado para o ano de 1300 em uma aventura medieval já era o mote do roteiro original escrito lá antes da segunda parte ser lançada. Obviamente eles não teriam o orçamento para isso, então um meio termo, ou capítulo intermediário foi construído, sem saber se essa trama um dia veria a luz do dia. Mas graças a Dino de Laurentiis e o sucesso de Darkman – Vingança Sem Rosto, dirigido por Raimi para a Universal, a história pode ser contada. Brevemente temos uma introdução dos acontecidos da cabana (dessa vez, Jodie Foster faz um papel relâmpago como Linda, a namorada de Ash – sendo a terceira atriz a viver a personagem na trilogia) e como em sua batalha épica ao final de Uma Noite Alucinante, Ash foi parar no século XIV, ignorando de acordo a conclusão do filme anterior, quando ele era ovacionado por ser o escolhido, aqui começando a fita como um escravo, capturado pelo exército de Lorde Arthur (Marcus Gilbert – um possível ainda jovem Rei Arthur?). Caberá a ele enfrentar o MAL, como de costume. Além da ambientação e da mudança de tom (e de gênero), Ash é a grande metamorfose com relação aos dois longas anteriores. No primeiro filme sabemos que ele é um bundão, que vai se tornando um badass no decorrer do segundo e então, em Uma Noite Alucinante 3, passa a ser um arrogante, panaca, egoísta e machista, alguém que realmente seria impossível torcer a favor se fosse qualquer outro personagem e não Ash. Isso ajudou muito na reação negativa do público e fãs da franquia, que além de querer mais sangue, vísceras e horror feroz e brutal, queria o bom e velho Ash de volta. Claro que ao passar do tempo e das consequentes revisões do filme, o olhar sobre nosso herói vai mudando. Ao mesmo tempo em que você tem repulsa por certas atitudes (o famoso “gimme some sugar, baby” e o tratamento que ele dá a Sheila, personagem de Embeth Davidtz, seria hoje em dia motivo para vociferações pesadas das feministas – e com razão), há vários momentos icônicos em que você simplesmente AMA Ash J. Williams, quando Campbell domina perfeitamente o timing cômico e manda algumas das mais fantásticas pérolas do cinema, tanto como prisioneiro na corte de Lorde Athur, com toda a sequência do igualmente famoso “this is my boomstick”, ao tossir as palavras Klato-Barada-Nikto (em homenagem ao clássico sci-fi O Dia Em Que A Terra Parou) na tentativa de recuperar o Necronomicon no cemitério (que irá desencadear o nascimento da horda do mal, liderada pelo Evil Ash, interpretado por Bill Moseley, que irá exterminar a humanidade) ou quando de volta ao presente, como funcionário da S-Mart (“shop smart, shop S-Mart”) ao seu final. Além disso, Uma Noite Alucinante 3 é o que mais usa e abusa de efeitos especiais entre todos os filmes (afinal, foi o de maior orçamento, 13 milhões de dólares – e lembrar que A Morte do Demônio custou 375 mil doletas). Sai a massinha , o guache vermelho e o purê de batatas, entra efeitos de CGI, maquiagem de Greg Nicottero, Robert Kurtzman e Howard Berger e um exército de caveiras portando espadas e escudos ao melhor estilo Ray Harryrausen. Uma Noite Alucinante 3 só foi lançado em janeiro de 1993, após entrar em um limbo devido a uma briga jurídica entre De Laurentiis e a Universal por conta dos direitos dos livros de Thomas Harris, após o lançamento (e sucesso) de O Silêncio dos Inocentes. Em cartaz, amargou nas bilheterias americanas, não chegando nem a se pagar, mas indo muito bem (como os demais filmes da série) no mercado europeu e inglês. Muita gente não gostou, pelos motivos que já citei acima, apesar da crítica positiva e de ser louvável Raimi apostar em sair do lugar comum, no caso, a cabana, e dar um enfoque artístico e estético diferente ao filme. Agora, nos resta esperar a volta triunfal de Campbell e seu Ash no vindoura série de TV.
FONTE: https://101horrormovies.com/2015/03/19/629-uma-noite-alucinante-3-1992/

#628 1992 O MISTÉRIO DE CANDYMAN (Candyman, EUA)


Direção: Bernard Rose
Roteiro: Bernard Rose (baseado no conto de Clive Barker)
Produção: Alan Poul, Sigurjon Sighvatsson, Steve Golin; Clive Barker (Produtor Executivo)
Elenco: Virginia Madsen, Tony Todd, Xander Berkeley, Kasi Lemmons, Vanessa Williams, DeJuan Guy, Marianna Elliott

Candyman, Candyman, Candyman, Candyman, Candyman! Tô escrevendo isso na frente de um espelho para ver se um negão com um gancho na mão aparece para me estrebuchar! Afinal, essa é a tônica da trama de O Mistério de Candyman, um dos “clássicos dos anos 90”, baseado no conto “O Proibido” de Clive Barker, presente na coletânea “Livros de Sangue”. Em um primeiro olhar nada meticuloso, pode-se imaginar que o personagem Candyman, vivido pelo eterno coadjuvante de filmes B, Tony Todd, é mais uma tentativa de emular Freddy Krueger e se iniciar uma nova série slasher aos moldes de A Hora do Pesadelo e Sexta-Feira 13. Um personagem é morto de forma cruel e volta à vida munido de uma arma cortante (nesse caso um gancho substituindo sua mão decepada) para matar suas vítimas. A cena de abertura também parece seguir o mesmo padrão slasher movie: uma babá leva seu namorado bad boy para casa (que é interpretado por Ted Raimi, o irmão do Sam) e reza a lenda urbana de que se você repetir cinco vezes o nome de Candyman na frente do espelho, ele irá aparecer (tipo a nossa Loira do Banheiro, saca?). Eis que o casal de corajosos evoca a entidade e se dão mal, obviamente. Só que aí já começa a pintar qual é o verdadeiro subtexto por trás de O Mistério de Candyman: a luta de classes e a exclusão racial. E mais que isso, diferente dos filmes adolescentes de matança, temos um Clive Barker por trás, como produtor executivo, o que garante uma profundidade maior nos personagens e suas motivações. Além de uma direção segura de Bernard Rose, que tenta evitar o máximo do clichê do personagem, com sua voz grave, poderes hipnóticos, trajes e trejeitos. Helen Lyle (Virginia Madsen) é uma antropóloga que está escrevendo sua tese de pós-graduação sobre lendas urbanas, quando se depara no conto de Candyman. Por meio de testemunhas, ela descobre que na comunidade carente de Cabrini Green, localizada na periferia de Chicago, conhecida por sua criminalidade, violência e falta de saneamento básico, onde a população negra de baixa renda da cidade vive, há um rumor de que não só a lenda urbana existe, como está fazendo vítimas por lá. Claro que ela não acredita nas superstições e acaba por praticar o ritual que traz o monstro ao seu encalço. Ela adentra pelos apartamentos descuidados de Cabrini Green e não vai demorar para descobrir que não foi uma boa ideia evocar Candyman, e que a lenda na verdade tem seu fundo de realidade, quando a criatura sobrenatural atende ao chamado, iniciando um poder hipnótico controlador sobre a garota, subsequente a uma série de terríveis assassinatos que acabarão a incriminando e fazendo sua própria sanidade ser questionada. A origem de Candyman remete ao ano de 1890, quando Daniel Robitaille era filho de um escravo negro que acumulou uma pequena fortuna trabalhando na confecção de sapatos. Só que ele acaba se apaixonando e engravidando a filha branca de um fazendeiro poderoso, e o pai da moça resolve se vingar, espancando o pobre diabo e levando-o onde hoje está localizado Cabrini Green. O senhor e seus empregados o amarram, cortam uma de suas mãos e o lambuza de mel, de modo que um enxame de abelhas o ataca (daí o nome, Candyman, que teria como tradução livre Homem-Doce). Depois ele tem seu corpo queimado e suas cinzas espalhados por todo o vilarejo. Ou seja, o verdadeiro medo presente em Candyman, não vem de seu gancho enferrujado ou do seu séquito de abelhas, mas sim, das preocupações referentes aos relacionamentos amorosos e sexuais de homens negros com as mulheres brancas caucasianas. E também o medo dos negros, pobres, sem condições melhores de vida saírem de seus guetos e adentrarem nos suntuosos bairros e prédios da classe média alta (como bem identifica a cena de abertura com a babá branca sendo trucidada em sua segura e confortável casa do subúrbio). São questões sociais muito bem pontuadas nas entrelinhas, entre a fotografia gótica do esconderijo de Candyman, que é obrigado a viver entre as paredes, a tonelada de gore que Rose imprime no filme e a excelente trilha sonora de Philip Glass. Além é claro, da atuação acima da média de Madsen e a eficácia de Todd em encarnar o personagem e meter medo. Mas o foco mesmo está na segregação racial que existe na América há séculos, e toda a repressão é representada pelo anti-herói negro, assustador e violento, que virá em busca de vingança se for chamado. Fora isso, O Mistério de Candyman é extremamente anos 90 e um filme que em seus moldes só poderia funcionar naquele período. Até as questões urbanas são inerentes àquela década: a escalada da violência na periferia, guerra de gangues, drogas, tudo acontecendo em comunidades sem segurança e com seus muros pixados, alocadas em complexos habitacionais intencionalmente separados do resto da cidade. Não que hoje em dia seja diferente, mas a estética é outra. Mesmo com seu final trágico e pessimista e a subida de tom com relação aos seus paresslashers, O Mistério de Candyman conseguiu fincar mais um personagem icônico no panteão dos movie maniacs (segundo de Barker, depois de seu Pinhead de Hellraiser – Renascido do Inferno), faturar mais de 25 milhões de dólares de bilheteria (mediante o baixo orçamento de seis milhões) e garantir mais duas sequências, fechando uma trilogia.
FONTE: https://101horrormovies.com/2015/03/18/628-o-misterio-de-candyman-1992/

#627 1992 INOCENTE MORDIDA (Innocent Blood, EUA)


Direção: John Landis
Roteiro: Michael Work
Produção: Leslie Belzberg, Lee Rich; Michael Work (Produtor Associado); Jonathan Sheinberg (Produtor Executivo)
Elenco: Anne Parillaud, Anthony LaPaglia, David Proval, Rocco Sisto, Chazz Palminteri, Robert Loggia

Depois de John Landis focar suas lentes na figura do lobisomem, no clássico absoluto do gênero, Um Lobisomem Americano em Londres, foi a vez da mítica figura do vampiro, ou melhor, da vampira, em Inocente Mordida. Fora dos EUA, o filme foi canastrissimamente chamado pelas distribuidoras picaretas de “Uma Vampira Francesa na América”, sem o consentimento de Landis, que por sinal o deixou emputecido, mas também poderia ser chamado de “Uma Vampira na Máfia”, vai, pelo teor da trama que reúne, hã, vampiros e a máfia. E com aquele dedo cômico certeiro de Landis, é uma comédia de horror que faz troça exatamente com esses dois gêneros cinematográficos, entupindo de clichês tanto dos mortos-vivos, quanto das organizações criminosas ítalo-americanas. Mas ah, o que falar de Anne Parillaud, a eterne Nikita (do filme do Luc Besson), interpretando a vampira Marie, que logo na abertura da fita nos brinda com cenas de nu frontal! Não dá para não amar o filme! E assim, Marie é uma criatura das trevas lasciva como toda boa vampira deve ser, porém discreta, para não dar na telha. Então para manter-se no anonimato, resolve se alimentar de mafiosos, afinal, se um ou outro aparecer morto por aí, pode dar a entender ser só mais um acerto de contas qualquer. Desde que eles não sejam transformados, óbvio. Aí que o trem descarrilha, quando Marie ataca exatamente o perverso chefe do crime local, Sallie “The Shark” Macelli (brilhantemente vivido pelo veterano Robert Loggia). Porém antes de finalizá-lo, ela é interrompida por Joe Gennaro (Anthony LaPaglia), que até então pensávamos ser mais um capanga do bando, mas descobre-se um policial. E Macelli voltará à vida como um morto-vivo com suas presas. Só que ciente do poder que ele tem em mãos, o mafioso-mor agora começa a transformar todos seus capangas (e advogado) em vampiros, para criar um exército das trevas. Marie então precisa consertar a cagada que fez, junto de Joe, que acaba se tornando seu par romântico, mesmo com eles lutando contra a desconfiança um do outro. Inocente Mordidaaqui passa a se tornar uma deliciosa comédia de erros, que mistura o timing cômico perfeito dos atores e de Landis (que vamos lá, sempre foi um diretor de comédias, e Um Lobisomem Americano em Londres e o videoclipe de Thriller, de Michael Jackson, são uma exceção) com situações do mais puro pastelão e piadas jocosas. No quesito terror, horror, suspense e afins, vale pela profusão de sangue derramado e principalmente pelos violentos ataques iniciais de Marie, antes de entrar na função “vampira heroína que irá salvar o dia (ou melhor, a noite, RÁ) mode on. A transformação é bem básica, mas interessante: suas longas presas nascem e seus olhos ficam brilhantes (bem parecido com o que já fizera tanto no clipe do Rei do Pop e em Um Lobisomem…). Marie ataca ferozmente a jugular de suas vítimas, mastigando-as, arrancando belos nacos de carne de seus pescoços e bebendo seu sangue. Aliás, assim como fizeram em Um Lobisomem…, aqui também Landis entope o filme de referências do próprio cinema de horror. Enquanto nas desventuras de David Kessler e seu amigo Jack Goodman ao não seguir pela estrada e adentrar o pântano de uma Inglaterra rural e serem atacados por um licantropo, vemos citados clássicos do subgênero como O Lobisomem da Universal e A Maldição do Lobisomem da Hammer, em Inocente Mordida, vira e mexe alguém está assistindo um filme antigo de terror, como O Vampiro da Noite, também da Hammer, com Christopher Lee como Drácula e Peter Cushing como Van Helsing e O Fantasma da Rua Morgue, de 1954, baseado no conto de Edgar Allan Poe. Fora as participações especialíssimas no decorrer do longa, como Dario Argento, Frank Oz, Michael Ritchi, Tom Savini e a mais emblemática, Sam Raimi como um açougueiro. Originalmente, o projeto deveria ser dirigido por Jack Sholder (diretor de Noite de PânicoO Escondido e A Hora do Pesadelo Parte 2: A Vingança de Freddy), com Lara Flynn Boyle, recém saída de Twin Peaks, e Dennis Hopper. Sholder saiu do barco por conta das “diferenças criativas” e Landis assumiu, substituindo os dois atores. Aliás, Landis estivera cotado dentro da própria Warner para dirigir outro filme de vampiros, com produção de Joel Silver, sobre um cantor de Las Vegas mordido e seduzido por uma vampira. Com o fracasso de Oscar – Minha Filha Quer Casar (dirigido por Landis) e Hudson Hawk – O Falcão Está à Solta (produzido por Silver) no ano anterior, o projeto foi abortado e Landis “realocado” para Inocente Mordida. Não é um dos clássicos imprescindíveis do gênero e quase nunca se encontra em uma lista de “filmes de vampiros para se assistir”, e não chega aos pés da obra prima de Landis sobre lobisomens, mas Inocente Mordida é correto, divertido e um bom passatempo como um terror descompromissado, bom exemplo de “terrir” sem cair no escracho. E tem Parillaud nua algemada de quatro em uma cama. Ponto!
FONTE: https://101horrormovies.com/2015/03/17/627-inocente-mordida-1992/

#626 1992 HELLRAISER 3 O INFERNO NA TERRA (Hellraiser III: Hell on Earth, EUA, Canadá)


Direção: Anthony Hickox
Roteiro: Peter Atkins
Produção: Christopher Figg, Lawrence Mortoff; Paul Vincent Coleman (Produtor Assistente); Clive Barker (Produtor Executivo)
Elenco: Kevin Bernhardt, Terry Farrell, Ken Carpenter, Paula Marshall, Doug Bradley

Hellraiser III – Inferno na Terra é MUITO ruim. Mas é inerente ao processo de transformar um filme em uma franquia que dá início a uma quase infindável cinesérie, como aconteceu com Sexta-Feira 13 e A Hora do Pesadelo, por exemplo. A grande diferença entre os slashers citados e o filme baseado na obra de Clive Barker, que se iniciou no clássico eterno Hellraiser – Renascido do Inferno, é que a pegada aqui sempre foi mais sombria e visceral que os demais filmes oitentistas, e Pinhead é um personagem muito mais maligno, poderoso, profundo e filosófico que seus pares movie maniacs. Isso, e toda a criação de uma dimensão de prazer e dor povoada por criaturas tão bizarras quanto os Cenobitas é um ponto que coloca Hellraiser um degrau acima da escada. Hellraiser III – Inferno na Terra exatamente banaliza tudo isso e derruba a franquia desse degrau, que não conseguiria mais alcançar novamente nos longas que são produzidos praticamente até hoje. De um filme atmosférico, sujo, perverso, sobra uma caricatura com patéticas cenas de ação e perseguição, atores com interpretações deprimentes, novos cenobitas esdrúxulos e uma história completamente medíocre. Hellraiser II – Renascido das Trevas já era uma infinidade pior que o original. O terceiro então, segue ladeira abaixo. Há uma conexão na trama direta com os acontecidos do segundo filme (e consequentemente do primeiro), dando um certo aspecto de trilogia, devidamente expandido ainda mais depois como bem sabemos. Pinhead transforma-se em uma macabra estátua no final do longa anterior, e é comprado pelo dono de uma balada, J. P. Monroe (Kevin Bernhardt). Em um acidente irá respingar sangue no objeto e fará com que Pinhead comece a voltar à vida, já com sua sede por prazeres humanos carnais e doentios. Paralelo a isso, a repórter Joanne “Joey” Summerskill (Terry Farrell) está em busca da matéria que irá lhe trazer visibilidade, e durante uma pauta em um hospital, é testemunha de uma vítima tendo sua cabeça explodida e atacado pelos ganchos do além, já vistos nos filmes anteriores. Ao descobrir que ele acabara de chegar de um clube chamado “The Boiler Room”, ela se aproxima de Terri (Paual Marshall) ex-namorada de Monroe e passa investigar o acontecido. No curso da investigação, ela chega até a famigerada clínica do Dr. Chanard, descobrindo que a escultura veio de lá, assim como o famoso cubo, que está em posse de Terri, desenhos e um depoimento em vídeo de Kirsty Cotton (Ashley Laurence), a mesma dos filmes anteriores. Não demora para que Monroe passe a ser assediado por Pinhead para lhe trazer novas vítimas. Terri não cai na lábia do ex-namorado, que acaba sendo enganado e morto. Seu sacrifício enfim liberta o líder dos cenobitas. Pinhead em um frenesi de matança literalmente massacra todo mundo no clube, sem dó nem piedade, em uma das muitas cenas gráficas desta terceira parte. Nego é morto de tudo quanto é jeito e litros e litros de sangue escorrem pela tela. Apenas Joey, que está de posse do cubo, após ser devidamente instruída por sonho pelo Capitão Elliot Spencer, que na verdade é a forma humana de Pinhead antes de decifrar o objeto e ter se transformado no cabeça de chester, vivido por Doug Bradley, pode enfrentar o sujeito fetichista. Tudo caminha para um filme bem meia-boca. Os novos cenobitas são tosquíssimos. Entre aqueles que eu gostaria de mencionar, Doc, o cameraman amigo de Joey (Ken Carpenter) vira uma espécie de ciborgue com uma câmera no olho (???!!!), tem um outro sujeito que tem CDs (???!!!) pelo corpo e fica jogando-os para cortar suas vítimas e mais um com arame farpado em volta do rosto que cospe fogo (???!!!) como se fosse o Smaug. Há uma cena (que é deveras comprida até) de perseguição que parece um filme de ação B, com coisas explodindo, policiais dando tiros, cabos de força jogando eletricidade na água jorrando de hidrantes. Até então, os ataques dos cenobitas foram discretos e centrados, focando-se nas vítimas que eles querem barganhar a alma e torturar por toda a eternidade. Aqui vira um espetáculo circense de patifaria exagerada. Mas, felizmente, temos Pinhead para salvar o filme da desgraça total. Finalmente Doug Bradley se solta como o vilão, e vemos toda sua maldade, todo seu desdém pela alma humana e sua mediocridade, vociferada em palavras sombrias, sarcásticas e de deboche. O mais emblemático momento de Hellraiser III – Inferno na Terra é a sequência da igreja, em que Pinhead adentra o local, ataca Joey e o pároco, e ainda blasfema de forma fortíssima contra a Igreja Católica, parando no altar, arrancando dois de seus pregos da cabeça e pregando suas mãos, imitando Cristo de forma ofensiva, dizendo “eu sou o caminho”, e depois, fazendo o padre engolir sua “carne e seu sangue” numa espécie de comunhão maldita. É um momento singular da franquia. O final de Hellraiser III – Inferno na Terra já deixa aberto o espaço para mais uma continuação, que sabemos que veio, e de carreta. Uma pena essa banalização de um vilão e de um conceito tão interessante, que se manteve até a segunda parte. Mas filmes de terror são assim: sequências e mais sequências com qualidade praticamente zero, extrapolando uma fórmula que deu certo. O universo de Clive Barker foi a próxima vítima desse movimento cinematográfico, e isso, é sofrer mais que a eternidade preso na dor insuportável das correntes e ganchos dos cenobitas.
FONTE: https://101horrormovies.com/2015/03/13/626-hellraiser-iii-inferno-na-terra-1992/