sábado, 6 de junho de 2015

#167 1963 AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR (I tre volti della paura / Black Sabbath, Itália, Reino Unido, França)


Direção: Mario Bava
Roteiro: Mario Bava, Alberto Bevilacqua, Marcello Fondato (baseados nas obras de Ivan Chekhov, F.G. Snyder, Aleksei Tolstoy)
Produção: Salvatore Billitteri, Paolo Mercuri
Elenco: Boris Karloff, Michéle Mercier, Lidia Alfoni, Mark Damon, Jacqueline Pierreux

Todo filme que você ler nos créditos “regia di Mario Bava”, você pode crer que na maioria das vezes verá um excelente filme de terror, afinal, Bava foi um dos mais brilhantes e técnicos diretores italianos de todos os tempos. Aqui em As Três Máscaras da Morte, mais uma vez ele mostra todos os seus recursos narrativos e estéticos. Certo dia, Ozzy Osbourne e Tony Iommi estavam andando na rua nos anos 60 quando viram o pôster de As Três Máscaras da Morte, porém com o título que ele ganhou na Inglaterra: Black Sabbath. Maravilhados com o cartaz, que trazia Boris Karloff em um cavalo segurando uma cabeça decepada nas mãos, eles decidiram então trocar o nome da atual banda, The Earth, por aquele. O resto é história… As Três Máscaras da Morte é um filme composto de três contos de terror, dirigidos pelo maestro do macabro Mario Bava, que desde o primeiro filme tardio como diretor, A Máscara de Satã, trouxe um novo olhar para os filmes de horror, elevando o seu nível. Isso porque ele levou consigo toda sua experiência adquirida como diretor de fotografia, criando uma certa sofisticação visual, uso exagerado de cores vivas, jogos de luz e sombra, enquadramentos minuciosos e abuso de zooms e travellingsinovadores na época. Estrelado e apresentado por Boris Karloff, o filme traz três elementos de horror diferentes em seu enredo, mostrando toda a versatilidade do diretor em assustar a plateia nas mais variadas formas: o primeiro, O Telefone, que podemos considerar a protogênese do giallo, traz uma história de assassinato, vingança, voyeurismo e sexualidade; o segundo, O Wurdalak é uma história russa de vampiros; o terceiro e último, A Gota D’água, é uma história sobrenatural de espíritos, ganância e vinagança. O Telefone, baseado em um conto de F.G. Snyder é a história mais curta e “fraca” da três. Possui um enredo simples, mas que funciona muito bem e cria uma clima de tensão crescente no espectador. Basicamente Rosy (a estonteante Michèle Mercier), uma prostituta de luxo, começa a receber ameaçadoras ligações de um desconhecido, jurando-a de morte, que logo ela deduz ser seu antigo cafetão, Frank Rainer, que havia sido libertado da prisão há pouco. Morrendo de medo, ela liga para Mary para pedir ajuda. Detalhe que Mary é um ex-caso de Rosy, que até hoje não digeriu bem a separação. O conto inteiro é rodado dentro do apartamento de Rosy, gerando um clima de claustrofobia e colocando o lar como local não seguro, já que Rosy está sendo vigiada constantemente e o perseguidor sabe de todos os seus passos. O episódio em suas entrelinhas explora muito a tensão sexual nesse triângulo amoroso Rosy / Mary / Frank, a possessão e controle e de maneira bem sutil, mas óbvia, e o lesbianismo e o fetiche sexual, tema que era uma baita tabu na década de 60. O Wurdalak, estrelado por Karloff, é o filme mais bem planejado e executado, tanto falando do roteiro quanto da ambientação e dos elementos utilizados aqui. Baseado em uma história do escritor russo Aleksei Tolstoy, o filme pega emprestado elementos típicos dos filmes da Hammer, para contar a história de uma família que vive isolada em uma lúgubre floresta e morre de medo dos Wurdalaks, vampiros das lendas locais que suga o sangue apenas daqueles que amam. Karloff é Gorca, o patriarca da família que sai em uma noite para caçar um impiedoso assassino turco que rondava a região. A lenda dizia que se daqui a cinco noites ele não voltasse, era para temer pelo pior que ele haveria se transformado na criatura, e deveria ter a cabeça decepada e uma adaga enfiada no coração. Quem se dá mal nessa história toda é Vladimir (Mark Damon), um viajante que repudia as superstições locais, e que vai parar na casa de Gorca pedindo descanso durante à noite, se apaixonando pela belíssima Sdenka (Susy Anderson) e se metendo no meio de uma macabra trama familiar. Vale prestar muita atenção na cena em que o neto de Gorka é transformado e perambula pelo exterior da casa logo após sair da cova, chorando para seus pais que está com frio. É de arrepiar todos os pelos do braço, da nuca, e de onde mais os tiver. Para terminar, A Gota D’água é a cereja do bolo, e o melhor do três contos. Simples, contido mas de um pavor sem tamanho. Se nego chegar e falar que não sentiu medo da expressão daquela velha morta, pode ter certeza que está mentindo. São pequenos detalhes que compõe o aspecto assustador da história da enfermeira Helen Chester que é chamada no meio de uma noite de tempestade para preparar o corpo de uma velha psíquica que acabara de morrer durante uma de suas sessões. A velha rígida, estatelada na cama com uma expressão grotesca no rosto é algo ímpar no cinema de horror. Movida por uma ganância suprema, a enfermeira rouba um valioso anel de diamantes do dedo da velha. É aí que entra os tais detalhes: a mosca que aparece em seu dedo no lugar do anel, os inusitados ângulos da câmera, as cores frias piscando intermitentemente no apartamento da enfermeira e claro, a maldita gota d’água que fica pingando de forma a atormentar a ladra, até que o fantasma da morta (ou materialização do sentimento de culpa?) venha se vingar de lhe roubarem o precioso anel. Baseado em um conto de Ivan Chekhov. Três histórias com os finais pessimistas, mostram uma verdadeira aula do que é fazer um filme de terror: uso de temas como obsessão, sexualidade, destruição da unidade familiar, ganância e arrependimento e tecnicamente falando, explora iluminação rica, jogo de cores, direção de arte deslumbrante, fotografia muito bem trabalhada e todo o mise-en-scène detalhado para fazer cada história funcionar de seu jeito peculiar, mesmo com contos que variam em sua essência e eficácia. Nos EUA, As Três Máscaras da Morte foi lançado completamente modificado pela AIP (American International Pictures), perdendo toda a narrativa estrutural que Bava havia criado no original, para que tivesse um efeito cumulativo, invertendo a ordem dos contos, além de sofrer alteração da excelente trilha sonora de Roberto Nicolosi, manipulação dos frames para abrandar a censura, narrações intertítulos de Karloff e um final com uma desnecessária sugestão sobrenatural adicional (dirigida por Salvatore Billiteri) na sequência O Telefone. Aqui no Brasil chegou a ser lançado em DVD pelo selo Dark Side, em mais uma caprichada edição da Editora Works em meados dos anos 2000.
FONTE:  http://101horrormovies.com/2013/05/20/167-as-tres-mascaras-do-terror-1963/

#166 1963 OS PÁSSAROS (The Birds, EUA)


Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Evan Hunter, Daphne Du Maurier (história)
Produção: Alfred Hitchcock (não creditado)
Elenco: Rod Taylor, Tippi Hedren, Suzanne Pleshette, Jessica Tandy, Veronica Cartwright

Os Pássaros é provavelmente o filme mais inusitado do mestre dos suspense, Alfred Hitchcock, o mais gráfico e o que melhor se encaixa na categoria “filme de terror” propriamente dita. Um prólogo antes de começar o texto, é que toda vez que assisto Os Pássaros, involuntariamente me lembro da trasheira O Ataque dos Tomates Assassino, só por causa do texto de abertura do filme” “Em 1963, Hitchcock fez um filme mostrando um selvagem ataque de criaturas aladas a seres humanos… As pessoas riram. Em 1975, 7 milhões de pássaros invadiram uma cidade americana, resistindo a todos os esforços para expulsá-los… Ninguém está rindo agora.” Genial. Mas que fique bem claro que é só por causa disso! Voltando ao filme. Melanie Daniels (interpretada por Tippi Hedren, mãe de Melaine Griffith, penúltima na linhagem das protagonistas louras-fetiche de Hitchcock) é uma socialite patricinha, filha do dono de um importante jornal de São Francisco, que é abordada em uma loja de aves pelo bonitão advogado Mitch Brenner, que resolve fazer uma pegadinha com ela (já conhecendo a moça dos tribunais), confundindo-a com uma atendente da loja, interessado em comprar um casal de periquitos para o aniversário de sua irmã. Entrando no jogo e querendo se passar pela tal atendente, Melanie põe os pés pelas mãos e acaba nascendo uma certa tensão sexual ali entre os dois, quando a personalidade forte e esnobe da garota e o jeitão de macho alfa arrogante de Mitch se encontram. Parece que você está preste a assistir a uma comédia romântica qualquer. Bom toda essa cena inicial para mostrar que Melanie ficou caidinha por Mitch, e resolve comprar o tal casal de periquitos e levar até sua casa, quando descobre por meio de um vizinho, que ele passa os finais de semana na cidade costeira de Bodega Bay. Então a gente saca que Melanie realmente está MUITO afim de dar para o cara, porque ela pega seu carro, dirige até Bodega Bay, depois aluga um barco que ela mesmo pilota só para conseguir chegar de surpresa na casa do advogado e deixar os periquitos lá. Olha só o trabalho! Enfim, durante a travessia de barco, uma gaivota a ataca do nada, o que já começa a nos mostrar o horror que está por vir. Após inúmeros incidentes isolados e comportamentos estranhos dos animais alados, Bodega Bay é violentamente atacada por uma revoada de pássaros, culminando em um ataque devastador à cidade e a escola local, investindo impiedosamente nas crianças indefesas e deixando um rastro de morte. Os Pássaros é uma obra prima. É Hitchcock em seu estado mais selvagem, criando momentos de suspense prolongados para chegar em um clímax aterrorizante como só ele é capaz de fazer. O maior exemplo disso é a fodástica cena onde Melaine vai até a escola pegar a irmã de Mitch, e é obrigada a aguardar e turma terminar uma canção. Ela sai do prédio e senta em um banco para fumar, com a cantiga infantil ao fundo, enquanto silenciosamente, um bando de corvos começam a se empoleirar nos brinquedos do playground, até Melaine percebê-los e completamente apavorada e sem muitos alardes, tentar (em vão) tirar as crianças da escola. É fantástico. Outra cena memorável é quando a família Brenner e Melanie estão presos dentro da casa, já no terceiro ato, enquanto os pássaros mais uma vez perpetuam seu ataque. Antes da explosão de bicadas, só ouvimos o revoar das aves cada vez mais perto e agudo, em uma tensão crescente, onde você só consegue imaginar a centena de animais que estão ali para dar o bote. E a sequência final, está entre uma das mais assustadoras e angustiantes da história do cinema de terror. Isso sem contar a forma pessimista com que Hitchcock acaba o filme, sem música, sem créditos. Incrível! Os efeitos especiais (que foram indicados o Oscar® daquele ano), hoje podem parecer toscos, mas nos anos 60 foram revolucionários, com sua mistura de sobreposição de imagens, pintura, aves mecânicas e filmagens reais. A trilha sonora, que não existe, é outro ponto alto do filme, já que as músicas incidentais que nós ouvimos, são apenas barulhos eletrônicos que se confundem com o grasnar dos pássaros e bater de asas. Hitchcock nunca deixou claro quais foram suas intenções com esse filme e não nos dá nenhuma resposta, fazendo com o que o espectador tire suas próprias conclusões. Claramente fica uma mensagem da natureza se voltando contra os homens, com resultados catastróficos. E nunca esse tema esteve tão em voga como nos dias de hoje. Há também uma forte corrente sexista no filme, quase misógina, colocando uma culpa velada na figura de Melaine, como uma ameaça da cidade grande à tranquilidade da pequena cidade litorânea e principalmente por ser a pretendente de Mitch, único homem da história e o bom partido da cidade, que é disputado por sua mãe, a irmãzinha (que é interpretada por Verônica Cartwright, rosto conhecido dos fãs de terror e sci-fi por ter trabalhado futuramente em Alien – O 8º Passageiro, Os Invasores de Corpos e também interpretado Cassandra Spender no seriado Arquivo X) e a professora da escola, que na verdade é sua ex-namorada. Se você ainda não viu, não perca mais tempo. E ah, antes que eu me esqueça, assista ao filme da HBO chamado The Girl, que traz um pouco dos bastidores deste filme e do turbulento relacionamento obcecado e até monstruoso de Hitchcock com a coitada da Tippi Hedren.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/05/18/166-os-passaros-1963/

#165 1963 A MANSÃO DO HOMEM SEM ALMA (La vergine di Norimberga/The Virgin of Nuremberg / Horror Castle, Itália)


Direção: Antonio Margheriti
Roteiro: Ernesto Gastaldi, Edmond T. Gréville, Antonio Margheriti (baseado na obra de Frank Bogart)
Produção: Marco Vicario
Elenco: Rossana Podestà, Georges Riviére, Christopher Lee, Jim Dolen, Anny Degli Uberti

Um filme de Antonio MAR-GHE-RI-TI!!! MAR-GHE-RI-TI!!! Sim, mais um dos importantíssimos diretores italianos, que serviu como fonte de inspiração para o cineasta Quentin Tarantino, que gentilmente homenageou-o dando seu nome para o falso personagem de Eli Roth (outro diretor de filmes de terror, por sinal) em Bastardos Inglórios, em uma das cenas mais antológicas do filme, em que ele o pronuncia cantarolando ao melhor sotaque italiano caricato. Pois bem, A Mansão do Homem sem Alma é mais um excelente exemplar do cinema de terror italiano, extremamente frutífero durante as décadas de 60, 70 e 80, com seus mais diversos gêneros como giallo, splatter, e o ciclo canibal, responsáveis por uma excelente safra de diretores que tinham em comum o sangue, sexo e violência explícita, como Mario Bava, Sergio Martino, Dario Argento, Lucio Fulci, Michele Soavi, e o nosso querido Antonio Margheriti, que assinava seus filmes com o pseudônimo americanizado de Anthony Dawson, algo muito comum entre os diretores italianos. Fato é que A Mansão do Homem sem Alma é uma espécie de percursor do gênero pois aqui veríamos diversos elementos cinematográficos e estéticos que seriam utilizados nos filmes da terra da bota e que o tornariam característicos: a dose exagerada de violência estilizada e sangue, assassinos impiedosos, belas mulheres indefesas, situações claustrofóbicas ou de cárcere e completo domínio da fotografia, que tirariam todo e qualquer foco do orçamento baixo, primando pela excelência do jogo de cores, geralmente quentes, com um pé no barroco e com vermelho vivo acentuado, acompanhada sempre por uma bela direção de arte e a trilha sonora contundente, aqui, assinada por Riz Ortolani, o mesmo que criou a famosíssima trilha sonora de Cannibal Holocaust. A trama, inspirada no livro de Frank Bogart, traz a história do casal Max e Mary Hunter (respectivamente Georges Rivière e Rossana Podestà), que mudam-se para o castelo do pai de Max na Alemanha, que hoje funciona como uma espécie de museu negro, devido aos diversos aparatos de tortura medieval que existem no local, utilizados por um impiedoso carrasco, ancestral de Max. A tal Virgem de Nuremberg do título original do filme, é um instrumento de tortura, que consiste em uma esquife com pregos em seu interior onde as mulheres pecadoras e infiéis eram colocadas. E para não perder tempo, logo antes dos créditos vemos Mary de camisola andando pelos corredores do castelo em uma noite de tempestade, encontrando essa câmara de tortura e uma jovem no interior da Virgem, com seus olhos perfurados pela máquina. Max tenta fazer com que Mary acredite que tudo não passou de um pesadelo, mas o clima soturno do castelo e seus funcionários estranhos, entre eles a governanta Marta e o zelador do castelo e amigo íntimo do falecido pai de Max, o deformado Erich (interpretado por um contido Christopher Lee com coadjuvante) não ajudam muito, além do policial do FBI John Selby que vive rondando o castelo, e do doutor da família, que encontra um tufo de cabelos loiros na cena do crime. Em suas incursões noturnas pelo castelo sombrio, Mary tem a certeza que não era sonho coisíssima nenhuma quando depara com o carrasco e sua sinistra roupa vermelha e capuz preto na cabeça perseguindo-a, ou quando é testemunha ocular do vilão torturando uma outra garota, usando um antigo método medieval, colocando um rato esfomeado dentro de uma jaula e abrindo-a no rosto da vítima, em uma das cenas mais gore do filme, com closes do rato devorando lábios e nariz da pobre coitada. Todos as suspeitas, obviamente vão cair sobre Max e o sinistro Erich, mas na verdade, no terceiro ato temos a revelação final da verdadeira identidade do carrasco. 
ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco.
Na verdade, o assassino demente é o pai de Max, que lutou com os nazistas durante a segunda guerra, e depois acabou se tornando uma vítima de suas experiências bizarras devido a um ato de traição. Ele teve seu rosto escalpelado e transformado em uma grotesca “caveira humana” (muito bem feita pelo próprio Margherite como maquiador, agora usando o pseudônimo de Anthony Matthews) , perdendo completamente sua sanidade e cometendo esses horrendos assassinatos. Sua face lembra muito do personagem Caveira Vermelha, inimigo do Capitão América dos quadrinhos, que também era nazista. A Mansão do Homem sem Alma é o filme que melhor ilustra o apreço de Margherite pelo macabro e fez com que pela primeira vez o público italiano tivesse contato com a selvageria do horror explícito, algo que seria muito corriqueiro futuramente. Mas apesar dos efeitos, que são cruéis e bem trabalhados em detrimento do pouco dinheiro, o filme deve muito também pela sua atmosfera gótica, e certos nuances modernos, como o fato de a história se passar em um castelo medieval, mas com uma trilha sonora Jazz nos seus créditos iniciais, algo que o deixa contemporâneo e funciona até como inspiração para o recente surto de filmes de torture porn.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/05/17/165-a-mansao-do-homem-sem-alma-1963/

#164 1963 O HOMEM DOS OLHOS DE RAIO-X (X / The Man With The X-Ray Eyes, EUA)


Direção: Roger Corman
Roteiro: Robert Dillon, Ray Russel
Produção: Roger Corman, Bartlett A. Carré (Produtor Associado), Samuel Z. Arkoff e James H. Nicholson (Produtor Executivo)
Elenco: Ray Milland, Diana Van der Vlis, Harold J. Stone, John Hoyt, Don Rickles

O Homem dos Olhos de Raio X é mais uma preciosidade de Roger Corman entregue para a American International Pictures dos produtores Samuel Z. Arkoff e James H. Nicholson (pai de Jack Nicholson). Clássico do sci-fi / horror / filme B, com um dos melhores finais do gênero de todos os tempos. A fita é mais um dos exemplos gritantes dos perigos da ciência e de se brincar de Deus, que resultam em catástrofe quando cientistas, que mesmo obstinados e procurando promover o bem, acabam vítimas de suas experiências, resultando em terríveis mutações, poderes fora de controle ou enlouquecimento. Na maioria das vezes, os três em uma tacada só. O cinema é cheio de filmes com essa temática. Para citar alguns mais antigos quando cientistas testam suas invenções em si mesmo, antes do lançamento de O Homem dos Olhos de Raio X e que já apareceram aqui pelo blog: O Raio Invisível, com a dupla Boris Karloff e Bela Lugosi, e A Mosca da Cabeça Branca com a Vincent Price. E esse cientista/ médico da vez é o Dr. James Xavier, vivido por Ray Milland, que já havia atuado em Obsessão Macabra de Corman. Xavier está trabalhando numa pesquisa científica secreta conhecida como X, que é capaz de aumentar a visão humana. Decidido a aumentar exponencialmente o potencial limitado de nossos olhos, que segundo ele, somos capaz de enxergar apenas 90% do universo que está em nossa volta, Xavier se empenha em sua fórmula e começa o teste em um macaco, que apesar de primeiramente ser bem sucedido, o símio logo morre de ataque cardíaco, pois não estava preparado para tudo aquilo que conseguia ver agora. Sinistro. Claro que brilhantemente, Xavier vai testar a fórmula em si mesmo, com a ajuda do seu amigo oftalmologista, Dr. Samuel Brant (Harold J. Stone). Isso também porque sua pesquisa está a um passo do corte de verbas pela fundação de pesquisa que financia o seu projeto, chefiada pela Dra. Diane Fairfax (Diana Van der Vlis), que exige resultados. Mesmo sem maiores testes, Xavier encara o desafio, pingando a fórmula em seus olhos através de um colírio, e assim, expande sua visão para algo além do imaginado. Primeiramente ele começa a enxergar tudo como um enorme clarão e explosão de cores. Acostumando-se com a nova visão e ao mesmo tempo extrapolando sua experiência e usando o colírio cada vez mais, ele adquire a sobre humana capacidade de ver através de objetos sólidos, tornando-se assim o Homem dos Olhos de Raio X do título. E como todo homem que se preze, uma das vantagens que ele dará para a nova visão, é ver mulheres sem roupa, claro, em uma divertida cena em uma festinha em um apartamento onde vê todo mundo dançando peladão. Mas há também importantes aplicações para a super visão de Xavier, como a capacidade de olhar através do tecido humano para encontrar doenças e obter diagnósticos muito mais precisos que qualquer máquina da raio x. Isso faz com que ele faça uma interferência não autorizada para operar uma garotinha com problemas cardíacos e é acusado pelo cirurgião Dr. William Benson de conduta antiética da profissão, sendo afastado e tendo sua pesquisa cancelada pela fundação. O cientista então é obrigado a fugir e decide aventurar-se em um circo, utilizando o nome de Mentallo, trabalhando como adivinhador e depois até como curandeiro, quando começa a ser chantageado pelo vigarista Crane (Don Rickles), que descobre sua identidade. Tentando continuar suas experiências e ganhar um dinheiro, Xavier monta um novo consultório para atender e diagnosticar pacientes, parecendo uma espécie de Chico Xavier, pois agora é obrigado a utilizar permanentemente óculos escuros e bandagens nos olhos, pois mesmo fechados, ele ainda consegue enxergar, como se estivessem permanentemente abertos, o que começa a deixá-lo cada vez mais perturbado e viciado em seu colírio. Obrigado a continuar sempre fugindo, ele se reencontra com a Dra. Fairfax que agora o ajuda, até chegar em Las Vegas com todas as suas cores berrantes e letreiros luminosos, onde resolve trapacear em um cassino para conseguir dinheiro, usando seus poderes visuais. Mais uma vez a polícia descobre seu paradeiro e ele é obrigado a fugir, em uma perseguição pelo deserto de Nevada. Até que ele encontra uma daquelas tendas evangélicas itinerantes no deserto. Aí é que o filme tem seu ápice, revelando um dos mais fantásticos finais do gênero, como já disse anteriormente. ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Atormentado pelo seu poder, já que Xavier começa a enxergar além da matéria, com seus olhos, agora negros e sem pupila, servindo como receptores dimensionais para outros mundos e realidades, em um estado de confusão mental, Xavier ajoelha perante ao pastor, que pergunta a ele se ele é um pecador e deseja ser salvo, quando o ex-cientista admite ter visto Deus, metaforicamente, no centro do universo, como uma luz, um olho que nos vê a todos, além de toda a escuridão. O pastor então cita Mateus, capítulo 5: “Se teu olho o faz pecar, irmão, arranque-o”. E é exatamente isso que ele faz. Uma cena chocante, de Xavier arrancando os olhos com as próprias mãos e olhando para o alto com dois buracos nas órbitas. O filme oficialmente termina aí com um fade out e os créditos, mas o roteiro original conta que Xavier ainda gritaria: “eu ainda consigo ver”, mas que foi vetado pela MGM por ser considerado ainda mais perturbador. Com um orçamento baixo, efeitos especiais modestos, mas um roteiro intrigante e com uma temática assustadora que explode em seu terrível final pessimista, O Homem dos Olhos de Raio X é uma gema de Corman que escancara os medos do desenvolvimento científico e como ele pode ser perigoso. E ainda há essa mensagem teológica em seu final, mostrando que há certas coisas que os humanos não deveriam ver, e tampouco se atrever a olhar além do que é permitido para nossa compreensão, pois essas forças das trevas e luz do desconhecido, podem nos levar à loucura, quase como uma mensagem lovecraftiana incidental.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/05/16/164-o-homem-dos-olhos-de-raio-x-1963/





quinta-feira, 4 de junho de 2015

HORSEHEAD (FIEVRE, FRANÇA, 2014)


Desde a infância , Jessica tem sido assombrada por pesadelos recorrentes , cujo significado lhe escapa. Essa peculiaridade levou-a a estudar a psicofisiologia dos sonhos e seguir uma terapia com Sean , seu mentor e namorado , para tentar entender a origem de seus pesadelos. Após a morte de sua avó materna que mal conhecia, Jessica relutantemente retorna à casa da família.
Ela não se dá bem com sua mãe e não está ansiosa para vê-la novamente. Depois de uma áspera primeira noite agitada por um estranho pesadelo em que ela reconhece sua avó morta, Jessica torna-se subitamente doente. Presa na cama com uma febre alta , a jovem decide usar seu estado letárgico para experimentar o sonho lúcido. A fim de fazer isso, e por indicação de Sean , Jessica respira um pouco de éter sempre que ela precisa para afundar o outro mundo, para tentar assumir o controle de seus pesadelos. Jessica então começa a vagar em um mundo onírico habitado por versões distorcidas de membros de sua família . Ela melhora gradualmente suas habilidades como uma sonhadora lúcida e começa a tentar resolver o mistério que a atormenta e assombra a casa da família.

#162 1963 DESAFIO DO ALÉM (The Haunting, EUA, Reino Unido)


Direção: Robert Wise
Roteiro: Nelson Gidding (baseado na novela de Shirley Jackson)
Produção: Robert Wise (não creditado), Denis Johnson (Produtor Associado)
Elenco:Julie Harris, Claire Bloom, Richard Johnson, Russ Tamblyn, Fay Compton, Rosalle Crutchley

Sabe o livro “1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer”, que gerou o filhote “101 Horror Movies You Must See Before You Die” e que inspirou esse blog? Pois bem, seu editor geral, Steven Jay Schneider, encabeçou sua lista de melhores filmes de todos os tempos com Desafio do Além. Isso mesmo, o mega crítico escolheu esse filme dirigido por Robert Wise como o seu preferido de todos os tempos. Acho um exagero. Mas a fita realmente é um exercício sublime do terror psicológico e do gênero casa mal-assombrada. Junto com Os Inocentes, é uma obra definitiva que moldou a estética dos filmes de fantasma e de velhos casarões com assoalhos rangendo e portas se fechando sozinhas. Wise é discípulo de Val Lewton e durante seu período na RKO, dirigiu A Maldição do Sangue de Pantera (sequência deSangue de Pantera) e O Túmulo Vazio. Isso o credenciou a MGM a contratá-lo para levar às telas a adaptação do best-seller de Shirley Jackson, A Assombração da Casa da Colina. Hill House é uma imponente mansão construída pelo milionário Hugh Crain na Nova Inglaterra, que segundo o narrador do início do filme, é uma casa que já nasceu ruim. Isso porque uma sucessão de tragédias acometeu-se àqueles que viveram na casa. Primeiro sua mulher morreu em um acidente de carruagem logo que pôs os olhos na casa pela primeira vez. Crain casou-se novamente e sua outra esposa acabou caindo misteriosamente de uma escadaria. A filha do casal viveu trancada em um quarto de criança a vida inteira até se tornar uma velha debilitada no fim da sua vida, quando contratou uma pessoa para cuidar dela, que a deixou morrer enquanto levava seu amante para a casa e passava o tempo com ele. A tal mulher herdou a casa e mais tarde  acabou se enforcando também. E essa tragédia toda nos primeiros minutos do filme, apenas explicando a maldição que ronda o lugar. Tudo isso para o parapsicólogo Dr. John Markway convidar um grupo de pessoas para fazer um experimento na casa e testemunhar os eventos paranormais e poder documentá-los. Um dos escolhidos foi Eleanor Lance, uma mulher com seus trinta e poucos anos, atormentada por ter cuidado por muito tempo da mãe doente, reprimida pela família e sexualmente sozinha e frustrada. É óbvio que com um perfil psicológico como esse, Eleanor seria um prato cheio para os efeitos devastadores da casa mal-assombrada. Além dela, a lésbica Theodore e o jovem Luke, atual herdeiro da mansão, completam o time. Aos poucos, Eleanor vai perdendo o controle e deixando-se envolver cada vez mais, levando sua sanidade ao fio da navalha, enquanto ouve durante a noite gemidos e sussurros de crianças e sente a presença maligna do lugar. E ao invés da produção insistir em sustos baratos e aparições fantasmagóricas, tudo fica apenas subentendido, balançando na tênue linha do que é real e o que é fruto da imaginação de Eleanor e dos demais residentes enclausurados em Hill House. Muito do efeito do filme é mérito de Wise, que brinca com os personagens, principalmente com os solilóquios de Eleanor, e mantém sua câmera claustrofóbica dentro da casa. Se você por um acaso achou essa história conhecida, é porque assim como eu, já deve ter assistido antes o malfadado remake desse filme, lançado em 1999 que no Brasil ganhou o nome de A Casa Amaldiçoada, com Lian Neeson e Catherine Zeta-Jones no elenco. E o maior contraponto com relação aDesafio do Além, é que é um dos PIORES filmes de terror já feitos em todos os tempos. Até levou a Framboesa de Ouro daquele ano. Já Robert Wise, que mais tarde dirigiria filmes como Amor, Sublime Amor e A Noviça Rebelde (??!!!), foi indicado ao Globo de Ouro de melhor diretor.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/05/14/162-desafio-do-alem-1963/

1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER
412 1963 Desafio do Além (The Haunting)

#161 1963 DEMÊNCIA 13 (Dementia 13, EUA)


Direção: Francis Ford Copolla
Roteiro: Francis Ford Copolla
Produção: Roger Corman, Marianne Wood (Produtora Associada)
Elenco: William Campbell, Luana Anders, Bart Patton, Mary Mitchel, Patrick Magee

Demência 13 já vale simplesmente pelo fato histórico de ser o primeiro filme dirigido por Francis Ford Copolla. O diretor responsável pela trilogia O Poderoso Chefão, Apocalipse Now e Drácula de Bram Stoker, começou sua carreira dirigindo um filme B, preto e branco, plágio de Psicose, sob a batuta de Roger Corman, quem diria. E ao bem dizer, Demência 13 é quase um filme slasher. Tem lá seu assassino impiedoso com um machado que persegue suas vítimas em um castelo irlandês que vive rodeado por um bosque sinistro e um lago, local onde se afogou Kathleen, a caçula dos Haloran, família esta que entrou em frangalhos após sua morte acidental, com a mãe vivendo em um estado de luto permanente e desequilíbrio emocional, fazendo com que reúna a família nos últimos sete anos no dia do aniversário da morte da filha, para que seja realizada a mesma celebração fúnebre em memória de Kathlenn, ano após ano. Francis Copolla, como assina o longa metragem ainda sem o Ford, tenta imprimir um clima de mistério misturado com assassinatos impiedosos, nesta tentativa da American International Pictures em pegar carona no sucesso de Psicose, no intuito de copiar o estilo Hitchcock de fazer suspense. Falha miseravelmente neste quesito. Talvez pela ainda falta de experiência do novato diretor, ou pelo roteiro confuso, abrupto e óbvio (sabemos quem é o assassino antes da metade do filme, apesar do desenvolvimento da história tentar debilmente nos enganar). Mas se deixar um pouco de lado o exercício de cinema aqui, ainda mais sabendo o que Copolla se tornaria no decorrer de sua carreira, podemos colocar Demência 13 em uma caixinha fechada do gênero terror, por isso tomo a liberdade de classificá-lo como além de um thriller, uma gênese dosslasher movies, até por ele contar com uma certa violência gráfica acentuada, seguindo todos os padrões dos filmes B de época, ainda mais tendo Corman envolvido no projeto. Veremos machadadas, cabeças sendo decepadas, sangue falso, insanidade e claro, demência. Mas os dois principais problemas de Demência 13 são a sua metragem curtíssima, que faz as coisas se acelerarem no final para uma conclusão frustrante, aliado a um sério problema de montagem comtakes desnecessários e por vezes desconexos, auxiliado pela lúgubre fotografia preto e branca e trilha sonora nefasta, e o arrastar do primeiro ato, onde uma história de ganância inescrupulosa passa abruptamente para um enredo de um psicopata que ronda o castelo Haloran, provável vítima de toda a carga psicológica que atinge aquela família disfuncional. Somos apresentados aos Haloran através da megera Louise, vivida por Luana Anders, casada com John, pau mandando com problemas cardíacos, que ficaria de fora de grande parte da herança da família, algo que Louise simplesmente não consegue engolir. Em um passeio de barco, logo nos primeiros minutos do filme, John teve um infarto e morre de forma súbita. Louise então maquina um plano maligno, jogando o corpo do marido no rio, se livrando de suas roupas e pertences, inventando uma falsa viagem urgente de negócios a Nova York, na tentativa de se infiltrar na família durante a fúnebre cerimônia da morte de Kathleen e tentar manipular a convalescente sogra a lhe dar uma boa participação em seu testamento. Lá, somos apresentados a Sra. Haloran (Ethne Dunn), e aos seus outros dois filhos, o irritado artista plástico Richard (William Campbell), noivo de Kane e o sensível e culpado Billy, que brincava com a pequena Kathleen no dia em que ela se afogou. Também vamos conhecer o médico da família, Dr. Caleb, que tem um jeito pouco ortodoxo e desconfia de tudo e todos, fazendo as vezes do detetive da história. Tentando manipular a frágil Sra. Haloran alegando ver o espírito da pequena Kathleen vagando nos corredores, tentando se comunicar com a mãe (o que dá um caráter sobrenatural não consumado no enredo), Louise acaba sendo a primeira vítima do misterioso assassino, enquanto levava alguns brinquedos roubados do quarto da garota para o lago, para que eles emergissem e ajudassem a confundir ainda mais a velha senhora. Ela sofre violentos golpes de machado, e depois no terceiro ato vamos encontrar seu corpo, supostamente desaparecido, pendurado, todo ensanguentado, exatamente como veremos nos filmes slasher no futuro, quando os corpos da vítimas começam a ser encontrados próximos ao seu final. Ainda haverá mais uma vítima, enquanto a saúde mental da Sra. Haloran vai piorando, os ataques de raiva de Richard tornam-se cada vez mais comuns e Billy vai desabando emocionalmente, principalmente em uma cena muito bem construída e filmada por Coppola, onde ele revela um terrível sonho recorrente que tem desde a morte da irmã mais nova. O final do filme, apressado e óbvio, revela a identidade do assassino, que como disse lá em cima, já era bastante factível. Copolla escorrega em fazer a sua versão de Psicose, mesmo tentando manter um mesmo tipo de estrutura narrativa que Hitchcock imprimiu em sua obra prima. O MacGuffin aqui em Demência 13 é o testamento, que faz o mesmo papel da mala de dinheiro roubada por Marion Crane. O filme até sua metade dá a impressão que vai seguir essa trama de suspense, com a inescrupulosa nora ludibriando a sogra e tentando jogar a família entre si para conseguir ficar com a grana, mas Copolla, tal qual Hitchcock, subverte a ordem natural da história e mata a personagem principal, jogando luz sobre um outro argumento, envolvendo um assassino psicopata, aí sim escancarando o porquê do substantivo demência no título. E claro, revelado o vilão, nitidamente podemos encontrar diversas semelhanças psicológicas com o atormentado Norman Bates. Eu nunca fui muito a favor de remakes, mas eu acredito que Demência 13 é um filme que mereceria uma nova versão. Refilmada em cores, com maior orçamento, qualidade técnica e metragem. Seria lindo se o próprio Copolla fizesse isso, da forma como agora já domina a sétima arte, mas é algo impossível claro. Porque todas as ideias estão ali, o clima sinistro, a tensão, o suspense, o assassino enfurecido empunhando seu machado e a trilha sonora macabra de Ronald Stein. Só que infelizmente não funciona tão bem como deveria. O grande erro foi tentar se Hitchcock, algo extremamente pretensioso para um diretor estreante e para o lendário Roger Corman.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/05/13/161-demencia-13-1963/