quinta-feira, 23 de julho de 2015
#205 1967 AS TORTURAS DO DR DIÁBOLO (Torture Garden, Reino Unido)
Direção: Freddie Francis
Roteiro: Robert Bloch
Produção: Max
J. Rosenberg, Milton Subotsky
Elenco: Jack
Palance, Burgess Meredith, Beverly Adams, Peter Cushing, Michael Ripper
Com o sucesso de As Profecias do Dr. Terror, o estúdio inglês Amicus resolveu
investir pesado nos filmes estilo portmanteau, aqueles que trazem várias
antologias de terror interligadas por um fio narrativo. As Torturas
do Dr. Diábolo, foi seu segundo filme neste gênero, que ainda
renderam mais seis posteriores. Dirigido por Freddie Francis, mesmo diretor de Dr.
Terror e com astros no elenco do quilate de Burgess Meredith, Jack Palance
e Peter Cushing, infelizmente o resultado de As Torturas do Dr. Diábolo é
bem fraquinho. Seus quatro contos, escritos por Robert Bloch, mesmo autor do livro que deu origem a Psicose, de Alfred Hitchcock, são
dispensáveis, com histórias bem fraquinhas, que valem mais mesmo por
curiosidade e todo aquele clima característico dessa safra de filmes dos anos
60. Cinco estranhos estão em um parque de diversões de Londres e entram na
câmara de horrores do Dr. Diábolo (vivido por Meredith, o Pinguim do seriado camp do
Batman) em busca de excitantes e aterrorizantes experiências. Lá, uma atração
adicional para os de coração forte, e que tenha mais cinco libras extras para
gastar, é uma boneca da divindade feminina Atropos (vivida por Clytie Jessop,
que faz uma ponta em todos os segmentos) que através das linhas do destino,
revela o sinistro futuro dos ali presentes. A primeira história, Enoch, é
uma das mais intrigantes e assustadoras. Colin Williams (Michael Bryant) é um
playboy desprezível, único herdeiro de um tio cheio da grana, que quer se
aproveitar do tio enfermo e acaba matando-o para por a mão em seu dinheiro.
Revirando o antigo casarão em busca de ouro escondido, ele acaba por descobrir
um misterioso gato que vivia preso no porão. O problema é que esse gato não é
um bichano qualquer, e sim, um receptáculo do espírito de uma bruxa, nomeado Balthazar,
que tem poderes telepáticos e um voraz apetite por carne humana, controlando a
mente de Colin e levando-o à loucura, arranhando seu cérebro como um felino
qualquer arranha um poste de madeira. Um detalhe interessante é que o gato não
é preto, como de costume nas histórias de terror, e sim malhado. O segundo
segmento, fraquíssimo, Terror Over Hollywood, é sobre Carla Hayes (Beverly
Adams) uma jovem e bela atriz que topa de tudo para conseguir tornar-se uma
estrela de cinema. Ao saber que a amiga terá um encontro com um agente do show
business, ela estraga o vestido da companheira de quarto e vai ao encontro em
seu lugar. Lá conhece os produtores Bruce Benton (Robert Hutton) e o galã Eddie
Storm (John Phillips) e acaba se envolvendo numa terrível trama que envolve
conspirações no alto escalão hollywoodiano, um médico com pinta de cientista
louco e androides. O terceiro conto, Mr. Steinway é uma excelente mistura
de elementos bizarros e fantásticos, extremamente conveniente para esse tipo de
filme. Dorothy Endicott (Barbara Ewing) é uma jornalista que se apaixona pelo
virtuoso pianista Leo Winston (John Standing). Só que o piano dele, chamado de
Euterpe (divindade grega musa da música) começa a se tornar ciumento e
possessivo, atrapalhando o processo criativo do pianista, tentando separar o
casal apaixonado e assassinar a moça. Sim, é isso que você leu. Um piano
assassino com vontade e movimentos próprios. É simplesmente genial. O quarto e
melhor segmento, The Man Who Collected Poe traz uma disputa
afinadíssima entre Ronald Wyatt (Jack Palance) e Lancelot Canning (Peter
Cushing) para ver quem é o maior colecionador de obras e artefatos de Edgar
Allan Poe. Wyatt vai visitar Canning na América para conhecer sua vasta
coleção, e após uma noite de bebedeiras, uma visita ao porão revela manuscritos
atuais nunca publicados do escritor americano, com a mesma caligrafia. Acontece
que o avô de Canning, que começou a coleção, era um ladrão de cadáveres e havia
colecionado as próprias cinzas do Poe, que o trouxeram de volta à vida através
de magia negra. Ao assassinar Canning, Wyatt adentra outro compartimento abaixo
do porão e encontra o escritor em pessoa vivo e preso, suplicando pela morte,
para que assim o terrível pacto com o demônio seja quebrado e ele possa
descansar em paz. Só que sempre que um pacto é quebrado, outra alma deve tomar
o lugar daquela libertada. Eu disse que eram cinco estranhos, certo? Acontece
que Gordon Roberts, o outro sujeito na câmara de horrores do Dr. Diábolo,
vivido por Michael Ripper, figurinha carimbada de alguns filmes da Hammer (Epidemia de Zumbis, A Serpente…), não quer ver seu futuro e tremendamente
assustado com tudo que está acontecendo, pega a tesoura que Atropos corta os
fios da vida e brutalmente assassina o anfitrião do show. Quando todos os
demais fogem assustados, a cena se revela combinada entre os dois cúmplices.
Porém Wyatt continua no local fumando seu cachimbo, que é quando será revelada
a verdadeira identidade do Dr. Diábolo. Apesar de que seu próprio nome já diz
tudo… Como disse lá em cima, As Torturas do Dr. Diábolo vale como
curiosidade, principalmente pela excelente atuação de Meredith e seus diálogos
bem escritos, e a deliciosa disputa entre Jack Palance e Peter Cushing no
último segmento. Falta força e inventividade para classificá-lo como uma
antologia de terror de primeira linha. Mas oferece conteúdo suficiente para uma
divertida sessão de sábado.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/07/05/205-as-torturas-do-dr-diabolo-1967/
terça-feira, 21 de julho de 2015
#203 1967 A MORTALHA DA MÚMIA (The Mummy’s Shroud, Reino Unido)
Direção: John Gilling
Roteiro: John Gilling, John Elder (História)
Produção:Anthony Nelson Keys
Elenco: André Morell, John Phillips, David Buck,
Elizabeth Sellars, Maggie Kimberly, Michael Ripper
A Mortalha da
Múmia é o terceiro filme envolvendo o monstro egípcio enfaixado
do estúdio inglês Hammer, famoso por imortalizar outras conhecidas criaturas
sobrenaturais como Drácula e Frankenstein. Aqui a produção segue a mesma linha
tanto dos filmes anteriores da própria Hammer, como da franquia da Universal da
década de 30 e 40: uma vingativa múmia retorna do seu sono milenar para cometer
uma série de assassinatos contra aqueles que perturbaram o descanso eterno de
seu amo. Dirigido pelo competente John Gilling, que também já havia entregue ao
estúdio Epidemia de Zumbis e A Serpente (ambos
de 1966), A Mortalha da Múmia em sua abertura nos leva a uma viagem
ao tempo para o ano 2000 a.C., onde a esposa do faraó Men-Ta morre ao dar a luz
ao seu primogênito, Kah-To-Bey, futuro rei do Egito. Sem perceber a conspiração
que seu irmão invejoso, Amen-Ta estava preparando para tomar o trono, o faraó
torna-se uma vítima fácil do ataque do irmão que foi acumulando um poderoso
exército enquanto o próprio preocupava-se apenas com os assuntos que envolviam
o bem estar do filho. Ao estourar a insurreição, Amen-Ta ordena que seu fiel
escravo Prem, fuja com Kah-To-Bey para impedir que ele fosse assassinado. Porém
durante a travessia pelo inóspito deserto, o garoto faraó acaba morrendo e
enterrado em um túmulo improvisado no meio do deserto, vestido com uma mortalha
que continha dizeres que traziam encantamentos relacionados à vida e a morte.
Pois bem, durante a década de 20, uma expedição liderada pelo proeminente
egiptólogo Sir Basil Walden (André Morell) e financiada pelo milionário
arrogante Stanely Preston (John Phillips), partem em busca do túmulo perdido de
Kah-To-Bey, junto do filho de Stanely, Paul Preston (David Buck), Harry Newton
(Tim Barrett) e a bela Claire de Sangre (que lembra um pouco a musa Barbara
Steele, com o mesmo tipo de beleza peculiar, porém loira). Ao chegar ao local onde o corpo
do jovem faraó repousa, logo o grupo é ameaçado por Hasmid (Roger Delgado),
guardião protetor da tumba e dos mortos que roga uma maldição nos aventureiros.
Sem se abalarem, o corpo de Kah-To-Bey é levado para o museu em Mezzara e
retifica-se que a múmia encontrada anteriormente e creditada a Kah-To-Bey era
na verdade de Prem, utilizando um amuleto real dado pelo menino antes de
morrer. Só que o famigerado Hasmid, auxiliado de uma velha cartomante irritante
chamada Haiti (Catherine Lacey), lê as inscrições proibidas da mortalha e traz
a milenar criatura de volta à vida para se vingar daqueles que violaram o
túmulo de seu amo. Um por um, começando pelo Sir Walden, vão sendo assassinados
pela força descomunal do monstro esfarrapado, chamando a atenção da polícia
local, que não consegue encontrar nenhuma explicação lógica para os
assassinatos, cedendo a superstição levantada por uma suposta maldição da
múmia, que só poderá ser interrompida quando Claire, a especialista em
hieróglifos do grupo que adentrou na tumba da Kah-To-Bey, ler o encantamento da
mortalha que poderá devolver a criatura ao seu sono eterno. A Mortalha da
Múmia é uma boa surpresa. É um filme interessante, claro que sem o mesmo
charme de A Múmia da Universal com Boris Karloff ou o filme
homônimo do final da década de 50 com Christopher Lee interpretando o
monstrengo. Mas é muito melhor que toda a franquia interminável da Universal
(que tinha um filme mais chato que o outro) e a bomba homérica que
foi Sangue no Sarcófago da Múmia, último da série da Hammer, quando o
estúdio inglês já estava em franca decadência. Gilling consegue fazer a
história fluir de forma simples e coesa, contando com boas atuações tanto de
John Phillips como chauvinista Stanley Preston, quanto do vilanesco Hasmid de
Roger Delgado ou mesmo o capacho de Preston, o pobre Longbarrow, vivido pelo
ator fetiche de Gilling, Michael Ripper (que esteve presente nos três filmes da
Hammer do diretor). Um ponto que fica devendo é a maquiagem da múmia,
interpretada por Eddie Powell, frequente dublê do estúdio. Não pense encontrar
o mesmo trabalho detalhado e impressionante de Roy Ashton em Christopher Lee, ou
mesmo do mestre Jack Pierce em Karloff. Aqui, a criatura de George Partleton é
das mais pobrinhas, e nem parece que está envolta em bandagens, e sim
nitidamente usando trajes brancos mesmo para simulá-las. Culpa do baixíssimo
orçamento do filme, já que os principais recursos financeiros eram gastos com
os filmes de Frankenstein e de Drácula. Uma curiosidade de A
Mortalha da Múmia é que erroneamente a narração da abertura do filme é
creditada a Peter Cushing e em muito locais é publicado que o ator inglês (que
estrelou Frankenstein Tem de Ser Destruído, filme que era exibido na
apresentação dupla junto de A Mortalha da Múmianos cinemas) foi o
narrador, porém segundo o IMDb, a Hammer não tem nenhum registro de quem narrou
a abertura, mas que definitivamente não foi Cushing. O filme chegou a ser
lançado no Brasil pelo serlo Dark Side, da Works Editora, junto com diversos
outros títulos da Hammer, trazendo o título de A Mortalha da
Múmia (tradução literal do original), ignorando o nome que recebeu quando
foi exibido na televisão brasileira: O Sarcófago Maldito.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/07/03/203-a-mortalha-da-mumia-1967/
domingo, 19 de julho de 2015
#202 1967 FRANKENSTEIN CRIOU A MULHER (Frankenstein Created Woman (Reino Unido)
Direção: Terence Fisher
Roteiro: John Elder
Produção: Anthony Nelson Keys
Elenco: Peter Cushing, Susan Denberg, Throley
Walters, Robert Morris, Peter Blythe
Parodiando o filme de Brigitte
Bardot, E Deus Criou A Mulher, aqui Frankenstein
Criou a Mulher. O filme mais nonsense da franquia da Hammer, fugindo
completamente de qualquer tipo de argumento baseado no original de Mary
Shelley, resultado numa divertida e interessante bobagem sem tamanho do estúdio
inglês. Com a volta do diretor Terence Fisher à série (responsável pelos dois
primeiros filmes, A Maldição de Frankenstein e A Vingança de Frankenstein), Peter Cushing mais uma vez
vive o papel do Barão Frankenstein, dessa vez com suas malucas pesquisas
voltadas para um assunto um tanto quanto mais filosófico e metafísico: a alma
humana. Com a ajuda do cirurgião Dr. Hertz (vivido por Thorley Walters), os
experimentos do cientista agora consiste em isolar a alma humana e preservá-la
(!!!???), podendo transferi-la para dentro de um corpo morto (!!!!???), e de
uma vez por todas, desvendar todos os mistérios de vida e morte. Hertz tem um
ajudante, Hans (Robert Morris) que vive atormentado por ter visto seu pai sendo
degolado na guilhotina quando pequeno, acusado de assassinato. Sua grande
paixão é a torta e deformada Christina (interpretada
pela playmate austríaca Susan Denberg, em um excelente trabalho de
maquiagem de George Partleton), filha do taberneiro Kleve. Certa noite, após
uma experiência bem sucedida, Frankenstein manda o jovem na taverna buscar uma
garrafa de champanhe, e lá ele se estranha com três dândis nojentos e
arrogantes, que abusam do dono do estabelecimento e fazem troça com a garota
deformada. Hans toma as dores e eles começam uma briga feia. Os dândis bêbados,
chefiados pelo crápula Anton, após serem expulsos do bar, resolvem arrombar o
lugar na calada da noite para beber vinho de graça. Só que Kleve volta para a
taverna e encontra os três, que acabam assassinando-o. Tendo em vista a
confusão da noite anterior e um casaco de Hans ter sido encontrado no local,
somado ao fato do pai dele ter sido um assassino, Hans é injustamente preso,
julgado e condenado ao mesmo destino do pai, mesmo tendo um álibi que ele não
revela, já que passou a noite com Christine. Ao ver o amado perder a cabeça na
guilhotina, a desesperada Christine também resolve dar cabo de sua vida,
atirando-se da ponte e morrendo afogada. Dois acontecimentos perfeitos para o
Dr. Frankenstein colocar seu plano em prática. Ao receber o corpo de Hans para
estudos médicos após ser degolado, ele utiliza uma engenhoca para capturar e
prender a alma do rapaz, que depois é transferida com sucesso para o corpo de
Christine, que também é totalmente remodelada através de cirurgia plástica, e
de uma filhote de cruz credo, vira uma gostosa e sensual loira provocante. O
enredo então ganha tons transexuais com o espírito de Hans vivendo no corpo da
moçoila. Só que vez ou outra, uma voz dentro de Christine, que pertence a Hans,
começa a dominá-la em um sangrento ato de vingança, onde ela irá caçar
impiedosamente os três dândis responsáveis pela morte de seu pai e de
incriminar Hans, para suprir o desejo dos fãs por sangue. Christine,
desconhecida do vilarejo por estar completamente mudada devido às cirurgias de
Frankenstein e Hertz, então começa a abusar de decotes, malícia e sedução para
fazer os excitados homens caírem em sua teia e poder matá-los cruelmente,
expediente que se tornaria famoso nas produções da Hammer na década seguinte: a
exploração do corpo feminino. Frankenstein Criou a Mulher é considerada
por muitos críticos como um dos melhores filmes da Hammer. Apesar do roteiro
absurdo de Anthony Hinds (usando o corriqueiro pseudônimo de John Elder), a
trama envolve muito mais uma história que é calcada no sobrenatural, com uso da
tecnologia, do que os monstros carniceiros putrefatos que estamos acostumados a
imaginar ao pensar nas criaturas de Frankenstein, dando um ar de originalidade
nunca antes praticado tanto pelo próprio estúdio inglês, quanto pelas produções
anteriores da Universal. E também vale sempre dar um destaque positivo à
competência de Terence Fisher atrás das câmeras, cada vez mais fluído e
dominando todas as técnicas de composição de cenas, paisagens, reconstrução de
época (mais um ótimo trabalho de Rosemary Burrows e Larry Stewart no figurino e
Felix Sergejak na direção de arte dos cenários) e a trilha sonora de James
Bernard, compositor chefe do estúdio. Aliado a tudo isso, Frankenstein
Criou a Mulher ainda tem o galante Peter Cushing afiadíssimo mais uma vez
e toda a explosão de sexualidade da deliciosa Susan Dereng interpretando a mais
bela criação do Dr. Frankenstein.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/07/02/202-frankenstein-criou-a-mulher-1967/
sábado, 18 de julho de 2015
#857 2009 ANTICRISTO (Antichrist, Dinamarca, Alemanha, França, Suécia, Itália, Polônia)
Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Produção: Meta Louise Foldager, Peter Garde (Produtor
Executivo)
Elenco: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg
Já vou logo dizendo no começo desse post que eu
tenho um baita bode de Lars Von Trier. Se quiser, pode atirar as pedras, mas eu
não gosto de Dogville, não
gosto de Manderlay, eu não
suporto Melancolia e
principalmente Dançando no Escuro e
não vi Ninfomaníaca.
Mas Anticristo eu
tenho que dar o braço a torcer. O cineasta dinamarquês chama esse filme de o
mais importante de toda sua carreira e é aqui que ele exorcisa todos os seus
demônios. E um filme que tem essa conotação pessoal, vindo de um cara como
Trier, que passou dois anos mergulhado em uma depressão profunda, não poderia
ter um resultado mais perturbado, dramático e niilista. E Anticiristo é mais um exemplo
claro daqueles filmes que extrapolam o limite do gênero terror e como ele não
se resume somente a estereótipos, como muitos ainda pensam. Trier é filho de
pais ateus e desde os 12 anos seu livro de cabeceira é “O Anticristo” de
Nietzsche, ensaio anti-cristão do filósofo alemão. Nessa sua produção, o
diretor usa e abusa de uma criação estética singular, de uma beleza plástica
perfeita, com fotografia de Antony Dod Mantle, para julgar e subverter os
valores cristãos e humanos em quatro capítulos: Luto, Dor (Caos Reina),
Desepero (Feminicídio) e Os Três Mendigos, além de um prólogo e um epílogo. O
prólogo é o fio condutor que vai marcar o destino dos dois personagens
principais, interpretados por Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg, em uma das
cenas mais lindas e marcantes de toda a história do cinema. Toda filmada em
câmera lenta e em preto e branco, o casal está transando (visto como algo
moralmente errado e reprovado pela Bíblia) em uma cena de sexo explícito e
orgasmo abundante, enquanto acidentalmente seu filho pequeno foge do berço em
direção à morte ao cair de uma janela, tudo isso com um trecho da ópera Rigoleto de Händel tocando
ao fundo. Ver essa cena em alta definição é um verdadeiro desbunde. Ela,
incapaz de conseguir lidar com a dor da perda entra em um estágio de culpa e
depressão profunda, e Ele que é terapeuta, resolve transformá-la em sua
paciente e tentar ajudá-la a superar a morte da criança. Durante o processo, os
dois resolvem se isolar em uma cabana no meio da floresta ironicamente
conhecido como Éden. Ironicamente porque o que eles irão passar ali está o mais
longe possível do significado literal da palavra. É muito mais próximo do
inferno na terra. Cercado de metáfora e elementos extremamente bizarros e
estranhos, como o aborto de um cervo ou uma raposa desgranhenta que olha para a
terra e diz em alto e bom som: “O caos reina”, Anticristo desenvolve uma batalha psicológica e tortuosa
entre os dois personagens, extrapolando a dualidade entre os opostos, a culpa,
a negligência e a repressão sexual e joga o espectador em uma espiral de
desconforto e violação das ideias e desapego dos valores, até que em seus dois
últimos capítulos, transforma a fita em uma espécie de toture porn sublime,
se é que um dia você imaginou que isso fosse capaz de acontecer. E tu vais
se sentindo mal durante todo o andamento do filme, recheado de cinismo e
desilusão, achando que está invadindo a vida e a intimidade daquele casal ao
tentar acompanhar com demasiado choque as brutais e realistas conversas e
sessões terapêuticas, que vem trazendo à tona percepções sobre a verdadeira
natureza do medo e do instinto humano, tudo isso em cenas que deixam um gosto
amargo na boca, amparadas por uma beleza singular narrativa e visual e doses
cavalares de sexo e nu frontal. Então vamos presenciado o total descontrole
emocional da personagem de Charlotte Gainsbourg, conhecendo um pouco mais sobre
a pesquisa de sua tese sobre o feminicídio e como as mulheres eram brutalmente
assassinadas por homens, principalmente na Idade Média, por serem uma espécie
de semente do mal pecadora. E Ela abraça essa causa e vira refém de seus medos
e de suas neuroses numa demonstração atroz de misandria, onde o terror que até
então era psicológico, transforma-se em visceral e gráfico graças a
contundentes cenas de tortura, mutilação genital e assassinato. É preciso ter
muito estômago para assistir Anticristo.
E estar no clima principalmente. É polêmico e pesado, chegando ao ponto mais
puro do horror da psique humana e do condicionamento do medo e do pecado.
Causou um imenso bafafá no Festival de Cannes de 2009 (como já é de praxe
tratando-se de Lars Von Trier) e foi alvo de vários tipos de críticas, das mais
positivas às mais negativas. Uma coisa é certa: é impossível passar incólume ao
filme. Você pode detestá-lo ou você pode odiá-lo. Mas é um mergulho dentro do
abismo. E como o próprio Nietzsche escreveu em outra obra: “quando se olha
muito tempo para o abismo, o abismo também olha dentro de você”.
FONTE:
https://101horrormovies.com/2016/06/17/857-anticristo-2009/
#201 1967 ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER (Brasil)
Direção: José
Mojica Marins
Roteiro: José
Mojica Marins, Aldenora de Sá Porto
Produção: José
Mojica Marins, Augusto Pereira, Antonio Fracari (Produtor Associado)
Elenco: José
Mojica Marins, Tina Wholers, Nadia Freitas, Antonio Fracari, José Lobo
Zé do Caixão está de volta! O
expoente máximo do terror nacional, o coveiro mais famoso do cinema brasileiro,
quiçá mundial, ataca novamente em Esta Noite
Encarnarei no Teu Cadáver, continuação direta de À Meia-Noite Levarei sua Alma de 1964. E convenhamos,
mais uma vez José Mojica Marins dá ao seu filme um dos melhores títulos de
filmes de terror de todos os tempos! Foram essas maldições (levarei sua alma,
encarnarei no teu cadáver) que transformaram o personagem em um dos mais
famosos e mais agourentos do país. O temido coveiro Josefel Zanatas, ou Zé do
Caixão para os mais chegados, continua sua insana busca por um filho, para
perpetuar a sua espécie como homem superior. Após sobreviver ao infortúnio do
final do primeiro filme, agora Zé rapta seis mulheres para entre elas, escolher
sua parceira, que também seja uma mulher superior, livre de medo e crenças, a
fim de ficar grávida do coveiro. Nesse processo de escolha, ele faz as
pobrezinhas comerem o pão que o diabo amassou, agora com a ajuda de Bruno, seu
capanga corcunda e deformado, ao melhor estilo assistente de cientista louco.
Assustando-as com aranhas, ele acaba escolhendo Márcia, a única que não teve
medo dos bichos asquerosos. As demais terão um destino sombrio, já que as joga
em um fosso cheio de cobras venenosas que as matarão em poucos minutos. Só que
antes de Jandira (interpretada pela ex-miss Tânia Mendonça), uma das cativas,
morrer, ela roga a praga que encarnará no cadáver de Zé, atormentando-o pelo
resto do filme. Mojica sempre foi um dos mais inventivos e originais cineastas
do cinema nacional, isso sem a menor dúvida, mesmo sendo completamente
marginalizado. Com o inusitado sucesso de À Meia-Noite Levarei sua Alma,
os produtores Augusto Pereira e Antônio Fracari levantaram o dinheiro
necessário para o diretor fazer sua sequência. Com orçamento maior que de seu
primeiro trabalho, vemos toda a criatividade de Mojica aflorar em um filme
muito superior que seu predecessor, tanto de forma técnica e narrativa, com
maior liberdade para a construção de sua história, até trabalhar de forma
melhor em seus cenários, como por exemplo, o lúgubre pântano, que nada era mais
que uma poça cheia de água em um quintal de uma sinagoga no bairro do Brás,
onde foi filmado 95% do longa. Além disso, Mojica foi capaz de ousar ainda mais
nesse segundo filme da trilogia, mantendo em nível de ebulição sua
idiossincrasia de tripudiar sobre os costumes tão enraizados na cultura popular
brasileira, elevando o grau da sua blasfêmia como uma metralhadora giratória de
questionamentos morais e religiosos, e também aumentando o uso de sangue,
mortes grotescas, sexualidade e misoginia. Mas, o ponto alto do filme, mais
impressionante e assustador, é quando em um sonho, Zé é arrastado por um
encosto para o inferno, e lá conhece a tortura e danação que o espera por toda
a eternidade, numa cena realmente chocante, única colorida de todo o filme, com
dezenas de almas condenadas sofrendo e sendo espetadas por diabos com
tridentes, filmada em uma matiz de cores quentes e frias estouradas, dando a
impressão de uma poderosa viagem lisérgica, que faria Dario Argento ficar
corado. Fora os diálogos mordazes e provocativos. Mais um daquelas pérolas
brilhantes de Mojica, ao condenar o irmão de sua escolhida e filho do seu
arqui-inimigo a uma armadilha mortal, conclamando que Deus o salve de queimar
uma corda que segura uma pedra, que se despencar, esmagará sua cabeça, ele
solta: “Se for para o céu, dê alô para Deus. Mas se seu destino for o inferno,
dê meu endereço para o Diabo!”. É ou não é um gênio? Mas claro que a censura
não deixaria barato toda essa heresia em plenos anos de chumbo do nosso país, e
para o final de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver foi se obrigado
a colocar uma resposta moralista e católica de Zé do Caixão reconhecendo Deus
como seu legítimo pai e salvador, em seus minutos finais e pedindo perdão para
encontrar a redenção na cruz, ignorada quase quarenta anos depois no terceiro
filme que fecha a trilogia, A
Encarnação do Demônio.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/07/01/201-esta-noite-encarnarei-no-teu-cadaver-1967/
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