sábado, 19 de setembro de 2015

#252 1971 A MANSÃO DA MORTE (Reazione a catena / Bay of Blood / Twitch of the Death Nerve / Bloodbath, Itália)


Direção: Mario Bava
Roteiro: Mario Bava, Filippo Ottoni, Giuseppe Zaccariello, Franco Barberi e Dardano Sacchetti (história)
Produção: Giuseppe Zaccariello
Elenco: Claudine Auger, Luigi Pistilli, Claudio Volonté, Anna M. Rosati, Chris Avram

Já assistiu Sexta-Feira 13, certo? E se eu dissesse para você que ele é uma cópia deslavada de A Mansão da Morte, que no Brasil também ficou conhecido como Banho de Sangue e até O Sexo na Sua Forma Mais Violenta (oi???!!!), filme do mestre italiano do macabro Mario Bava, que aqui criou a gênese do que viria a ser o slasher, tão popular no cinema de horror adolescente dos anos 80. Só que diferentemente de qualquer massacre futuro que Jason Voohrees tenha praticado, ou qualquer outro filme slasher já feito, A Mansão da Morte tem dois toques particulares incapaz de serem imitados: primeiro é claro, a fotografia e direção de Bava. E segundo, um roteiro afiado, intrigante, bem construído e com uma reviravolta espetacular em seu final, além de alta dose de sarcasmo e de humor negro, inspirado em uma história original de Dardano Sarchetti, que já havia roteirizado alguns dos gialli de Dario Argento. E mesmo que A Mansão da Morte não traga o mesmo esmero técnico que produções anteriores como As Três Máscaras do TerrorSeis Mulheres para o Assassino e Mata Bebê, Mata!, aqui Bava apresenta uma de suas obras mais violentas e explícitas, com direito a muito sangue e assassinatos cruéis, que viria a inspirar compatriotas como Lucio Fulci, Sérgio Martino e o próprio Argento, além é claro de toda a franquia Halloween e Sexta-Feira 13, entre outras. E voltando a falar de Sexta-Feira 13, algumas comparações são inevitáveis com o filme de Sean S. Cunningham e suas sequências infindáveis, mostrando o quanto ele foi plagiado de A Mansão da Morte, como: a ambientação na beira de um lago (Crystal Lake, alguém?), só que aqui uma Baía que é onde se passa toda a trama; jovens inconsequentes que aparecem na trama apenas para serem trucidados violentamente, fazem sexo e vão nadar pelados no lago; e um assassino espreitando na mata, entre arbustos e árvores, onde a câmera faz às vezes de seu POV. Até certas mortes praticadas por Jason ou sua mãe são idênticas. Uma delas, Marcie, a namoradinha do personagem de Kevin Bacon, leva no Sexta-Feira 13 original uma machadada no meio do rosto I-GUAL-ZI-NHA a facada tomada por Bob, um desses rapazes que citei no parágrafo acima. Outra morte que é cuspida e escarrada são os jovens na cama sendo atravessados por uma lança, pegos na hora do coito, copiada em Sexta-Feira 13: Parte 2. Enfim, comparações a parte, como disse, um dos diferenciais de A Mansão da Morte é o roteiro que vai apresentando personagens um mais ganancioso e inescrupuloso que o outro, sem um pingo de moral, capaz de fazer qualquer coisa para conseguir atingir seus objetivos. Isso por que a tal Baía é propriedade da Condessa Federica Donati, uma velha senhora em uma cadeira de rodas, que já é assassinada logo no prólogo do filme, em uma tentativa de se forjar um suicídio. Você até pensa que o que vem por aí é mais um giallo quando surge um assassino usando luvas pretas de couro e por aí vai, mas logo a face desse assassino é revelada, que mais tarde ficamos sabendo que era o libertino marido da Condessa, Conde Filippo Donati, para logo na sequência ele ser assassinado também. A coisa só vai se complicando e gerando uma reação em cadeia (daí o título original do filme, em italiano), quando diversos interesses entram em jogo ao descobrirmos que Frederica foi assassinada por não querer vender a Baía, sua propriedade legítima, para a construção de um resort no local. Esse imbróglio acaba envolvendo além de seu marido, já também morto nessa altura do campeonato, o filho bastardo da Condessa, o pescador Simon; um esquisito entomólogo casado com uma cartomante surtada que moram no local; Frank Ventura, o interessado em comprar a Baía e sua namorada, e Renata, filha de  Filippo, herdeira legítima da Baía, junto com seu marido Albert, mãe e pai de dois filhos (imprescindíveis no final do filme). Ah, e não esqueça dos jovens em viagem que param na Baía, invadem uma das casas (porque é isso que as pessoas fazem para se divertir) e são eliminados um por um, incluindo a belíssima Brunhilda (interpretada por Brigitte Skay), aquela que vai nadar no lago peladinha e passa assim grande parte do curto tempo que aparece em cena, para nossa alegria. A maquiagem de Franco Freda nos entrega cenas extremamente gráficas, com direito até a uma decapitação com uma machadinha e a trilha sonora de Stelvio Cipriani ajuda na construção de todo clima de suspense. Mas o que salta aos olhos em A Mansão da Morte é a direção de Bava, que coloca o público, de forma incômoda até demais, como um espectador impotente, porém curioso, testemunha ocular do assassinato e do voyeurismo, e o roteiro inteligente e refinado, que vai criando um espiral de catástrofes praticada pela mesquinharia de todos os personagens envolvidos naquele balaio de gato, até chegar ao seu surpreendente final com a saída deliciosamente sádica e de um humor negro imensurável que Bava encontrou para nos mostrar que o “crime não compensa”, deixando qualquer um que esteja assistindo o filme embasbacado. Um filmaço!
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/08/30/252-a-mansao-da-morte-1971/

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

#250 1971 LÂMINA ASSASSINA (Lo strano vizio della Signora Wardh / The Strange Vice of Mrs. Wardh / Blade of the Ripper / The Next Victim, Itália, Espanha)


Direção: Sergio Martino
Roteiro: Vittorio Caronia, Ernesto Gastaldi, Eduardo Manzanos Brochero
Produção: Antonio Crescenzi, Luciano Martino
Elenco: George Hilton, Edwige Fenech, Cristina Airoldi, Manuel Gil, Carlo Alighiero, Ivan Rassimov

O giallo é o autêntico thriller italiano. Inaugurado com maestria por Mario Bava em Seis Mulheres para o Assassino e credenciado como importante subgênero do horror por Dario Argento em sua Trilogia dos Animais (O Pássaro das Plumas de CristalO Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza). Lâmina Assassina é a primeira incursão de Sergio Martino no gênero. E Lâmina Assassina oferece ao seu espectador tudo que o giallo promete em sua premissa: pessoas ordinárias fazendo coisas terríveis umas as outras, um enredo repleto de reviravoltas, assassinatos brutais, uma forte dose de sexo bizarro, masoquismo e adultério oriundo de personagens problemáticos. E Martino mantém o roteiro escrito a seis mãos por Vittorio Caronia, Ernesto Gastaldi e Eduardo Manzano Brochero em intenso clima de interesse, sempre estilizado ao extremo, recurso proveniente da tal escola italiana de fazer filmes, sempre se importando com cenários, fotografias, construção de cenas e trilha sonora. O tal estranho vício da Sra. Julie Wardh (Edwige Fenech), que remete ao título original em italiano, é seu gosto por levar umas porradas. Vamos descobrir isso quando ela retorna para Viena, recém-casada com um homem mais velho, Neil Wardh (Alberto de Mendonza), enquanto um misterioso assassino está matando mulheres com sua lâmina. Prontamente, seu ex-amante, Jean (Ivan Rassimov), um sujeito violento, sádico, arrogante e presunçoso, logo volta a procurá-la, dizendo que só ele pode satisfazê-la, afinal, só ele sabia do interesse da garota em ser saco de pancada. Tentando se livrar da influência de Jean que continua a perseguindo, Julie conhece George Corro (George Hilton), um primo boa pinta de sua amiga Carol Brandt (Conchita Airoldi, usando o pseudônimo de Cristina Airoldi), ambos novos ricos esnobes emergentes, graças à herança herdada por conta da morte de um tio. Como a essência da Sra. Wardh é de safadeza, e o maridão está sempre ausente, a garota vive para cima e para baixo com os dois, e logo cai nos encantos de George, tendo um caso extraconjugal com ele. Esse enredo de novela mexicana é temperado exatamente com as violentas mortes que esse estripador está cometendo nas ruas de Viena, e seu súbito interesse em Julie, o que obviamente irá levantar todas as suspeitas para Jean. Enquanto essa fogueira de vaidades mistura-se com a baixeza da moral e dos bons costumes, a contagem de corpos vai aumentando, chegando até as pessoas próximas da assustada mulher. É quando George a chama para que ela fuja com ele, abandonando seu marido em busca de segurança e felicidade. A moçoila vai acreditar que tudo está bem e que o perigo ficou para trás. Só que não. E daí nos é apresentada a reviravolta final, algo extremamente comum a esse tipo de trama e de filme. Talvez o maior mérito desta obra de Martino é a indefinição da audiência com relação à empatia aos personagens. Você não consegue definir muito bem quem são os heróis e os vilões. Como maior exemplo disso, temos a bela protagonista. Afinal, a Sra. Wardh, que seria a suposta heroína, é uma sadomasoquista, covarde, adúltera e que troca de amantes como eu troco de cueca. Você não consegue simpatizar com a beldade assim tão facilmente, e considerá-la uma vítima coitadinha também. Fora que todo mundo carrega algo de podre e mostra uma verdadeira decadência da instituição familiar e um núcleo de amizade repleto de falsidade, interesse e promiscuidade, tal qual o próprio Mario Bava adorava construir nos personagens de seus filmes. Ponto para a atuação impassível de Edwige Fenech como Julie, que só consegue demonstrar algum tipo de emoção humana quando é subjugada e apanha, e do contido assustador Ivan Rassimov como o desconfortável e cruel Jean. No final dos anos 60 e começo dos anos 70, dezenas de gialli eram lançados, um pior que o outro, com roteiros chinfrins que serviam apenas como um mero fio condutor para as violentas mortes estilizadas e mulheres e mais mulheres nuas. Não que Lâmina Assassina não tenha lá suas bizarrices e nudez feminina aos montes, mas o roteiro é bem construído e funciona como um dos grandes trunfos do filme, que difere esta obra autoral de Martino dos demais parcos irmãos do gênero, salvo os exemplares de Dario Argento. Fora o apreço ao politicamente incorreto, marca registrada dos insanos e sem pudores exemplares do cinema italiano setentista. A fita é uma experiência agradável dentro de seu próprio estilo. Uma curiosidade interessante sobre Lâmina Assassina, é que o H no final da grafia da Sra. Wardh, foi adicionado ao original Ward de última hora, quando uma refinada senhora italiana chamada Ward ameaçou processar o filme, pois o título poderia potencialmente prejudicar seu bom e respeitado nome, pouco antes do filme ser lançado. Vê se pode?
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/08/28/250-lamina-assassina-1971/

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

#249 1971 A IRMANDADE DE SATANÁS (The Broterhood of Satan, EUA)


Direção: Bernard McEveety
Roteiro: L.Q. Jones, William Welch, Sean MacGregor (história)
Produção: L.Q. Jones, Alvy Moore, Sheila Clague (Produtor Associado)
Elenco: Strother Martin, L.Q. Jones, Charles Bateman, Ahna Capri, Charles Robindon, Alvy Moore

Eu aposto R$ 10 que em algum momento da sua vida você pensou ou falou a seguinte frase: “não se faz mais filmes de terror como antigamente”. Acertei? Pois bem, A Irmandade de Satanás é um desses “filmes de antigamente” que com certeza dá vontade de usar essa famosa expressão entre os fãs do horror. E geralmente esta frase é usada quando se trata de filmes tipicamente dos anos 70 ou dos anos 80. E A Irmandade de Satanás tem toda essa estética e aura dos filmes setentistas. Porém, é uma produção subestimada, mas que para mim, facilmente se encaixa na mesma leva de outras fitas pessimistas como O ExorcistaA Profecia e A Sentinela dos Malditos, apesar da clara inspiração em O Bebê de Rosemary do final da década anterior, e que parece também ter servido de inspiração futura para Colheita Maldita de Stephen King e tantos outros. Trocando em miúdos, espere por satanismo, bruxas, seitas e demônios comendo soltos. Escrito, produzido e estrelado por L.Q. Jones (que não há mais nada de relevante no universo de horror em seu currículo), baseado em uma história de Sean MacGregor, a sinistra trama de A Irmandade de Satanás traz uma… hã… irmandade de adoradores de satanás! Ben (Charles Bateman), sua filha K.T. (Geri Reischl) e sua esposa Nicky (a loiraça Ahna Capri) estão viajando pelo interior dos EUA para passar o aniversário da menina na casa da sua avó, quando ao passarem pela erma cidade de Hillsboro, avistam um terrível acidente de carro, com todos os seus ocupantes completamente destroçados e esmagados. Com o intuito de pedir ajuda, o casal e a garota vão até a delegacia da cidadezinha, e lá primeiramente são hostilizados como forasteiros indesejados, saindo correndo do lugar e pegando a estrada novamente. É quando uma figura espectral de uma garotinha aparece no meio do deserto e faz Ben perder o controle do veículo e bater em uma árvore. Para pedir ajuda, a família se vê obrigada a voltar para Hillsboro. Agora na delegacia, junto do xerife (vivido pelo próprio L.Q. Jones), seu assistente Tobey (Alvy Moore – também um dos produtores), um padre (Charles Robinson) e o doutor Duncan (Strother Martin – mais conhecido pelo seu papel como cientista louco de O Homem-Cobra), recém-chegado à cidade, eles ficam a par dos eventos nada usuais pelos quais a cidadezinha está passando. Envolvidos no desaparecimento de 11 crianças, uma série de assassinatos brutais e na incapacidade dos munícipes em deixar a cidade, o padre ventila a ideia de que o local está sob o domínio de uma poderosa força maligna, liderada por um culto local de velhos adoradores de satanás, que pretende por meio de bruxaria das bravas, encontrar a imortalidade, usando os corpos das crianças, como receptáculos de suas próprias almas. E justamente a décima terceira criança é K.T., a filha de Ben, o que aumentará os esforços dele, junto dos demais, em tentar localizar o paradeiro das crianças e impedir que uma maldade sem precedentes recaia sobre todos os moradores antes que seja tarde demais. No meio desta trama legal pacas, o diretor Bernard McEveety, que também não dirigiu mais nada relevante, além de diversos seriados e filmes para TV, acerta a mão misturando algumas cenas contundentes (como a emblemática morte de um dos moradores, pai de duas crianças, que está lendo o poema “Thanatopsis” de William Cullen Bryant e começa a ter uma poderosa convulsão; ou quando um dos pais é decepado por um sinistro cavaleiro que aparece vestido em uma armadura; o selvagem ataque de uma mulher espancada até a morte pelos demais membros da seita; ou mesmo o sacrifício final do ritual satânico) com imagens alucinógenas de pesadelos tétricos, muito bem pontuados pelo uso estourado de cores quentes e grandes angulares, além de edição precisa, e acompanhado pela inquietante trilha sonora de Jaime Mendoza-Nava. Uma curiosidade que lembra os tempos dos filmes de William Castle com seus gimmicks é que em alguns cinemas onde A Irmandade de Satã fora exibido, o pública ganhou um pacote de sementes chamado de “Satan’s Soul” ao comprar as entradas. Cada envelope, ilustrado com o logo do filme, continha duas sementes que segundo as instruções, funcionariam como proteção da magia negra daquela irmandade de satanás. E vejam só, o longa-metragem foi exibido em sessões duplas junto com THX 1138, primeiro filme de George Lucas. A Irmandade de Satanás é um baita filme de terror. Daqueles memoráveis, recomendado para todo e qualquer fã assistir na sala escura de madrugada. Mais um fruto de uma época incontestável para o gênero, que nunca mais voltará, e que por mais que o cinema de terror coma arroz com feijão hoje em dia, nunca conseguirá obter resultados parecidos. Por essas e outras sempre pensamos/ falamos a tal frase com relação aos “filmes de antigamente”.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/08/28/249-a-irmandade-de-satanas-1971/


terça-feira, 15 de setembro de 2015

#248 1971 O GATO DE NOVE CAUDAS (Il gatto a nove code / The Cat O’ Nine Tails, Itália, França, Alemanha Ocidental)


Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Luigi Collo, Dardano Sacchetti
Produção:Salvatore Argento
Elenco: James Franciscus, Karl Malden, Catherine Spaak, Pier Paolo Capponi, Horst Frank, Rada Rassimov

O Gato de Nove Caudas é o segundo filme da trilogia dos animais do italiano Dario Argento, que foram os responsáveis por colocar de vez no mapa o gênero giallo e popularizá-lo tanto na Itália natal quando no resto do mundo. O primeiro destes três filmes foi O Pássaro das Plumas de Cristal lançado no ano anterior, e fecharia a sequência com Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza também de 1971. Seguindo a cartilha padrão de “como se fazer um giallo”, algo que Argento sabia decor e salteado, porém ousando ao substituir certos clichês decorrentes em outros filmes por elementos mais incomuns ao gênero, a trama traz Franco Arno (Karl Malden), um velho ex-jornalista cego que presencia junto de sua netinha Lori (Cinzia de Carolis) uma tentativa de chantagem dentro de um carro (presenciar não significa que ele viu o que estava acontecendo, pois é cego, tá, mas sim esteve presente, ouviu e teve um de seus pressentimentos aguçados de jornalista de que alguma coisa de suspeita estava acontecendo). Aquilo o deixa com a pulga atrás da orelha, até que descobre no dia seguinte, voltando ao local, que um crime acontecera por ali, e um vigia noturno havia sido assassinato durante uma invasão em um laboratório de pesquisas genéticas. O que intriga a polícia e o jornalista Carlo Giordani (interpretado por James Franciscus, que sempre me fará lembrar de seu papel em O Último Tubarão, é que aparentemente, nada havia sido roubado do local, o que sabemos que é mentira, pois o suspeito levou um importante arquivo sobre uma pesquisa realizada pelo corpo científico que envolvia teorias sobre o cromossomo XYY nos seres humanos, que no ano de 1961 foi descoberto por Sandberg e acreditava-se que esse cromossomo Y extra influenciava o comportamento violento, assassino e antissocial nas pessoas que o tinham. Pois bem, Giordani e Arlo então formam uma dupla que resolve por conta própria investigar uma série de misteriosos assassinatos que começam a ocorrer, todos relacionados com o corpo científico do laboratório envolvido nesta pesquisa, vezes com ajuda da própria polícia, representado pelo detetive Sipini (Pier Paolo Capponi) vezes de escroques como um caricato personagem chamado Gigi, O Perdedor (Ugo Fangareggi), que auxilia Giordani a invadir o escritório do Dr. Terzi, presidente do laboratório. E ah, o Dr. Terzi tem uma belíssima filha, Anna (Catherine Spaak), que será o par romântico do intrépido jornalista, suspeita em certos momentos e para os marmanjos, responsável pelas cenas com peitinhos do filme. Como falei há alguns parágrafos, o interessante de O Gato de Nove Caudas, até com relação ao seu antecessor, é a quebra de alguns paradigmas do giallo, que o próprio Argento ajudou a consolidar em O Pássaro das Plumas de Cristal e que atingiria seu ápice na sua obra prima do gênero, Prelúdio Para Matar. Aqui o diretor deixa de lado a figura carimbada do maníaco que veste capa e luvas pretas de couro e também atenua a ultraviolência sempre presente nas mortes extremamente gráficas destes tipos de filmes. Apesar de mortes chocantes, como um dos cientistas ser empurrado em direção a um trem em movimento e tantos outros sendo estrangulados e asfixiados. Além disso, vemos apenas os olhos do assassino fitando suas vítimas por meio de um super close-up de sua órbita (onde podemos até ver as veias do mesmo) e as mortes ocorrendo em POV, nos “colocando na pele” do assassino. Nota-se também a evolução técnica de Argento, se comparado com seu debute como diretor, que funciona mais como um ensaio do excelente potencial que o diretor conseguiria alcançar ao tentar calcar os passos de Mario Bava quando deu vida ao subgênero em Seis Mulheres para o Assassino. Em 1964. Altamente influenciado pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock, há uma boa construção de personagens com seus mais diversos motivos que poderiam levá-los a cometer os terríveis assassinatos, inversão de papeis e o desenvolver de todas as pistas que vão sendo levantadas durante e perigosa investigação. Claro que haverá diálogos sofríveis, um romancezinho sem vergonha, algumas explicações tacanhas, percalços narrativos (como a cena em que Giordani fica preso dentro de um mausoléu) e um final apressado e até meio bobo, se comparado com o desenrolar do filme, mas nada que estrague a obra. Também tenho que salientar a direção de arte, a fotografia e cenografia feitas com esmero (mais uma vez lembrando o trabalho de Bava), ângulos e cortes de cena impressionantes (como o tal aflitivo super close do olho), e obviamente não posso me esquecer da trilha sonora do mestre Ennio Morricone, que obviamente não está entre seus melhores trabalhos (como as trilhas feitas para os filmes de Sergio Leone ou Giuseppe Tornatore, por exemplo), e também não é tão contundente quanto a parceria de Argento com a banda de rock progressivo Goblin, mas que faz muito bem o seu papel para dar contornos de mistérios nesta trama suja e sufocante. O Gato de Nove Caudas é o primeiro grande trabalho do diretor, mesmo que se comparado ao próprio Prelúdio para Matar ou Suspiria, por exemplo, não seja o espetáculo visual e narrativo os quais estamos acostumados a receber de Argento, mas vale muito a pena de ser visto como uma peça importante em sua filmografia, e porque não, do próprio cinema italiano de terror em si
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/08/27/248-o-gato-de-nove-caudas-1971/

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

#246 1971 ESCRAVAS DO DESEJO (Les lèvres rouges / Daughters of Darkness, Bélgica, França, Alemanha Ocidental)


Direção: Harry Kümel
Roteiro: Pierre Drouot, Harry Kümel, Jean Ferry (diálogo), Manfred R. Köhler (não creditado)
Produção: Paul Collet, Henry Lange, Luggi Waldleitner (não creditado), Pierre Drouot e Alain C. Guilleaume (Produtor Associado)
Elenco: Delphine Seyrig, John Karlen, Danielle Ouimet, Andrea Rau, Paul Esses

O cultuado filme de Harry Kümel, Escravas do Desejo, é uma produção belga-franco-germana que está naquele patamar dos filmes de vampiro interessantíssimos, atmosféricos e carregado de sensualidade e explosão erótica, típico das produções europeias com esse teor permissivo do começo dos anos 70. Calcado no lesbianismo vampírico, possivelmente inspirado (e indo além) pelos temas levantados no seminal Carmilla de Sheridan Le Fanu, Escravas do Desejo é mais poético e extasiante do que os exageros eróticos de nudez exacerbada de diretores como Jean Rollin ou Jesús Franco. É aquele tipo de filme que é uma bomba de explosão sexual, onde todos os personagens, tanto os vampiros quanto suas vítimas humanas, estão envoltos em um inebriante jogo de sedução poderosíssimo. Por isso é considerado o mais classudo filme sobre vampiras lésbicas já feito. Pegando carona na lenda da Condessa Elizabeth Bathory, que acreditava-se banhar em sangue de virgens para manter a sua juventude e imortalidade (também inspirador do filme da Hammer do mesmo ano, A Condessa Drácula, com Ingrid Pitt no elenco), o pródigo Kümel usa essa premissa para criar seu filme “comercial”, que para ele significava não ter de passar pelo constrangimento da aprovação do governo e ir o mais longe possível em explorar a nodosidade do assunto, porém com uma atitude artística. Dois jovens, Stefan (John Karlen) e Valerie (Danielle Ouimet), casam-se secretamente na Suíça e pegam um trem com destino a sua lua de mel na Alemanha, hospedando-se em um praticamente abandonado hotel de veraneio em pleno inverno, o que os daria tranquilidade até que eles fossem encarar a mãe de Stefan e contar a ela sobre o casamento, algo, que por nenhum motivo revelado, ele tenta protelar ao máximo, deixando-se permanecer no local por mais tempo que o combinado. Neste mesmo hotel, a Condessa Bathory, interpretada glamourosamente por uma bela e madura Delphine Seyrig, vive com sua amante Ilona (Andrea Rau), uma morena de cabelos curtos e olhar hipnótico e sedutor. A presença dos dois jovens aguça os sentidos da mulher que rapidamente, começa um jogo massivo em cima dos dois, indefesos dos poderes sedutores da vampira e incapazes de resistir. Stefan começa a se sentir estranhamente atraído pela morte (diversas garotas são mortas misteriosamente na cidadela próxima, encontradas sem nenhuma gota de sangue) e torna-se introspectivo e agressivo, chegando até a espancar a pobre esposa com um cinto em uma das cenas mais impactantes do longa. Neste momento, Valerie humilhada tenta ir embora e pegar o próximo trem, quando o plano da Condessa entra em cena, com a mulher tentando convencê-la a ficar e a estonteante (e estranha) Ilona parte para seduzir Stefan. A cena que se segue após a transa do dois, quando Stefan vai tomar banho e força a garota a entrar no chuveiro, que começa a se debater para se livrar desesperadamente (pois como bem sabemos, uma das fraquezas dos vampiros é a água corrente) é simplesmente fantástica. Uma sucessão de tragédias enquanto os dois se debatem leva a garota a morte, enfraquecida pelo banho, e os três personagens partem para tentar enterrar o corpo. Ao final, está reservado à improvável e fraca Valerie, tentando se livrar da influência do marido e da forma como a Condessa Bathory a subjuga, encerrar esse pesadelo. Apesar da tonelada de cenas desconcertantes de choque e nudez (principalmente de Ilona) o filme acabou tornando-se menos sangrento e mais sutil do que o próprio Kümel desejava (ele havia declarado ter previsto uma cena com 700 virgens banhando-se em sangue!), e deu lugar as influências surrealistas de seus compatriotas como Paul Devaux e Leon Spilliaert, as locações ermas jogando vampiro e suas vítimas em uma paisagem fria e desoladora, o uso preciso do jogo de luzes, tons de vermelho profundo, atuações beirando o sonambulismo e uma certa devassidão decadente, em uma atmosfera latente e sensual de sonho. Tais combinações chocantes poderiam certamente decretar o fracasso comercial de Escravas do Desejo, mas como Kümel conseguiu balancear todos estes elementos cuidadosamente, o filme recebeu críticas extremamente positivas, superando as expectativas e obtendo sucesso em centros como Londres, Paris, e até nos Estados Unidos, sempre reticente a esse tipo de produção. Além disso, após desaparecer do radar do público, tornou-se um hit nas sessões da meia-noite. Escravas do Desejo é um fenômeno escondido dentro de seu próprio subgênero, cult ao extremo, redescoberto ao passar dos anos por toda uma nova geração de fãs do horror e cinéfilos em geral. Detentor de certa classe sem nenhuma apologia, já que todas as pretensões são inatas, enquanto ao mesmo tempo entrega uma experiência sofisticada de terror.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/08/23/246-escravas-do-desejo-1971/