sábado, 16 de maio de 2015

#152 1962 OBSESSÃO MACABRA (The Premature Burial, EUA)


Direção: Roger Corman
Roteiro: Charles Beaumont, Ray Russell (baseado na obra de Edgar Allan Poe)
Produção: Roger Corman, Samuel Z. Arkoff, Gene Corman (Produtor Executivo)
Elenco:Ray Milland, Hazel Court, Richer Nery, Heather Angel, Alan Napier

Cronologicamente, Obsessão Macabra foi lançado antes de Muralhas do Pavor, meu post anterior. Um chegou aos cinemas em Março de 62, enquanto o outro estreou em Julho do mesmo ano. Por uma questão de ordem alfabética, Muralhas do Pavor foi postado antes. Bom, isso tudo para dizer que em 1962, Roger Corman dirigiu para a AIP dois filmes baseados na obra de Edgar Allan Poe, mas desta vez, sem a presença de Vincent Price, sendo substituído pelo também excelente Ray Milland. O mais interessante é que Milland trouxe um aspecto completamente diferente ao estilo de filme adaptado da obra de Poe que havia sido feito até então. Nos dois filmes anteriores, O Solar Maldito e A Mansão do Terror, e mesmo no próprio Muralhas do Pavor e os demais filmes da fase Poe (seriam oito, ao total). Price sempre foi um ator que abusa de recursos de teatralidade, exagerado, cartunesco, dramático, que faz parte do mundo decadente que está em sua volta, sempre sofrendo de alguma degradação específica tanto de personalidade quanto de caráter. Veja Roderick Usher ou Nicholas Medina. Enquanto o personagem Guy Carrell de Milland é uma pessoa comum, jogada em uma situação macabra, alterando todo o ambiente a sua volta. Isso porque Carrell presencia uma cena que o tira dos eixos e coloca sua sanidade a fio, ao desenterrar um cadáver junto de seu amigo, o Dr. Gault (interpretado por Alan Napier, o Alfred o seriado do Batman dos anos 60), a fim de utilizá-lo em pesquisas médicas, descobrindo que ele foi enterrado vivo, encontrando o defunto com uma horrível expressão de pânico no rosto e sob a tampa do caixão, marcas de arranhões e sangue. Isso desperta um medo irracional em Carrell, que acredita sofrer de catalepsia, assim como seu pai, e começa a sentir um pavor indescritível de que aquilo possa a vir ocorrer também com ele. Vivendo na sombra desse medo que se torna uma obsessão, Carrell se muda com sua irmã, a dúbia personagem Kate (Heather Angel) para sua casa afastada da cidade, pintando quadros sinistros e se drogando com láudano, desistindo de se casar com sua noiva, Emily, filha de Gault, que é interpretada pela bela Hazel Court, famosa pelos filmes da Hammer como A Maldição de Frankenstein e O Homem que Enganou a Morte. Mas a moçoila não se dá por vencida e resolve insistir em trazê-lo de volta ao mundo real e consumar o casório. Porém mesmo depois de casado, e ainda auxiliado pelo médico amigo da família Gault, Miles Archer, que sempre nutriu uma paixonite por Emily, Carrell não consegue se afastar de seus medos e de sua conduta hostil, tendo uma ideia mirabolante caso ele venha a ser enterrado vivo como o pobre diabo que viu no começo do filme. Em seu mausoléu pessoal, ele cria uma série de traquitanas que irão salvá-lo. Entre elas: um caixão que abre facilmente com um só toque; um sino que irá avisar aos criados que está vivo ao ser tocado por ele; portas que se abrem automaticamente ao puxar de cordas; um estoque de alimentos e bebidas; uma escada com saída para uma claraboia; ferramentas e bananas de dinamite para estourar a porta se nada mais dar certo; e em último e extremo caso, uma dose de veneno para que ele dê cabo de sua vida e não fique mais naquela prisão eterna. Até que em uma noite na floresta, ele escuta um assobio que o remete ao assobiar dos dois ladrões de túmulo que o acompanharam naquela fatídica noite, e tem um terrível pesadelo, filmado com filtros em verde e azul, ao melhor estilo Corman, onde ele é enterrado em seu mausoléu e simplesmente todas as suas tentativas de sair de lá, tão premeditadas, dão errado. As alavancas não funcionam, as bananas de dinamite estão podres e a até o veneno é substituído por um cálice cheio de vermes. Cada vez mais paranoico, com a ajuda de sua esposa e de Miles, ele finalmente encara que está sofrendo de uma neurose compulsiva, desejando a morte e se tornando um escravo do medo, até resolver que para sua própria sanidade, deve se livrar do mausoléu e afastar de uma vez por todas esses pensamentos, após levar um ultimato de sua mulher, ao melhor estilo “ou a morte ou eu”. As coisas parecem melhorar consideravelmente para Carrell, até que… 
ALERTA DE SPOILER. Pule para o último parágrafo ou leia por sua conta e risco…
o nosso protagonista sofre uma parada cardíaca ao tentar exumar o corpo de seu pai, e é dado como morto por Gault. Mas na verdade ele não morreu, e sim está em um estado catalético, como sempre temeu, tentando desesperadamente ser ouvido e impedir que seja enterrado vivo em uma cova no cemitério, já que seu mausoléu havia sido destruído. Não dá muito certo. Os dois coveiros ladrões de corpo o desenterram a pedido de Gault, que quer utilizar o corpo do próprio genro, e é quando Carrell é salvo, voltando completamente insano e transtornado, matando os coveiros, indo atrás de Gault e de sua esposa, e descobrindo o terrível plano que foi meticulosamente arquitetado por Emily desde o começo, até um embate final no cemitério, com uma cena envolvendo Emily, Miles e Kate, que até então sempre teve uma presença taciturna e levantando diversas suspeitas durante todo o longa. Obsessão Macabra pode não ter o charme e ter feito o mesmo sucesso que as demais adaptações de Poe dirigida por Corman, mas é um excelente filme de terror, com um clima de suspense crescente até seu final surpresa, os cenários de Daniel Haller (que contribuiu com Corman nos filmes anteriores) repletos de cemitérios, florestas de galhos retorcidos e névoa constante, passando toda a atmosfera gótica e morbidez pertinente ao tema, e sóbria atuação de Milland, mostrando ter sido uma escolha perfeita para o papel ao invés de Price. Mais um ponto para Roger Corman, que sabia trabalhar atores como poucos no gênero.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/05/02/152-obsessao-macabra-1962/

#151 1962 MURALHAS DO PAVOR (Tales of Terror, EUA)


Direção: Roger Corman
Roteiro: Richard Matheson (baseado na obra de Edgar Allan Poe)
Produção: Roger Corman, Samuel Z. Arkoff e James H. Nicholson
Elenco: Vincent Price, Maggie Pierce, Leona Gage, Peter Lorre, Joyce Jameson, Basil Rathnone, Debra Paget

Não preciso dizer mais uma vez o quanto eu sou fã de Vincent Price e de Roger Corman e as adaptações das obras de Edgar Allan Poe que eles fizeram juntos, roteirizadas por Richard Matheson. Seria chover no molhado. Então isso basta para dizer o quanto é satisfatório assistir Muralhas do Pavor. Título safadíssimo em português, pois a tradução literal, “Contos de Terror”, soaria muito melhor que o noscense Muralhas do Pavor, aqui somos brindados com três histórias de Poe, ao melhor estilo filme mosaico, todos estrelados por Price, roteirizados por Matheson, adaptados dos famosos contos: Morela, O Gato Preto e O Caso do Sr. Valdemar. Todos, obviamente com suas devidas licenças poéticas e com aquele ar indefectível dos filmes de Corman: baixo orçamento, ambientação de época, direção de arte e figurino que parece que foi copiado em todos os filmes anteriores (como O Solar Maldito e A Mansão do Terror), com seus casarões vitorianos ou castelos empoeirados, interpretação caricata e teatral de Price, abuso de cores quentes, e carregado na sugestão de suspense e de violência na medida certa. O primeiro deles, Morela, traz Price como Locke, viúvo amargurado, que recebe a visita de sua filha, Lenora (Maggie Pierce), que viveu rejeitada nos últimos 25 anos, apontada como responsável pela morte da mãe, a tal Morela em questão, vivida por Leona Gage. O pai sempre culpou a garota, que ao voltar revela estar com uma doença terminal, o que faz com que ele reveja seus conceitos e tente recuperar o tempo perdido com a garota. Mas o que ela não sabe é que Locke guardou durante todo este tempo o corpo embalsamado de Morela, que sobrenaturalmente voltará à vida em busca de vingança da filha e do marido. Detalhe que neste curta, foram utilizados os mesmos cenários de O Solar Maldito. Já o segundo segmento, O Gato Preto, também traz também elementos de outro famoso conto de Poe, O Barril de Amontilhado, além, é claro, do conto homônimo que o nomeia. Misturando uma trama de vingança com toques de comédia e humor negro, aqui Price não é o protagonista, honra dada a outro monstro do cinema de horror (e da sétima arte em si), o esquisito Peter Lorre, que entre outros clássicos, interpretou o assassino de crianças Hans Beckert em M, O Vampiro de Dusseldorf de Fritz Lang e o obsessivo médico psicopata em Dr. Gogol – O Médico Louco. Lorre é Montresor, um beberrão inveterado, casado com a lindíssima Annabel (Joyce Jameson), que vive caindo pelas tabelas embriagado por aí, gastando o dinheiro da mulher nas tavernas e maltratando o pobre gato preto de estimação da moça. Sujeitinho desprezível, invade uma degustação de vinhos e conhece o maior expert do mundo, Fortunato Luchresi (agora sim, Price, hilário). Os dois acabam numa disputa pessoal, a princípio sobre quem entende mais da bebida, com Price e seus trejeitos cômicos, e depois pela bela Annabel, que decide pular a cerca com Luchresi. Ao descobrir a traição da esposa com o recém amigo, Monstresor irá por em prática a mais famosa vingança de Poe: emparedar pessoas. Mas o gato também misteriosamente foi parar atrás da parede junto com os corpos, miando ininterruptamente de forma macabra para entregar o criminoso à polícia. A história de encerramento, inspirada em O Caso do Sr. Valdemar traz novamente Price, como o personagem que dá nome ao conto, que vive em seus últimos dias devido a uma grave doença terminal, e se utiliza da ajuda de um especialista em hipnose, Carmichael, interpretado por Basil Rathbone, outro grande ator dos filmes de terror clássicos, muito deles na Era de Ouro da Universal. Carmichael, ambicioso e maquiavélico, primeiro ganha toda a confiança de Valdemar, aplacando sua terrível dor graças às sessões de hipnose, indo contra a vontade de sua esposa, Helene e seu médico, o Dr. James. Prestes a comer capim pela raiz, Ernest Valdemar pede para que o Dr. James se case com Helene após sua morte, para tomar conta da ex-esposa. Olha que altruísta. Mas ao morrer, Carmichael consegue manter, através de hipnose, a mente de Valdemar presa em seu corpo morto, impedindo-o de descansar para sempre. Carmichael quer todo o dinheiro e, claro, a bela Helene para ele. No final, Valdemar consegue sair do transe, e retorna à vida como uma criatura zumbificada com o rosto derretendo, excelente maquiagem de Lou La Cava, uma mistura de cola, glicerina, raspas de espiga de milho e tinta de maquiagem aquecida (que era tão quente que Price conseguiu aguentá-lo por poucos segundos em seu rosto), pronto para se vingar do vilão. Muralhas do Pavor tem de tudo um pouco: assassinato, necrofilia, hipnose, vingança, zumbis, adultério… Todos aqueles temas que a gente sempre adora e que Poe conseguiu de forma ímpar imprimir em seus contos góticos, transportados mais uma vez de forma salutar por Corman, que mostra que não é só o Rei dos Filmes B, mas sim um excelente contador de histórias, principalmente durante esta fase em que trabalhou com Price e com Matheson. E para você que está em uma fase Edgar Allan Poe por conta do seriado The Following, com Kevin Bacon e que vai ao ar no Warner Channel, ou da minisérie nacional Contos do Edgar na FOX, vale conhecer além das obras completas deste, que foi o mais importante escritor de terror de todos os tempos, a visão peculiar de Corman sobre os contos criados por esse gênio da literatura gótica e as várias facetas que Price conseguiu imprimir em seus excêntricos personagens.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/05/01/151-muralhas-do-pavor-1962/

#150 1962 O HORRÍVEL SEGREDO DO DR. HICHCOOK (L’ Orribile segreto del Dr. Hichcock / The Frightening Secret of Dr. Hichcock / The Horrible Dr. Hichcock, Itália)


Direção: Riccardo Freda
Roteiro: Ernesto Gastaldi
Produção: Ermanno Donati
Elenco: Barbara Steele, Robert Flemyng, Silvano Tranquilli, Maria Teresa Vianello, Harriet Medin

Não confunda, hein! O Dr. Hichcock não é o diretor inglês mestre do suspense que conseguiu um doutorado! Repare na grafia diferente! O Horrível Segredo do Dr. Hichcock é um excelente filme de terror italiano gótico, dirigido por Riccardo Freda, mosntrando-nos aqui já no começo dos anos 60, a incrível capacidade da italianada para fazer filmes de terror. Freda, Bava, Margheriti foram os grandes cineastas do gótico spaghetti da década de 60, que pavimentaram o caminho cinematográfico para a consolidação do cinema de terror italiano nas próximas duas décadas, principalmente com o surgimento da violência extrema e derramamente abundante de sangue de mentira com os giallos, o ciclo canibal e o cliclo splatter, e responsáveis pelo surgimento de diretores futuros como Dario Argento, Sérgio Martino, Michelle Soavi, Lucio Fulci, e por aí vai. O Horrível Segredo do Dr. Hichcock evoca todo o clima e ambientações inspiradas nas produções americanas de Roger Corman baseadas nos contos de Edgar Allan Poe e na estética dos filmes ingleses da Hammer, mas com aquele toque peculiar e único que só os diretores da terra da bota conseguiam alcançar, com suas atmosferas opressivas, fotografias exuberantes, indumentária e cenários como elementos fundamentais da trama, uso preciso da iluminação (ou da falta de), trilha sonora retumbante e o melhor de tudo, os elementos macabros e chocantes. Esse elemento especificamente neste caso é a necrofilia. Esse é o horrível segredo do Dr. Hichcock, revelado logo nos primeiros minutos do filme. Cirurgião brilhante, no século XIX, Hichcock desenvolve um poderoso anestésico que o ajuda a salvar várias vidas durante a realização de complicadas operações em seus pacientes. Só que ele também usa essa anesteria geral em sua linda esposa, Margherita, para praticar jogos sexuais com a mesma, para que ela fique imóvel e desacordada exatamente como um cadáver. Bizarríssimo! Isso até que um dia ele administra uma dose exagerada, e a bela mulher acaba tendo um choque anafilático e morre de overdose. Hichcock abandona a casa, deixando aos cuidados da velha governanta, Martha, larga o emprego no hospital e deixa tudo para trás, ficando fora da cidade por 12 anos, até voltar casado novamente, desta vez com a morena Cynthia, a Scream Queen Barbara Steele, no auge de sua beleza peculiar. Acontece que Cynthia sofre de certos transtornos mentais, e todo o ambiente sinistro e lúgubre da casa, somado ao comportamente errático do marido, começam a deixá-la em parafuso, fazendo a moça jurar de pé junto que está sendo assombrada pelo fantasma de Margherita. Também, não é por menos que a pobre Cynthia se sinta assim. Primeiro pela decrépita Martha, que age como uma megera e ainda tem uma suposta irmã doente mental morando no porão da casa, que emite uivos assustadores durante as noites de tempestade. Segundo pela presença de gigantescos quadros do retrato de Margherita em quase todos os cômodos da casa. Espere aí… se eu entendo alguma coisa de mulher, é que na hora, qualquer uma ia exigir da forma mais veemente possível, que todas as coisas da falecida fossem retirada da casa. Mas Cynthia aceita passivamente no começo, sabendo da adoração de Hichcock pela sua ex-esposa. Enfim… Fora isso, Hichcock não consegue mais controlar sua obsessão sexual por cadáveres, e quase é pego duas vezes com a boca literalmente na botija, pelo seu assistente, o Dr. Kurt (já caidinho por Cynthia nessa altura do campeonato, enquanto o marido vem sendo um escroto), ao acariciar e beijar o corpo de garotas no necrotério do hospital. E explorando a condição mental de Cynthia, é descoberto o terrível e maligno plano do enlouquecido médico: usar o seu sangue para trazer o corpo apodrecido de sua ex-esposa de volta à vida. Barbara Steele mais tarde passaria de novo por uma situação parecida em outro filme, O Castelo do Terror de 1965, dirigido por Mario Caiano, onde sua personagem é morta por um cientista louco, que a pegou traindo com o jardineiro, e usa seu sangue para rejuvenescer uma amante velha decrépita. Ele se casa com a irmã gêmea, que também havia sido liberada de um sanatório onde estava internada por problemas mentais. Pelo jeito, o sangue das personagens de Steele tem alguma espécie de poder revigorante. O Horrível Segredo do Dr. Hichcock é pura atmosfera, porque em nenhum momento, presta-se a  acelerar a cenas para qualquer tipo de horror explícito, e explora a ideia da necrofilia de forma sutil, sem apelações (nada nem próximo dos afetados Nekromantik ou Aftermath, por exemplo) mantendo um clima onírico de suspense sobrenatural constante, exceto pelo final apressado e sem graça. A respeito do tema, o crítico Glenn Erickson escreveu algo interessante, que também reflete um pouco do senso comum sobre os filmes de terror daquela década: “Que um filme sobre as paixões frustradas de um necrófilo poderia mesmo ser lançado em 1962, é um mistério sensório em seu próprio direito – ou, talvez, um testemunho claro para a forma como os filmes de terror foram oficialmente ignorados em todos os níveis culturais naquela época”. Algo que sabemos que mudaria completamente a partir dos anos 70.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/04/30/150-o-horrivel-segredo-do-dr-hichcock-1962/

#149 1962 A FILHA DE SATÃ (Night of the Eagle / Burn Witch, Burn, Reino Unido)


Direção: Sidney Hayers
Roteiro: Charles Beaumont, Richard Matheson (baseado no livro de Fritz Leiber)
Produção: Samuel Z. Arkoff, Albert Fennel, Leslie Parkyn e Julian Wintle (Produtores Executivos)
Elenco: Peter Wyngarde, Janet Blair, Margaret Johnston, Anthony Nicholls, Colin Gordon

Queime bruxa, queime! Mais um clássico dos filmes de bruxa e que envolve rituais e seitas, A Filha de Satã tem esse título marqueteiro apenas para enganar os desavisados. Aqui não há nada relacionado ao coisa ruim, e sim bruxaria da brava, misturando vodu e coisas do tipo. A tradução literal do título original seria A Noite da Águia (fraquinho, também, cá entre nós) e tem também o sensacional nome americano, com o qual eu abri meu texto. Dirigido pelo hábil artesão Sidney Hayers (o mesmo de Circo dos Horrores), levado ao mercado americano pelo incansável produtor Samuel Z. Arkoff, a trama de A Filha de Satã é inspirada no livro Conjure Wife, publicado em 1943, escrito por Fritz Leiber. Responsável por transportar as páginas do livro para a telefona foi tarefa dos competentes roteiristas Charles Beaumont e Richard Matheson, familiarizados em adaptar contos de terror para as telas, principalmente, por terem sido dois dos principais responsáveis pelos roteiros dos filmes do ciclo Edgar Allan Poe dirigido por Roger Corman durante a década. Aqui, o cético e bem sucedido professor Norman Taylor (Peter Wyngard) leva uma vida invejável profissionalmente e está preste a receber uma importante promoção na universidade que leciona. O campo de estudo de suas aulas de psicologia é exatamente desmistificar superstições. Porém, certo dia, ele acaba descobrindo que sua esposa Tansy (Janet Blair) é praticante de bruxaria, que aprendeu ao conhecer um feiticeiro em uma viagem do casal à Jamaica. Pronto, daí o professor surta de vez, achando aquilo completamente ridículo e desmiolado, e briga com Tansy até que ela abandone aquela prática e se livre de todos os seus feitiços e patuás, mesmo ela relutando, dizendo que com eles, cria um ciclo de proteção para o marido contra tudo que há de mal. Mas como bem sabemos no gênero, Taylor não deveria ter duvidado e mexido com tal poder, e daí para frente, as coisas começam a dar terrivelmente errado imediatamente: sua melhor aluna o acusa de estupro, seu namorado o agride, e uma ameaça invisível, sobrenatural, demoníaca, tenta invadir sua casa. Além disso, Tansy começa a ser guiada por uma terrível força controladora, que primeiro faz com que ela tente se afogar, em sacrifício para que seu marido não sofra mais nenhum mal. Salva na hora H por Taylor, ela ainda tenta esfaqueá-lo mais tarde, mas também é impedida e trancada em um quarto. Todos esses acontecimentos sem explicação acabam fornecendo ao marido todo tipo de motivação para que ele passe a acreditar em bruxarias daqui para frente.
ALERTA DE SPOILER. Pule para o último parágrafo ou leia por sua conta e risco.
É então que o sujeito descobre que uma colega de universidade, a secretária Flora Carr (Margaret Johnston) é a bruxa mor que está conjurando forças das trevas para acabar com Norman, já que sua carreira passou a ser ameaçada e interrompida com o crescimento profissional do professor na universidade. Primeiro ela usa seu poder de magia negra, queimando um castelo de cartas, e com isso colocando fogo na casa de Norman, onde Tansy está trancada. Depois , reproduzindo uma gravação ritualística que ela coloca nos alto falantes do campus, dá vida à águia de pedra, símbolo da universidade, que ficava em um pedestal na entrada do prédio, para perseguir e matar Norman, que só é salvo pelo seu colega, marido de Flora, que desliga a fita, o que faz com que a águia desapareça. Tansy também consegue escapar da casa em chamas, e para a bruxa maligna, o terrível destino consiste na pesada estátua da águia cair em cima dela enquanto andava pelo campus, morrendo de forma instantânea. A Filha de Satã é um thriller sobrenatural interessante, que mescla vários elementos do gênero usado até então, com uma tensão crescente em uma excelente fotografia sem desperdiçar nenhum frame, que segue bastante o conceito de se concentrar na atmosfera e na sugestão do que no terror implícito, ressuscitando a forma como Val Lewton conduzia as produções para a RKO Radio Pictures durante a década de 40. Além disso, há toda uma picuinha social que envolve a dança de cadeiras e escala hierárquica dentro de um campus. Curioso que em seu lançamento nos EUA, o filme era acessível para menores de 13 anos, enquanto na terra da Rainha, foi aplicada uma censura X, apenas para adultos. Na versão americana, como gimmick, foi incluída uma narração inicial de Paul Frees, entoando um feitiço para proteger a audiência do mal.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/04/29/149-a-filha-de-sata-1962/




quinta-feira, 14 de maio de 2015

#148 1962 CRIATURAS DA NOITE (Captain Clegg / Night Creatures, Reino Unido)


Direção: Peter Graham Scott
Roteiro: John Elder, Barbara S. Harper (diálogos adicionais) (baseado na obra de Russell Thorndike/ não creditado)
Produção: John Temple-Smith
Elenco: Peter Cushing, Yvonne Romain, Patrick Allen, Oliver Reed, Michael Ripper, Martin Benson

Criaturas da Noite é um filme no mínimo ambíguo. Poxa, é mó legal, tem Peter Cushing na sua melhor forma, é da Hammer, é um dos grandes clássicos do estúdio, uma história que te prende e é bem desenvolvida e ambientada… Mas então por que fica aquela sensação de que alguma coisa está errada? Eu acredito que seja por conta de, em detrimento de ser um filme de horror sobrenatural, é uma história de ação, com piratas, contrabando de álcool, soldados ingleses, etc. Com direito até ao personagem de Cushing se pendurar em um candelabro em uma escapada. Enquanto os tais Fantasmas do Pântano ficam completamente em segundo plano, e é mais uma saída ao melhor estilo vilões do Scooby-Doo do que um terror real do além-túmulo de verdade. Não dá para dizer muito sobre a trama sem mandar uma porrada de SPOILERS. Não o farei então. Vale dizer então que o filme começa no século XVIII, com o famigerado e temido capitão Nathaniel Clegg condenando um mulato a perder a orelha, a língua e ser deixando amarrado em uma ilha deserta, por ter traído o pirata mor. Alguns anos depois, quando o pirata já havia há muito sido capturado e enforcado por seus crimes, um bando de oficiais ingleses a serviço do rei, liderador pelo Capitão Colier (Patrick Allen), estão procurando contrabandistas de bebida na cidade de Dymchurch. O complô de contrabandistas envolve desde a o reverendo local, Dr. Blyss (papel de Cushing que está ótimo, uma das suas melhores atuações do cinema), até o filho do escudeiro da cidade, Harry Cobtree (Oliver Reed), o carpinteiro de caixões Jeremiah Mipps (Michael Ripper – coadjuvante de vários filmes da Hammer), o estalajadeiro Sr. Rash (Martin Benson) e sua protegida, a belíssima Imogene (Yvonne Romain). E mais uma cambada de beberrões safados. Capitão Colier ficará desconfiado destra trupe, e ao mesmo tempo irá tentar desvendar se os Fantasmas do Pântano são reais ou contos da carrochinha. Onde está agora o elemento de horror do filme? Nos tais Fantasmas do Pântano, um grupo de cavaleiros demônios esqueléticos montando cavalos fantasmagóricos, liderados pelo espírito do Capitão Clegg, trazendo a perdição para todos aqueles que vagam nos pântanos durante a noite, e obviamente, aqueles que supostamente atrapalham o fortuito plano de contrabando dos locais. Ponto. Convido todos a assistir ao resto do filme para ver o desenrolar da história e seu final. Fato é que nunca tive tanta dificuldade para escrever sobre um filme. Porque Criaturas da Noite é SUPER legal de se assistir, e é um das “obras primas” do estúdio. Mas destoa de todo os demais filmes da Hammer. Você pensa na história escrita por Anthony Hinds, sob o pseudônimo de John Elder, baseada de forma não creditada no livro Doctor Syn de Russel Thorndike: cavaleiros fantasmas andando pelos pântanos apavorando geral. UAU! E mesmo que a maquiagem e os figurinos sejam toscos, assim como o efeito especial translúcido das almas penadas cavalgando, você se apaixona instantaneamente pelo filme, pela aura que ele desperta. Fora a icônica figura do maligno corsário, o Capitão Clegg. É como ver o avô do primeiro Piratas do Caribe, dada as devidas proporções, que mistura uma trama de aventura com elementos de horror, com Capitão Barbosa e seus fantasmas amaldiçoados. E o figurino de Cushing, com aquele cabelinho de nona com uma mecha branca? Aqui ele faz um real personagem multi-dimensional, bem diferente dos papeis que estamos acostumados a ver o galante inglês interpretar (sempre  maniqueísta causador do bem, como Van Helsing, ou do mal, como Victor Frankenstein). Aqui ele é divertido, cínico, ameaçador, tenso, calmo, rebelde, herói, complacente, vilão. Rasgação de seda com méritos. E também há todos os personagens de apoio: beberrões, salafrários, sarcásticos, em contraponto aos soldados rígidos, mas incompetentes. Mas por fim, mesmo com os twists do roteiro no final, direção e condução competente de Peter Graham Scott e ambientação de época nos trinques, Criaturas da Noite me deixou um gosto de cabo de guarda chuva na boca. Esse foi o caminho escolhido pelo estúdio para fugir do usual, mas poderia apostar um pouco mais no famoso estilo sobrenatural-gótico-místico da Hammer. É um bom entretenimento, com 80 minutos divertidos e que fluem te prendendo à tela, que você nem percebe o tempo passar. 
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/04/27/148-criaturas-da-noite-1962/

#147 1962 O CÉREBRO QUE NÃO QUERIA MORRER (The Brain That Wouldn’t Die, EUA)


Direção: Joseph Green
Roteiro: Rex Carlton, Joseph Green
Produção: Rex Carlton, Mort Landberg (Produtor Associado)
Elenco: Herb Evers, Virginia Leith, Leslie Daniel, Adele Lamont, Marlyn Hanold

Os anos 50 terminaram, mas seu legado não ficou para trás, ainda mais tratando-se de início da década de 60. O Cérebro que Não Queria Morrer é prova disso. Sci-fi bagaceira, típico da década anterior, extremamente divertido e nada plausível, dirigido por Joseph Green, dono da produtora Joseph Green Pictures, onde ele mesmo atendia ao telefone, famosa por distribuir filmes estrangeiros, de kung-fu e exploitation. Lançado pela AIP, somente três anos depois do seu lançamento, a fita foi rodada em 18 parcos dias e com uma “fortuna” de orçamento de 62 mil dólares. Claro que você não pode esperar muita coisa. Mas acredite, O Cérebro que Não Queria Morrer é melhor do que a encomenda. Os diálogos canastríssimos, os efeitos especiais, todo o plot do filme e as atuações bisonhas garantem a diversão da vez. O tal cérebro, que começa o filme suplicando para ser morto, é de Jan Compton, ou Jan na Bandeja, como consta no IMDb, cabeça interpretada por Virginia Leith. A pobrezinha é namorada do Dr. Bill Cortner (Jason Evers), um brilhante médico que quer ultrapassar as barreiras da ciência e medicina, brincar de Deus e realizar algo completamente imoral: transplantes. Isso mesmo. O cara é quase o diabo encarnado por utilizar uma técnica hoje responsável por salvar vidas, mas que era antiética e completamente obscura naquela época. Beleza, o cara quer fazer um transplante de cabeça… Isso é zuado e inverossímil. Mas de resto, ele faz experiências de reconstrução de tecidos, membros, enxertos. Tá certo que não dá muito certo, pois ele acaba criando uma anomalia, uma aberração deformada que deixa trancada atrás de uma pesada porta em seu laboratório, e seu assistente também tem um de seus braços atrofiados. Mas okay, deixemos isso de lado. Bill é chamado com urgência pelo seu assistente, para ir rapidamente à casa de campo onde fica seu laboratório. Ele leva o “rapidamente” a sério demais, e mete o pé no acelerador na estrada, sofrendo um acidente (dos mais inexplicáveis e ridículos da história da sétima arte) e Jan, que estava com ele no banco do passageiro é quem paga o pato. Bill não sofre um arranhão e encontra o carro em chamas, com a garota presa nas ferragens. É quando ele simplesmente, arranca a cabeça dela do lugar, com as próprias mãos, enrola na jaqueta e sai correndo até sua casa/ laboratório. Lá, ele finca a cabeça em uma bandeja, ao melhor estilo Re-Animator – A Hora dos Mortos Vivos, e através de um soro especial que desenvolveu, consegue manter a cabeça com vida pelas próximas 48 horas. É isso mesmo que você leu. E para completar, ela descobre ter desenvolvido uma espécie de poder telepático que a faz se comunicar com a criatura deformada atrás da porta. A atriz Virginia Leight passa o resto da película embaixo de uma mesa, somente com a cabeça para fora, a fim de simular que está decepada em cima da bandeja, e desfilando diálogos afiados tanto com o assistente medroso quanto com a deformidade, que não fazemos a menor ideia de como é sua aparência até então. A próxima ideia brilhante de Bill é arranjar um novo corpo para sua noiva e fazer o transplante de cabeça. Claro! E onde ele vai procurar esse corpo? Nos locais mais propícios para tal. Primeiro em um prostíbulo e depois em um concurso de trajes de banho. Afinal, já que é para colocar a cabeça em um novo corpo, que seja de uma gostosa, não é mesmo? A vítima que ele escolhe é uma modelo que posa para fotos e desenhos artísticos, que sofreu violência de um homem há tempos, que mutilou seu rosto, sendo salva pelo próprio Bill, e adquiriu um grau elevadíssimo de misantropia e virou lésbica. O experimento de Bill vai para as cuias quando a atormentada Jan, querendo vingança contra seu noivo por não tê-la deixado morrer e colocado-a nesse experimento bizarro, tornando-a uma anomalia da natureza, incita o monstrengão a escapar do seu cárcere e matar tanto o assistente de Bill, arrancando seu braço inteiro por meio de uma portinhola, e depois partir para cima do médico. Apesar do orçamento pífio, a maquiagem do monstro, interpretado por Eddie Carmel, está bastante interessante e bem feita, cortesia de George Fiala. Um detalhe peculiar é que Carmel sofria de deformidades na vida real. Ele possuía mais de dois metros, uma má formação óssea e um tumor na glândula pituitária que o conferiu esse tamanho e aparência bizarra, tendo ele trabalhado em diversos “freak shows”. Ele morreu com apenas 37 anos, decorrente de falência glandular. Outro ponto extremamente positivo em O Cérebro que Não Queria Morrer é o gore. Os filmes da Hammer e também a chamada Sadian Trilogy já haviam começado a deixar o sangue e a violência cada vez mais explícitas no cinema. Aqui, mesmo com fotografia preto e branca, uma boa quantidade de sangue é utilizada, principalmente no personagem Kurt, o assistente de Bill, quando tem seu braço arrancado e sai esperneando com sangue esguichando pelas paredes e chão da casa. Se o filme fosse colorido, teria feito bastante barulho para a época. E ainda tem todo um poder feminino implícito no filme, tanto com as prostitutas de personalidade forte que trabalham no cabaré que Bill vai visitar, quanto Doris Powell (vivida pela bela Adele Lamont), com seu lesbianismo escancarado, até afirmando que tem uma namorada, coisa ultrajante para a época. Hoje O Cérebro que Não Queria Morrer está em domínio público. Uma merecida preciosidade trash.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/04/26/147-o-cerebro-que-nao-queria-morrer-1962/