sábado, 7 de novembro de 2015

#307 1974 O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (The Texas Chainsaw Massacre, EUA)


Direção: Tobe Hooper
Roteiro: Kim Henkel, Tobe Hooper
Produção: Tobe Hooper, Jay Parsley (Produtor Executivo), Kim Henkel, Richard Saenz (Produtores Associados)
Elenco: Marilyn Burns, Gunnar Hansen, Edwin Neal, Allen Danziger

O Massacre da Serra Elétrica de Tobe Hooper é o filme independente de terror definitivo. Outro daqueles que entra em qualquer lista que se preze dos melhores do gênero em toda a história do cinema. Além disso, talvez seja a mais notável e brutal produção da excelente safra surgida nos anos 70. Baseado na história real do famoso serial-killer Ed Gein (que também inspirou Psicose e O Silêncio dos Inocentes), o filme já começa fazendo questão de deixar bem claro para o espectador que foi um dos crimes mais macabros cometidos na história dos EUA. Isso narrado por um desconhecido John Larroquete até então. Com uma mixaria de orçamento nas mãos, o talento de Hooper realmente toma conta da situação, entregando uma fita crua, filmada em tom de documentário, o que consegue nos passar uma assustadora noção de realidade. Não há quase trilha sonora (apenas barulhos pontuais, grunhidos e o roncar da motosserra), os ângulos foram extremamente bem planejados para ostakes (para exatamente suprir a falta de recursos), a saturação da cor, o jogo de luz e sombra, e a cenografia, tudo muito bem executado por um proeminente novo diretor que injetou sangue novo no cinema de terror e entregou uma verdadeira obra prima. E esse choque de realidade é um dos principais motivos pelo qual O Massacre da Serra Elétrica é tão assustador. Não há uma garotinha possuída por demônios. Não há vampiros, zumbis ou monstros criados em laboratório. Há uma família completamente desequilibrada de canibais, que exuma cadáveres do cemitério, vivendo em uma cidade decadente do sul americano, à míngua após a falência do matadouro local. O mais notável membro dessa família é um homem com problemas mentais que costura a pele de suas vítimas e faz máscaras com seus rostos escalpelados. Por mais que seja exagerado, não é tão ficcional assim. Ed Gein que nos diga. É um soco no estômago de uma sociedade que é capaz de criar monstros como aquele. É jogar na latrina e dar descarga todos os valores morais e a instituição da família e ver como o modo de vida fora dos subúrbios pode ser deturpado e caótico. Cinco jovens de classe média, sendo que um deles é aleijado (vai colocar isso em um filme hoje em dia para ver se o politicamente correto não cai matando de pau em você) vão para uma cidadezinha no Texas preocupados que a recente onda de roubo de cadáveres do cemitério local tenha violado o sono eterno de seu avô. Após constarem que está tudo OK, resolvem visitar a antiga casa onde cresceram Sally e seu irmão Franklin (o paraplégico). Durante o caminho eles dão carona para o sujeito mais afetado das redondezas (atuação verossímil até demais de Edwin Neal), que os ataca dentro do furgão, e mal eles sabem que a partir dali estavam desencadeando uma série de eventos que os levariam até o covil de Leatherface (Gunnar Hansen), pai dos assassinos de filmes slasher, e o resto de sua família, digamos, disfuncional (incluindo o mesmo carona). É cruelmente perturbador e extremamente angustiante. Sabe, falar qualquer coisa de O Massacre da Serra Elétrica é meio que chover no molhado. Foi censurado e proibido em vários países como Inglaterra, Alemanha, Finlândia, Suécia e até aqui no Brasil da Ditadura Militar. A primeira vez que Leatherface aparece em cena é uma das cenas mais chocantes do cinema. Enquanto um dos jovens investiga a casa, o vilão surge de trás de uma porta dando uma marretada violenta e certeira no rapaz que cai com o corpo estrebuchando no chão. Garanto que quem vê essa cena da primeira vez nunca mais irá esquecer. Ou então quando a garota é pendurada em um gancho suspenso na parede para sangrar sobre um balde de metal, como se fosse um animal no abate, sem a menor piedade para com outro ser humano. Apesar de até então o cinema ter nos proporcionado grandes vilões, como Norman Bates e o Dr. Phibes, nenhum foi tão carniceiro quanto Leatherface. Fora que o quarteto de atores da família canibal, incluindo o pai e o avô mumificado que mais parece um vampiro, estão muito bem em seus papeis e até certo ponto dá para duvidar se estão atuando mesmo ou se eles realmente são daquele jeito. A atriz Marilyn Burns que interpreta Sally, tornou-se a mais histérica Scream Queen do cinema. E como essa menina grita! Sua atuação é brilhante. E tudo isso isso graças a maneira de filmagem de Hooper, que vai elevando o nível de tensão até beirar o insuportável na cena final do “jantar”, onde em super close-ups de rostos, bocas e olhos arregalados a ponto de mostrar as veias, entre gritos e risadas de histeria, vai levando o espectador à loucura conforme a garota prisioneira vai sendo hostilizada pela família. O Massacre custo 150 mil dólares e faturou 100 milhões ao redor do mundo, fora o status de cult e exibição até no Festival de Cannes. Uma pena que Hooper nunca mais acertaria a mão de novo em toda sua carreira. Começando com a própria sequência do filme, que foi um desastre, passando por Poltergeist – O Fenômeno onde apenas seguiu o cabresto de Steven Spielberg e depois as inúmeras bombas que vem fazendo até hoje. Em 2003, O Massacre da Serra Elétrica ganhou uma refilmagem decente pela Platinum Dunes, produtora de Michael Bay (é de desacreditar né?), Andrew Form e Brad Fuller, que mais tarde se tornaria a produtora responsável pelos remakes de filmes clássicos de terror, de A Morte Pede Carona até A Hora do Pesadelo. Com a direção de Marcus Nispel, tem Jessica Biel e R. Lee Ermey no elenco. Vale conferir para ver a modernização do clássico em uma nova linguagem para o público do século XXI. Não decepciona, mas o original é insuperável. Dez anos depois, em 2013, mais uma refilmagem, ou continuação direta deste original aqui, filmado e 3D. Passe longe que é uma bomba sem tamanho (eu mesmo não aguentei ver até o final).
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/11/15/307-o-massacre-da-serra-eletrica-1974/

1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER
580 1974 O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA The Texas Chain Saw Massacre 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

#303 1974 O GALEÃO FANTASMA (El buque maldito / The Ghost Galleon, Espanha)


Direção: Amando de Ossorio
Roteiro: Amando de Ossorio
Produção: José Luis Bermúdes de Castro Acaso
Elenco: Maria Perschy, Jack Taylor, Bárbara Rey, Carlos Lemos, Manuel de Bias, Bianca Estrada

O terceiro filme da quadrilogia dos mortos cegos de Amando de Ossorio, O Galeão Fantasma, é uma verdadeira contradição cinematográfica. Primeiro, que por conta do clima, da história, ambientação e do desenrolar da narrativa, que traz alguns desafortunados presos em uma embarcação fantasma em pleno alto mar rodeado pelos infames zumbis de Ossorio, é um filmaço, talvez o melhor da série neste quesito. Segundo, que por conta dos efeitos especiais PAVOROSOS, o filme quase se torna ridículo e quase afunda (com o perdão do trocadilho). Depois do sucesso dos dois longas anteriores, A Noite do Terror Cego e O Retorno dos Mortos-Vivos, Ossorio apronta mais uma das suas com seus maltrapilhos e esqueléticos cavaleiros templários cegos zumbis, pertencentes a uma antiga e profana ordem adoradora de Satanás, excomungada pela Igreja Católica por praticar sacrifícios humanos. Em O Galeão Fantasma, o ambiente tradicional dos vilarejos ibéricos é substituído, como o próprio nome já diz, por um galeão holandês fantasma do Século XVI, navegando nos mares envolto em uma mística penumbra, nunca captado por nenhum radar e instrumento de navegação, que atrai pequenos barcos para essa dimensão fantasmagórica, desaparecendo para sempre, a fim de alimentar os mortos cegos sedentos por sangue e carne humana. A trama se inicia quando um empresário do setor náutico, Howard Tucker (Jack Taylor) resolve fazer publicidade de uma de suas novas lanchas, e manda duas modelos para o meio do mar, para eventualmente serem resgatadas e ganhar mídia espontânea com a resistência do barco. Mas que ideia de girico!!! Esse cara nunca ouviu falar de relações públicas, não? Acontece que eles perdem o contato com as garotas quando elas avistam o tal galeão fantasma e resolvem entrar a bordo, e daí com medo de se meter em um escândalo e atrapalhar suas aspirações políticas, Howard, junto de seu capanga Sergio (Manuel de Blas), Noemi (Bárbara Rey), amiga de uma das modelos à deriva, a fotógrafa e agente Lilian (Maria Perschy) e do Professor Grüber (Carlos Lemos), estudioso naval, pegam outro barco e vão resgatar as moças perdidas. Ao chegarem lá, encontram o gigantesco e carcomido galeão holandês e subirão a bordo para ver se descobrem seus paradeiros. Obviamente, elas não estão mais lá. Por meio do diário de bordo encontrado por Grüber eles conhecem a origem do galeão e saberão que no porão do navio há um tesouro escondido, assim como as tumbas dos cavaleiros templários cegos, que acordam todas as noites em busca de sangue. Claramente não dá outra e  começarão a ser perseguidos naquele ambiente sujo, claustrofóbico e aterrador, pelos esqueletos usando seus trajes esfarrapados. Até aí tudo bem, o clima do filme é bem soturno, e a cena da morte da garota Noemi é agoniante, com ela tentando fugir dos cadáveres ambulantes, sem conseguir gritar por socorro, pois sua traqueia foi quebrada em uma tentativa de estrangulamento, enquanto baba sangue e é arrastada pelos zumbis lentamente para a parte inferior do navio, para ser desmembrada e feita de lanchinho. Mas a falta gritante de recursos devido ao orçamento baixíssimo, somada a dose de trasheira, já característica nos dois filmes anteriores, aqui extrapola o limite e você só consegue rir das cenas toscas, as quais tornarão o filme muito mais famoso do que pelos seus méritos. As cenas externas, tanto quando aparece o navio fantasma, quanto as demais embarcações (sendo abraçadas pela névoa), obviamente foram gravadas em uma piscina, utilizando ridículas miniaturas de plástico. E quando o navio arde em chamas e naufraga, que parece mais um barquinho infantil de se usar em banheira, colocado fogo e afundando da forma mais bisonha possível? Outra cena lamentável que entra para o rol das bizarrices de O Galeão Fantasma é quando no esforço de se livrar dos mortos cegos, em um mutirão, os sobreviventes levam os caixões até a proa para jogá-los ao mar, e quando eles estão afundando, parecem mais caixinhas de fósforo que foram jogadas dentro de um aquário e chegando ao seu fundo, sendo filmadas por cima. Com certeza faria Ed Wood corar. Mas definitivamente não é isto que importa na trama do filme. A mensagem que Amando de Ossorio quer passar é muito clara, mesmo que menos politizada que em seus filmes anteriores. É mostrar o espetáculo da carne humana, na verdade da carne feminina, que já surge em abundância logo em sua abertura, onde modelos com trajes mínimos estão em uma sessão de fotos. E nisso colocar os monstros humanos, muito piores que os monstros cadáveres, em uma situação limite, que irá trazer o lado mais sombrio da natureza, e gerando impulsos sombrios como assassinato, traição e estupro (sempre há um estupro na quadrilogia de Ossorio, parece até uma regra irrefutável). Outro detalhe interessantíssimo é a percepção de uma diferença básica, que fica ainda mais implícita em O Galeão Fantasma, por ser um ambiente confinado, entre os mortos cegos e os demais zumbis, desde os criados pro George Romero em A Noite dos Mortos-Vivos, até os encontrados hoje nos seriados de televisão: enquanto o zumbi tradicional é um monstro oral, os zumbis de Ossorio são táteis, até por conta de sua cegueira. Comer a carne humana não é o ato máximo para aqueles sacos de ossos usando uma roupa de estopa. Tatear a garota, arrancar se à costa não é algo que vemos todos os dias. O jeito aqui é usar a boa e velha suspensão da descrença, tentar de alguma forma não se ater aos defeitos gritantes do filme, que podem sim colocar tudo a perder, e aproveitar um bom filme de terror, deixando Ossorio te levar pelo seu pesadelo morto-vivo.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/11/09/303-o-galeao-fantasma-1974/

#305 1974 A LENDA DOS 7 VAMPIROS (The Legend of the 7 Golden Vampires, Reino Unido, Hong Kong)


Direção: Roy Ward Baker
Roteiro: Don Houghton
Produção: Don Houghton, Vee King Shaw, Run Run Shaw e Rumme Shaw (Produtores Executivos – não creditados)
Elenco: Peter Cushing, David Chiang, Julie Ege, Robin Stewart, Szu Shih, John Forbes-Robertson, Shen Chan

Mas era só o que me faltava! Vampiros que lutam kung-fu? Mas sim, a Hammer conseguiu levar essa premissa adiante em A Lenda dos Sete Vampiros. Uma caricatura do que o grande estúdio já foi um dia, agora tentando desesperadamente recuperar o interesse do público jovem e levá-los aos cinemas, misturando uma história com o Drácula (porém sem Christopher Lee vestindo a capa e presas) na China, às voltas com um grupo de irmãos lutadores que gostam de distribuir sopapos por aí. Em primeiro lugar, é melhor encará-lo como uma comédia trash do que um filme de terror propriamente dito. Segundo, desde o começo dos anos 70, quando a Casa do Horror começara a entrar em declínio e sua estética gótica, tão popular e famosa na década anterior, passou a não gerar o mínimo interesse em novos espectadores, o estúdio começou a perder muita grana e a Hammer tentou de toda maneira possível conseguir recuperar seu status quo. Começou aumentando a dose de sangue e colocar belas garotas nuas nos seus filmes. E quando nada parecia dar certo, eles tiveram a brilhante ideia de abrir os olhos para o crescente do mercado dos filmes de kung-fu, por conta do estrondoso sucesso mundial de Bruce Lee. E também colocando esses mesmos olhos no mercado asiático, eis que a Hammer se uniu a produtora Shaw Brothers, de Hong Kong, em uma turbulenta parceria, e deu origem a esse híbrido bizarro de lutas marciais com vampirismo em A Lenda dos Sete Vampiros. Na boa? É o pior filme da Hammer, sem sombra de dúvida. Talvez o emergente mercado de filmes de artes marciais fosse uma solução, porém o tiro saiu pela culatra de forma bisonha. Dirigido pelo já lendário Roy Ward Baker (com as cenas e suas coreografias de luta sendo dirigidas por Cheh Chang, de forma não creditada), a trama escrita por Don Houghton parece até piada de mal gosto: O monge chinês Kah (Shen Chan) resolve ir até a Transilvânia (a pé, pelo que dá a se entender no começo do filme) barganhar com o Conde Drácula em pessoa (aqui vivido pelo péssimo John Forbes-Robertson) uma ajuda para trazer de volta à vida os terríveis sete vampiros dourados que viveram em um ermo vilarejo chinês, e assim voltar a tomar o controle do seu povoado. Drácula, que não é lá o sujeito ideal para se pedir ajuda, desdenha de Kah e resolve se apoderar do corpo do monge, disposto a vagar até a China e trazer os terríveis vampiros de volta à vida, e assim orquestrar sua vingança contra a humanidade, escravizando a aldeia, sugar o sangue das virgenzinhas chinesas e tocando o terror. Passados 100 anos, o destemido Prof. Van Helsing (interpretado pela última vez por Peter Cushing), promove uma palestra sobre vampiros em uma universidade da China no comecinho do Século XX, quando é motivo de xacota dos alunos orientais, exceto Hsi Ching (David Chiang), que precisa da ajuda do velho caçador para libertar sua aldeia da terrível presença de Drácula e de seus Sete Vampiros Dourados ressuscitados. Enquanto Ching e seus outros cinco irmãos e irmãs partem junto de Van Helsig, seu filho Leyland (Robin Stewart) e a Sra. Vanessa Buren (Julie Ege) que financia a expedição, eles serão atacados dezenas de vezes pelos vampiros e seus comparsas, apenas para poderem mostrar todas as suas habilidades nas artes marciais nas cenas de pancadaria, com vários socos, chutes, voadoras, espadas, lanças, maças, e corações sendo arrancados com as próprias mãos. Isso até eles conseguirem chegar ao vilarejo, onde vampiros e carniçais desmortos cavalgam em cavalos e usam máscaras e armaduras, e o clã Ching tentar liberar seu povo, com Van Helsing travando a última e definitiva batalha contra sua nêmesis vampiro na história do estúdio inglês. O eterno Drácula, Christopher Lee, foi convidado para participar do filme, mas adivinhe só qual foi sua resposta ao ler o roteiro? O papel caiu no colo de John-Forbes Robertson, que faz um dos piores vampiros mor da história e ainda ficou puto da vida quando descobriu que foi dublado por outro ator. Isso quando não vemos a maior parte do tempo, o china Chan Shen na pele do Príncipe das Trevas. E não tem como passar incólume a fatídica cena em que Peter Cushing tropeça, cai sobre a brasa e quase parte dessa para uma melhor (se você nunca viu, está lá devidamente esculhambada no Horrorcast do filme lá no final do post). A Lenda dos Sete Vampiros foi uma tortuosa jornada até chegar ao seu produto final, principalmente por conta dos inúmeros desentendimentos e brigas entre os executivos da Hammer e da Shaw Bros. Pior ainda que grande parte do elenco e equipe técnica não falavam uma palavra em inglês (nem “the book is on the table”) e o filme foi totalmente dublado mais tarde. Nem a trilha sonora contundente do veterano James Bernard consegue se salvar (e olhe que a Hammer chegou até a lançar um vinil com a narração da história feita por Cushing e a trilha de Bernard, chamado “The First Kung-Fu Horror Soundtrack Album”). Mas nada adiantou. Apesar da boa recepção no oriente, essa mistura nada usual não convenceu os chefões da Warner Bros. que só lançou o longa nos cinemas americanos SEIS ANOS depois, e ainda com 20 minutos a menos de duração. O que deveria ser um alívio par ao publico. “O primeiro filme de caratê e vampiro”, como alardeado pela publicidade brasileira durante seu lançamento nas terras tupiqinquins, A Lenda dos Sete Vampiros é na verdade uma tristeza. Era para ser divertido, inusitado, emocionante, mas é apenas um melancólico espectro do que fora a genialidade da Hammer de outrora, e trágico por em seus últimos suspiros, fazerem qualquer negócio para ganhar mais algumas libras.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/11/13/305-a-lenda-dos-sete-vampiros-1974/

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

DIRTY DANCING RITMO QUENTE (DIRTY DANCING, EUA, 1987)


#304 1974 O JOVEM FRANKENSTEIN (Young Frankenstein, EUA)


Direção: Mel Brooks
Roteiro: Mel Brooks, Gene Wilder
Produção: Michael Gruskoff
Elenco: Gene Wilder, Peter Boyle, Marty Feldman, Cloris Leachman, Teri Garr, Kenneth Mars, Madeline Kahn

Homenagem rasgada, escrachada, hilária do diretor Mel Brooks (talvez seu melhor filme, empatado ali lado a lado com Spaceballs – S.O.S. Tem um Louco a Solta no Espaço, que se trata de outra sátira, desta vez de Star Wars) aos filmes de Frankenstein da Universal, lançados durante a Era de Ouro do cinema de terror. Para mim, O Jovem Frankenstein está para os filmes de Frankenstein como a A Dança dos Vampiros está para os filmes de vampiros e Todo Mundo Quase Morto está para os filmes de zumbi. Apesar de ser uma comédia e não um filme de terror, todos os elementos que nos remetem aos filmes da franquia das décadas de 30 e 40 estão ali, desde seus créditos de abertura, até de encerramento, passando pela fotografia preta e branca e a mistura de todos aqueles arquétipos típicos dessas produções. Mel Brooks (para os mais novos que talvez não o conheça, ele é pai de Max Brooks, o escritor de “Guia de Sobrevivência a Zumbis” e “Guerra Mundial Z”, adaptado recentemente ao cinema) acerta em cheio na sua parceria com o gênio da comédia Gene Wilder (que além de O Jovem Frankenstein, sempre me fará lembrar de seu papel em Cegos, Surdos e Loucos, ao lado do também gênio Richard Prior) revivendo o livro de Mary Sheley e misturando elementos de pelo menos três filmes da série da Universal: Frankenstein e A Noiva de Frankenstein de James Whale e O Filho de Frankenstein. A trama simplista traz o neto do Dr. Frankenstein, Frederick que quer ser chamado de Fronkenstín, ignorando qualquer laço ou parentesco com o malfadado cientista louco, viajando até a Transilvânia ao receber uma herança do avô e lá resolve retomar as experiências malucas em trazer vida a um cadáver, com a ajuda do corcunda Igor (interpretado pelo ator de olhos esbugalhados Marty Feldman – sim os olhos dele são daquele jeito mesmo, não é maquiagem) e da deliciosinha Inga (Teri Garr). O ajudante corcunda dá a famosa mancada de trocar o cérebro de um brilhante cientista por de um tal de Abby Normal (em um dos muitos trocadilhos e jogos de palavras do áudio original, onde estava rotulado no frasco que continha o cérebro ABNORMAL, ou anormal em português) e então a gigantesca criatura (interpretada por Peter Boyle) vêm a vida estúpida, violenta, com medo do fogo, mas com um enorme schwanzstück. Como isso é um blog de cinema de terror, não irei me apegar às piadinhas pueris, aos momentos jocosos, a magnífica interpretação de todos do elenco e por aí vai, e sim irei me ater durante o resto da minha resenha às inteligentes, brilhantes e emocionantes homenagens aos filmes de Frankenstein que sou fã incondicional. A primeira dela e mais impactante é sem dúvida o fato que a maioria do equipamento usado no laboratório de O Jovem Frankestein fizeram parte do cenário utilizado no Frankenstein de 1931. Do original a maioria da concepção do filme foi retirada, incluindo o assistente esquisito, o roubo de cadáveres (em uma das mais famosas e engraçadas cenas, quando Frankenstein reclama daquele trabalho miserável e Igor diz: “Poderia ser pior. Poderia estar chovendo” e começa a chover), a cena com a garotinha na primeira escapada da criatura e a turba enfurecida com seus forcados e tochas (apesar que isso tinha em todo santo filme dos monstros da Universal naquela época). De A Noiva de Frankenstein, dois momentos ímpares: um deles quando Elizabeth (Madeline Kahn) se casa com o monstro e aparece na noite de núpcias vestida como a personagem de Elsa Lanchester no filme de 1935, com aquele mesmo penteado característico em pé e as mechas brancas (e fazendo os mesmos trejeitos corporais), e o outro, a ponta não creditada de Gene Hackman como o cego que encontra a criatura interpretada por Karloff vagando pela floresta e faz amizade com ele. Aqui, apenas comete trapalhadas como jogar chá fervendo no colo do monstrengão e queimar seu dedo quando vai acender um charuto, afugentando-o antes dele poder lhe preparar um expresso (fala que foi um improviso de Hackman). Isso sem contar a empregada despirocada do castelo, levemente baseada na personagem Minnie de Una O’Connor. Já de O Filho de Frankenstein de 1939, Brooks surrupiou a figura do Inspetor Krogh com seu braço de madeira, vivido por Lionel Atwill, que aqui é o caricato Inspetor Kemp de Kenneth Mars. O cinema sempre sacaneou o próprio cinema com paródias. O Jovem Frankenstein, essa linda homenagem de Brooks a Era de Ouro da Universal, encontra-se no topo dessa lista, junto de Apertem os Cintos… que o Piloto Sumiu e Top Gang. E uma coisa trágica é que nós fãs de filmes de terror adoramos reclamar que não se faz mais filmes bons do gênero, muito menos como antigamente. Imagine então os fãs de comédia, já que todas as paródias hoje em dia são derivadas daqueles lixos de baixíssima qualidade e gosto duvidoso que os irmãos Wayans começaram em Todo Mundo em Pânico? Daí você me pergunta (ou se pergunta, sei lá): O Jovem Frankenstein é uma comédia, uma paródia de um filme de terror. Por que está nessa lista e Todo Mundo em Pânico que também é uma comédia, paródia de filmes de terror não está. Bom, não preciso nem responder, caro leitor…
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/11/12/304-o-jovem-frankenstein-1974/

1001 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER
583 1974 JOVEM FRANKENSTEIN (Young Frankenstein)

#301 1974 A FERA DEVE MORRER (The Beast Must Die, Reino Unido)


Direção: Paul Annett
Roteiro: Michael Winder (baseado na história de James Blish)
Produção: Max Rosenberg, Milton Subotsky, John Dark (Produtor Associado), Robert H. Greenberg (Produtor Executivo)
Elenco: Calvin Lockhart, Peter Cushing, Marlene Clark, Charles Gray, Anton Diffring, Ciaran Madden

A Fera Deve Morrer é algo mais ou menos como “Agatha Christie encontra o Lobisomem”, porque esse modesto filme da Amicus, o estúdio inglês rival da Hammer, na verdade engloba muito mais uma trama policial do que um filme de terror em si. E vou confessar que ele tem uma história e um clima bem bacana, que funciona até determinado momento. Dirigido por Paul Annett e escrito por Michael Winder (além do toque do próprio Annet e Scott Finch, de forma não creditada), a história é inspirada pelo conto “There Shall Be No Darkness” de James Blish. Por se tratar de um filme de lobisomem, obviamente já temos certo padrão estigmatizado em nossas mentes, mas é interessante como A Fera Deve Morrer, de certa forma, extrapola esses conceitos, trazendo elementos inovadores para o gênero até então. Desde lá atrás, quando a Universal lançou O Homem-Lobo em 1935, e popularizado quando Lon Chaney Jr. viveu Larry Talbot e ficou amaldiçoado em toda noite de lua cheia no clássico O Lobisomem, o monstro peludo licantropo sempre foi retratado no cinema de horror como uma criatura bípede, onde cresce pelos por todo o corpo, orelhas pontudas e garras, e o motivo de sua transformação em monstro quase sempre teve uma explicação sobrenatural (exceto em O Lobisomem de 1956 e I Was a Teenage Werewolf, vítimas de experiências com radiação – lógico, ambos lançados nos anos 50) . Em A Fera Deve Morrer, o motivo da transformação de homem em lobo é na verdade uma doença, uma disfunção glandular capaz de ativar essa mutação nas noites de lua cheia. Outra originalidade desta película é que também pela primeira vez, o monstro bípede é substituído por um “lobo”. Explico as aspas em lobo: Quando o pobre diabo é transformado em seu estado animal, ele é substituído por um pastor alemão preto “fantasiado” de lobo. Okay, a produção não teve verba para fazer um sujeito maquiado (vide a tosca cena final onde, através da já famosa trucagem, o monstro vai voltando à sua forma humana) então melhor mesmo nem tentar para não cair no ridículo, mas até aí usar um cachorro para simular um lobo, é ruim de doer. Na hora me lembrou do infame O Ataque dos Roedores, onde cães foram usados para atuarem como musaranhos gigantes. Mas tirando esses percalços e outras tosqueiras gritantes, como usar o velho artifício de escurecer as imagens gravadas de dia para fingir que é de noite (uma técnica conhecida como “day for night”), mas que obviamente fica muito na cara que as cenas foram filmadas de dia (inclusive na cena do helicóptero, quando o piloto usa óculos escuros em plena calada da noite), o filme tem uma jogada interessante, que é tentar interagir com o espectador e convidá-lo a adivinhar quais dos suspeitos é o lobisomem. Para isso, ao melhor estilo do jogo Detetive (Sr. Mostarda, matou a Dona Rosa com um castiçal no hall), cinco personagens completamente díspares são convidados por um excêntrico caçador milionário, Tom Newcliffe (Calvin Lockhart), que mais parece uma versão blaxploitation de Zaroff – O Caçador de Vidas, e sua esposa, Caroline (Marlene Clark) para passar uns dias em sua mansão, sendo que um deles é na verdade um lobisomem, e a intenção de Newcliffe é caçá-lo impiedosamente. Para isso, ele instalou uma parafernalha eletrônica de última geração ao redor de sua propriedade, a fim de monitorar e filmar os passos de todos e rastrear o animal, cortesia da empresa de Pavel, papel de Anton Diffring. Essas cinco pessoas consistem em: Arthur Bennington (Charles Gray), um diplomata; o casal Jan Jarmokowski (Michael Gambon) e Davina Gilmore (Ciaran Madden), pianista e sua ex-aluna, agora amante; Paul Foote (Tom Chadbon), um artista recentemente solto da prisão; e o Dr. Christopher Lundgren, interpretado pelo eterno Peter Cushing, fazendo o papel de um arqueólogo e estudioso de licantropia. Pronto, está montado o cenário para que durante três noites de lua cheia, Newcliffe fique obcecado em descobrir quem é o lobisomem e conquistar sua cabeça para sua sala de troféus. Porém, antes que ele e nós espectadores (que somos convidados a adivinhar quem é o culpado durante uma pausa de trinta segundos nos dez minutos finais do filme, chamada de “The Werewolf Break” – imposto pelo produtor Milton Subotsky contra a vontade do diretor) o lobo/cachorro irá fazer várias vítimas pela propriedade, e sempre será usada aquela velha fórmula do whodunit?, levando tudo a crer que o monstro é determinado personagem, mas haverá aquela fatídica reviravolta final no último momento. Paul Annett até consegue misturar muito bem o clima de suspense e a dinâmica de seus personagens, com a ação desenfreada do caçador correndo pelas matas, com uma trilha sonora toda cheia de funk e soul, ao melhor estilo blaxploitation, incluindo todos os trejeitos com os quais são desenvolvidos Newcliffe. Obviamente para monetizar em cima do sucesso desse movimento cinematográfico (Robert Quarry foi originalmente cotado para o papel principal). E o diretor até tenta filmar o mínimo possível o cachorro travestido de lobo, sempre abusando de imagens escuras e com pouca iluminação (o que acaba se tornando na verdade uma deficiência técnica) closes, cenas do animal em movimento e principalmente pulando de forma ágil de um lado para o outro, mas o resultado é patético (e engraçado). A Fera Deve Morrer foi o último filme de terror da Amicus em que o produtor e fundador Milton Subotsky (que o odiou, na real), esteve envolvido. Estúdio famoso durante a década de 60, e tão importante quanto a Hammer para o cinema de horror britânico, foi responsável por diversos filmes do gênero, e é engraçado que os dois rivais só fizeram um filme de lobisomem durante mais de 20 anos de existência. Este daqui pela Amicus, que chegou a ser lançado em DVD no Brasil pelo selo Dark Side da Works Editora, e A Maldição do Lobisomem, com Oliver Reed, da Hammer.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/11/07/301-a-fera-deve-morrer-1974/


#300 1974 EXORCISMO NEGRO (Brasil)


Direção: José Mojica Marins
Roteiro: Rubens Francisco Luchetti, José Mojica Marins, Adriano Stuat
Produção: Anibal Massaini Neto
Elenco: José Mojica Marins, Geórgia Gomide, Wanda Kosmo, Rubens Franciso Luchetto, Adriano Stuart, Walter Stuart

Até o cinema de horror brasileiro seguiu a onda do estrondoso sucesso de O Exorcista, lançado em 1973. Pegando carona, José Mojica Marins resolve trazer Zé do Caixão de volta à vida em Exorcismo Negro, alegando, segundo palavras próprias, que “americano não entende nada de diabo, quem entende é brasileiro”.  Acho até que o diabo é brasileiro, e não Deus, mas enfim… A tarefa árdua encarada por Mojica era concorrer com o arrasa-quarteirão de William Friedkin, e estrear no mesmo dia aqui no Brasil. Desta vez, com muito mais recursos financeiros do que em seus longas anteriores, onde tudo era feito a toque de caixa e no improviso, devido a produção de Anibal Massaini Neto, conhecido por produzir pornochanchadas e filmes de Walter Khouri, e com o reconhecimento que o gênero do terror estava recebendo, era o momento ideal para lançar um filme com essa pegada sobrenatural e reviver o famoso personagem caricato com sua cartola, capa e longas unhas. Mas como o atraso da censura (sempre ela) em liberar o filme, não entrou em cartaz junto com O Exorcista, mas Mojica se vestiu de Zé do Caixão e foi nas filas dos cinemas, enquanto o público esperava para ver Linda Blair girando a cabeça em 360º, fazer a propaganda de seu próximo longa e até criticou O Exorcista em entrevistas, o que rendeu uma boa procura e bilheteria, principalmente tendo em vista que alguns de seus longas anteriores foram amplamente censurados, como O Estranho Mundo de Zé do Caixão ou sumariamente proibidos, como O Despertar da BestaMesmo sendo menosprezado e considerado anos luz inferior aos seus trabalhos anteriores, ainda mais se comparados com À Meia-Noite Levarei sua Alma e Esta Noite Encarnarei em Teu Cadáver, e recheado de defeitos técnicos e tosquices alarmantes, eu gosto muito de Exorcismo Negro, de sua premissa sobrenatural e de possessão e da quantidade de blasfêmias que ele resolve colocar em cena para chocar. A fita começa com Mojica dando uma coletiva para alguns jornalistas para falar sobre seus próximos projetos e a repercussão de seus filmes na Europa, lembrando sempre que fora do país, Coffin Joe era cultuado e aqui, motivo de escárnio, tornado-se eternamente uma caricatura de si próprio animando eventos e apresentando programas de televisão, nunca sendo encarado como o cineasta autodidata e desbravador que sempre foi. Nesta coletiva, perguntando sobre quem ele acha mais importante, se ele ou Zé do Caixão, Mojica enfatiza que obviamente era ele, e que o Zé do Caixão “não existe”. Com certo bloqueio criativo, Mojica resolve passar um tempo com um casal de amigos e seus filhos em uma suntuosa casa de campo, buscando inspiração para seu próximo trabalho, que seria “O Tirador de Demônios”, um filme sobre exorcismo. Chegando ao local, várias situações bizarras começam a acontecer, ao melhor estilo casa mal assombrada, como Mojica sendo perseguidos por vultos, cortinas esvoaçantes, portas que se abrem e fecham sozinhas, móveis que se movimentam e livros que são arremessados nele. Isso quando ele não se depara com animais peçonhentos na árvore de Natal ou a enlouquecida possessão de Julio (Joffre Soares), pai do personagem de Agenor Alves, que fica com os olhos negros, falando ofensas hereges e com a voz modificada. E não é só o Sr. Julio que sofrerá de possessão diabólica não. A filha mais nova do casal, Luciana (interpretada por Alcione Mazzeo, mãe de Bruno Mazzeo), a mais velha Wilma (Ariana Arantes), que é seduzida e abusada pelas forças das trevas, se contorcendo peladinha na cama, ao melhor estilo O Bebê de Rosemary, e Carlos (Marcelo Picchi) noivo de Wilma, também em determinado do longa está com o “cramunhão “ no corpo e tentará atacar Mojica. Nesse ínterim, somos apresentados a uma trama paralela que irá explicar o motivo do tormento sobrenatural que ataca aquela outrora pacata família. Lúcia na verdade não conseguia ficar grávida e recorreu a uma macumbeira, Malvina (Wanda Kosmo) para que lhe fosse gerado um filho, em troca de qualquer favor que ela quisesse. Lúcia simulou uma gravidez e a filha mais velha, Wilma, é fruto de uma gestação entre a adoradora das trevas e… Zé do Caixão! E o favor era que Wilma se casasse com quem fosse da escolha de Malvina, no caso, Eugênio (Adriano Stuart) que é na verdade o filho de Satã. Como Wilma estava noiva de Carlos, todas as maledicências começaram a recair sobre a família, com Mojica sendo o epicentro do furacão. O desenrolar da trama irá colocar Mojica frente a frente com sua criação, Zé do Caixão, que não deve ter ficado nada feliz com o seu criador tendo dito que ele não existe. Em um ritual macabro, com direto a todos os exageros que estamos acostumados nas elocubrações cinematográficas chocantes de Mojica, Zé celebra um casamento negro, unindo Wilma e Eugênio, em meio a uma sessão sangrenta de tortura, mutilações e canibalismo. Cabe então a Mojica, em uma batalha metalinguística sobre o domínio do criador sobre a criatura, mal que diversos autores sofreram no decorrer da vida, citando o próprio Arthur Conan Doyle enfatizado por Mojica, confrontar a criação do qual ele próprio duvida da existência, em um embate recheado de simbolismos jungianos e o poder da influência de uma criação cinematográfica. Expondo isso Zé até tripudia sobre Mojica perguntando: “Mas qual é o problema? Você não acredita no que você faz?”, em uma clara alusão as suas próprias dúvidas como cineasta e autor. E muito além do personagem coveiro fictício, Mojica aproveita Exorcismo Negro para criar outra personalidade para si próprio, inversamente proporcional à vida particular e seus problemas do “mundo real”. Enquanto o Mojica do filme é intelectual respeitado, cultuado como um dos principais diretores do cinema nacional, fuma cigarrilhas, bebe uísque, passa os feriados em casarões ao lado de família felizes e funcionais, discursa sobre literatura, psicologia e parapsicologia e é enxadrista, na realidade, era ridicularizado pela imprensa e “cineastas esnobes”, era praticamente analfabeto funcional, tinha que dormir no estúdio por não poder pagar aluguel, alcoólatra e violento com suas esposas e era motivo de chacota por seu tom popularesco. Infelizmente, Mojica nunca colheu os louros e o devido reconhecimento de sua genialidade, e principalmente, pela sua coragem de investir em um gênero maldito no cinema nacional (até hoje) e é mais conhecido pelas suas unhas compridas do que pelas suas obras altamente controversas e autorais. Exorcismo Negro pode ficar aquém de outros clássicos, tanto técnica quanto narrativa, desse nosso único representante contínuo do horror nacional, mas é mais um de seus filmes característicos e ousados, que deve ser visto e eternamente resgatado pelas gerações dos fãs brasileiros deste gênero.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/11/06/300-exorcismo-negro-1974/