quinta-feira, 3 de março de 2016

#499 1985 PHENOMENA (Itália)


Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Franco Ferrini
Produção: Dario Argento, Angelo Iacono (Produtor Executivo)
Elenco: Jennifer Connely, Daria Nicolodi, Fiore Argento, Federica Mastroianni, Fiorenza Tessari, Dalila Di Lazzaro

Logo após o início do prólogo de Phenomena, quando uma turista adolescente perde seu ônibus em uma paisagem erma na Suíça (e antes de seu fatídico desfecho) surge na tela a preciosa informação que o filme foi escrito, produzido e dirigido por Dario Argento. E é apenas por esse motivo que o longe merece algum crédito, pois Argento é Argento. Ao adentrar nos famigerados anos 80, e tendo deixado para trás lá na década de 70 suas duas obras primas, Prelúdio Para Matar (uma década antes) e Suspiria, Argento só derrapou. Mesmo citando que Phenomena é seu favorito pessoal entre seus trabalhos, é duro de engolir esse exagero fantasioso que pega as famosas crateras de roteiro das películas do italiano e elevam a enésima potência numa viagem lisérgica que a maioria das vezes não faz o menor sentido, não tem a menor coerência e ignora toda e qualquer continuidade ou lei da física. Mas, por ser escrito, dirigido e produzido por Argento (como alardeado nos créditos iniciais) é aqui que entra a singularidade dessa obra, pois mais uma vez, todo o roteiro estrambólico serve apenas como um raso argumento para o diretor desfilar suas costumeiras cenas de assassinatos gráficas e carregadas de ultraviolência e sequências belíssimas, planos, enquadramento, campo, contracampo, luzes, sombra e toda técnica que Argento domina com esmero, auxiliado pela sempre, única, trilha sonora que escolhe para suas fitas. A trama (que gentilmente pode ser considerada um samba do crioulo doido e com um final dos mais inverossímeis e apoteóticos do diretor, quiçá do cinema italiano – que é expert nessas reviravoltas e descobertas das identidades dos assassinos, diga-se de passagem) acompanha o infortúnio da menina que perde o ônibus, vai parar em uma casa teoricamente abandonada (em uma paisagem belíssima) para se proteger de uma tempestade e zás, é atacada por algo que não sabemos ainda, e morta, como de praxe, também metendo a cabeça em uma janela e quebrando seu vidro (se contar quantos filmes do Argento temos a mesma morte, acabam os dedos da minha mão). Seguimos em frente e somos apresentados a nossa protagonista, a ninfetíssima Jennifer Connely, com 15 aninhos na época, vivendo Jennifer Corvino, filha do astro fictício de cinema Paul Corvino, mandada para uma escola de moças de fino trato na Suíça, coordenada pela Sra. Bruckner (Daria Nicolidi, nessa altura do campeonato ex de Argento). Fazendo papel da americana em um internato europeu, tal qual Suspiria, onde as garotas vivem com medo por conta de um assassino serial estar matando jovens mulheres pelos arredores, Jennifer passa a sofrer de sonambulismo e sair andando por aí no meio do mato (pensando entrar em labirintos oníricos) e sendo testemunha de um dos assassinatos. Nessas andanças ela acaba aparecendo na casa do personagem mais bacana da trama e que nos concede os momentos realmente interessantes do roteiro, que é o entomologista, Prof. John McGregor, interpretado pelo veterano do gênero Donald “Sam Loomis” Pleasence. Paraplégico e tendo como assistente a chimpanzé Inga, McGregor é uma espécie de consultor nas investigações policiais por conta da sua capacidade em descobrir a data da morte das vítimas por meio do ciclo de alimentação de larvas e insetos. Deveras interessante! Bom, a coisa vira motivo de patifaria (ao meu ver) quando Argento abandona o que poderia ser uma obra de suspense e até um giallo decente quando parte para o paranormal e mete um estranho poder em Jennifer, capaz de ter uma espécie de elo telepático com insetos e controlá-los. Então a moça, auxiliada por uma, pasme, mosca saprófaga detetive, que vai guiá-la ao covil onde os corpos putrefatos das garotas assassinadas não encontradas pela polícia estão desovadas, afinal o animal irá ficar irrequieto conforme Jennifer se aproximará do local, irá desvendar a terrível identidade do assassino.
Para os próximos dois parágrafos lá vai aquele ALERTA DE SPOILER esperto. Então pule-os ou leia por sua conta e risco.
A primeira cena que quero salientar aqui no texto é a morte do Prof. McGregor, assassinado pelo nosso vilão (que ainda não sabemos quem é) onde sua chimpanzé Inga é testemunha ocular e parte para uma vingança pessoal pela morte do dono. Sabe como é… A segunda, e que nem vou me adentrar ao absurdo e todas as falhas enormes que tornam a revelação no mínimo, motivo de chacota, é quando descobrimos quem é o assassino: “Patau” Bruckner, filho da Sra. Bruckner, aquela mesma, personagem de Daria Nicolodi, que possui uma terrível deformação facial (inspirada na disfunção genética conhecida como Síndrome de Patau). Mais uma vez, Argento mete na tela os desdobramentos psicopatas de uma infância traumatizada. Bem, então o final do longa depois de todas as anormalidade reserva o que ele tem de melhor, como o asqueroso mergulho da pobrezinha Jennifer em uma piscina de dejetos e restos mortais; quando o garoto deformado assassino é atacado e devorado por um enxame de insetos chamados telepaticamente pela quase X-Man em uma patética cena em um barco, onde praticamente o lago todo pega fogo e as cenas subaquáticas da menina nadando foram claramente filmadas em uma piscina; e a cereja do bolo, o grand finale, o créme de la créme, quando Inga literalmente estraçalha a Sra. Bruckner com uma navalha pela morte do dono, entrando para o hall de Argento como uma das mortes mais violentas de sua filmografia. Dizem as más línguas que a agressividade e grosseria da cena foi uma forma de Argento extravasar hipoteticamente toda a raiva que nutria pela agora ex-esposa. Sinistro! Bizarríssimo ao extremo, Phenomena acerta em cheio para quem não procura a menor coerência entre as cenas e a história, mas delira na violência e no gore, em todo aquele simbolismo místico e maldições intangíveis que parece ter saído direto da Idade Média, muito presente em suas obras, no apreço detalhista do diretor na construção de todas as suas cenas, e principalmente na fotografia que mescla o medo e o pavor da noite com paisagens exuberantes durante a luz do dia, e claro, pra os fãs de metal. Porque escolhida a dedo, a trilha sonora (igualmente alardeada nos créditos) além de contar com o músico brasileiro fetiche do italiano, Claudio Simonetti, tem nada menos que Iron Maiden e Motörhead, entre outros. Não que faça muito nexo enxertadas em cenas de suspense e terror, mas como a cabeça de Argento funciona de uma forma muito particular, está tudo bem.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/08/14/499-phenomena-1985/

#498 1985 OLHOS DE GATO (Cat’s Eye, EUA)


Direção: Lewis Teague
Roteiro: Stephen King
Produção: Dino De Laurentiis e Martha De Laurentiis, Milton Subotsky (Coprodutor)
Elenco: Drew Barrymore, James Woods, Alan King, Kenneth McMillan, Robert Hays, Candy Clark, James Naughton

Gatos sempre estiveram presentes na literatura gótica e no cinema de terror (Edgar Allan Poe está aí que não me deixa mentir). Stephen King é um desses sujeitos que adora utilizar o bichano em seus contos, livros, filmes e etc. Em Olhos de Gato, mais uma produção do poderoso Dino de Laurentiis, o felino é o fio condutor de três histórias escritas pelo Mestre do Terror. Com Lewis Teague na direção, que já havia dirigido uma adaptação de King anteriormente, Cujo, essa antologia do terror é bem divertida e satisfatória, figurando como uma das boas películas que tem o nome do escritor do Maine envolvido. Lembro-me da primeira vez que vi Olhos de Gato, cujo meu primo mais velho sempre me falava sobre “o filme do duende que rouba o ar da menina” e me despertava uma baita curiosidade em assisti-lo. Nunca conseguia encontrar em nenhuma locadora (nem sei ao certo se chegou a ser lançado em VHS no Brasil) até que certo dia me deparo com a revista de programação da NET e descubro que ele seria exibido tarde da madrugada (acho que umas 3h) na saudosíssima sessão de filmes de terror da TNT chamada TNT Delirium, isso lá para o final dos anos 90. Lutei contra todas as forças do sono, programei o videocassete para gravar (pois eu colecionava todos os filmes de King em VHS) e consegui matar minha curiosidade em vê-lo. Um pequeno prólogo nos mostra um gato que telepaticamente recebe o chamado de socorro de uma garotinha em perigo, Amanda, vivida pela infante Drew Barryomre (papel escrito sob medida por King após a garotinha ter feitoChamas da Vingança). Interessante é caçar os vários easter eggs que funcionam como homenagem ao próprio universo do escritor no decorrer do longa. Nesse prólogo vemos o gato sendo perseguido por um São Bernardo raivoso (Cujo) e quase é atropelado por um Plymouth Fury vermelho (Christine – O Carro Assassino). Vamos acompanhar o animal em três histórias completamente diferentes, viajando pelos EUA até chegar ao seu destino. A primeira delas é uma adaptação do conto “Ex-Fumantes Ltda”, retirado do livro “Sombras da Noite”, onde Dick Morrison (papel do excelente James Woods), fumante inveterado que tentar largar o vício é apresentado a um grupo de ajuda chamado Quitters Inc., que utiliza de métodos nada ortodoxos (porém com uma taxa de 98% de sucesso) para que a pessoa largue o cigarro. Administrada pelo nesfasto Vinny Donatti (Alan King), o sujeito coloca seus capangas na bota de Morrison, e no primeiro deslize, sua esposa seria levada até a sede e colocada em uma sala onde seria eletrocutada, tal qual demonstração feita para Morrison anteriormente com um gato (o mesmo gato protagonista). Caso ele caia em tentação novamente, será a vez da filha dele. Mais uma vez, sua esposa será estuprada, e na quarta-vez (onde apenas 2% dos clientes chegaram), ele será “mandando para o andar de cima”, segundo Donnati. Morrison fica paranoico, acha que a todo momento está sendo perseguido, em casa, no trânsito, na escola de sua filha, e chega até a surtar em uma cena memorabilíssima quando vê todo mundo em uma festa fumando compulsivamente (até crianças), embalados pela música “Every Breath You Take” do The Police. Gênio! Para os mais atentos, certo momento do longa, Morrisson está assistindo na televisão A Hora da Zona Morta e solta um: “quem escreveu essa porcaria?”. O segundo segmento, também retirado de um conto do livro “Sombras da Noite”, “O Ressalto”, é estritamente não recomendado para aqueles com acrofobia e traz o infortúnio de Johnny Norris (Ted Hays, o eterno Ted Stryker), ex-tenista profissional envolvido em um escândalo com drogas, que se dá mal ao se tornar amante da esposa de Cressner (Kenneth McMillan) um perigoso mafioso apostador compulsivo. Capturado antes de poder fugir com a moça, o escroque lhe propõe uma aposta: Norris deverá atravessar todo o prédio equilibrado em um parapeito de 13 centímetros, e se conseguir o feito, fica com “a garota, o relógio de ouro e todo o resto”, referencia ao título do filme estrelado por Hays, The Girl, the Golden watch and Everything. Claro que Cressner fará todo o possível, como assustá-lo com uma buzina e jogar um jato de mangueira, para que o herói caia e se esborrache lá embaixo. Isso sem contar uma maldita pomba que aparecerá para atrapalhar mais ainda seu percurso. Curiosidade que certo momento Cressner joga um exemplar da revista Penthouse sobre a mesa, exatamente a edição de julho de 1976, onde originalmente o mesmo conto fora publicado. Por fim, o conto final é uma história original de King e a única com apelo ao fantástico. Depois de todas as desventuras, o gato heroico chega até a residência da pequena Amanda, que o adota e lhe dá o nome de General, mesmo a contragosto de sua mãe (que deve ter ficado impressionada com seu livro de cabeceira, “O Cemitério”, o qual aparece lendo em uma cena). Acontece que o gato irá travar uma terrível batalha com um vilanesco troll (ou duende mesmo, se você preferir), criação bem da meia boca do mestre Carlo Rambladi, que se alimenta da energia vital da menina, roubando-a enquanto dorme. Originalmente o conto Às Vezes Eles Voltamestava programado para também fazer parte da antologia, mas Laurentiis viu um enorme potencial para a história e resolveu banca-lo como um longa solo que seria lançado seis anos depois. Olhos da Gato é uma boa pedida para os fãs de Stephen King. Correto, com algumas sacanas muito interessantes, um grupo de atores que casam perfeitamente com seus papeis e dão um bom andamento ao filme, e funciona muito bem como um entretenimento despretensioso.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/08/13/498-olhos-de-gato-1985/

quarta-feira, 2 de março de 2016

#497 1985 A HORA DO PESADELO 2 – A VINGANÇA DE FREDDY (A Nightmare on Elm Street 2: Freddy’s Revenge, EUA)


Direção: Jack Sholder
Roteiro: David Chaskin
Produção: Robert Shaye, Sara Risher (Coprodutora), Stephen Diener e Stanley Dudelson (Produtores Executivos)
Elenco: Mark Patton, Kim Myers, Robert Rusler, Clu Gulager, Hope Langer, Marshall Bell, Robert Englund

Na moral? A Hora do Pesadelo Parte 2: A Vingança de Freddy é uma droga. Eu não sei como esse filme não enterrou a franquia. E digo mais: das continuações dos principais filmes slasher dos anos 80 (aka Sexta-Feira 13: Parte 2Halloween 2 – O Pesadelo Continua) sem dúvida nenhuma essa daqui é a pior em todos os sentidos (até porque os outros dois exemplos são bons filmes). Foi revendo-o novamente para resenhá-lo no blog que eu lembrei o porquê do dito cujo ter sido o filme que menos vi da cinesérie de Freddy Krueger. Acho que o vi pela terceira vez apenas. E olhe que da parte quatro em diante é uma bomba pior que a outra. Essa continuação consegue pegar todos os pontos positivos no original A Hora do Pesadelo de Wes Craven e cuspi-lo fora. E apesar da direção de Jack Sholder (do bom Noite de Pânico) ser fraquinha e da atuação de todos os personagens, principalmente o protagonista Jesse (Mark Patton, de um papel que foi disputado por Brad Pitt e Christian Slater e teve Michael J. Fox considerado) serem sofríveis, o pior mesmo de tudo é o roteiro, com mais buracos que um queijo suíço (adoro esse termo!). O nome do criminoso: Davis Chaskin, o roteirista. Pois bem, depois de Craven ter se recusado dirigir a sequência (ahhh Craven, porque fizestes isto com a gente), pois nunca teve a intenção de que se tornasse uma franquia e repudiar o conceito deste segundo filme (Freddy manipular o protagonista para cometer crimes, mas ainda chego lá), a New Line não tardou em ganhar mais uns trocados em cima do maníaco que ataca nos sonhos. Até aí tudo bem, não tem nada de errado nisso. Mas você viu que acabei de escrever: maníaco que ataca nos sonhos, certo? A grande derrapada (entre tantas) de A Hora de Pesadelo Parte 2: A Vingança de Freddy é justamente esquecer esse fator essencial da primeira história e que colocava suas vítimas no limiar de uma estafa mental, não se sentindo seguro nem ao dormir. Aqui começamos a testemunhar a banalização de Freddy Krueger, quando começa a tentar possuir o garoto para continuar sua matança não mais no mundo onírico, mas na vida real. Explico: Jesse muda-se para a antiga casa de Nancy Thompson, a mocinha do original, que foi levada para o sanatório depois dos fatídicos acontecidos na residência número 1428 da Rua Elm, Springwood. Só que a casa é um lugar meio que mal assombrado, com a torradeira pegando fogo sem ao menos estar ligada na tomada e um passarinho do nada ter um surto psicótico e explodir (jura mesmo?). Ah, fora que a casa é quente como o inferno. Jesse passa a ter pesadelos com uma figura com graves queimaduras, pulôver vermelho e verde, chapéu de feltro e uma luva de garras. Nosso querido Freddy Krueger. Ao arrumar seu quarto, ele e sua namoradinha Lisa (Kim Myers) descobrem o diário de Nancy que descreve em suas últimas páginas como ela trouxe o vilão do mundo dos sonhos e assim destruiu. Só que pelo jeito ele ficou por lá mesmo. Pois bem, o roteiro começa a virar uma lambança sem a menor credibilidade quando Jesse encontra a luva de garra do psycho killer(qu’est-ce que c’est) e ele passa a querer tomar o corpo do garoto para matar neguinho sem que ele precise tirar uma pestana. Aí o filme perde o rumo de vez. Primeiro porque nunca sabemos ao certo se quem realmente está cometendo os crimes é o Freddy ou Jesse. Mas o principal, a meu ver, é o fato que todos os poderes sobrenaturais e de alteração de percepção de Freddy inerentes ao fato dele estar dentro de um sonho e lá ser seu domínio etéreo, começam a se manifestar em nossa dimensão. Um exemplo disso é a patética cena do chuveiro e toda sua homofobia velada com relação ao treinador Schneider (Marshall Bell) que frequenta bares gays com roupas de couro de forma completamente estereotipada. O esportista é atacado por bolas, tacos, raquetes e o diabo ACORDADO (A-COR-DA-DO) e é arrastado até o chuveiro, amarrado por cordas de pular e antes de ser morto com dois míseros ataques de garra nas costas, recebe toalhadas na bunda. É de um mau gosto imensurável. E o que dizer então da cena onde Freddy literalmente sai de dentro de Jesse para assassinar seu amigo Grady (Robert Rusler)? Ele parte o rapaz no meio e finalmente adentra ao mundo dos vivos, tudo isso rolando sem que ninguém esteja sonhando. Mas depois está tudo bem, pois Jesse volta para a festa da piscina de Lisa numa boa, inteirão (bastante ensanguentado só). Era tudo uma alucinação? Não era? É tanta falha de continuidade e de nexo no roteiro que até dói. Mas a cereja do bolo é a vexatória cena do ataque de Freddy aos adolescentes se divertindo na pool party, onde todo mundo vê o assassino e seus poderes pirofóricos (que ele NÃO possui, exceto nas distorções da realidade dos sonhos), assim gratuitamente, destruindo todo o suspense que o personagem mantinha no original e que afetava até a sanidade de suas vítimas que questionavam sua existência. Outra cratera lunar no roteiro que vale a pena mencionar é que Freddy trabalhava em uma usina, local onde levava as criancinhas que ele sequestrava e assassinava. E quando a garra é encontrada por Jesse na fornalha que fica no porão de sua casa, somos levados a entender que o vilão morava ali. Mas espere, não eram os pais da Nancy que moravam ali e que estiveram envolvidos na vingança com as próprias mãos que transformaram Freddy em um churrasquinho ambulante? E que essa vingança levou o sujeito a atacar os sonhos dos filhos dos responsáveis pela sua morte? E para piorar, o longa não utilizou a trilha sonora original (nem de forma incidental) de Charles Bernstein e quase que Robert Enlgund não interpreta Freddy porque o muquirana do produtor Robert Shaye da New Line não queria lhe dar um aumento no cachê. É fã do horror, absolutamente nada se salva em A Hora de Pesadelo Parte 2: A Vingança de Freddy . Talvez as duas únicas coisas que se destacam seja a maquiagem ainda mais horrenda do vilão, cortesia de Kevin Yagher, que mais tarde criaria o boneco Chucky de Brinquedo Assassino e o Coveiro da série Contos da Cripta da HBO, e o início da criação da personalidade sarcástica e repleta de humor negro pela qual Krueger seria conhecido no decorrer da série. Mas é muito pouco para o calibre do icônico movie maniac, principalmente pelo potencial demonstrado no primeiro filme. Mas essa bomba faturou 30 milhões de doletas (contra um orçamento de pouco mais de dois milhões), ainda mais que o original, encheu os bolsos da New Line de grana e abriu caminho para que a cinesérie se tornasse um fenômeno pop e aquela enxurrada de sequências que conhecemos fossem produzidas.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/08/12/497-a-hora-do-pesadelo-parte-2-a-vinganca-de-freddy-1985/

#496 1985 A HORA DO LOBISOMEM (Silver Bullet, EUA)


Direção: Daniel Attias
Roteiro: Stephen King (baseado em sua obra)
Produção: Dino de Laurentiis e Martha de Laurentiis, John M. Eckert (Produtor Associado)
Elenco: Gary Busey, Everett McGill, Corey Haim, Megan Follows, Robin Groves, Leon Russom

A Hora do Lobisomem (ou Bala de Prata, tradução literal do original) segue a mesma máxima que o grande Christopher Lee usou para descrever o filme A Górgona, da Hammer: O maior problema de A Hora do Lobisomem é o Lobisomem. Apesar de ser considerado um dos clássicos do gênero, marcado toda uma geração e ter o nome de Stephen King, que escreveu o roteiro baseado em sua própria obra, evolvido, a “fantasia” do lobisomem falha miseravelmente e quase enterra o filme. Principalmente em tempos onde poucos anos antes duas outras produções sobre licantropos revolucionaram o gênero e a forma de se mostrar a metamorfose de homem em lobo: Grito de Horror e O Lobisomem Americano em Londres. Até o poderoso Dino de Laurenttis, produtor da fita, ficou extremamente desapontado e putinho da vida com a criatura peluda. Tanto da aparência de “lobo mau de conto da carochinha” que ele ficou parecendo, como se fosse uma produção B da Chapeuzinho Vermelho, quanto da forma como o ator se movimentava dentro da roupa, todo duro e desengonçado, que na verdade era um dançarino moderno contratado exatamente por suas técnicas de movimento. E olhe que um dos responsáveis pela criação da roupa do monstrengo foi ninguém menos que o oscarizado Carlo Rambaldi e na turma dos efeitos especiais estavam tanto Rick Baker quanto Rob Bottin, sujeitos responsáveis exatamente pelos dois filmes citados acima. Era para ser um desbunde com todo dinheiro que um figurão como Laurentiis poderia oferecer em seu orçamento de sete milhões de dólares (sete vezes mais que o filme de Joe Dante e apenas três milhões a menos que o filme de John Landis). Com relação à trama, todos os elementos característicos by Stephen King estão lá: a cidadezinha pequena, Tarker’s Mill, dois protagonistas infantis com uma relação familiar intensa, os irmãos Jane e Marty Coslaw (Megan Follows e um dos atores mirim sensação dos anos 80, Corey Haim) e certo caldo religioso na mistura toda por meio da figura do reverendo Lowe (Everett McGill), que não dá para entrar em detalhes sem entregar SPOILERS. Nas noites de lua cheia, vários moradores da cidade desaparecem e são encontrados mutilados, vítimas do ataque do terrível lobisomem. Claro que ninguém cogita que seja um lobisomem até o paraplégico de 11 anos de idade, Marty, levantar a suspeita. Seu tio boa praça, porém bêbado e sem futuro, Red (Gary Busey) adora o guri, mas também não acredita no moleque, nem quando o mesmo avista a criatura e acerta-lhe um fogo de artifício no olho. Jane, com quem vive às turras como um bom casal de irmãos, é a única que lhe dá ouvidos e sai pela cidade coletando garrafas e latas para descobrir quem é o licantropo com o ferimento no olho. A identidade do homem lobo definitivamente é uma das melhores e mais marcantes de todo o gênero. Cabe aos dois jovens e seu tio, fundirem uma bala de prata (que também é o nome que o garoto dá a sua cadeira de rodas motorizada) e enfrentar a criatura que busca vingança. Sem dúvida o ponto alto de A Hora do Lobisomem é a climática cena do ataque do monstro ao grupo de moradores revoltados que resolve fazer justiça com as próprias mãos, após a morte de um garotinho, seguido da inépcia policial em conseguir encontrar o tal “psicopata”. Muito espertos, eles partem para uma caçada no pântano à noite e um por um começa a ser dilacerado, espancado por um bastão de beisebol e trucidado pelo lobisomem que se esconde na densa névoa e não deixa nenhum dos locais para contar história. A cena é bastante climática e envolvente e funciona até por não mostrar o lobão, que não seja de relance. Agora outro ponto que atrasa um pouco o lado é a direção burocrática de Daniel Attias, que depois seguiu uma prolífica carreira de diretor de séries de TV e está aí na ativa até hoje, dirigindo episódios de séries como True Blood, Homeland e The Walking Dead. Uma curiosidade é que originalmente Don Coscarelli foi contratado para dirigir o longa, porém deixou o projeto pelas famosas “diferenças criativas” com o produtor Dino de Laurentiis. Mas A Hora do Lobisomem é um bom filme, serve ao seu propósito, transpira saudosismo, tem toda aquela pegada “Stephen King” que sempre gostamos e é um dos obrigatórios para os fãs do gênero, apesar dos apesares.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/08/09/496-a-hora-do-lobisomem-1985/

terça-feira, 1 de março de 2016

#495 1985 A HORA DO ESPANTO (Fright Night, EUA)


Direção: Tom Holland
Roteiro: Tom Holland
produção: Herb Jaffe, Jerry A. Baerwitz (Produtor Executivo)
Elenco:Chris Sarandon, William Ragsdale, Amanda Bearse, Roddy McDowall, Stephen Geoffreys

Outro dos meus filmes preferidos da infância. Clássico da Sessão da Tarde. A Hora do Espanto é o típico filme de terror adolescente dos anos 80 com vampiros, e uma verdadeira homenagem ao gênero. E uma prova cabal de que essa lista do blog é extremamente pessoal, pois o filme não é uma maravilha do horror, longe disso, mas tem um baita valor sentimental, sendo que uma das propostas destes textos era exatamente compartilhar isso com vocês. Toda a trama e os pequenos detalhes que compõe a produção são incríveis. Para começar o fato de A Hora do Espanto ser o nome de um programa de televisão, apresentado por Peter Vincent (analogia aos atores Peter Cushing e Vincent Price), dedicado a passar clássicos filmes de terror da década de 50 e 60, em que Peter é o protagonista da maioria, e que são na verdade paródias dos filmes da Hammer. Depois todos os clichês do gênero estão lá, como cruzes, alho, espelhos, água benta e a necessidade de convidar o morto-vivo para entrar na sua casa. E ainda foi responsável por reviver os filmes do gênero, que depois das produções da Hammer com Christopher Lee até os anos 70, havia caído no ostracismo, além de modernizar (nos padrões anos 80, claro) a criatura. No enredo, Charley Brewster é um adolescente pacato do subúrbio, vidrado em filmes de terror, que vê sua vida virar uma história de horror quando o vampiro charmosão Jerry Dandrige (interpretado por Chris Sarandon) muda-se para a casa ao lado junto com seu carniçal Billy Cole. Uma série de assassinatos começam a ser noticiados na cidade, e logo Charley passa a desconfiar da identidade sobrenatural do novo vizinho, até pegá-lo no flagra chupando o pescoço de uma vítima e enfiando seu corpo em um saco de lixo. A polícia não acredita em Charley, nem sua mãe, nem sua namorada Amy, e nem seu amigo maluquinho Evil Ed. Então a única forma de conseguir ajuda é ir atrás de Peter Vincent, o grande caçador de vampiros, interpretado por Roddy McDowall (o eterno Cornelius de O Planeta dos Macacos). Porém, Vincent é um decadente e medroso ator, que acabou de ter seu programa cancelado porque ninguém mais acreditava em vampiros naqueles dias, e os jovens apenas estavam interessados em assassinos com máscara de hóquei que ficam correndo atrás de garotas virgens (espetando os filmes slasher tão comuns na década). Após Jerry transformar seu amigo e sua namorada, resta a Charley e o caçador de mentira enfrentarem o vampiro mor. A maquiagem de A Hora do Espanto é bem interessante, principalmente no que se diz respeito às transformações, tanto de Jerry, quanto de Amy ao se tornar uma cafetina das trevas. Mas, de todas, a que mais chama atenção é quando Evil Ed ataca Vincent na forma de lobo, e sua dolorosa volta à forma humana quando é atingido por uma estaca em seu coração. Esses efeitos de maquiagem por sinal são criação de Richard Edlund, o mesmo de Os Caça-Fantasmas. Também vale prestar atenção nas atuações de Sarandon, que apesar de ser um vampiro cruel, também é bastante sarcástico, arrogante e se delicia com a inocência dos demais personagens e o jogo de gato e rato que emprega com Charley. E claro, de McDowall, ótimo com sua capa e maleta de caçador de vampiros, expressão de medo em quase todas as cenas, e seu apartamento cheio de tranqueiras usadas em seus filmes, com direito a um pôster de Bela Lugosi, afirmando sempre a homenagem prestada por Tom Holland em sua estreia como diretor. Ganhou uma sequência bem inferior em 1988 e um remake, atualizando a história para a nova geração em 2011, com Anton Yelchin como Charley e Colin Farrel, canastríssimo, como Jerry. E por pior que pareça, o remake não é tãããããão ruim não. Ainda mais pensando que vivíamos um momento em que vampiros são transformados em emos assexuados graças a Saga Crepúsculo, essa nova versão é bastante sangrenta e resgata antigos valores vampirescos, com história do próprio Holland. Foda é o Peter Vincent à la David Blane, mas aquele tipo de personagem não encaixava mais para a molecada de hoje em dia.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/08/08/495-a-hora-do-espanto-1985/

#494 1985 FORÇA SINISTRA (Lifeforce, Reino Unido, EUA)


Direção: Tobe Hooper
Roteiro:Dan O’Bannon e Don Jakoby, Michael Armstrong e Olaf Pooley (não creditados) (baseado no livro de Colin Wilson)
Produção: Yoram Globus e Menahem Golan, Michael J. Kagan (Produtor Associado)
Elenco: Steve Railsback, Peter Firth, Frank Finlay, Mathilda May, Patrick Stewart, Michael Gothard

Talvez eu gere polêmica com esse post, mas eu pelo menos sou um cara sincero. Eu acho Força Sinistra uma grade porcaria. Calma, antes de me atacar pedras, vociferar impropérios contra a minha pessoa e jurar nunca mais entrar nesse blog, quero expor minha opinião desde o começo. Claro que a primeira vez que vi Força Sinistra foi durante a infância/pré-adolescência nas infinitas reprises exibidas no Domingo Maior nas noites de domingo da Rede Globo. Claro que a definição que eu, representante do sexo masculino, e talvez de TODOS da minha geração, dei para Força Sinistra foi “aquele da mina gostosa que fica pelada o filme inteiro”.  Mas, além disso, da fantasia púbere com aquela morena perfeita (e ela continua PERFEITA no filme, excitante sem ser vulgar com sua estranheza peculiar) achei um filme impressionante, que realmente marcou época com a cena daquelas pessoas secando (fato que os efeitos especiais também ainda hoje são interessantes, cortesia da equipe do excelente John Dykstra), o conceito de vampiros espaciais que sugam a força vital das pessoas e por aí vai. Era um filme ótimo, poxa vida. Pois bem, você já assistiu Força Sinistra novamente depois de velho, certo? E você jura que sua opinião continua a mesma? Sabe aquele filme que perde completamente a mágica quando você desenvolve um pouco mais (pouquinha coisa) de senso crítico do que você tinha na sua juventude? Foi esse o triste caso. Hoje em dia acho patético, sério. Tirando os efeitos especiais, impressionantes para a época, um pouquinho do clima de suspense (chupiando de Alien – O Oitavo Passageiro, vai) do começo enquanto a nave Churchill explora a cauda do Cometa Halley (à la Balão Mágico MESMO) – isso merece uma reticências: uma nave espacial com morcegões gigantes alienígenas metamorfos que vem pra terra na cauda do cometa. É sério isso? – e vai, a “mina gostosa que fica pelada o filme inteiro”, Mathilda May que raramente fala sobre sua participação, o resto é uma catástrofe. A história, baseada no livro “Vampiros do Espaço” de Colin Wilson, escrito por Dan O’Bannon (o mesmo de Alien) e Don Jacoby (que pegaram já um script reescrito por oito vezes – e isso explica MUITA COISA) aproveita a febre da passagem fiasco do cometa pela Terra em 1986 e é cheia de remendos, buracos e um desenrolar pífio/ patético. Fora a canastrice da liberdade poética de dizer que a lenda dos vampiros foi inspirada nesses visitantes interplanetários sugadores de energia vital que já estiveram em nosso planeta anteriormente, e até a forma que eles podem ser eliminados com uma espada de ferro no coração, são deveras ridículas. Como se não bastasse, TODAS as atuações são sofríveis, mas nada, absolutamente nada se compara ao herói Steve Railsback, no papel do Coronel Tom Carlsen, único sobrevivente da Churchil, responsável por levar o corpo da moça e de outros três alienígenas para a nave e conseguinte, para a Terra. Péssimo em todas as esferas da dramaturgia, que nem parece que anos mais tarde faria o emblemático Duane Barry em um dos mais importantes episódios de Arquivo X da história. Na boa, não dá para aturar um mocinho desses e sua conexão psíquica com a garota pelada espacial, seus diversos xiliques, suas caras e bocas, acompanhado por um time Z de coadjuvantes inúteis e as cafonas cenas de sexo, amor, romance entre ele e a moça alienígena. Isso sem falar nos elementos que levam à conclusão piegas do longa. Ah fale sério, o que são aquelas almas de todas as pessoas sendo levadas para a nave espacial? Isso depois de Londres irromper no caos com uma espécie de corrente de vampirismo energético passando a todos como uma furada hecatombe zumbi. Mas o que mais me incomoda em Força Sinistra é a pretensão. Sempre ela. A megalomania dos picaretas Yoram Globus e Menahem Golan e sua Cannon Group Inc. (e suas pérolas da sétima arte como Braddock – O Super Comando, Invasão USA, Comando Delta, Falcão – O Campeão dos Campeões, Desejo de Matar, Mestres do Universo, O Último Americano Virgem, etc – olha só o nível) em fazer uma superprodução de 25 milhões de dólares que estourou o orçamento e teve de ser finalizado às pressas. Fora que prevendo a bomba, dezenas de atores considerados aos papéis nem toparam participar da empreitada. Sobrou até para o coitado do Patrick “Capitão Pickard/ Charles Xavier” Stewart uma ponta vexatória no filme depois de muitas dessas recusas. E então temos que falar de Tobe Hooper, que parece que não aprendeu nada com Poltergeist – O Fenômeno e foi lá mais uma vez se meter a diretor de uma grande produção, mesmo a Cannon sendo conhecida por seus filmes de baixo orçamento. O que tornou Hooper um diretor com uma ascendência meteórica no gênero? Seus filmes independentes e autorais. Leia-se O Massacre da Serra Elétrica para ser mais preciso. Ao invés de investir nesse cinema cru, marginal, quase documental onde a falta de recursos o ajudou, o maluco texano vai dirigir um filme que se passa em Londres, cheio de atores ingleses ao seu redor, numa trama confusa que parece um episódio ruim de The Quatermass Experiment. Tragédia anunciada! Mais uma vez Hooper enfiou sua carreira no buraco e de lá para frente, sabemos que ele não fez absolutamente MAIS NADE QUE PRESTASSE. E a bilheteria? Um fracasso. O pseudo-blockbuster que gastou 25 milhões faturou apenas 11 milhões no mercado doméstico (distribuído nos cinemas americanos pela TriStar). E quer mais embasamento no meu texto? Colin Wilson, ele mesmo, o fulano que escreveu o livro, disse que o autor John Fowles considerava a adaptação cinematográfica de seu próprio livro, Magos, O Falso Deus (com Anthony Quinn e Michael Caine) a pior já feita da história. E que agora, havia uma nova pior adaptação de um livro: Força Sinistra. Sem mais. Se mesmo assim depois de tudo que eu escrevi você achar que minha opinião não merece respeito, que eu sou um cara chato, pedante e que estou cometendo uma heresia, eu respeito sua posição, fã do horror. Mas isso não muda o fato de eu bater o pé que Força Sinistra é uma grandessíssima porcaria de filme e é isso aí. Chega até a me irritar, o que é uma pena. Eu deveria nunca tê-lo assistido novamente e continuar com aquela imagem sensacional dos meus anos joviais de que aquele longa da “mina gostosa que fica pelada o filme inteiro” era simplesmente o máximo. Se você leu meu texto e ainda não o reviu, reconsidere, por favor, e mantenha a fita no seu imaginário, guardado ali imaculado junto de seus tórridos sonhos proibidos com Mathilda May.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/08/07/494-forca-sinistra-1985/

#493 1985 O DIA DOS MORTOS (Day of the Dead, EUA)


Direção: George A. Romero
Roteiro: George A. Romero
Produção: Richard P. Rubinstein, David Ball (Coprodutor), Ed Lammi (Produtor Associado), Salah M. Hassanein (Produtor Executivo)
Elenco: Lori Cardille, Terry Alexander, Joseph Pilato, Jariath Conroy, Anthony Dileo Jr., Richard Liberty, Sherman Howard

Eis que depois da noite, do despertar, e principalmente, depois do ciclo italiano de zumbis, George Romero volta aos seus monstros mortos-vivos favoritos para concluir o que seria a sua trilogia da hecatombe zumbi em Dia dos Mortos. Antes de analisar Dia dos Mortos é necessário fazer uma linha do tempo do cinema zumbi desde que Romero reinventou o terror moderno em A Noite dos Mortos-Vivos nos anos 60. Bem sabemos que até então o zumbi era produto de feitiçaria caribenha e só mesmo em 1968 que ele se transformou em um cadáver ambulante canibal (trazido à vida por meio de radiação) e afastou-se da luta de classes nas Antilhas para se tornar seu vizinho ou ente querido. Na década seguinte, Despertar dos Mortos mais uma vez inovou o gênero e deu início a insurreição que vemos até hoje em filmes, seriados de TV, videogames e quadrinhos. Nesse meio tempo entre Despertar e Dia dos Mortos (um hiato de sete anos) eis que Lucio Fulci transformou o morto-vivo em um ser maltrapilho, putrefato e expôs todo o potencial visceral splatter que essas criaturas míticas poderiam alcançar desde seu Zumbi 2 – A Volta dos Mortos(que nada mais é que inspiração rasgada de Despertar dos Mortos). Uma infinidade de filmes de zumbis italianos surgiram na esteira explorando cada vez mais o fetiche pelo gore e pela carne. Era um caminho sem volta que acabou por influenciar o mestre em seu retorno retumbante. Em Dia dos Mortos, após os acontecidos de Despertar dos Mortos a humanidade perdeu a batalha e o mundo tornou-se um lugar inóspito tomado por zumbis. Tom Savini em seu auge retoma a maquiagem, deixando de lado todo o ar cartunesco dos zumbis de Despertar e mostrando-os como seres em decomposição afetados pelo tempo (como um dos emblemáticos zumbis sem maxilar da sequência inicial). A selvageria e a brutalidade gráfica atingem seu auge na filmografia de Romero, dando direito as sequências mais grosseiras da trilogia, como um zumbi que “deixa cair” todos seus órgãos internos ao se mover em uma maca, ou os terríveis ataques em seu final quando cabeça, tronco e membros são separados de um dos soldados por uma horda de mortos. A crítica social inerente à sobrevivência humana continua ali escancarada, violando códigos de ética, conduta, raça e credo, mas o tom do longa dessa vez é muito mais depressivo, soturno. Esqueça os delírios de consumo de um shopping center só para você. Aqui os heróis, que muito se misturam com os vilões, vivem às raias da loucura, cercados por uma estafa mental e um descontrole emocional, como se manter o fardo da humanidade fosse uma bomba relógio prestes a explodir. E também há de se reparar que o começo do filme se passa exatamente na Flórida, o ponto mais próximo dos EUA das ilhas caribenhas, mais uma volta que o ciclo do monstro dá em torno de sua própria origem, mesmo que subentendido. Um grupo díspar de cientistas e militares estão às turras em um bunker enterrado no subsolo. Sarah (Lori Cardille) é a suposta mocinha da trama, que faz parte da junta científica junto de Fisher (John Amplas) e o Dr. Logan (Richard Liberty) mais conhecido pelo infame apelido de Dr. Frankenstein. Suas missões é tentar entender a epidemia e possivelmente encontrar uma cura, algo que vem se mostrando extremamente infrutífero. Enquanto Sarah e Fisher tentam buscar resposta por meio de pesquisas, o carniceiro Dr. Logan faz todo tipo de experimento visceral com os mortos e insiste na teoria de domesticação (leia-se escravidão, voltando mais uma vez ao ponto alto da crítica de Romero) e tem uma cobaia, a icônica figura do dócil zumbi Bub (Sherman Howard), que tenta controlá-lo e fazer se lembrar de experiências de vida passada, como ouvir música, fazer a barba e ler Stephen King, em troca de pedaços de carne humana. Do outro lado da moeda estão os militares liderados pelo ditatorial Rhodes (Joseph Pilato) que estão começando a ficar impacientes com seus homens sendo mortos na busca por mais cobaias para testes, a falta de resultados concretos e está a um passo de estourar com os cientistas, aumentando exponencialmente cada vez mais o rastilho de pólvora enquanto eles brigam entre si sem parar. Neutros entre os dois grupos estão John (Terry Alexander), negro espirituoso e com sotaque carregado que mais uma vez remete ao Caribe, lar da origem do mito, único capaz de pilotar o helicóptero e McDermott (Jariath Conroy), especialista em comunicações. Como de praxe na obra morta-viva de Romero, o grande mal à humanidade não são os zumbis e sim os próprios homens. Mais uma vez, como acontecera em A Noite dos Mortos-Vivos e Despertar dos Mortos, o que coloca tudo a perder e desestabiliza o status quo para a catástrofe final é a mesquinharia, a intolerância e as atitudes impensadas dos próprios homens. Enquanto em A Noite a inconsequência da explosão da bomba de gasolina misturada ao descontrole emocional do personagem de Karl Hardman decretam o fim do grupo e em Despertar a invasão dos motoqueiros ao shopping é seguida pelo ataque dos zumbis, aqui em Dia o latino Miguel (Anthony Dileo Jr.), namorado de Sarah é que em um estágio avançadíssimo de estresse manda tudo às favas e abre os portões para que os cadáveres invadam o complexo e façam seu banquete. Mas o mais interessante de Dia dos Mortos, tendo em visto a gama de atitudes estúpidas humanas, é como Romero inverte o papel do mocinho e do bandido fazendo com que simpatizemos com os zumbis, principalmente por conta de Bub, uma vez que seus pares são vivissecados (quer dizer, sei lá se essa palavra se aplica pois eles não estão tecnicamente vivos), explorados, humilhados e trucidados. Chegando próximo de sua conclusão você passa a torcer para os mortos. Mas apesar do tom pesado, de todos os três filmes, esse é o primeiro que de fato traz uma mensagem de esperança em seu final aberto e “feliz”, sugerindo que talvez, apesar dos apesares, as praias do Caribe sejam a verdadeira solução para que esse ciclo se feche. Mas para efeito imediato de conversa, Dia dos Mortos não agradou o público e nem crítica, principalmente por sua intensa deliberação sobre mazelas humanas e papel dos homens na antiga e nova sociedade, seu ritmo lento e sua mensagem extremamente depressiva. Com orçamento de três milhões de dólares, diversas dificuldades durante as filmagens pela falta de verba e por ter sido lançado em um período em que o cinema de terror era descompromissado e nem um pouco crítico, o longa afundou nas bilheterias faturando somente 5 milhões de dólares e tendo um resultado um pouco melhor no mercado internacional. Fora também que naquele ano de 1985, o teor apocalíptico sem um pingo de esperança que remetia ao cinema zumbi de Romero havia sido completamente substituído pelos zumbis dançarinos do videoclipe de Thriller de Michael Jackson e os comedores de miolos piadistas de A Volta dos Mortos-Vivos de Dan O’Bannon, que ajudaram ainda mais para que o público repudiasse o longa de Romero. O resultado catastrófico enterrou a carreira de Romero que nunca mais conseguiu dirigir nada de relevante depois e levou quase vinte anos até que ele finalmente voltasse ao gênero e lançasse a última parte que completaria sua agora tetralogia, Terra dos Mortos, reaproveitando elementos que estariam no roteiro original de Dia dos Mortos mas que tiveram de ser cortados pela falta de verba.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/08/06/493-dia-dos-mortos-1985/