sexta-feira, 25 de março de 2016

#531 1987 O ESCONDIDO (The Hidden, EUA)


Direção: Jack Sholder
Roteiro: Jim Kouf
Produção: Michael Meltzer, Gerald T. Olson, Robert Shaye; Stephen Diener, Dennis Harris, Jeffrey Klein, Lee Muhl (Produtores Executivos)
Elenco: Kyle MacLachlan, Michael Nouri, Claudia Christian, Clarence Felder, Clu Gulager, Ed O’Ross,

O Escondido é um clássico do sci-fi B dos anos 80. O filme cult do diretor Jack Sholder (que já havia dirigido Noite de Pânico e A Hora do Pesadelo Parte 2: A Vingança de Freddy) é na medida certa para aqueles que curtem filmes de ficção científica e os que curtem policiais aos moldes Máquina Mortífera. Considerado pela crítica na época uma mistura de Exterminador do Futuro com Os Invasores de Corpos, O Escondido pode pegar de surpresa os desavisados (mas só até certo ponto, vai) com todos seus clichês de filme de ação dos anos 80: excesso de testosterona, a conturbada relação entre os dois policiais que caçam um assassino impiedoso, tiroteio aos montes, perseguições em alta velocidade e por aí vai. Só que realmente o charme da produção é o fato do criminoso ser na verdade hospedeiro de um parasita alienígena que entra por sua boca e toma controle do corpo da pessoa, dando-lhe um instinto assassino incontrolável, completa falta de moral, apreço por Ferraris e gosto por música no último volume. O filme começa com uma câmera de segurança de um banco mostrando o outrora pacato cidadão de bem Jack DeVries (John McCann) fazendo suas primeiras vítimas, roubando o local e saindo em disparada em uma Ferrari. Após cenas de perseguição de alta octanagem, ele finalmente é detido e fuzilado pelo time de policiais do Sargento Tom Beck (Michael Nouri). Levado ao hospital nas últimas, o parasita alienígena sai de DeVrit e passa para o corpo do sujeito ao lado, Jonathan Miller (William Boyett), que começará a arruaça da vez. Paralelo a isso, o agente do FBI, Lloyd Gallagher (Kyle MacLachlan, famoso pelo papel de outro agente do FBI, Dale Cooper, da série Twin Peaks) é designado do escritório de Seattle (aparentemente) e pede ajuda de Beck para caçar agora Miller, alegando que ele e DeVrit estavam mancomunados. Não precisa ser cientista de foguete para descobrir logo de cara que Gallagher também é um alienígena e vem caçando o extraterrestre malvado por anos e planetas, uma vez que ele foi o responsável pela morte do parceiro, esposa e filha do ET. Nisso o mais legal é acompanhar Beck se metendo em uma situação inverossímil e sem entender muito do que está acontecendo, mas com seu faro policial de que algo está errado e não está sendo contado. A ficha começa a cair quando o parasita sai do corpo de Miller para possuir astripper Brenda (a deliciosa Claudia Christian que mais tarde voltaria ao sci-fi na série Babylon 5) e depois de tomar pelo menos uns 15 tiros à queima-roupa, não consegue ser abatida. Tratando-se de anos 80, tenho que dizer que a aparência do verme espacial é bem decente. A cena em que sai da boca de DeVries para se transferir a Miller foi filmada em stop-motion. A cada pausa do frame, o bichinho era colocado em uma nova posição dentro do molde da cabeça do ator. O responsável foi Kevin Yagher, que anteriormente trabalhou na equipe de Tom Savini em Sexta-Feira 13 – O Capítulo Final e cuidou da maquiagem de Freddy Krueger em A Hora do Pesadelo Parte 2: A Vingança de Freddy. Quanto ao efeito visual do raio da arminha estilo Homens de Preto de Gallagher, esse aí é precário. Uma curiosidade é que se você reparar bem, na cena da fuga da prisão quando o alienígena chega arrebentando tudo querendo acabar com a raça de Gallagher, um dos prisioneiros é ninguém menos que Danny Trejo, que aparece por apenas alguns segundos no frame e foi uma das suas primeiras participações no cinema, antes de virar ator fetiche de Robert Rodriguez. Vendo novamente para resenha-lo continuo atestando que é um filme dos mais divertidos. Ganhou uma continuação depois de seis anos que nem é digna de nota.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/09/26/531-o-escondido-1987/


#530 1987 CREEPSHOW (Creepshow 2, EUA)


Direção: Michael Gornick
Roteiro: George A. Romero (baseado nas histórias de Stephen King)
Produção: David Ball; Mitchel Gallin (Produtor Associado); Richard P. Rubinstein (Produtor Executivo)
Elenco: Domenick John, Tom Savini, George Kennedy, Dorothy Lamour, Don Harvey, Daniel Beer, Lois Chiles, David Beecroft, Tom Wright

Creepshow 2 (que no Brasil também ganhou o título de Show de Horrores) é tão bom quanto o primeiro. Na verdade acredito que os dois se completam e assistir as cinco histórias de Creepshow  e logo na sequência os outros três segmentos da continuação, é uma excelente pedida. George A. Romero não dirige este daqui, que ficou por conta de Michael Gornick, mas assina o roteiro baseado em três histórias do mestre Stephen King, seguindo aquela mesma homenagem rasgada aos quadrinhos da EC Comics que influenciaram sua infância (e uma penca de outros artistas, escritores e cineastas de sua geração). O prólogo que servirá como elo de ligação entre as histórias traz o jovem Billy (Domenick John) ansioso por pegar seu exemplar mensal da revista Creepshow, entregue pelo sinistro The Creep (interpretado pelo mestre da maquiagem Tom Savini, responsável pelos efeitos visuais do primeiro filme). Após uma abertura em live action, a animação toma conta para mostrar o covil de Creep (agora com a voz de Joe Silver) alimentando seus lagartos de animação e narrando para o espectador os três contos.
O primeiro é “Old Chief Wood’nhead”, que traz o ator George Kennedy como Ray Spurce, um velho dono de uma loja de conveniência em uma cidade do deserto que está sofrendo com a falta de clientes e o abandono da cidade, junto de sua esposa, Martha (Dorothy Lamour). Na varanda da loja há uma estátua do Velho Chefe Cabeça de Madeira, querida e cuidada por Ray há mais de trinta anos. Durante um assalto ao local, orquestrado por Sam Whitemoon (Holt McCallany) sobrinho de um chefe indígena local, o casal de idosos é baleado e morto. Os três meliantes preparam sua fuga para a Califórnia quando o Velho Chefe Cabeça de Madeira ganha vida e sai em uma expedição guerreira para se vingar dos antigos donos e escalpelar os meliantes.
O segundo conto é o interessantíssimo (e meu preferido) “The Rack”, onde quatro estudantes universitários decidem nadar em um lago numa idílica tarde de verão. Eles resolvem fazer sua travessia a nado até uma jangada que flutua no meio do lago, sem imaginarem que ali ficarão encurralados por uma mancha negra carnívora flutuante. Esse é o conto mais visceral dos três, com aquela crosta predadora maligna devorando os rostos, corpos e membros dos jovens, incluindo a fantástica cena de quando um garotão tenta bulinar uma das moças durante o seu sono e inadvertidamente a coloca à mercê da gosma, que se infiltra através das fissuras da jangada e arranca um pedaço de sua face. Mas além de tudo, o ponto alto do segmento é quando ao final, vemos ironicamente uma placa escrita “Não nade” pouco visível atrás de um monte de arbustos.
Encerra a antologia com “The Hitchhiker” onde uma empresária adúltera (Annie Lansing, papel de Lois Chiles) precisa chegar em casa antes do marido para não dar pinta da sua pulada de cerca e no caminho a milhão ela acidentalmente atropela um caronista (Tom Wright). Praticando um típico hit and run ela foge em disparada à noite, só para ser atormentada pelo caroneiro morto em busca de vingança gritando “obrigado pela Carona, senhora” durante toda a viagem até sua casa. Nos interlúdios em animação e em seu epílogo, Billy recebe um pacote de uma encomenda comprada dos classificados da HQ, tratando-se de sementes de uma planta carnívora de verdade, é cercado por uns valentões que o perseguem de bicicleta, até que outras plantas carnívoras erguem-se entre ervas daninhas e devoram os malfeitores, tudo assistido por Creep que gargalha de satisfação.
Uma curiosidade é que originalmente, assim como o primeiro filme, Creepshow 2 deveria conter cinco contos, porém dois deles acabaram sendo descartados no final: “Pinfall” sobre dois times de fantasmas rivais no boliche e “The Cat From Hell” sobre um gato do mal, que fora usado posteriormente em outra antologia, Contos da Escuridão.  Ainda em 2007 um terceiro Creepshow foi lançado, mas sem qualquer ligação com King ou Romero.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/09/25/530-creepshow-2-1987/

quinta-feira, 24 de março de 2016

#529 1987 CORAÇÃO SATÂNICO (Angel Heart, EUA, Canadá, Reino Unido)


Direção: Alan Parker
Roteiro: Alan Parker (baseado no livro de William Hjortsberg)
Produção: Alan Marshall e Elliott Kastner, Robert Dattila (Produtor Associado), Andrew Vajna e Mario Kassar (Produtores Executivos)
Elenco: Mickey Rourke, Robert De Niro, Lisa Bonet, Charlotte Rampling

É extremamente difícil escrever e fazer uma análise sobre Coração Satânico sem entregar vários spoilers do filme. Então vou tentar dividir o texto em duas partes. A primeira para aqueles que nunca assistiram a essa perturbadora produção que mistura horror, satanismo e cinema noir e a segunda, para aqueles que já viram e sabem muito bem como ela termina. Coração Satânico tem aqui três pilares para ser um filme tão f... O primeiro é a direção e roteiro de Alan Parker, precisa, segura, com uma extremo cuidado com detalhes e com todo o mise-en-scène que envolve o filme, pautado em um forte apelo visual, sinistro e repleto de simbolismos. O segundo pilar é Mickey Rourke. Vamos lembrar que em 1987, o galã estava no auge de sua carreira, logo após 9 ½ Semanas de Amor, antes de tornar-se uma caricatura de si mesmo. E sua atuação é brilhante. Seus maneirismos, suas sutilezas, e o jeito como vai se comportando no desenrolar do filme conforme sua investigação vai avançando mostram só como o cara é (era?) um baita ator. E o terceiro é Robert De Niro. Bom, no final do filme (e do post), você vai entender porque De Niro nem precisa aparecer e falar muito no filme para ter uma de suas interpretações mais marcantes da carreira. No ano de 1955, Rourke é Harry Angel, um detetive de Nova York, nascido no Brooklyn, contratado pelo enigmático Louis Cypher (De Niro) para encontrar um cantor de jazz desaparecido, chamado Johnny Favorite, que sumiu há doze anos e tinha uma dívida com ele. Angel decide aceitar o trabalho e aos poucos vai entrando numa trama completamente macabra e esquisita. Sua investigação começa em Nova York, mas conforme vai colhendo pistas, ele vai se envolvendo com personagens complexos e misteriosos, como a leitora de mãos Margaret Krusemaker (Charlotte Rampling), ou quando segue para Nova Orleans e se envolve com Epiphany Proudfoot (Lisa Bonet), filha de uma das amantes de Favorite, que na verdade é uma sacerdotisa vodu. Ou seja, a investigação começa a esbarrar em doses cavalares de magia negra e todas as pessoas de quem se aproxima para tentar desvendar o verdadeiro paradeiro de Favorite, terminam terrivelmente assassinadas, com mortes extremamente violentas. Para quem não assistiu ao filme, pare de ler por aqui. Essa sinopse simplória pode parecer que é um filme policial qualquer, mas a coisa vai ficar muito séria no final, que é nada menos que surpreendente. Confie em mim! Agora se você já assistiu ou quer continuar lendo por sua conta e risco, lá vai: O filme começa a ficar bem pesado, primeiro pelas mortes violentas, principalmente de Margaret e de Toots Sweet (Brownie McGhee), um cantor de blues de Nova Orleans que havia feito algumas jams sessions com o Favorite antes da guerra. Respectivamente, uma tem o coração arrancado do peito e o outro, segundo relatos policiais, morre sufocado com o próprio pênis decepado. E conforme vai chegando em seu clímax, cada vez mais percebemos que há algo de muito errado com Angel e principalmente com seu contratante, Cypher, e é aí que vamos pegando os nuances para entender o final como um todo, em pequenas pistas que Alan Parker vai jogando no decorrer do filme, o que faz ele se tornar tão do caralho. Na cena final, descobrimos que Angel não consegue encontrar Favorite de jeito nenhum porque ele na verdade é o cantor de jazz desaparecido. Favorite havia feito um pacto com o diabo em troca de sucesso, conjurando o capeta junto com sua namorada, Margaret, praticante das artes do oculto. Porém para tentar ludibriá-lo, ele rapta um jovem soldado durante a noite de réveillon na Times Square, e através de feitiçaria, troca de alma com o sujeito. Só que logo em seguida Favorite é recrutado para a guerra e retorna desfigurado e com amnésia, assumindo de vez a identidade de Harry Angel. Olha que piração! E Louis Cypher é na verdade o demônio, que ironicamente prega esse joguinho com Angel / Favorite para que ele descubra a verdade antes de reclamar sua alma de volta. Na boa? De Niro é o melhor diabo interpretado em toda a história do cinema. O cara assusta com o olhar (e aquele olhar na cena em que se revela, então…) e todas as poucas vezes que aparece no filme, você até sente um mal estar e uma energia pesadíssima. E o trocadilho do nome dele então? Louis Cypher = Lúcifer. Gênio! E Coração Satânico é aquele típico filme que você quer assistir de novo, para conseguir pegar todas as sacadinhas que explodem no final do filme. Mas o brilhantismo é que nenhuma delas são óbvias e realmente só nos momentos finais que você, estupefato, descobre toda a verdade. Logo no primeiro encontro, Cypher diz que é um estrangeiro. Em outro momento sensacional, Cypher está comendo um ovo, e diz que em algumas religiões o ovo simboliza a alma. E na sequência, ele devora o ovo. Na próxima ele aparece dentro de uma igreja, cínico ao extremo. Angel / Favorite tem uma estranha fobia com galinhas, que são usualmente utilizadas em rituais, principalmente nos rituais vodus. E repare que cachorros, as próprias galinhas e as crianças, se comportam de forma estranha na presença do detetive, demonstrando às vezes medo, às vezes reações bruscas. E por fim, toda vez que uma morte é iminente, aparece um ventilador em cena, que remete a Favorie o exato momento em que ele tirou a vida do original Harry Angel. Destaque para a impressionante cena em que ele faz sexo selvagem com Epiphany. É simplesmente demais! Afinal, ele está trepando com a própria filha sem saber, e a chuva que cai através de infiltrações no teto do quarto, vai se transformando em um banho de sangue que inunda os dois. O incesto, o ato pecaminoso mais hediondo. E ao terminar o filme, durante os créditos finais, Angel / Favorite está descendo em um elevador. Analogia de descer diretamente para o inferno. Coração Satânico é um thriller fantástico. Dos melhores já feitos no gênero.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/09/24/529-coracao-satanico-1987/

#528 1987 BONECAS MACABRAS (Dolls, EUA)


Direção: Stuart Gordon
Roteiro: Ed Naha
Produção: Brian Yuzna; Bruce Cohn Curtis, Debra Dion, Michael Wolf (Produtores Associados); Charles Band (Produtor Executivo)
Elenco: Ian Patrick Williams, Carolyn Purdy-Gordon, Carrie Lorraine, Guy Rolfe, Hilary Mason, Stephen Lee

Junte o diretor Stuart Gordon, o produtor Brian Yuzna e a Empire Pictures de Charles Band e você provará com Bonecas Macabras que um raio não cai pela terceira vez no mesmo lugar definitivamente. Isso porque os dois filmes anteriores que envolvem esses três nomes foram nada mais nada menos que Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos e Do Além, coincidentemente duas adaptações da obra de H.P. Lovecraft, e que são dois dos maiores exemplares do gênero na década. Portanto, não deixe de se enganar ao assistir Bonecas Macabras só por conta de seus idealizadores, porque o filme é uma verdadeira porcaria, com o selo de (falta) qualidade da Empire Pictures. Ao bem da verdade, Bonecas Macabras fora filmado antes de Do Além, e gravado no mesmo set, mas lançado depois, com um ano de diferença por conta do longo trabalho de pós-produção nos (d)efeitos especiais das tais bonecas do título. E ainda bem para Stuart Gordon que a película lovecraftiana saiu antes, porque isso aqui é um queima filme desgraçado. O lance é que bonecas (de porcelana, de plástico ou de pano) sempre foram algo meio sinistro e até faz florescer medos mais profundos em um bocado de gente. Taí o longa Annabelle, spin-off de Invocação do Mal, ou mesmo outros exemplares anteriores como o surreal A Boneca do Demônio, os filmes com bonecos de ventríloquos do mal como Na Solidão da Noite ou Magia Negra mesmo o sensacional conto da antologia de José Mojica Marins em O Estranho Mundo de Zé do Caixão e até os manequins macabros de Armadilha Para Turistas (produzido pelo próprio Charles Band). Mas o problema é que apesar de alguns dos efeitos artesanais se mostrarem até bem interessantes para a época, realmente tirando uma cena ou outra mais impressionante, essas bonecas do filme não assustam ninguém. Primeiro porque o sucesso do gore de Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos fez com que os produtores optassem por uma abordagem mais sangrenta e visceral do que o próprio horror psicológico em si que poderia render muito mais ao filme, explorando esse medo quase primitivo humano. Segundo porque o resultado final é tão tosco, que só mesmo o riso involuntário, ainda mais por conta daquela velha fórmula do “terrir” usada à exaustão nos anos 80 que em detrimento do suspense e do sobrenatural, prefere fazer gracinhas a todo o momento e utilizar-se de momentos de escracho e personagens caricatos exagerados. O roteiro escrito por Ed Naha (que já havia contribuído de forma miserável para a Empire escrevendo o pavoroso Troll – O Mundo do Espanto) consiste naquele clichê mais velho que andar para frente, de um carro atolar na lama (também pode quebrar, é uma das variáveis) no meio de uma tempestade e os ocupantes serem obrigados a passar à noite em uma casa no meio do nada (que teve seu início lá na longínqua década de 30 em A Casa Sinistra e parodiado na década de 70 no memorável The Rocky Horror Picture Show, entre dois exemplos). Estamos falando do casal, David (Ian Patrick Williams) e Carolyn Purdy-Gordon (Rosemary) com sua filha pequena, a pobrezinha Judy (Carrie Lorraine) que come o pão que o diabo amassou com o pai e a madrasta megera podre de rica. O acontecimento que citei aí em cima faz com que eles se abriguem da tempestade na casa do excêntrico casal de velhinhos, Gabriel (Guy Rolfe) e Hilary (Hilary Mason) Hartwicke. Gabriel é um construtor de bonecas e titeteiro à moda antiga e logo de cara nós saberemos que há algo de errado com os dois e sua coleção. Juntam-se ao casal e filha, o bonachão Ralph (Stephen Lee) e duas punks/góticas/clichês 80’s as quais o rapaz deu carona, Isabel (Bunty Balley) e Enid (Cassie Stuart). Todos juntos na casa para passar à noite, o roteiro que já era mais raso que um pires vai completamente para o buraco enquanto um a um começa a ser morto da forma mais criativa que a outra pelas bonequinhas outrora seres inanimados. Há todo um maniqueísmo e lição de moral, pois os adultos vis e cruéis são vítimas e aqueles que são crianças inocentes ou crianças crescidas, não sofrerão a ira das miniaturas diabólicas. Não há nenhuma explicação aparente, magia negra, possessão, ou o escambau que mostre o porquê daqueles brinquedos possuírem esse instinto assassino. Dentre os momentos “sinto vergonha alheia de Stuart Gordon” estão a morte da insuportável Rosemary (que convenhamos, você torce para aquele entojo bater as botas desde a primeira vez que aparece em cena), que depois de atacada pelas bonecas, ridiculamente pula direto pela janela, ou quando Enid é fuzilada por soldadinhos de chumbo. Isso sem contar a patética cena em que Judy imagina seu ursinho de pelúcia se transformando em uma mutante criatura gigante e dilacerando pai e madrasta. O que se salva (pelo menos em termos técnicos), além de uma ou outra cena sinistra envolvendo as marionetes, é a fatídica transformação de David em boneco (ah, não vai reclamar que é SPOILER para um filme desses, vai?). Eu costumo usar muito o iMDB para escrever os textos, consultando sua ficha técnica. Sempre há resenhas dos leitores do site, e quando entrei para procurar as informações sobre essa pérola, a primeira resenha que apareceu tinha o título: “Melhor que Chucky ou Bonecos da Morte”. Provavelmente o rapaz que escreveu isso está usando drogas. Porque Bonecas Macabras é uma verdadeira porcaria.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/09/23/528-bonecas-macabras-1987/

#527 1987 OS ADORADORES DO DIABO (The Believers, EUA)


Direção: John Schlesinger
Roteiro: Mark Frost (baseado no livro de Nicholas Conde)
Produção: Beverly Camhe, Michael Childres, John Schlesinger; Mark Frost (Produtor Associado); Edward Teets (Produtor Executivo)
Elenco: Martin Sheen, Helen Shaver, Harley Cross, Robert Loggia, Elizabeth Wilson, Harris Yulin, Lee Richardson

Talvez se colocado dentro do panteão de todos os filmes de terror que tem como pano de fundo rituais e possessão, Os Adoradores do Diabo seja apenas um bom filme. Mas se você está fazendo um blog analisando 1001 filmes de terror cronologicamente e chega no ano de 1987 empapuçado de produções trash, “terrir” e slashers da década, encarar esse thriller sobrenatural é como encontrar um oásis no deserto. O diretor ganhador do Oscar por Perdidos na Noite, John Schlesinger pega o roteiro de Mark Frost adaptado do livro “Religion” de Nicholas Conde e finalmente coloca um pouco de seriedade e do macabro no cinema de terror oitentista, muito inspirado em O Bebê de Rosemary, evocando a Santeria, religião surgida da mistura entre as crenças católicas e africanas trazida para as Américas pelos ancestrais escravos, ganhando adeptos da comunidade hispânica. O dogma religioso envolve rituais secretos, sacrifícios de animais, adoração de figuras de santos, danças, invocações, tambores e atabaques, tal qual o próprio vodu ou candomblé. Feitiçaria, seitas secretas e pactos demoníacos sempre foi uma boa fonte de inspiração para o cinema de terror, tendo seu auge até hoje no seminal filme de Roman Polanski, mas com diversos excelentes exemplares (lembrando aqui de cabeça: A Sétima VítimaA Noite do DemônioAs Bodas de SatãA Irmandade de Satanás, entre outros). As incertezas religiosas inerentes ao final dos anos 80 e a cultura da busca pela popularidade, dinheiro e sucesso fizeram com que o tema abordado em Os Adoradores do Diabo caíssem como uma luva. Após as imagens antes dos créditos mostrarem um ritual de sacrifício africano (que será devidamente esclarecido no terceiro ato), a trama do filme segue Cal Jamison (papel do sempre ótimo Martin Sheen) cuja esposa é morta em um terrível acidente doméstico no começo da fita e ele muda com seu filho, Chris (Harley Cross), para Nova York, se envolvendo amorosamente com Jessica (Helen Shaver), a senhoria do apartamento que alugou, e começando a trabalhar como psicólogo da polícia. Certa tarde quando passeia com o pai pelo Central Park, Chris encontra uma concha utilizada em um ritual ao lado de um gato sacrificado sem cabeça e a guarda. Tudo devidamente arquitetado. Paralelo a isso, Cal é chamado pelo Tenente McTaggert (Robert Loggia) para atender a um policial latino, Tom Lopez (Jimmy Smitz) que trabalhava infiltrado em um caso envolvendo rituais humanos praticados por adeptos da Santeria, e demonstra sinais de insanidade e até tentativa de suicídio. Esse desenrolar do roteiro que irá dar pano para manga para as investigações de Cal começar a leva-lo cada vez mais profundamente para o mundo do oculto e envolve-lo, assim como seu filho Chris e sua nova namorada, Jessica, para os perigos de uma poderosa seita ritualística de gente graúda que atua na cidade. O desenrolar das situações trabalhadas por Schlesinger conduzem o espectador pelo horror psicológico (muito mais subentendido que explícito) a uma sequência de fatos intrincados até chegar ao seu final, que mesmo que seja clichê e nada inédito no gênero, consegue prender a atenção e ainda assim agradar. Além disso, o final pessimista e em aberto do prólogo do filme também é dos mais interessantes. Dois momentos que se mostram pontos altos do longa é quando Lopez, vítima da poderosa feitiçaria, abre seu próprio bucho em um restaurante reclamando ter cobras dentro de seu ventre (e depois na autópsia vemos que tinha realmente cobras de VERDADE em seu estômago) e quando uma bolha pustulenta estoura no rosto de Jessica, liberando aranhas pela sua face. Tudo obra de macumba da braba! Macumba essa inclusive que o diretor culpa o tema escolhido para seu filme pela morte de sua mãe logo após o término das filmagens. Para quem acredita… Os Adoradores do Diabo (e que não são adoradores do diabo em si na verdade e sim mais uma tosca tradução em português para um título) é um suspense sobrenatural interessante que se sobrepõe às produções porcarias da época feitas em quantidade avassaladora.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/09/20/527-os-adoradores-do-diabo-1987/

terça-feira, 22 de março de 2016

#526 1986 VISÃO DO TERROR (Terrorvision, EUA)


Direção: Ted Nicolaou
Roteiro: Ted Nicolaou
Produção: Albert Band; Debra Bion, Michael Wolf (Produtores Associados); Charles Band (Produtor Executivo)
Elenco: Diane Franklin, Gerrit Graham, Mary Woronov, Chad Allen, Jon Gries, Bert Remsen

“Pessoas da Terra, seu planeta está prestes a ser destruído. Sentimos muito pelo inconveniente”. Claro que esse tipo de diálogo (que também é a tagline do pôster) só poderia vir de uma típica podreira trash dos anos 80, produzida por Charles Band em sua Empire Pictures. Assim, talvez o superlativo grandessíssima podreira trash se encaixe melhor no caso de A Visão do Terror, dirigido e escrito por Ted Nicolaou. Sabemos que Band tinha como meta ser uma espécie de Roger Corman dos anos 80, e por isso suas produções beiravam o limite do mau gosto técnico, dramatúrgico e de roteiro. Porém há de se tirar o chapéu pela coragem em transformar o próprio gênero em escracho com produções completamente nonsense. E a Visão do Terror é o caso perfeito disso. Enquanto os filmes da Empire dividiam-se entre o trash e o splatter interessantes, como o caso das adaptações de H.P. Lovecraft da dupla Stuart Gordon e Brian Yuzna, outros eram verdadeiras porcarias que não dá o menor gosto de assistir, como Troll – O Mundo do Espanto. Mas o diretor e roteirista em nenhum momento leva este daqui a sério e no meio de todo seu escracho incontido, serve como uma homenagem ao cinema de terror (principalmente o sci-fi das matinés dos anos 50) e uma crítica também aos exageros do gênero e dos movimentos culturais da década. Tá, parece um pouco pretensioso demais pensar em um ensaio sociológico inserido em uma porcaria como A Visão do Terror, mas para aqueles que querem ver ou além dos efeitos especiais toscos, os personagens caricatos e a história estapafúrdia, ou além do simples e pobre cinema B (para aqueles detratores de plantão que nem deveria estar em um blog como esse), está lá nas entrelinhas. Começa pela estrutura familiar dos Putterman, a família que acabou de comprar uma antena parabólica e fica vidrada nas maravilhas da televisão a cabo, e inadvertidamente recebe na transmissão um monstro espacial que é transformado em energia pura pela estação de tratamento de lixo de Plutão e enviado para os confins do universo. O casal Stanley (Gerrit Graham) e Rachel (Mary Woronov) são adeptos do swing, totalmente liberais e moram em uma casa kitsch de paredes vermelhas, quadros de pinturas eróticas e um quarto com jacuzzi; seu filho Sherman (Chad Allen) é um garoto revoltado problemático cujo sonho é servir o exército e adora brincar com metralhadoras e granadas de verdade, influenciado pelo Vovô (Bert Remsen) típico republicano armamentista da era Reagan – que tenta emplacar um negócio de alimentos sustentável baseado em rabos de lagartixa e sua filha Suzy (Diane Franklin) é uma afetadinha viciada em MTV (que diz que depois da música e da comida, e televisão é a invenção mais importante da humanidade) que emula roupas que misturam o visual de Madonna e Cindy Lauper (mais estereótipo impossível). No rol dos personagens esquisitos, ainda há espaço para o metaleiro farofa mongol poser, O.D. (Jon Gries), namorado de Suzy, e a apresentadora do programa de filmes B da televisão, Medusa (Jennifer Richards), clara sacanagem com Elvira e todas as suas vertentes. Junte tudo isso a um casal que aparece na casa dos Putterman para um troca-troca, o grego exagerado Spiro (Alejandro Rey) e a tapada Cherry (Randi Brooks) e temos a equação completa de “como zoar os anos 80 com propriedade”. Daí para frente é tudo pretexto para uma grotesca criatura tosquíssima aparecer da televisão e devorar os personagens com sua garra e bocarras, derramando litros de gosma verde e outras nojeiras obrigatórias nos sci-fi trash da época. Momento ímpar do filme é quando os jovens, únicos sobreviventes da medonha criatura espacial, resolvem, hã, adestra-lo (até por ele se comportar como um cãozinho monstruoso interplanetário e chegar até a rosnar). É o cúmulo do exagero ridículo cinematográfico. Mas como o pastiche impera e ele em nenhum momento tenta se levar a sério, então está tudo bem. E os efeitos visuais do monstro, são simplesmente sem palavra. É tosco até dizer chega. E o responsável pelo extraterrestre foi R. Christopher Biggs, oriundo da equipe de Roger Corman de filmes como Galáxia do Terror e XB: Galáxia Proibida e também tem em sua filmografia Criaturas, a quarto e quinta parte de A Hora do Pesadelo e Abominável Criatura, aquela bisonhice baseada na obra do Lovectaft. Então já viu… Quanto ao momento homenagem que citei lá em cima, um dos programas sintonizados pela novíssima parabólica dos Putterman é uma sessão de filmes de terror antigos apresentados pela tal Medusa (chamado “Terrorvision”, mesmo título do longa, e que tem uma característica música tema da banda The Fibonaccis) onde são exibidos Robot MonsterO Ataque Vem do Polo e A Invasão dos Discos Voadores, todos filmecos da época. Deixe de lado todo seu senso crítico e a necessidade por completa seriedade nos filmes de terror, porque nada disso será encontrado em A Visão do Terror. É trasheira oitentista da brava, marca registrada de uma época de exageros e de que quase nada no gênero era muito levado a sério (para o bem ou para o mal). Caso o faça, você pode apreciar o filme e ainda pegar as tais críticas sociais que mencionei no texto.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/09/19/526-a-visao-do-terror-1986/

#525 1986 VAMP A NOITE DOS VAMPIROS (Vamp, EUA)


Direção: Richard Wenk
Roteiro: Richard Wenk
Produção: Donald P. Borchers
Elenco: Chris Makepeace, Sandy Baron, Robert Rusler, Dedde Pfeiffer, Gedde Watanabe, Grace Jones, Billy Drago

Vamp – A Noite dos Vampiros é um subestimado filme do gênero. Longe do patamar dos grandes clássicos, mas definitivamente um cult que grita os anos 80 em cada frame da película, é mais um “terrir” vampiresco da década (que tem como seu maior exemplo A Hora do Espanto), que viria até a servir de muita influência para produções vindouras, como obviamente, Um Drink no Inferno da dupla Robert Rodriguez e Quentin Tarantino. Esteticamente não tem como analisar Vamp – A Noite dos Vampiros sem esbarrar no visual exagerado e estereótipos da década de 80. O que hoje é datado e cafona, na época era um verdadeiro desbunde e talvez se você não viveu aquele período ou não é fã daquela estética de alguma forma, a fita só é enfadonha e fraca. Mas caso contrário, é uma delícia rever aquele senso de humor caricato, rapazes de mullets vestindo blazer de ombreira, strippers de cabelo frisado usando biquíni asa delta, trilha sonora new wave e jogo de cores puxado para o azul, verde e rosa. E claro, tudo isso sem contar a presença da exótica Grace Jones, atriz, modelo, cantora e um dos símbolos sexuais da época. Ela dá vida, mesmo sem ter uma única linha de diálogo e completamente descaracterizada, à Katrina, a vampira-mor vinda desde o Egito Antigo que é a grande atração exuberante daquele clube de strip tease infernal localizado em uma cidadezinha erma, que funciona como chamariz para os solitários e deprimidos homens que servirão de fonte de sangue para todas as criaturas da noite que trabalham no staff. Dois garotões, Keith (Chris Makepeace) e AJ (Robert Rusler) querem entrar para a fraternidade de uma universidade e o ritual de iniciação é trazer alguma stripper para se apresentar em uma festa. Eles se juntam ao bobalhão Duncan (Gedde Watanabe) que é o cara sem amigos que possui o carrão, dinheiro e cartões de crédito para pegarem a estrada rumo ao deserto e irem atrás de um clube que descobriram em um anúncio. Eles param em uma cidade praticamente deserta no Kansas, arrumam confusão com um bando de punks, chefiados por Snow, personagem do naipe Billy Drago, em uma lanchonete e depois encontram o tal clube de strip. Encantado pela beleza hipnótica emanada pela performance de Katrina, AJ tenta contratá-la, quando acaba virando vítima da moça, que se transforma em uma deformada criatura com seus longos caninos e maxilar saliente. Acontece que na verdade a morte de AJ se mostra um erro, pois diferente do perfil dos tiozões solitários e caminhoneiros sem família que frequentam o local, o rapazola estava com dois amigos, que então começam a ser caçados para que a máscara vampírica do local não caia. Keith tem de fugir por sua vida naquela cidade infestada de mortos-vivos, incluindo uma criancinha sinistra que adora voar na jugular das pessoas, com a ajuda da garçonete Allison (Dedee Pfeiffer – irmã gracinha da Michelle) que trabalhava a pouco tempo no local e tinha uma quedinha pelo garoto no colegial. Inclusive uma das coisas mais bacanas da fita é a constante desconfiança de que ela também seja uma vampira e como o diretor Richard Wenk (que também escreveu o roteiro baseado em uma ideia sua e do produtor Donald P. Borchers) brinca com o espectador em todo momento. Também temos dois personagens excêntricos do clube, que são carniçais de Katrina: o gerente Vic (Sand Baron) que a qualquer custo quer levar o clube para Las Vegas e é chegado em comer umas baratas e o leão de chácara, Vlad (Brad Logan), apaixonado por Katrina, que valem os momentos em que aparecem em cena. Três pontos altos e memoráveis de Vamp – A Noite dos Vampiros merecem nota: Quando Katrina se revela uma vampirona e dilacera a jugular de AJ após seduzi-lo; quando o mesmo retorna como vampiro e resolve bater um papo com Keith pedindo para que seja sacrificado; e terceiro, a batalha final contra a rainha das trevas nos esgotos e sua última ação após ser derrotada. Como disse lá em cima, Vamp – A Noite dos Vampiros não é o melhor filme das criaturas notívagas de longas presas de todos os tempos, mas é bastante divertido e cheio de clichês que funcionam como paródia do próprio gênero, algo bem típico das produções daquela época. Vale também pelo saudosismo, como quase todos os casos em filmes como esse.
FONTE: https://101horrormovies.com/2014/09/18/525-vamp-a-noite-dos-vampiros-1986/