sábado, 20 de agosto de 2016

#674 1997 ALIEN A RESSURREIÇÃO (Alien: Resurrection, EUA)


Direção: Jean-Pierre Jeunet
Roteiro: Joss Whedon
Produção: Bill Badalato, Gordon Carroll, Davir Giler, Walter Hill; Sigourney Weaver (Coprodutora)
Elenco: Sigourney Weaver, Winona Ryder, Dominique Pinon, Ron Perlman, Gary Dourdan, Michael Wincott, Brad Dourif

O primeiro e único filme da franquia que eu assisti no cinema foi Alien – A Ressurreição.(quer dizer, se você não contar Prometheus). que desgosto. Depois do seminal Alien – O Oitavo Passageiro, o eletrizante Aliens – O Regaste e o sujo e grosseiro Alien 3, todos excelentes filmes (TODOS, SEM EXCESSÃO E INCLUO O ALIEN 3 SIM, Ripley tava lá mortinha da silva, seu ciclo completo, se suicidou grávida de uma alien rainha no ventre, mas claro que os inescrupulosos produtores e estúdio foram lá ressuscitar a primeira grande heroína do cinema com experiência genética de clonagem de DNA para fazer essa porcaria maldita de filme horrível. Sério, como conseguiram fazer uma bomba tão grande com uma série com enorme potencial? E olha que fiquei espantadíssimo ao descobrir, revendo-o para a análise, que o roteiro é do Joss Whedon, sim o cara responsável por Buffy – A Caça VampirosFirefly (que obviamente teve como protótipo original a sua própria trama de Alien – A Ressurreição) e Os Vingadores e Vingadores: A Era de Ultron. Tá certo que mais tarde Whedon demonstrou sua insatisfação com o filme (ah, vá!). O resultado final está bem diferente do que escrito originalmente por ele, principalmente no tom do filme, que deveria possuir diálogos mais ferinos e sarcásticos (como estamos acostumados na obra de Whedon), um tom realista e menos fantasioso, mas que foi rechaçado pelo diretor que teve carta branca em modificar tudo que quisesse e o tornasse mais sério. Então a impressão que dá é que todos os momentos de humor estão completamente fora de contexto, e isso fica muito óbvio, por exemplo, na desgraça que é o personagem do General Martin Perez (Dan Hedaya) que destoa completamente com suas caras e bocas e jeito caricato. Aliás Whedon ficou infeliz com quase absolutamente tudo do filme (mega te entendo, parceiro!) e explicou isso em uma entrevista em 2006. O final foi alterado, o tom saiu errado, os diálogos saíram errados, o elenco estava todo errado (principalmente a Ladrona, quer dizer, Winona Ryder), o design saiu errado, a trilha sonora saiu errado, e que o problema não estava no roteiro, mas na forma que ele foi executado, de uma forma tão medonha que se tornava impossível de assistir. Olha, não tenho como saber se o que ele fala é verdade sobre o roteiro, mas que tenho que concordar que o filme ficou “medonho” e “quase impossível de assistir”, ah, isso tenho. Outro problema de grandeza maior de Alien – A Ressurreição é a Ripley, que está descaracterizadíssima, mesmo com Sigourney Weaver retornando ao papel (pela singela bagatela de 11 milhões de verdinhas, o orçamento de O Oitavo Passageiro). Aquela heroína construída nos três primeiros longas, que durantes anos e anos foi às duras penas ficando a mercê de situações terríveis por conta da ganância da Weyland-Yutani ao obrigar a Nostromo a descer naquele planeta inóspito, mas adquirindo um instinto de sobrevivência fortíssimo e fibra salutar, foi substituída por uma personagem sem profundidade alguma, que parece estar se divertindo em várias cenas com seus sorriso de canto de boca, uma forçada empatia com a criatura (mesmo que ela seja um clone e que tenha geneticamente o DNA do alienígena dentro de si) e claro, os “superpoderes” com sua força e agilidade sobrehumana e o sangue ácido como das baratas espaciais (que não convence, uma vez que o tecido recomposto de seu novo corpo clonado não tem a mesma resiliência da carapaça dos aliens). Já que estamos falando de problemas e motivos que o filme simplesmente não funciona e é uma porcaria de marca maior, outro é o híbrido alienígena humano, nascido da nova habilidade da Rainha em ter adquirido a forma de reprodução humana, característica herdada do DNA de Ripley. Que convenhamos, é uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo em que não precisa mais de hospedeiros para o parasitar incubar, é completamente menos eficaz, uma vez que não conseguirá botar a larga quantidade de ovos e a reprodução assexuada (eu acredito) dará luz a apenas um monstrengo. Que é feio de dar dor, beirando o ridículo com sua aparência bípede albina, e me conta o que são aqueles olhos e aquela sua carinha fofa de dó, como se fosse um filhotinho de cachorro, que eles quiserem colocar no alienígena? Sem comentários… E claro, Alien, diferente de todas as outras franquias do cinema (TODAS) tiveram só diretores fodas conduzindo os filmes. Foi Ridely Scott no primeiro, James Cameron no segundo, David Fincher no terceiro e aqui o francês Jean-Pierre Jeunet, dos incríveis Delicatessen e Ladrão de Sonhos e mais tarde do cult adorado pelas indiezinhas, O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. Mas aqui claramente o toque francês (e europeu) do diretor não ornou nem um pouco na idealizada típica sequência caça-níquel com um roteiro mixórdio vislumbrada pelos engravatados de Hollywood, que resultou no faturamento de “apenas” 47 milhões de dólares nos EUA (mediante seus 75 milhões de orçamento), salvando o prejuízo só com a bilheteria mundial. Aliás, se tem UMA cena à lá cinema europeu nesta quarta parte, é o bonding entre Ripley e os tentáculos da Alien Rainha, que vejam só, quase foi cortada pela FOX pela sua sugestão de natureza sexual, se não fosse Weaver ter batido o pé e dito que não promoveria o filme se a cena fosse retirada. Ah, a trama né? Os miliares resolvem clonar Ripley para poder extrair a Alien Rainha de seu bucho, uma vez que a raça interplanetária foi extinta, e mais uma vez tentar levar adiante a ideia de girico de transformá-los em armas biológicas. Um grupo de mercenários de uma nave chamada Betty leva uma carga contrabandeada para a base espacial, que na verdade são humanos para servirem de hospedeiros para serem abraçados pelo facehuuger e gestarem os xenomorfos. Claro que vai dar merda, a tripulação ou foge ou é morta, e cabe aos membros da Betty, junto de Ripley, escapar com vida e impedir que a nave com os alienígenas alcance a Terra devido a um procedimento de emergência. Nem a cena subaquática dentro do tanque com a perseguição dos aliens salva o filme. Pelo menos há uma grande dose de sangue e temos a espetaculosa destruição do híbrido recém nascido, que é nojenta pra cacete e das mais inspiradas (e fantasiosas) de Alien – A Ressurreição. A franquia foi enterrada de vez com esse lixo espacial, vimos depois as criaturas nos não menos escabrosos crossovers com o Predador e somente agora, quase vinte anos depois, que veremos um novo filme, dirigido pelo sul-africano Neill Blomkamp, que será uma continuação direta de Aliens – O Resgate, ignora essa barbaridade. Façamos o mesmo então!
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/06/23/674-alien-a-ressurreicao-1997/

#673 1997 ADVOGADO DO DIABO (Devil’s Advocate, EUA / Alemanha)


Direção: Taylor Hackford
Roteiro: Jonathan Lemkin, Tony Gilroy (baseado no livro de Andrew Neiderman)
Produção: Anne Kopelson, Arnold Kopelson, Arnon Milchan; Stephen Brown (Coprodutor); Barry Bernardi, Taylor Hackford, Erwin Stoff, Michael Tadross, Steve White (Produtores Executivos)
Elenco: Keanu Reaves, Al Pacino, Charlize Theron, Jeffrey Jones, Judith Ivey, Connie Nelsen, Craig T. Nelson

Lembro como foi mind blowing para mim assistir Advogado do Diabo lá em 1998, quando aluguei o VHS na saudosa locadora do bairro. Foi aquele plot twist, que hoje é manjadíssimo, mas era simplesmente fantástico no auge dos meus 16 anos, e seu final absolutamente sacana que contribuíram para que desde então, o longa do diretor Taylor Hackford, me conquistasse e tivesse um local reservado no meu coração, e isso por um principal motivo: O grande e eloquente discurso de Al Pacino na sequência final, que com o perdão do trocadilho, é diabolicamente delicioso! Talvez o último grande papel do ator, que apesar de mostrar-se mais um arrogante e sádico sedento por sangue, até de forma caricata por assim dizer, que um demônio classudo, parece ter caído como uma luva, cada vez que utiliza uma metáfora habilmente jogada no decorrer do longa (como, por exemplo, enfatizar que só anda de metrô pelo subterrâneo) até chegar até a explosão de falácia herege que desconserta qualquer um e deve deixar os cabelos dos carolas em pé. Afinal, refletindo um pouco do contexto e tirando o clichê da concepção do Anticristo e tudo mais, as ácidas palavras contra “Nosso criador” proferidas pelo egoísta e ciumento anjo caído portador da luz, é de uma sabedoria mórbida absurda. Falo isso como um ateu e penso que se realmente Deus existisse, ele de fato é o sacana que Milton vocifera naquele discurso onde tenta convencer o Kevin Lomax de Keanu Reaves, o tal “advogado do diabo” do título. Um sujeitinho entediado, que se diverte com a quantidade de desgraça, humilhação e sofrimento alheio colocado em nossas costas, sendo apenas um mero espectador zapeando seu reality show universal e dando a mínima para nossa súplicas e instintos (o que ele estaria no completo direito dele se fosse essa entidade que nos fez a imagem e semelhança como as papagaiadas judaico-cristãs prezam). O prazer doentio no conjunto de regras e pecados que Deus nos impôs é explicado quase de forma didática ao melhor estilo “tapa na cara”, que impossível não levar a sério o que o Capeta está falando. Apesar de sempre focar na questão do livre arbítrio, que foi talvez a maior dádiva do Criador para nossa espécie, e algo que o Diabo não consegue entender e sempre tenta barganhar contra isso usando de sua influência pecaminosa, há toda aquela controvérsia inerente de seu sádico conjunto das regras do jogo escancaradas na sensacional passagem: “Veja, mas não toque. Toque, mas não prove. Ok, prove, mas não engula” (aí já tem uma puta conotação sexual, o que também é impreterivelmente divertido e perspicaz) completando com: “Enquanto o homem pula de pé em pé, Deus fica rindo em sua particular comédia cósmica”. E ai se você desobedecer uma dessas regras: tu está condenado a danação eterna, mesmo que muitas delas simplesmente vão ao contrário do que define o ser humano por característica, mas beleza. Já Milton, o Diabo, Satanás, Coisa-Ruim, a Besta, Belzebú, etc (que eu também não acredito tanto quanto Deus, para ninguém me chamar de satanista ou coisa do tipo) sempre alimentou todos os instintos da humanidade, e esteve sempre do lado do homem, apesar de suas imperfeições, porque oras, ele É FÃ DO HOMEM como grita com gosto (e Pacino mita!) E outra pérola de sabedoria xula desse grande momento do cinema é enfatizar que o Século XX foi completamente dele. Foi e continua sendo, e acredito que a crescente intolerância religiosa e fanatismo fundamentalista que vivemos nesse Século XXI de merda pós 11 de setembro (e que no Brasil anda ganhando contornos absurdos com requintes de Idade Média naquela discussão interminável da inoperância efetiva do Estado Laico e do discurso abusivo anti-humanitário evangélico principalmente) é nada mais que mais uma vitória, importantíssima, diga-se de passagem, do Demo nessa “suposta guerra celestial” pelas nossas almas. E todo esse textão que parece mimim de redes sociais de minha parte porquê? Para enfatizar que se não fosse essa cena, esse discurso de Pacino, Advogado de Diabo seria um filme de suspense qualquer, mediano, até esquecível, com uma ou outra cena interessante (e não tô dizendo só da Charlize Theron pelada não, tá?), clichê, previsível, com uma reviravolta final mas sem nenhum arroubo de grandeza, e claro, com Keanu Reaves sendo Keanu Reaves (acho que isso fala por si só). E ah, não posso me esquecer da cena final, daquela risada filha da puta de Al Pacino para a câmera dizendo que a “vaidade, com certeza é meu pecado preferido…”, ao ludibriar mais uma vez o talentoso e tapado advogado, mostrando que ele tem dezenas de formas de convencer o homem falho. Lide com isso ou corra para o próximo culto. Bom, o próprio nome do filme já é um spoiler, certo? Apesar do inteligente trocadilho, uma vez que o termo “advogado do diabo” surgiu originalmente utilizado pela Igreja Católica como o sujeito que apresentaria provas contra o candidato a beatificação, e depois tornou-se uma expressão popular daquele que tece um argumento contrário contra a maioria para testar sua aplicabilidade, Kevin Lomax, o advogado em ascensão em uma cidadezinha na Flórida que nunca perdeu nenhum caso, mesmo sabendo da culpa de seus clientes (como o professor pedófilo do julgamento do início do longa) e que aprendera a escolher júri escutando clandestinamente durante anos, os jurados deliberarem por um buraco na parede da sala, é contratado para trabalhar numa poderosa empresa de advocacia, que tem como CEO o Capiroto. Mudando para a cidade grande com sua esposa, Mary Ann (Theron), Lomax modifica radicalmente seu estilo de vida, vivendo em um apartamento luxuoso na Big Apple, ganhando rios de dinheiro, conquistando os holofotes, rodeado de mulheres lindas e tentadoras, focando-se cada vez mais na carreira, se tornando um advogado vaidoso e sem escrúpulos, deixando de lado todos os valores familiares em nome da ganância e sucesso, enquanto sua mulher vai sendo relegada e sucumbindo a um jogo de tortura psicológica proferido por Milton e suas demoníacas criaturas, que a levarão ao terror absoluto e limiar da razão. Mas ainda assim, Milton usa do subterfúgio do livre arbítrio de Lomax (porque o de Mary Ann não vale absolutamente nada para ele) para que ele desista do grande caso de sua vida e acompanhe a saúde debilitada da esposa, mas claro que a escolha do ambicioso personagem é com relação a sua carreira. Só depois, que a culpa funcionará em conjunto com o livre arbítrio para interferir no plano do Satã em usá-lo para gerar um  filho com sua meia-irmã, que por sinal também trabalha na firma.
ALERTA DE SPOILER se você nunca assistiu ao filme, pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco.
Ah, aliás, Lomax é filho de Milton, que seduziu e engravidou sua mãe beata durante uma visita missionária para NY há trinta anos. Ou seja, toda sua vidinha ordinária e carreia de sucesso foram seguidas de perto por forças ocultas, preparando Lomax para aquele momento em que ele e sua meia-irmã, com quem cometeria incesto, conduzisse seus negócios pelo próximo milênio que se aproximava. Originalmente, Pacino recusara o papel CINCO VEZES porque o filme seria um blockbuster cheio de efeitos especiais (tipo Fim dos Dias, saca?) e sem toda a pegada de horror psicológico, mas depois do roteiro ser reescrito diversas vezes por Hackford, finalmente Pacino cedeu (ainda assim achando que não era a pessoa indicada, que o papel deveria ir para Sean Connery ou Robert Redford), dando sua inestimável contribuição como John Milton, nome que por sua vez foi inspirado naquele John Milton autor de “Paraíso Perdido”, obra do século XVII sobre a queda do homem por meio da tentação de Adão e Eva por Lúcifer e sua expulsão do Jardim do Éden. A frase, também dita no discurso final: “Melhor reinar no Inferno que servir no Céu” é retirado do poema. Em 1994, Joel Schumacher havia sido selecionado para dirigir a adaptação do livro homônimo de Andrew Neiderman (descoberto mais tarde ser o escritor fantasma da falecida Virginia C. Andrews, que deu continuidade a sua obra) com Brad Pitt no papel de Lomax (Christian Slater, John Cusack e Edward Norton foram considerados para o elenco naquela oportunidade).  Três anos depois Hackford (que dirigira anteriormente o ótimo Eclipse Total e mais tarde o Oscarizado Ray) ficou com a cadeira do diretor e com Al Pacino e seu inflamado discurso final, foram os o responsáveis pelo sucesso e méritos de Advogado do Diabo, transformando-o num grande filme.
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/06/19/673-advogado-do-diabo-1997/

#672 1996 TESIS MORTE AO VIVO (Tesis, Espanha)


Direção: Alejandro Amenábar
Roteiro: Alejandro Amenábar
Produção: José Luis Cuerda; Ricardo Steinberg (Coprodutor); Alejandro Amenábar, Hans Burmann, Wolfgang Burmann, Julio Madurga, María Elena Sáinz de Rozas; José Luis Cuerda, Emiliano Otegui
Elenco: Ana Torrent, Fele Martínez, Eduardo Noriega, Xabier Elorriaga, Miguel Picazo, Nieves Herranz, Rosa Campillo

Conheci o diretor Alejandro Amenábar por conta de Os Outros, lançado em 2001, e só depois fui atrás da carreira do espanhol e assisti o excelente Tesis – Morte ao Vivo, seu primeiro longa metragem e um SENHOR suspense! O plot do filme, que tem roteiro do próprio Amenábar, baseado em uma história sua e de Mateo Gil, já é dos mais interessantes possíveis: Ángela (Ana Torrent – será que ela tem bastante seeds? – RÁ!) está concluindo sua tese de conclusão de curso de audiovisual cujo tema é a violência no cinema. Bacana, certo? Ela pede ajuda para seu orientador, o Prof. Figueroa (Miguel Picazo) para que ele consiga alguns filmes de extrema violência e pornografia na videoteca da universidade. Indo contra seu próprio conselho de que o tema é muito impactante e controverso, Figueroa encontra uma fita na videoteca e ao assisti-la, morre de um ataque de asma. Ou seja, o conteúdo do filme deveria ser extremamente pesado e gráfico. Ángela o encontra no dia seguinte morto e resolve roubar a fita para descobrir seu conteúdo. Junto de Chema (Fele Martínez) um sujeito todo esquisito e sem o menor traquejo social, principalmente com o sexo feminino, colecionador de fitas exploitation, eles se deparam com um snuff movie, os famigerados filmes lenda urbana de pessoas que são mortas de verdade na frente das câmeras e suas fitas comercializadas no mercado negro. Chema reconhece a garota sendo morta no VHS, tratando-se de Vanessa (Olga Margallo) uma estudante da mesma universidade desaparecida há dois anos. A dupla resolve investigar o assassinato, pegando pistas técnicas, como por exemplo, o uso da câmera utilizada para fazer a footage, uma Sony XT-500 e descobrindo quem as alugou na universidade, e cada vez mais eles vão se envolvendo num brilhante espiral de suspense e medo onde diversas pistas são jogadas para o público no andamento do thriller, fazendo que o andamento da investigação se torne cada vez mais perigoso para Ángela, principalmente após se envolver com Bosco (Eduardo Noriega), ex-namorado de Vanessa e um dos principais suspeitos. No decorrer do longa, o grande pulo do gato de Amenábar, auxiliado com sua extensa competência na construção do suspense, é exatamente a quantidade de reviravoltas que vai incluindo novos elementos e pistas na trama, sempre deixando o espectador grudado na tela para descobrir quem é o verdadeiro assassino, isso sem contar o clima pesado que o tema proporciona e uma tensão crescente e sufocante entre os personagens. E apesar do universo dos snuff movies serem apenas o pano de fundo, interessante também ver a forma implícita com que Amenábar utilizar o tema como crítica à violência gratuita do cinema, principalmente dos filmes exploitation do estilo Faces da Morte, um dos preferidos de Chema, e ao próprio apreço e curiosidade mórbida que o ser humano tem com relação a esse assunto, como escancarado em seu final, onde inescrupulosos produtores de TV de um programa policial sensacionalista vespertino, ao melhor estilo Cidade Alerta ou Brasil Urgente, por motivo “jornalísticos” (leia-se: fazemos tudo pela audiência) resolvem exibir o conteúdo da fita do assassinato de Vanessa na íntegra, e como as pessoas estão vidradas na tela para assistirem. Inclusive muito me lembrou Cannibal Holocaust, onde Ruggero Deodato foi até a julgamento por seu filme ter sido confundido com um snuff devido a violência e realismo, e uma das premissas (e grandes críticas travestidas no longa) era uma emissora de TV exibir em rede nacional os filmes encontrados dos documentaristas mortos e devorados pelos índios canibais. Outra produção sobre o tema do universo underground dos snuff movies, e mais conhecido do grande público é 8mm, com Nicholas Cage, que só mostra que Joel Schumacher tinha que ter comido muito mais arroz com feijão, ou paella no caso, para chegar próximo do resultado de Amenábar. Tesis – Morte ao Vivo foi elogiadíssimo por público e crítica, faturou sete prêmios Goya, o “Oscar Espanhol” e precedeu Abra Seus Olhos, mind blowing para Tom Cruise que o levou para Hollywood para dirigir o absurdamente fodástico Os Outros e Vanilla Sky, nada mais que o remake yankee do seu segundo longa, (com o próprio Cruise com protagonista). Amenábar retornou a Espanha natal onde dirigiu o ganhador do Oscar® de Melhor Filme Estrangeiro, Mar Adentro, e sua volta ao suspense será no vindouro Regression, que está em fase de pós-produção e deverá ser lançado ainda este ano, com Emma Watson e Ethan Hawke no elenco.
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/06/18/672-tesis-morte-ao-vivo-1996/

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

#711 2000 PÂNICO 3 (Scream 3, EUA)


Direção: Wes Craven
Roteiro: Ehren Kruger
Produção: Cathy Konrad, Marianne Maddalena, Kevin Williamson; Dan Arredondo, Dixie J. Capp, Julie Plec (Coprodutores); Nicholas C. Mastandrea (Produtor Associado); Stuart M. Besser (Coprodutor Executivos); Cary Granat, Andew Roma, Bob Weinstein, Harvey Weinstein
Elenco: Neve Campbell, David Arquette, Courtney Cox, Liev Schreiber, Patrick Dempsey, Lance Henrikssen

O que Pânico, que reinventou os slasher movies e salvou o cinema de terror de uma possível extinção, tem de bom, Pânico 3 tem de péssimo. Um jeito modorrento e vergonhoso de encerrar uma até então trilogia, caindo exatamente na mesma vala comum das continuações caça-níqueis que levaram o gênero e o subgênero à exaustão, e Craven teve de recuperar. Talvez o principal motivo nessa sequência abaixo de qualquer média seja o fato de Pânico 3 não ser escrito por Kevin Williamson (seu rascunho original do roteiro foi completamente descartado), que volta somente como produtor da fita. Sem dúvida nenhuma quem criou todo o espírito jovial e as sacadas inteligente e referenciais do primeiro filme, e também foi responsável por alguns bons momentos, além de um ou outro certo diálogo certeiro em Pânico 2, mesmo que o resultado final seja regular, foi o roteirista. A sua falta é sentida em demasia no roteiro prosaico e nada inspirado de Ehren Kruger, e cheio de interferências do estúdio e frequentes reescritas, que deixaram até os atores putos, diga-se de passagem. E o engraçado é que a grande intenção desse filme é exatamente subverter a ordem de que as terceiras partes geralmente são inferiores as outras, tentando ser surpreendente, mas ele falha miseravelmente nesse quesito. E enquanto os dois primeiros brincavam com as próprias regras dos slashers e das continuações, com explicações e detalhes inteligentes levantados pelo excelente personagem de Jamie Kennedy, que morrera no anterior, mas aqui faz uma ponta em um vídeo póstumo, este daqui não consegue fazer o mesmo pelas trilogias. A mensagem principal é que tudo pode acontecer no terceiro filme, e realmente acontece, mas de forma errada, graças a um assassino esculhambado com uma motivação esdrúxula que veste o manto do Ghostface e quer matar a Sidney Prescott de Neve Campbell (DE NOVO!). Sério, o argumento utilizado no momento Scooby-Doo de revelação do psicopata da vez consegue ser ainda pior, mas muuuuuito pior do que a dona Loomis da segunda parte. E mais ainda, toda aquela brincadeira metalinguística que deu certíssimo no primeiro e principalmente no segundo filme, aqui fica reduzido aos meandros dos bastidores hollywoodianos, uma vez que a terceira parte de “A Facada”, filme-dentro-do-filme inspirado nos assassinatos de Woodsbooro, está em filmagens em um importante estúdio de Hollywood  (que detalhe, é onde Maureen Prescott, a mãe de Sidney tentou ganhar a vida como atriz há tempos) é o local onde irá se concentrar a série de assassinatos da vez. Isso depois de Cotton Weary (Liev Schreiber) ser morto na sequência inicial, que é infinitamente inferior a eterna cena de Drew Barrymore em Pânico e de Jada Pinkett-Smith e seu namorado no cinema em Pânico 2. Temos de volta também Courtney Cox como Gale Weathers e David Arquette como um cada vez mais caricato Dewey Riley. Fora uma penca de personagens descartáveis, inclusive aí o pretenso assassino e seu alter-ego e o detetive Kincaid de Patrick Dempsey, e uma ou outra cutucada nos bastidores dos filmes de terror em Hollywood, e nas festinhas dos magnatas da indústria cinematográfica nos anos 70 que corrompiam pobres e belas jovens atrizes que buscavam o estrelato, na figura do produtor John Milton, vivido por Lance Henriksen. Absolutamente nada funciona em Pânico 3. Mas sabe o que é o pior de tudo mesmo? É o fato de uma cadeia de acontecimentos que a fita faz questão de interligar para tentar explicar didaticamente TODOS os acontecimentos que levaram ao assassinato de Maureen Prescott e seus desdobramentos que fizeram Billy Loomis surtar e virar o Ghostface original, devidamente ajudado por seu colega igualmente psicopata Stuart, e levaram Sidney para aquele espiral de infortúnio. Tudo por conta de uma vingancinha medíocre e falta de terapia, que com certeza poderia resolver o problema. Parece que tudo foi milimetricamente planejado pelo assassino e nada, absolutamente nada saiu de seu controle nesse seu plano infalível à la Cebolinha, que devotou toda sua vida a isso. Bah… Isso sem contar a ínfima quantidade de sangue e violência, aquele truque tosquíssimo do simulador de voz, o contrato com Neve Campbell era de apenas 20 dias de filmagens, porque provavelmente ou tava se achando naquela época (e depois sumiu, virou atriz falida) ou não queria ficar estigmatizada com mais uma sequência de Pânico (e depois sumiu, virou atriz falida), e ainda temos só cinco minutos de aparição de Randy, sempre o melhor personagem de toda a até então trilogia. Mas vamos lá, Pânico 3 foi outro tremendo sucesso de bilheteria, batendo recordes de estreia naqueles tempos e faturou absurdos e desmerecidos 161 milhões de dólares mundialmente. Pelo menos Craven resolveu concluir mesmo a história e pular fora de vez, e não se tornou uma sequência infinita, como osslashers oitentistas que arrebentaram o subgênero. Claro, até todos os envolvidos precisarem de grana, afinal a carreira deles não evoluiu para lugar nenhum, e voltaram para Pânico 4 em 2011. Mas isso é outra história.
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/08/28/711-panico-3-2000/

#683 1997 PÂNICO 2 (Scream 2, EUA)


Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Produção: Cathy Konrad, Marianne Maddalena; Daniel Lupi (Coprodutor); Dan Arredondo, Nicholas C. Mastandrea, Julie Plec, (Produtores Associados); Cary Granat, Richard Potter, Andrew Rona (Coprodutores Executivos); Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Kevim Williamson (Produtores Executivos)
Elenco: Neve Campbell, David Arquette, Courtney Cox, Jamie Kennedy, Jada Pinkett Smith, Sarah Michelle Gellar, Timoty Olyphant, Jerry O’Connel, Liev Schreiber

Mas é óbvio que haveria um Pânico 2, né? Mas não tínhamos sequer a menor sombra de dúvida que Wes Craven e Kevin Williamson voltariam para uma sequência com a benção dos irmãos Weinstein, depois do original ter ressuscitado os filmes de terror, criado o novo slasher 2.0 e ter feito mais de 170 milhões de dólares de bilheteria no mundo todo. Papo reto que essa sequência é bem inferior e até desnecessária, como a maioria das sequências, ainda mais tratando-se do subgênero, e seu único propósito de existir é colocar mais dinheiro no bolso de todos os envolvidos. Mas ainda assim, Williamson conseguiu escrever um roteiro afiado novamente, brincando mais uma vez com a questão da metalinguagem, clichês e a indústria do cinema em si, mas que se comporta muito mais em seguir os modelos típicos de um whodunit? a lá Edgar Wallace, que vai funcionando até seu terceiro ato quando acontece a patética revelação da identidade do assassino num daqueles obrigatórios plot twists, seguindo à risca a linha de seu antecessor (mas que funciona). Craven parece já ter acertado a mão nessa história metalinguística e leva a um novo patamar com o conceito de filme dentro do filme, sempre uma interessante abordagem narrativa para o gênero. Aqui estamos falando de “A Facada”, longa baseado no livro “Os Assassinatos de Woodsbooro”, escrito por Gale Weather, a repórter gananciosa vivida (novamente) por Courtney Cox, que estreia nos cinemas dois anos depois dos acontecidos de Pânico. Em uma das sessões de pré-estreia, em um cinema lotado cheio de ações promocionais com todo mundo ganhando facas de plástico e fantasias do Ghostface, um casal é brutalmente assassinado. E não é que os dois estudam na mesma universidade de Sidney Prescott, a mocinha que sobreviveu ao ataque de seu namorado psicopata e seu amiguinho, que agora tenta se graduar em artes cênicas? A onda de assassinatos em volta de Sidney volta a se repetir, seguindo um padrão que leva a polícia, ajudado por Weather e Dewey Riley (David Arquette) que vai até a cidade para tentar ajudar a amiga, a descobrir que um copycat está tentando imitar Woodsbooro. Cabe a quem ajuda-los no entendimento de como funciona uma sequência? Randy Meeks, claro, o personagem de Jamie Kenedey que sempre é o melhor de todos desde o original. Se no longa anterior ele já havia alertado sobre as diretrizes de sobrevivência nos slasher movies, baseados no conjunto de regras instituídos por John Carpenter em seu Halloween – A Noite do Terror, aqui o agora estudante de cinema (óbvio) disserta com o personagem de Arquette sobre o as três regras das sequências: contagem de cadáveres maior, cenas de morte mais elaboradas e com mais sangue, e justo quando falaria a terceira, que era imprescindível para se criar uma franquia, é interrompido por Dewey em mais uma sacadinha daquelas da dupla Craven/ Williamson. O que convenhamos, foi um tiro n’água na eterna tentativa da série Pânico em parodiar a si mesma, pois hoje em pleno 2015 sabemos que ele tornou-se uma trilogia, para depois virar uma franquia e Deus que o livre, virar uma série pela Emetevê, já diria Caetano. Outro ponto digno de nota do roteiro mostrando que pode haver vida inteligente nos slasher movies é o fato de mais uma vez tirar um barato da sua cara (pero no mucho) quando em uma aula de cinema, é discutido sobre as sequências, e o bate-papo entre Randy, Mickey (personagem de Timothy Olyphant), Cici (Sarah Michelle Gellar – a rainha dos slasher 2.0) e uma ponta de Joshua Jackson (rei das pontas e coadjuvante de Dawson’s Creew, série escrita por vejam só, Kevin Williamson) tenta encontrar continuações que sejam melhores que o original, como os citados Aliens – O ResgateO Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final eO Poderoso Chefão 2, ganhador do Oscar, enquanto Jackson brinca falando sobre A Casa do Espanto II e Randy completa: “as continuações acabaram com o cinema de terror”. Mas ainda assim Pânico 2 nem chega perto dessas exceções que transformaram o segundo filme em algo melhor do que o primeiro. Talvez o grande motivo seja exatamente essa pecha em tentar o filme todo se descobrir quem é o assassino, nessa maldita regra velada dos slashers 2.0. onde esse joguinho de detetive e o suspense se tornaram muito mais importantes que a morte, violência, sangue e nudez (desculpem, feministas) e a necessidade enfadonha de uma reviravolta final, por mais babaca que seja, como é o que acontece aqui, apenas para tentar surpreender o espectador, que nunca esperaria por isso e blá blá blá. Mas vamos lá, também há a mensagem que Craven e Williamson colocam nas entrelinhas, e até é a motivação de um dos assassinos (novamente são dois deles trabalhando em conjunto, só que o(a) segundo(a) é a boa e velha vingança, como mesmo diz) é o fato de caçoar daquela velha discussão tão batida sobre filmes inspirarem atos de violência, algo que sempre caiu como uma luva no cinema de terror, tendo em vista os assassinatos ocorridos no cinema por conta de uma obra audiovisual. Fora isso, temos travestido o tema da busca pelo estrelato, pelos quinze minutos de fama, perseguidos tanto por Weather quando por Cotton Weary (Liev Schreiber), acusado injustamente por Sidney de ter assassinado sua mãe e que conseguira liberdade, que está sempre sendo colocado nos holofotes pela dupla de idealizadores, algo tão final dos anos 90 e começo dos anos 2000, antecipando o boom dosreality shows e canais do Youtube. Apesar de algumas sacadas bem interessantes de linguagem, metalinguagem e narrativa, Pânico 2 é um caça-níquel indiscutivelmente, só que com uma qualidade um pouco maior que a maioria das continuações, e serviu muito bem a seu papel: faturar alto nas bilheterias. Rendeu 172 milhões de dólares no mundo todo (apenas um milhão a menos que o primeiro) e abriu a porteira para a abominação que foi o terceiro filme. E um detalhe curioso é que vi esse filme no cinema, em janeiro de 1999, e Pânico foi um hit tão grande que valeu uma sequência no ano seguinte, mas aqui no Brasil com nossas “distribuidoras” que tem tanto zelo e apreço pelos espectadores, foi estrear mais de um ano depois de exibido nos cinemas yankees.
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/07/08/683-panico-2-1997/

#671 1996 PÂNICO (Scream, EUA)


Direção: Wes Craven
Roteiro: Kevin Williamson
Produção: Cathy Konrad e Cary Woods , Dixie J. Capp (Co-produtora), Nicholas Mastandrea (Produtor Associado), Stuart M. Besser (Co-produtor Executivo), Marianne Maddalena, Bob Weinstein e Harvey Weinstein (Produtores Executivos
Elenco: Neve Campbell, Courtney Cox, David Arquette, Skeet Ulrich, Rose McGowan

Wes Craven, graças ao sucesso de Pânico, foi o responsável por ressuscitar o cinema de terror e salvá-lo da decadência total e da possibilidade de seu desaparecimento durante a década de 90. Acha exagero? Não é. Para exemplificar melhor o que estou dizendo, vou contextualizar um pouco mais as coisas: Os anos 70 foram sem dúvida os mais prolíficos para o cinema de terror. Naquela época, o sonho americano tinha ido literalmente para o buraco, o pessimismo havia tomado conta dos jovens, as cicatrizes do Vietnã eram imensas e o cinema foi a maior reflexão disso tudo. Um universo autoral, o chamado “cinema de diretor” surgiu naquela década e o gênero de terror, e  transgressor no geral foi um grande catalisador para essa “geração perdida”. Tanto que a década de 70 nos brindou com filmes como O ExorcistaO Massacre da Serra Elétrica, o próprio Aniversário Macabro de Craven, entre outros. Então os anos 80 chegaram com tudo, como seu hedonismo exacerbado, o crescimento de novas tecnologias, o surgimento da geração yuppie e o famoso exagero presente nas mais diversas formas culturais, desde a música, passando pela moda e claro, pelo cinema. Os adolescentes finalmente haviam se rendido ao poder dos multiplex e dos blockbusters naqueles anos e eram os responsáveis por encher os bolsos dos estúdios, como acontece até hoje. E o cinema de terror aproveitou essa carona, dando origem a verdadeiros ícones, como Jason, Freddy, Chucky e por aí vai. O terror parou de ser levado a sério por um bom tempo em diversas produções que se misturavam com comédia e a “bolha” das sequências havia sido criada. A coisa começa a degringolar por aí, pois todos esses exemplos acima, e colocando também o setentista Michael Myers nesse balaio de gato, começaram a ser vítimas da inescrupulosa máquina caça-níqueis de Hollywood e gerar infinitas continuações, uma pior que a outra. Não bastasse isso, na mesma época surgiu um aparelho mágico chamado videocassete e voilá, ele revolucionou a indústria do cinema. Ávidas por conseguir um lugar ao sol e adentrar no mercado, dezenas de produtoras começaram a produzir caralhadas de filmes para serem lançados direto para os febris frequentadores das videolocadoras. E qual o gênero mais fácil de produzir com o menor orçamento possível? Bingo! Os filmes de terror (e os pornôs, claro, mas esses não precisavam de uma história decente, pelo menos). Então o que se viu nos anos 90 foi um gênero tão saturado, com tanto lixo sendo feito direto para o vídeo, produções de baixíssima categoria, a ressaca de tantas e tantas continuações querendo tirar os centavos dos bolsos dos pobres espectadores, fiascos de bilheterias e o surgimento de uma geração vazia e inerte sem ter o que temer (como o medo da bomba atômica, os traumas do Vietnã, a escalada da violência, o pavor dos russos incitado pela era Reagan),  que fez com que os grandes estúdios e produtores resolvessem ignorar completamente o gênero (salvo pretensas superproduções, como Drácula de Bram StokerFrankenstein de Mary ShelleyEntrevista com Vampiro, etc) e deixassem de investir no que era sinônimo de fracasso de público, critica e de mau gosto. Todo o resultado dessas equações também afastavam os fãs. Quer uma pequena prova do que estou falando? Dê uma olhada na lista dos anos 90 publicada nesse blog até aqui, por exemplo. Olhe como são poucos os títulos realmente bons, se comparados as duas décadas anteriores. E olhe que os 90’s começaram promissores, com filmes como O Silêncio dos Inocentes ganhando até Oscar, parecendo que iria ditar as regras dos anos vindouros. Foi aí nesse cenário desolador que o diretor Wes Craven e o roteirista Kevin Williamson deram um novo gás e novo charme ao gênero slasher, atualizando o conceito de cinema de horror adolescente, prestando a ele uma belíssima homenagem e criando um novo assassino icônico com o lançamento dePânico. O filme surpreendentemente foi um estouro nas bilheterias (faturou mais de 103 milhões de dólares só nos EUA e até hoje é a maior bilheteria de um slasher movie da história) e provou para estúdios e produtoras que o cinema de terror estava vivo, poderia fazer dinheiro, agradar público e crítica e ter uma história inteligente por trás. O que fez com que Pânico desse tão certo foi o fato de ter sido dirigido por alguém que realmente sabia o que estava fazendo, e tinha a expertise de se conectar a um público que ia dos mais exigentes até os mais mainstream, mesmo com uma carreira tão instável. Afinal o cara já havia criado Freddy Krueger há pouco mais de dez anos, e o roteirista Kevin Williamson era um verdadeiro devoto de Halloween – A Noite do Terror de John Carpenter, tendo aprendido direitinho tudo que ele quis passar em seu seminal filme. Soma-se isso um estrelado time de jovens atores em ascensão, oriundos de séries adolescentes de televisão e com a cara da geração MTV e a figura do Ghostface, um novo assassino que usa uma máscara inspirada em “O Grito” de Munch, feito sob medida para vender bonecos e fantasias de Dia das Bruxas. Pronto, você tem um novo clássico! E cá entre nós, a sequência de abertura de Pânico é uma das mais memoráveis da história do cinema, quando o assassino liga para Drew Barrymore e a força a entrar em um quiz sobre filme de terror, onde as respostas corretas valeriam sua vida e de seu namorado. Ela errar quando ele pergunta quem era o assassino de Sexta-Feira 13 ao responder Jason com toda convicção, ao invés de sua mãe na verdade, é brilhante! O resto do filme não traz nada de novo, mas é de um frescor incrível, quando Ghostface começa a matar os jovens da cidade de Woodsboro, espalhando o medo e o terror. Toda a trama se passa em torno de Sidney Prescott (interpretada por Neve Campbell) a heroína virginal atormentada pela morte de sua mãe infiel no passado. Gravitam ao seu redor os mesmo estereótipos dos slasher movies de sempre: seu namorado que tenta de toda forma levá-la para cama (Skeet Ulrich, ótimo); a repórter de TV gananciosa que quer o furo de sua vida (Courtney Cox, a eterna Monica de Friends); e o policial atrapalhado (David Arquette), entre outros. Mas dentre os personagens extremamente bem escritos por Williamson, o melhor de todos sem dúvida é Randy, intepretado por Jamie Kennedy, o bitolado por filmes de terror, que trabalha na locadora da cidade e é quem conhece as regras básicas para manter-se vivo (aquelas ditadas por Halloween de Carpenter lá no longínquo ano de 1979: não fume maconha, não faça sexo e nunca diga “eu já volto”) e que desenvolve as mais complexas teorias para tentar descobrir a identidade do assassino. Outra sacada brilhante de Craven e Williamson é brincar com a metalinguagem do filme (algo que o diretor já havia experimentado em O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger) ao situar os personagens em um universo em que todos aqueles filmes de terror que nós assistimos existem de verdade. Na cena da festa, por exemplo, Randy leva para todos os amigos assistirem Halloween e A Morte Convida Para Dançar, ambos com a scream queen Jamie Lee Curtis. A homenagem definitiva à rainha dos slashers. E o final é digno de tirar o chapéu, quando é revelada a(s) identidade(s) do(s) assassino(s) e sua(s) motivação(ões). Mas claro que como tudo que é bom, dura pouco, ainda mais se tratando de filmes de terror, uma enxurrada de slasher movies 2.0, se assim podemos dizer (sem nudez e violência em off, completamente diferente do irmão oitentista mais velho), invadiram os cinemas no final dos anos 90 e começo dos anos 2000, a maioria grandissíssimas porcarias, sem conseguir manter o nível que Pânico tinha acabado de elevar, como Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão PassadoLenda UrbanaO Dia do Terror, e por aí vai. E o próprio Craven escorregou em sua própria armadilha, lançando mais duas continuações nos anos seguintes, que são muito, mas muito ruins, e mesmo mantendo a brincadeira com essa questão metalinguística, do massacre do primeiro filme virar um filme dentro do filme chamado “Facada” (confuso?) e sempre se aprofundar nas regras cinematográficas básicas de uma sequência ou de uma trilogia, a brincadeira realmente perdeu a graça. Em 2011 fora lançada a quarta parte, trazendo os atores originais de volta, que é bem melhor que as outras duas sequências, pois Craven põe dessa vez em xeque a onda dos remakes que Hollywood vem produzindo sem escrúpulos (ele mesmo é uma vítima recorrente, afinal três de seus filmes ganharam refilmagens recentes: A Hora do PesadeloQuadrilha de Sádicos e Aniversário Macabro) e até dá uma cutucada quando diz que é impossível ser melhor que o original. Aliás, Pânico vem aí como uma série da MTV agora. É o gênero nunca aprendendo com seus próprios erros…
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/06/17/671-panico-1996/

#670 1996 A MALDIÇÃO (Thinner, EUA)


Direção: Tom Holland
Roteiro: Michael McDowell, Tom Holland (baseado no livro de Stephen King)
Produção: Mitchell Galin, Richard P. Rubinstein; Randy Jurgensen, A. Welch Lambeth (Produtores Associados); Andrew Golov, Stephen F. Kesten (Produtor Executivo)
Elenco: Robert John Burke, Joe Mantegna, Lucinda Jenney, Michael Constantine, Karl Wuhrer, Bethany Joy Lenz, Sam Freed, Time Winters, Howard Erskine

Existem três tipos de filmes baseados na obra de Stephen King: os bons, as bombas, e os dispensáveis.A Maldição se encaixa nessa terceira categoria. Porque ele não é bom, ele também não é uma bomba, mas ao mesmo tempo, não acrescenta nada na sua vida e se você tiver assistido ou não, não fará diferença alguma. Tem uma história legal envolvendo maldição de ciganos e tal, a maquiagem e o processo de transformar o ator Robert John Burke de obeso para um vara-pau definhando até a morte está muito bem feito (porque tirando isso, o ator está péssimo), o diretor Tom Holland leva a fita em banho-maria sem comprometer, Stephen King faz uma ponta como um farmacêutico chamado Dr. Bangor (para quem não sabe é o nome de uma cidade do Maine) o que é um chiste espirituoso para os fãs, mas é aquilo: não te pretende, não te assusta, não te deixa boquiaberto, tem uma tramazinha envolvendo uma mafioso das mais capengas e é isso. Claro, o final é sensacional! Isso eu tenho que concordar, que quando parece que o protagonista, o advogado Billy Halleck (Burke), que na verdade é um anti-herói para ser mais sincero, vai conseguir sua esperada vingança contra a esposa (responsável direta pelo acidente que lhe rendeu a maldição) infiel e seu amante, BANG!, temos um plot twist deliciosamente sádico. Que na verdade deu um puta buxixo na época, pois foi gravado de forma fidedigna ao livro de King (escrito sob o pseudônimo de Richard Bachman originalmente) mas o público detestou nas exibições teste e foi alterada a reação de Halleck, gerando descontentamento do próprio Tom Holland que veio com um mimi de que “falhei com diretor”. Esse não é o grande problema do filme. De longe não é. O problema é que A Maldição é um filme burocrático que não empolga, parecendo um modorrento made for TV, mas ainda assim está longe de porcarias imensuráveis levadas às telas baseados nos textos de King. A trama central é interessante, mostrando Halleck que come como um glutão tentando perder peso de forma nada efetiva, sempre pressionado por sua esposa, a bela Heidi (Lucinda Jenney), que resolve fazer um boquete no balofo enquanto ele dirigia voltando de uma festa, e acaba acidentalmente atropelando e matando uma velha cigana. Uma pequena conspiração local envolvendo o juiz Cary Rossington (John Horton) e o policial Duncan Hopley (Daniel von Bargen) consegue acobertar o crime e livrar a cara do advogado, mas então o pai da cigana, Tadzu Lempke (Michael Constantine) resolve fazer justiça com as próprias mãos amaldiçoando-o para que emagreça rapidamente, fazendo com perca peso de forma drástica, dia após dia, até morrer. O juiz e o policial também não tem uma sorte melhor e perecem de uma praga de urubu do cigano, que é pior que as do Zé do Caixão: um deles desenvolve um câncer de pele que transforma sua epiderme em pele de lagarto e o outro sofre de violentas erupções cutâneas e deformações. Como o cigano e sua caravana já saíram da cidadezinha, Halleck procura a ajuda do mafioso Richie Ginelli (Joe Mategna) de quem livrara a cara da prisão há pouco e lhe devia um favor em gratidão, para descobrir o paradeiro de Lempke e convencê-lo, usando da violência, a retirar a maldição, uma vez que ele seria o único capaz de tal.
ALERTA DE SPOILER. Pule o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco.
Depois de uma investida pesada do gângster metralhando o acampamento cigano e matando o marido de sua filha, Gina (Karl Wuhrer), Lempke retira a maldição quando Halleck está esquelético, colocando seu sangue em uma torta, e a pessoa que a comesse seria acometida pelo mesmo terrível fim. Buscando vingança contra sua esposa, que ele descobre estar dando para o seu médico, o Dr. Mike Houston (Sam Freed), ele leva a torta de presente para a mulher, que acaba comendo. Porém num trágico infortúnio, sua filha, Linda (Bethany joy Lenz) também come um pedaço e está fadada a morrer. A diferença com relação ao final do livro é que Halley logo após come uma fatia, se remoendo de culpa pelo que irá acontecer com a filha, enquanto no filme, ele guarda um pedaço para o bom doutor e parece estar se deliciando com isso com um sorriso malicioso no rosto e um comentário jocoso quando oferece o quitute. Mas enfim, como disse lá em cima, esse é o menor dos problemas de A Maldição (e que na real nem considero um problema, por assim dizer) que falha por diversas outras razões (atores, direção, ritmo, personagens que não criam empatia) tornando-o no filme mediano que é, raras algumas cenas e o excelente trabalho de maquiagem, que sempre vale a pena tirar o chapéu. Originalmente A Maldição seria levado para as telas bem antes, em 1986, produzido por Dino De Laurentiis, responsável por uma cacetada de adaptações de King para os cinemas nos anos 80, logo após a finalização de Comboio do Terror. Sua intenção era que Sam Raimi dirigisse o longa, Scott Spiegel escrevesse o roteiro e Robert Tapert produzisse, toda a patota de A Morte do Demônio. Mas como todos estavam envolvidos em Uma Noite Alucinante, acabou não saindo do papel. Só fica então aquela velha pergunta hipotética: e se…
FONTE: http://101horrormovies.com/2015/06/16/670-a-maldicao-1996/