Direção: William
Crain
Roteiro: Joan
Torres, Raymond Koenig
Produção: Joseph
T. Naar; Samuel Z. Arkoff (Produtor Executivo)
Elenco: William
Marshall, Vonetta McGee, Denise Nicholas, Thalmus Rasulala, Gordon Pinset,
Charles Macaulay
A explosão
do blaxploitation, movimento cinematográfico norte-americano,
protagonizado e realizado por atores e diretores negros, visando como público
alvo os afro-americanos, gerou inúmeros personagens negros icônicos, como John
Shaft de Richard Roundtree e Coffy de Pam Grier. Para os fãs do horror,
o blaxploitation nos trouxe Blacula, O Vampiro Negro. E o mais
interessante deste filme, é que longe de ser um dos maiores filmes de horror da
década, e também longe apenas de pegar onda na crescente visibilidade do
mercado consumidor cultural negro americano,Blacula não é apenas uma
espécie de Drácula negro e ponto final. É todo um conceito que bebe da fonte do
vampiro mais famoso de todos os tempos, mas com toques inigualáveis,
atualizados para a audiência dos anos 70, resultando em uma fita
interessantíssima dirigida por William Craim para a lendária American
International Pictures de Samuel Z. Arkoff. Claro que o tom é cômico e de
paródia, mas há também elementos muito característico do cinema de horror
contemporâneo, como por exemplo a epidemia de vampiros que o monstro começa a
espalhar pelas ruas de Los Angeles. Além do mais, até então neste exato ponto
histórico, tudo que havíamos visto sobre vampiros no cinema, eram suas
representações góticas em castelos medievais ladeados de cemitérios, andando em
suas carruagens dirigidas por seus cocheiros carniçais, enquanto eram temidos
por aldeões e perseguidos por suas tochas e forcados, ao melhor estilo do
estúdio inglês Hammer. Nunca a mitologia do chupador de sangue, quer ele seja
caucasiano, negro, indígena ou oriental, foi trazida para o Século XX, e jogada
na efervescente América dos anos 70 pós-Vietnã e cercada de movimentos de
contra cultura, incluindo aí grupos de resistência como Os Panteras. Blacula foi
o responsável por esse ineditismo, contando a história do Príncipe Mamuwalde
(William Marshall), que sai do continente negro acompanhado de sua esposa, Luva
(Vonetta McGee), para negociar diretamente com o Conde Drácula (Charles
Macaulay) na Transilvânia, o fim do comércio escravo. Insultado com o ultraje e
petulância de Mamuwalde, Drácula amaldiçoa-o transformando em um vampiro e
aprisionando-o em um caixão por toda eternidade, enquanto mata o grande amor de
sua vida. Sensacional quando Drácula roga a praga contra Mamuwalde e diz: “Eu o
amaldiçoo com meu nome, você será Blacula”. Depois de uma abertura aos melhores
moldes da AIP tocando um sensacional funk composto por Gene Page (arranjador da
maioria dos hits de Barry White), passam-se 200 anos e Mamuwlade é libertado de
seu sono secular após ser encontrado por um casal homossexual, Bobby McCoy (Ted
Harris) e Billy Schaffer (Rick Metzler) que fora até a Trânsilvania adquirir a
antiga propriedade do conde a fim de trazer suas antiguidades para vende-las na
América. Livre do seu cárcere e sedento por sangue, Blacula irá começar a
morder jugulares à torto e a direito, e dar início a um verdadeiro contágio
vampírico, que irá chamar a atenção das autoridades. Entre eles, o naipe Dr.
Gordon Thomas (Thalmus Rasulala), perito criminal com suas estilosas golas
rolês e bigode, e o tenente Jack Peters (Gordon Pinset), detentores de uma
dinâmica à lá Maquina Mortífera, só que às avessas, que começaram a
investigar os misteriosos assassinatos (todos eles com os famosos dois furos no
pescoço) e subsequentes desaparecimentos dos cadáveres. Acontece que a trama
vai engrossar quando Mamuwalde descobre que Tina, irmã de Michelle (Denise
Nicholas), namorada e assistente do Dr. Thomas, é a reencarnação de Luva (papel
duplo de McGee), e vai querer recuperar o amor, e o tempo perdido.
Inevitavelmente, Tina irá cair de encanto pelos poderes hipnóticos de
Mamuwalde, completamente ambientado aos excêntricos anos 70 e até frequentando
baladinhas da época, mesmo ele vestindo aquela cafona capa preta suja e gasta,
e caberá ao nosso herói Dr. Thomas e os demais, impedir que ela se transforme
na amante imortal do vampiro negro, e ao mesmo tempo, impedir que a contagem de
cadáveres, que vai de taxistas, fotógrafos até policiais, aumente em Los
Angeles. Mas o auge da fita é a transformação de Mamuwalde na temida criatura
das trevas, onde não basta apenas surgirem as enormes presas em sua boca. Ao
assumir a identidade vampírica, ele também ganha tufos a mais de cabelos,
barbas e sobrancelhas, ficando mais próximo do lobisomem do que do morto-vivo
em si. E todos aqueles transformados em vampiros por Mamuwalde, acabam ganhando
uma tosca coloração de pele ou verde ou azul, cortesia de Fred B. Phillips, que
está ali para lembrar constantemente que o filme não se trata de um horror
puro-sangue, mas sim de uma caricata obra cômica estereotipada, elementos
característicos presentes no cinema blaxploitation. Mas o que torna Blacula,
O Vampiro Negro um cult colocado acima dos demais exemplares do
gênero na época, além de sua popularidade, é o fato de Mamuwalde não ser um
cruel vilão sem alma. Na verdade ele é um pobre coitado, amaldiçoado por uma
preconceituosa força superiora, encarnada por Drácula, mas simbolizada pelo
homem branco racista, e na verdade precisa matar para poder se alimentar, lutar
para sobreviver, uma espécie de luta racial sobrenatural, sendo que a hegemonia
branca que de fato o vê como um monstro. E não podemos deixar de levar em
consideração o fato de que o solitário sanguessuga só quer reencontrar o amor
de sua vida e ficar em paz, o que também trará conotações extremamente trágicas
no desenrolar final do filme.
FONTE: http://101horrormovies.com/2013/09/13/262-blacula-o-vampiro-negro-1972/
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