Direção: Peter Weir
Roteiro: Cliff Green (baseado na obra de Joan Lindsay)
Produção: Hal McElroy, Jim McElroy, Patricia Lovell e John
Graves (Produtores Executivos)
Elenco:Rachel Roberts, Vivean Gray, Helen Morse, Kirsty
Child, Anne-Louise Lambert, Karen Robson, Christine Schuler, Margaret Nelson
Já vou avisando logo de cara: Piquenique na Montanha
Misteriosa não é um filme fácil e dificilmente agrada o público
médio de cinema. É uma obra hermética, onírica e com um final completamente em
aberto, sem respostas. Não sei nem ao certo o quanto ele se encaixa em uma
lista de filmes de terror, mas se encaixa, isso tenho certeza, não pelo tal
clima de mistério que o próprio título alardeia, mas pela sensação etérea,
pungente e quase sobrenatural que o primeiro grande trabalho do diretor Peter
Weir emana, atingindo em cheio àqueles que assistem a fita e deixam uma sensação
incômoda, típica do gênero. Para quem não sabe, o australiano Peter Weir tem
uma carreira invejável em seu currículo e já foi indicado a nada menos que seis
vezes ao Oscar. Entre seus mais conhecidos trabalho para Hollywood estão: A
Testemunha, Sociedade dos Poetas Mortos, O Show de
Trumam e Mestre dos Mares – O Lado Mais Distante do Mundo. E
foi justamente Piquenique na Montanha
Misteriosa que catapultou sua carreira, fazendo-o cruzar o mundo
até a América, sendo também o primeiro grande filme australiano a ser conhecido
no resto do mundo. A trama, que se passa na virada do século passado, gira em
torno do desaparecimento de três estudantes e uma professora durante uma visita
a Hanging Rock, a montanha do título, passeio programado para as alunas de uma
elitizada escola de moças de fino trato gerida pela Sra. Appleyard (Rachel
Roberts). A fita abre contando sobre esse misterioso caso que aconteceu no dia
14 de fevereiro de 1900 na Austrália, tal qual fosse baseado em um fato real.
Mas não foi. Na verdade o filme é inspirado no livro escrito por Joan Lindsay.
Ficção, porém inspirada em um lugar considerado maldito na região de Victoria,
na Austrália, onde durante séculos há casos registrados de desaparecimentos por
ali. Se bem que desaparecimentos na Austrália é algo bastante corriqueiro. Todas
as garotas do internato vão ao piquenique, ficando apenas na escola a jovem
Sara (Margaret Nelson), sem nenhuma explicação dada do porquê ela não
acompanhar as demais amigas no passeio (subentende-se uma certa rixa com a Sra.
Appleyard, que vou voltar mais tarde a falar sobre, e o fato de que a garota
órfã estava com atraso no pagamento das mensalidades). Ao chegarem na imponente
e assustadora formação rochosa que está ali há um milhão de anos, esperando
pelas garotas (como uma mesmo diz durante a viagem), os relógios tanto do
cocheiro Tom (Anthony Llewellyn-Jones) quanto da tutora legal e responsável
pelas meninas na viagem (e braço direito da Sra. Appleyard), Srta. MCcraw
(Vivean Gray), param misteriosamente ao meio-dia. O grupo então se divide. A
maioria das garotas ficam na base da montanha enquanto quatro delas, Miranda
(Anne-Louis Lambert), Irma (Karen Robson), Marion (Jane Vallis) e Edith
(Christine Schuler) resolvem adentrar àquela formação rochosa tão hipnótica e
vão cada vez mais subindo até seu cume. As garotas, assim como o espectador,
parecem entrar em um transe completo. Weir abusa de tomadas em câmera lenta que
se assemelham a um sonho poético ou quadros em movimento (para dar a noção
perfeita de perda do tempo transcorrido), misturando belíssimas cenas das
paisagens, inóspitas e extasiantes ao mesmo tempo, com formações de rochas
vulcânicas que parecem rostos que apenas fitam a travessia das garotas, com a
fauna e flora da região, criando um clima completamente inebriante, altamente alucinógeno,
principalmente por conta da trilha sonora de Bruce Smeaton e a flauta pan
tocada por Gheorghe Zamfir. Ao atingirem determinado ponto da montanhas,
primeiramente as garotas começam a deixar para trás peças de roupa, como meias,
sapatos e espartilhos. Atingidas por essa força magnética, todas elas
repentinamente caem no sono, assim como aqueles que ficaram na base. Ao
acordarem, três delas continuam a sua peregrinação por entre as rochas, quando
Edith insiste para as demais não irem à frente. As três desaparecem sem deixar
nenhum vestígio, e Edith volta para a base em um estado semi catatônico. Então,
o resto do filme rondará em círculos sobre tentativas fracassadas da polícia
local em conseguir encontrar as garotas e o clima insustentável que se abate
àquela instituição de ensino, tanto das garotas que começam a ser tiradas da
escola por preocupados pais, quanto do descontrole da Sra. Appleyard, tendo
atitudes extremas com as professoras e alunas (principalmente Sara, como já
disse), regadas a altas doses de bebida alcoólica. Dois personagens igualmente
intrigantes tem uma importância enorme na trama, mas que também se mostram tão
misteriosos quanto o próprio sumiço das garotas. Michael Fitzhubert (Dominic
Guard) e Albert Crundall (John Jarratt) são dois jovens que tornam-se os
últimos a verem as garotas. Os dois estavam acampados com sua família nas
proximidades, e as veem subindo a montanha. Michael fica instantaneamente
fascinado com a beleza de Miranda (que por si só já emana uma espécie de
sensualidade e mistério inatos). Ele fica obcecado em tentar encontrar as
garotas, e isso quase lhe tira a própria vida, ao subir sozinho em Hanging Rock
e adormecer exatamente no mesmo ponto que as desaparecidas. É salvo por Albert
que mais tarde volta ao local e encontra Irma, a única das desaparecidas que
acabará sendo encontrada (também em estado semi catatônico). Muitas perguntas
vão ficando no ar e Weir coloca as cartas na mesa deixando o espectador tirar
as suas próprias conclusões, sem nunca revelar o verdadeiro paradeiro das
meninas desaparecidas, ou a obsessão de Michael (ele teria algo a ver com o
desaparecimento?) e muito menos responder os porquês. Se esse é um dos charmes
do filme, algo completamente impensável para uma produção moderna para uma
plateia preguiçosa acostumada a tudo mastigado e vomitado em sua frente, é uma
aposta completamente arriscada, mas que funciona como um daqueles excelentes
exercícios que fazem o filme continuar na cabeça do espectador e em bates papos
assim que as luzes se acendem. O que de fato aconteceu com as garotas? Qual o
poder sobrenatural que aquela formação geológica tem? Que tipo de força
hipnótica e convidativa que ela exerce sobre suas incautas vítimas? Tudo parece
um jogo de descoberta de sexualidade e fim de inocência implícito misturado à
repressão sexual, por acontecer exatamente um dia dos namorados (que é
comemorado em 14 de fevereiro por lá, Dia de São Valentim), tendo as garotas de
viver sob um regime de conduta extremo e dominador da Sra. Appleyard, que por
sua vez nutre algum sentimento escondido por Miranda, assim como a própria
Sara, apaixonada secretamente pela amiga, o que a torna a personagem que mais
sofra com o sumiço da bela loirinha. E a gasolina vai sendo jogada nesta
fogueira de vaidade com a decadência, perda de dinheiro e de credibilidade da
instituição da Sra. Appleyard (tida como negligente) e descontando na pobre
Sara (por ciúmes?) até, podemos dizer, sua tomada de decisão extrema. Weir não
responde nada ao terminar Piquenique
na Montanha Misteriosa. Está mais preocupado na beleza estética,
plástica, na jornada das personagens em busca das entranhas de Hanging Rock (ou
na busca da liberdade?) e na congruência de elementos que são colocados em
cena, do que na experiência narrativa em si ao invés de partir para uma
explicação faceira. As garotas deixaram de existir nesse plano espectral.
Desintegraram no próprio ar. Suas existências tem um final antes da fita
terminar. E é isso que o espectador tem de estar pronto para encarar. Deixar-se
absorver pela atmosfera contagiante e todos os nuances deste belíssimo filme.
FONTE: https://101horrormovies.com/2013/12/07/322-piquenique-na-montanha-misteriosa-1975/
10O1 FILMES PARA VER ANTES DE MORRER
599 1975 PIQUENIQUE NA MONTANHA MISTERIOSA (Picnic at Hanging Rock)
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